JUNÇÃO – Camila

Por qualquer espaço que andava, Camila sabia e percebia que a mãe a estava vigiando. Aquilo era insuportável de todas as maneiras. Sentia-se uma criança que não podia desapontar os pais, não podia se sujar, não podia interagir da forma como queria. Talvez o grande causador dessa ligação seja o fato de ela ser filha única. Se tivesse algum irmão, talvez as atenções fossem divididas. Mais tarde, ela iria compreender que estava absolutamente certa.

A situação não era pior por causa do pai. O que faltava, vindo de Constância, ela adquiria dele. Pedro era um parceiro. Em momento algum, tentava podá-la. Por isso, ela se aproximou. Numa roda de amigos, discursava apaixonado sobre mecânica e produtividade. Camila tinha quase certeza de que outros, além dela, não compreendiam a explicação e a genialidade do assunto.

Quando eles se dispersaram, Pedro pode desviar suas atenções à filha:

– Não está gostando? Cadê seus primos? – ele sempre soube quem eram as verdadeiras companhias de Camila.

– Estão dispersos. Não estamos muito bem uns com os outros.

– Você está com uma cara péssima. Bebe uma com seu pai?

Sabendo da desaprovação materna, aceitou prontamente uma cervejinha com ele. Foi dito e feito! De longe, Constância fez cara de zangada com tamanha parceria entre os dois. Não sabia se o pai fazia de propósito como ela. No entanto, os dois pareciam grandes amigos, numa mesa de bar. Eles riam, descontraíam e se acalentavam:

– Você sente que pertence a isso? – ela fez um gesto amplo, englobando toda a festa.

– Não. Nunca achei que faço parte. Depois que comecei a crescer na empresa, a aumentar minhas responsabilidades, percebi que ganhei mais respeito e consideração, mas não me sinto enquadrado nesse universo.

– A gente passa tanto tempo ao redor da família e da empresa. Apesar disso, não é certo nos sentirmos tão afastados, tão estranhos.

– Ah, filha, abstrai. A pior falta de consideração é o desprezo. Eu não deveria te falar isso, mas… – ele se inclinou para mais perto. – …se você se importar muito com o juízo alheio, acaba não vivendo. Se eu tivesse dado ouvido aos outros, não teria… me casado e você não estaria aqui.

Camila sorriu. Era uma declaração linda. Seria a primeira da noite:

– Eu já sofri muito com sua avó. Pode não parecer, mas ela me atormentou também. Sei o que vocês passam. Talvez eu tenha sido o mais errático de todos os filhos dela. Mesmo quando o Gabriel engravidou a Teresa, não perdi o meu posto de pior. Eu era simplório, não ligava muito para essa vida que ela queria nos forçar a ter.

– Sou um pouco assim… – ela revelou.

– Eu já percebi isso. – ele sorriu. – Sofri tanto antes de você nascer. Sempre achava que não ia dar certo de novo.

Camila fez uma cara branca. Pela primeira vez, percebeu que a comunicação com o pai estaria aberta para um assunto sempre camuflado. Ela desconfiava que algum segredo rondava o seu nascimento. Não demonstrou muita ânsia em saber, a fim de não despertar Pedro perante o tema proibido:

– Por sua mãe, nós teríamos tentado mais. Só que eu estava cansado de tanto aborto. Foram quatro antes de você. Honestamente, eu tinha medo de perder Constância. Era tanto sangue, tanta dor, tanto desapontamento. Ela se forçava e não obtinha êxito. Você é nosso milagre. – ele sorriu e estendeu a mão até o rosto dela. Camila roçou os dedos do pai nas bochechas.

– Eu não sabia que era uma dádiva…

– Seu sangue foi o verdadeiro milagre. Você é do tipo negativo. Os outros não eram. Sua mãe passou a todos eles eritroblastose. Sabe o que é?

– Não me recordo.

– Constância teve contato com sangue positivo antes, numa cirurgia que fez quando garota. Ela é negativa. Por isso, produziu anticorpos. Os bebes sendo Rh positivo eram afetados. Era um tipo forte, ela ficava internada por longos tempos. Todos eles eram homens, acredita?

