COMPRESSÃO – Camila

O cheiro de café fez com que ela acordasse. O sol aquecia as pernas. Era cedo, mas não se importava. Queria esticar a sensação de bem-estar e felicidade. Estava em paz, satisfeita com sua atual forma de viver. Trabalhava, lia e amava. Quem sabe escrevesse um livro com esses verbos, relatando os benefícios de se deixar levar, não se preocupar e aceitar as coisas como elas são. Um livro seria um exagero, com tanto clichê ao redor:

– Que sorrisinho gostoso. – André se jogou ao lado dela na cama e a beijou. – Dormiu bem?

– Extremamente.

– Fiz café. Leo dispensou você hoje?

– Sim, ele desmarcou tudo. Precisa fechar uma pesquisa importante.

– O que você quer fazer? Ficar aqui, me acompanhar até a universidade ou ir pra casa?

– Nenhuma dessas opções me agrada. – Camila fez uma careta. – Todas elas me separam de você.

André voou pra cima. Mais uma vez, naquela semana, eles iam praticar o famoso sexo matinal.

Subindo para a universidade, ela se questionou sobre nossos desejos. Quase sempre sonhamos de forma não condizente com a realidade. Por isso, ficamos frustrados. Não temos a capacidade de sincronizar nossa mente com aquilo que existe realmente:

– Você está sorrindo de novo. Eu sou o culpado por isso?

– Para você não ficar convencido, em parte sim.

– Eu também sou muito feliz por sua causa.

Em momento algum, ela enxergou momentos felizes e satisfatórios com André. Antes de ficarem juntos, só via entraves, problemas e confusões. Não acreditava ser possível vivenciar situações simples e banais, mas recheadas de paixão e intensidade.

A vida toma cada rumo. As situações vêm na hora que devem, sem que possamos controlar. O segredo da tranquilidade é aceitar com resignação tudo o que vier, tanto os momentos felizes, quanto as situações ruim.

No estacionamento da biblioteca, André e Camila trocaram um último beijo. Ele ia rumar para a faculdade, ela, depois de devolver alguns livros, ia passar em casa:

– Você lembra que nos encontramos aqui na biblioteca? Eu te dei uma carona. – ele comentou com a cabeça para fora do carro.

– Claro. Foi quando eu me apaixonei. E você, quando caiu de encantos por mim?

– Quando… – André matutou com o carro já em movimento. – Bem…, vou deixar no suspense. – E saiu pisando fundo.

– Danado! Te odeio! – Camila gritou, rindo.

Na biblioteca, enquanto checava uma estante, recebeu um beliscão na bunda. Deu um salto, já rindo, pois pensava ser André. Ficou acuada ao perceber que era Marcela, ex-colega de faculdade:

– Perdida? Procurando o quê? – elas se beijaram.

– Alguns livros de Antropologia… – Camila respondeu.

– Você é uma louca em trocar de curso. Ninguém entendeu. Você não reclamava do curso. Bem que falam, é onde menos se espera que vem o imprevisível.

As duas ficaram em silêncio. Camila se perguntou por quanto tempo ela conseguiria segurar a curiosidade:

– Sei que é um assunto pessoal. Mas é verdade que você assediou o professor André? – Pelo que parecia, a bisbilhotice falou mais forte. – Querida, todas podem desejar, só que a poucas é dado o privilégio de degustar. Aprende isso, amiga.

Camila se escandalizou internamente. Queria responder aquele disparate à altura, mas se recordou que, se fosse a alguns meses atrás, também seria incrédula como a ex-colega das Ciências Políticas:

– Você não deveria duvidar das coisas… Pode se surpreender. – Camila ousou pontuar.

– Um homem como o André pode escolher. Chove na horta com certeza. Provavelmente vai optar por alguém como ele, tipo uma professora super inteligente, uma empresária rica.

Camila estava com raiva desses comentários. Ela não se aguentou. Teve de soltar algo inflável para Marcela. Seria o primeiro passo para tornar tudo público:

– Se eu contar uma coisa pra você, jura que não revela pra ninguém? Não interessa! – ela não deixou a amiga responder. – Ninguém vai acreditar mesmo e eu posso desmentir, não há provas. Eu já beijei o André.

Marcela abriu a boca e ficou pasmada. Não conseguiu falar mais nada. Era aterrorizador. Por alguns instantes, ela ameaçava falar, mas não podia. Balançava a cabeça, negando:

– Só digo uma coisa: é perfeito. – Camila deixou-a para trás, com um sorriso de orelha a orelha.

Desde o início do tórrido romance, pela primeira vez, ela não se importava mais se haveria comentários ou julgamentos. É claro que seria vista como mentirosa, porque não contara a verdade aos professores, quando indagada sobre o suposto romance. Poderiam avacalhar afirmando que o amor brotou depois das suspeitas, como se André tivesse despertado para ela somente após as averiguações.