– Sério? – Camila sabia o quanto um descendente masculino era valioso no meio dos Bersani’s.

– Sim. Eu quis assumir a culpa. Queria inventar alguma doença genética, tipo hemofilia… – ele bebeu mais um gole de cerveja.

Parecia que o assunto tinha se encerrado. Camila ainda pulsava com muitas dúvidas. Resolveu arriscar. Esse movimento seria certeiro:

– Vovó culpou minha mãe. – ela afirmou para dar a entender que sabia de algo.

– Claro. Ela nunca deixou Constância se esquecer do problema. Atormentava, soltava indiretas. Era muito difícil. Eu me contorcia por dentro de raiva. Aos poucos, minha mãe substituiu os comentários pelo olhar. Ela passou a mirar Constância de maneira a deixar claro que nunca esqueceria, que sempre a culparia. Era uma agressão velada e direta. Sua mãe queria continuar tentando outros filhos. Eu não deixei. Eu evitei o sofrimento físico naquele momento, mas não pude prever o sofrimento moral que ela teria de carregar. Na minha opinião, só uma pessoa foi mais destratada pela sua avó do que a Constância: Eulálio, seu primo.

Camila ficou pensativa. Era tanta informação nova. Por mais que não tivesse culpa, sentia-se um fardo para os pais. Apesar de ter sido uma sobrevivente, também se sentia defeituosa como os irmãos perdidos:

– Eles tinham nome? Tiveram nome? – ela perguntou.

– Os dois primeiros sim. Os últimos não. Perdemos a esperança. Você só ganhou um nome quando nasceu. Não conseguíamos fazer planos.

A garota se solidarizava com aquela situação pretérita. De alguma forma, prometeu amenizar a situação. Não podia carregar tanta desfeita, ou propiciar mais angústia e pesar:

– Você está com uma cara terrível, minha filha. Eu não devia ter comentado nada, ainda mais agora em momento de festa.

A contragosto e forçado, ela esboçou um sorriso e o abraçou. A mãe apareceu naquele momento. Camila ficou feliz com a aparição e a agarrou também. Os três ficaram grudados por um longo período. No princípio, estava incômodo, mas depois perceberam o quão reconfortante era. Fazia tempos que não se expressavam sem palavras ou que verdadeiramente ficassem próximos e unidos:

– Eu preciso mijar! – Pedro cortou o clima e deixou as duas a sós.

– Dá uma maneirada na bebida, por favor. – Constância disse assim que tomou o lugar do esposo.

Em outra situação, Camila ficaria brava e responderia. Hoje não. Ela sorriu de maneira amável:

– Não entendo por que você não convidou o Leo. Vocês trabalham juntos. Alguma coisa tem de sair dessa relação.

– Mãe, acredite em mim, pelo menos dessa vez. Nunca vai rolar nada entre eu e meu chefe. – ela frisou bem as palavras.

– Que cara é essa? E cruza as pernas. Daqui a pouco, qualquer um vai ver sua calcinha, porque esse vestido…

– Obrigada. – A garota interrompeu. – Posso não compreender seus motivos, mas sei que tem boas intenções. Não irei desapontá-la.

– Do que você está falando?

– Do que você passou por mim. Se eu pudesse escolher, teria vindo como um homem. Poderia ter aliviado seu fardo.

Constância estava sobressaltada. Não queria reviver ou relembrar, muito menos com a filha.  Pedro não tinha o direito de ter revelado os transtornos passados por eles. Era um segredo que não precisava vir à tona:

– Você não precisa se importar com isso. Acabou, passou. – Ela estava embargada.

– Passei a compreender você melhor, mãe. Entendo as suas cobranças.

– Você diz isso agora, da boca pra fora. Camila, o que eu quero de você é uma coisa: seja ambiciosa. Eu deveria ter sido mais determinada e focada. Não vejo isso ao seu redor. Você não luta, você não procura, você não deseja! A pessoa ambiciosa cresce, porque quer mais, quer sempre o melhor. Ela não para nunca. Você vai trocar de curso, eu não me oponho. Só espero que você deixe de ser apática, que aprenda e se dedique. Você tem oportunidades, mas elas caem ao seu redor e você não as aproveita. Eu não quero ver a minha filha única perdida e desencontrada. Esse é meu maior pesar. Saber que você fracassou, que não alcançou, que não foi feliz.

Sem perceber, lágrimas escorreram pelo rosto de Camila. Aquilo era pesado e intenso. Continha uma verdade fulminante. Ela não conseguiria refutar ou rebater:

– Atrapalho? Acho que não. – Lina se colocou no meio das duas. Camila se virou para a frente do bar, limpando as lágrimas.

– Deseja beber algo? Eu pego. – Constância desviou a atenção da sogra por momentos a fim de que Camila se recompusesse.

– Estou ótima, embora esteja assombrada. Camila, mais uma vez, suas escolhas de roupas são horríveis. Seu vestido está descosturando atrás, perto da alça.

Para destacar o local, Lina fez questão de puxar as pontas e arregaçar mais a parte rompida. Camila deu um pulo do banco e se virou. Se deixasse, ficaria rasgada e pelada para o prazer da avó:

– Você não tem nenhum senso de decência. Nem parece ser minha neta. Se morasse comigo, eu vigiaria o que você come. Constância, você e ela poderiam fazer uma dieta.

– Nós vamos entrar na academia, não vamos, filha?

Camila queria dar uma resposta para a avó, no entanto, se conteve. Perto da mãe, teria mais respeito e seguiria as regras dela:

– Claro! Já sei em qual podemos ir. Lá, teremos muita aula de aeróbica. Vamos nos divertir e queimar muitas calorias. – Camila não estava mentindo, andava interessada em cuidar mais do corpo.

Lina, por outro lado, esperava alguma reação da neta. Assim, poderia rebater. Ela ficou sem saída:

– É lindo ver duas filhas se darem tão bem. Graças a Deus, não fui ‘abençoada’ com isso. – disse e saiu.

– Por que ela é assim? – Camila olhou a pompa da avó pelo salão.

– Passado. É tudo uma carcaça. Lina esconde algo. Só que ninguém foi esperto o suficiente para saber onde achar. – Constância deu um beijo na filha e se retirou.

Pedro também não apareceu de novo. Por isso, Camila foi procurar os primos. Eles estavam sumidos. No andar inferior, encontrou Maurício e Sheila sentados. Ele estava disperso, embora tenha ficado alerta no momento em que ela surgiu no campo de visão dele. Já a ex-namorada de Eulálio aparentava uma melancolia tremenda:

– Onde está todo mundo?

– Sumiu. – Sheila não estava para papo.

– Estávamos quase indo embora. Eulálio não responde o celular e a gente não conhece ninguém por aqui. – Maurício respondeu.

Meio sem paciência, Camila virou as costas e voltou suas atenções para a festa. Mal se afastou, Maurício se pôs na frente:

– Camila… Você está tão… Bem, tem muito tempo que não te vejo… Eu vim por… Eu aceitei vir a essa festa por sua causa. Desde aquele dia, no aniversário do seu tio, eu… sei lá. Foi bom demais, não foi? Eu gostei de quando… Droga! Perco as palavras perto de você.

Camila se manteve em silêncio. Como queria corresponder àquela agitação dele. Se pudesse, corroboraria e se entregaria mais uma vez. Contudo, seria um erro. Maurício havia sido um substituto apenas, alguém para tentar diminuir o sofrimento e a dor. Não merecia ser ludibriado:

– Maurício, eu estava bêbada. Você também. Foi uma loucura. Apenas isso! Não consigo conceber que você tenha se apaixonado por mim naquele estado louco.

– O amor não é tão racional assim. Dá pra escolher o que a gente sente? Dá pra controlar? Veja Sheila. A razão manda ela desistir. Já os sentimentos fortes mandam continuar.

– É diferente. Eles tiveram envolvimento.

– Nós também. – ele pontuou. – Por que não nos damos uma chance? Eu posso surpreender você.