Com saudades e querendo comentar que já havia colocado em prática a tarefa de espalhar a notícia do relacionamento, Camila decidiu retornar à sede da Faculdade de Ciências Sociais. Estranhou, porque não havia quase ninguém. O local estava deserto.

Foi até o estacionamento e constatou que havia dois carros. O de André era um deles. Retornou ao prédio. Assim que pegou o telefone celular, escutou vozes. Se recostou numa parede, quase sendo coberta por um biombo alto que servia para colar avisos e informes. Ela se espremeu e contraiu a respiração.

André era um dos interlocutores. A outra pessoa era uma mulher. Quieta, tentou filtrar as informações:

– … vai gostar, é uma cidade ótima. Sou apaixonado. – ele comentou.

– Conto com a ajuda de vocês. Vim de uma metrópole. Tenho que descobrir os locais.

– Rapidinho você vai ficar por dentro de tudo. – André completou.

– Ah, nem creio que passei nesse concurso. Tinha tanto professor bom.

–  Queremos um perfil mais jovem e dinâmico como você.

– Agradeço o elogio. Você também é muito carismático e… disposto.

Camila sentiu que a mulher estava se insinuando. Apostava que ela ia dizer bonito. Inclinando-se ela espiou os dois. A professora recém-contratada era baixa, bunduda e de cabelos pretos escorridos. Ela estava sorrindo o tempo todo, enquanto André falava.

Ela sabia. Tinha sacado na hora. Como segurar André com uma concorrência forte? O primeiro passo seria marcar território e se impor perante ela. No entanto, Camila tremeu nas bases. Correndo, pela direção contrária, tomou o primeiro ônibus que viu passar. A confiança começara a fraquejar.

COMPRESSÃO – Eulálio

Até ele se sentia um chato devido à tamanha insistência. Anos atrás, tinha ficado com uma aluna da Comunicação. Eles engataram um ficar constante. Sempre quando se encontravam em festas, travavam de beijos. Eulálio sabia que Monique esperava mais, contudo ele não estava disposto a namorar. Era calouro, enquanto ela já estava formando. Apenas uma recusa fez com que os dois não ficassem nunca mais. Da última vez que teve notícias, ela estava trabalhando na Diocese da cidade.

Com a recente dica de Teresa, não tinha noção de como localizar o famoso padre, confidente de sua avó. O nome de Monique não saltou de primeira na cabeça dele. Alguns dias se passaram até que se lembrasse disso, num estalo. Ficou contente consigo mesmo, era um sinal de que conseguiria elucidar a história completa dos Bersani’s.

A tarefa de localização não foi tão árdua, a receptividade da ex-ficante não se apresentou de igual maneira. Eulálio conseguira os telefones do trabalho e o celular, além de tê-la encontrado nas redes sociais. Por mais que tentasse, deixasse recados e insistisse, Monique não respondia.

Duas vezes, bateu na porta da Assessoria de Comunicação da Diocese para se falarem pessoalmente. Ou ela era muito compromissada, ou o estava enganando. Falava com as mesmas pessoas que sempre o reconheciam como o aluno da Administração, amigo da jornalista Monique, ansioso para conversarem.

Já não tinha tantas esperanças, quando o celular tocou:

– Ora, ora, ora… Quem diria que eu voltaria a ser procurada pelo simpático Eulálio? É um mundo muito inusitado. – Monique sentia-se superior com a situação.

– Eu também nunca imaginaria que você fosse capaz de me enrolar tanto. Isso não parecia ser do seu feitio.

-Hum… As pessoas surpreendem.

– Você quer me deixar surpreso de novo? Com sua bondade e atenção a mim?

– Não! Você é um caso perdido. – ela riu.

– Eu não penso dessa forma. E se a gente se encontrasse de novo? Poderíamos parar de onde terminamos?

– Aonde você quer me levar? – Monique começava a ceder.

– Num motel, durante três horas, por minha conta.

– E o que você quer que eu faça?

– Gostaria que você localizasse um padre pra mim, ele trabalhou por anos na Igreja de São José.

– Por que você precisa se encontrar com ele? – o faro jornalístico só ampliava as perguntas.

– Por causa de minha avó, eu… – Eulálio não podia revelar tanto. – Eu queria que eles se reencontrassem novamente. Acho que faria bem a ela retomar o passado.

– Que lindo! Que garoto delicado. Antes de eu responder, nosso programa está de pé? Pra amanhã, às 19h?

– Claro. Quero ver se você me aguenta.

– Vamos ver quem pede pra parar primeiro. – Monique debochou de volta. – Então, sinto te dizer que ele morreu tem uns quatro anos. Estava muito senil e esquecido, não falava nada com nada. Foi aposentado compulsivamente, não queria parar, tinha sido transferido para uma casa de repouso que é usada…

Tarde da noite, Eulálio remoía seus pensamentos, enquanto despachava memorandos. Não se preocupava, pois a empresa estava deserta. Também não tinha garantia nenhuma de que a tia Maria Marlene tivesse viva. Como ninguém falava dessa parente desgarrada, nunca conseguiria um endereço ou algum contato.

Passando pela sala da avó-poderosa, se assustou com a porta a ser aberta. Derrubou as folhas sem querer. Abaixou-se rapidamente e, de olhos fechados, encurvou-se. Pelos pés, percebeu que não era Lina, mas sim, sua secretária. Ela conhecia os netos da patroa, mas não sequer focalizou o estagiário, quando deu um polido boa noite.

Com a sala vazia e o local deserto, Eulálio decidiu apelar. Alguma agenda ou lista de contatos teria o nome da tia-avó. Sem pensar, adentrou no espaço austero e nada afável. A princípio, teve medo. Estava estagnado. Não sabia como proceder. Um pavor brotou ao perceber que iria desmacular o local.

De supetão, vasculhou gavetas, arquivos, pastas. Mexeu em agendas de compromissos, lista de contatos. Não lograva êxito. Sem saber se partia para a sala da sua avó, quase teve um espasmo quando a porta se abriu. Não dava pra dizer quem estava mais pálido, ele ou Dona Rosa, a diretora do RH:

– O que você está fazendo aqui? Está louco! – ela cochichou. – Sua vó está chegando. Tem uma reunião extraoficial comigo pra cortes de pessoas.

Eulálio rodou de um lado para o outro, como uma barata tonta. Não pensava direito, não raciocinava. Correu pra janela. Pular era uma burrice. Dona Rosa olhava para os cantos sem saber onde ele poderia ficar. Os dois começaram a escutar os passos. Lina aproximava. Eulálio sentiu o sangue descer para os pés. Num supetão, percebeu o buraco central na mesa da secretária, onde os pés descansavam. Se espremeu ali, ficando todo torto. Na pressa, a cadeira caiu.

Quando Lina abriu a porta, Rosa recolocava a cadeira na reentrância, apertando mais o garoto:

– Que cara é essa? Parece que viu assombração. Vamos, não quero sair tarde daqui.

Rosa não conseguia responder. O alívio incapacitara seus músculos. Passados alguns minutos, Eulálio cuidadosamente e silenciosamente pôs-se pra fora do esconderijo. Como um raio, correu para a própria sala.

Ele esperou pacientemente. Sabia que Rosa voltaria:

– Eulálio, eu nem sei o que dizer pra te repreender…

– Eu sei.

– Você se arriscou de mais. Se ela não passa no banheiro antes, estaríamos escorraçados. O que você queria?

– Eu estava procurando um telefone… ou endereço.

– De quem?

– Da minha tia-avó.

– Dona Maria Marlene? – Rosa assustou-se. – Desde quando você tem assuntos com ela? Sua tia sumiu para o mundo. Quem te falou dela?

– Minha mãe.

– Por que você precisa contatá-la?

– Eu… não sei. Me sinto mal em saber que ela existe e ninguém se dá ao trabalho de procurar. Acho injusto. Sei o que é ficar na margem. É muito ruim ser colocado de lado.

– Você nunca vai achá-la. Pode ter certeza.

– Por quê?

– As pessoas não acham Maria Marlene. Ela acha as pessoas. Ela vai vir até você.

– Como sabe disso? – ele não entendia.

– Meu primeiro emprego foi como secretária dela. Devo muito a sua tia-avó. Não garanto que vocês vão se encontrar, mas posso interceder por você.

– Me fale dela! Onde ela está?

– Não sei muito, nem poderia contar. Prometi nunca revelar nada. O que posso fazer é pedir que ela reapareça. De vez em quando, ela surge e nós nos falamos. É sempre quando ela quer.

Voando na moto, Eulálio se perguntou o que o impedia de desaparecer. O que o segurava no caminho de sempre, ao invés de seguir pela rodovia em busca de um novo começo e do anonimato? O que ele enxergava como revanche era simplesmente carência.

COMPRESSÃO – Bianca

Despreocupada, Bianca tomava café quietinha, alheia ao entorno. Era um estado de recente despertar misturado com uma tranquilidade, raramente sentidos. Nem sempre, ela conseguia atingir tamanha passividade e calmaria. Por isso, aproveitava para divagar envolta do nada. Como estava adiantada, poderia se deixar levar pela letargia.

Nando chegou à cozinha pisando fundo. A intenção era se fazer notar. Mesmo assim, não despertou a irmã que olhava pela janela, totalmente fora de ar. Ele arrumou um pão, tomo goles de café e ficou esperando. Não queria puxar assunto, apesar de ter preparado mentalmente uma forma de ajudar sem se expor. Não podia, em hipótese alguma, transparecer que sabia de todo o plano de sua avó Lina para os quatro netos. Ele começava a não entender a razão de todo aquele ódio.

Puxou uma cadeira e ficou de lado de Bianca. Tocou de leve no braço dela. Continuou sem resposta. Pegou o pedaço de papel e o colocou em frente do prato da irmã. Por uns instantes, ela também não reagiu. Depois, a garota, lentamente, olhou para frente e desdobrou a folha. Havia um nome e um telefone. Sem precisar falar nada, fitou o irmão com cara de desentendida:

– Tenho um amigo que acabou de abrir uma firma de advocacia. Ele quer alguém da área de família. Não é a sua nova especialidade?

Bianca ficou vacilante. Desde quando seus irmãos retêm qualquer informação sobre ela? Quando podia supor que eles seriam capazes de ajudá-la? Com certeza, achou tudo muito estanho e suspeito. Nando percebeu rapidamente:

– É um contato futuro pra você. A gente nunca sabe o que pode ocorrer. Eu acho ele muito bacana e determinado. Talvez vocês comecem algo grande juntos.

Bianca se serviu de mais um pouco de café. Não tirou os olhos do papel por um tempo. Queria perguntar o porquê daquilo. No entanto, sabia que não podia forçar a barra com os irmãos. Eles estavam em uma dimensão diferente da dela. Perderam a conexão. Não seria uma simples indicação suficiente para reagrupá-los:

– Obrigada. – ousou dizer de uma maneira sem sentido e propósito.

Ao notar o irmão, ela percebeu uma seriedade intensa. O gesto de Nando não transparecia uma mera simplicidade. Era sério e determinado, com muito significado. No entanto, Bianca não conseguia definir o que indicava.

A caminho do estágio, apalpando o papel com o telefone, enquanto as mãos permaneciam no bolso, ela fez uma varredura em memórias, assuntos e situações que pudessem fazê-la entender aquela atitude no café. Totalmente encolhida por causa do forte vento, ela se perguntou até quando se sentiria inferiorizada e diminuída face os familiares. As intempéries permaneceriam por muito mais tempo? Ela aguentaria as pancadas?

Assim que se sentou na mesa, prestes a ligar o computador, fora chamada a comparecer em uma das salas de reunião. Um possível cliente a esperava desde cedo. Não tinha pedido por Bianca especificamente, embora tenha ficado claro o quanto ele queria uma estagiária, mulher, com competência e pendente para o ramo de Direito de Família. Ela desconfiou desse pedido, era demasiado direto, sem parecer. Quando bateu a porta e encarou o requisitante, arrependeu-se da falta de malícia:

– Seria melhor fechar as portas e persianas. Ficaremos bem mais a vontade. – ele riu, satisfeito. – Como você demorou! – Bianca não se moveu. – Não está feliz em me ver? – Ela ameaçou sair. – Se fosse você, não faria isso! Eu poderia gritar a todos sobre seus problemas.

Olhando para a mesa, tentando buscar uma força desconhecida, Bianca se sentou. Abriu a pasta. Serviu um copo de água. Esperou:

– Não é sua obrigação me fazer perguntas? Sondar?

– Júnior… – ela engoliu em seco. – O que você quer? Por que veio parar aqui?

– Saudades. Tem tempos que cheguei e não pudemos nos rever. Por que será? Tem me evitado? Tem medo de mim? – ele se divertia. – Pode ficar calma, por enquanto não pretendo revelar nada a seus irmãos.

– Por que você não fala nada e põe fim a essa tormenta?

– Então, ela existe. Obrigado por confirmar minha dúvida. Quer dizer que você continua frígida? Ainda é a mulher mais fria e incompetente na cama que conheço? Eu esperava mais. – Junior debochou. – Pra mim, você ia procurar ajuda, ou ia se envolver com mais homens… Você não se parece nem um pouco com Suzana.

– Não devo satisfações a você.

– Sei disso. Só que eu passei a me preocupar. Fiquei pensando: e se eu sou o culpado da Bianca ser assim? Eu posso ter sido bruto demais, grande demais…

– Convencido demais. – ela acrescentou, ele adorou.

– Bibi, quero testar você. Não posso acreditar que tenha ficado sozinha nesse tempo todo. Seus irmãos me disseram que nunca viram você com um cara, você nunca mais namorou. Realmente você se fechou e se travou.

– Nei e Nando não sabem da minha vida. Nunca souberam, nem vão saber.

– Posso resolver pelo menos isso. Ligo