Camila suspirou. Era verdade. Pior não ficaria. Quem sabe, por uma obra do destino, ele poderia ser mais do que ela esperaria. Talvez ela devesse se permitir o improvável. A cura, muitas das vezes, está onde não percebemos. Não sabemos o quanto a solução está perto:

– Eu não posso prometer nada a você. Estou devastada por dentro, Maurício. Sofri, há pouco tempo, por alguém que gostei muito. Achei que ele fosse meu grande amor.

– Deixa eu te ajudar a superar? Eu quero tentar.

Ela o abraçou. Mentalmente, disse sim. Depois, perceberia como tinha sido uma aceitação em vão:

– Isso é maravilhoso. Eu agradeço. Vamos sair daqui? – ela sugeriu.

– O que você preferir.

– Me espera na entrada do hotel. Só vou despedir dos meus pais.

– E eu vou dar adeus a Sheila.

Satisfeita, Camila retornou ao piso superior. Agir era melhor do que se afundar na inércia. Aparentemente André também pensava da mesma forma. Ela não conseguia acreditar que ele estivesse olhando para ela intensamente e se aproximando cada vez mais. Ela parou, esperando pela chegada. Se acaso se mexesse, cairia. O professor estava lindo, trajando um terno simples. Parecia uma miragem:

– Até que enfim, encontrei você. E nem é uma festa tão grande.

– O que você está fazendo aqui?

– Precisava ver você. – ele respondeu.

– Enlouqueceu?

– Sim, por você. Sou loucamente apaixonado por você. Não consigo evitar, é maior do que eu poderia prever. É errado, mas eu não quero mais lutar contra. Quero você do meu lado. Eu te amo, Camila Bersani. Não me interessa se você é minha aluna.

– Como você entrou na festa? – Ela estava alucinada com a declaração. Não raciocinava direito, por isso, desviou o assunto.

– Eu sabia do evento pela turma do futebol da Suzana. Eu só menti. Me apresentei como Anderson, é claro. – Ele riu sem graça, ela também não se segurou. – Inventei que perdi meu convite. Disse que era um fornecedor importante e grande amigo dos netos da empresa. Citei o nome dos sete primos.

– Na ordem, do mais velho à mais nova? – ela brincou.

– Aí é pedir demais.

– E eles deixaram você entrar? Simples assim?

– Alguém resiste ao meu charme?

– Bom, eu não resisto. – Ela se aproximou dele que, rapidamente, laçou Camila pela cintura. – O que você está fazendo?

– Eu falo sério. Vou lutar para você. Não quero esconder nada.

– E a faculdade?

– Vamos dar um jeito. O que importa agora é ficar com você.

André ia beijá-la. Ela desviou, saindo de seus braços:

– Não aqui! Por favor, vamos sair.

Lado a lado, eles foram em direção à escada. Só quando chegou ao saguão, Camila viu Maurício na entrada e se assustou. Ela foi para o balcão da recepção automaticamente. Precisava se esconder. Não queria magoar ninguém. André não entendeu.

Procurando uma saída, lembrou-se das palavras de sua mãe:

– Vamos ficar aqui mesmo! – ela disse ao amado. – Nós queremos um quarto, o mais especial que você tiver. – Falou para a recepcionista.

– Eu pago, então! – André embarcou na loucura.

No elevador, eles não se aguentavam. As mãos se tocavam de leve, a respiração ficava mais ofegante. Fechavam os olhos de paixão. O ascensorista estático não percebia nada.

No momento em que as portas se fecharam, André encurralou Camila numa parede:

– Eu quero muito você.

Um beijo espetacular fez com que os dois se esquecessem de tudo. Mais uma vez, se entregaram:

– Eu também amo você, André. Amo muito.

Se não tivessem pudor, teriam feito sexo naquele corredor. No entanto, conseguiram se conter e entrar no quarto. Ao ouvir a porta bater, Camila só pensou que também estava fechando uma nova fase em sua vida. Teria refletido mais, no entanto, se jogou com força e ardor nos braços de André. Como de costume, de maneira natural e instintiva, deram vazão ao amor, sem se importar com as dificuldades e as consequências que viriam. E foi mais que sensacional, tinha sido esplêndido e fabuloso.

Fim do Primeiro Ciclo de Camila

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: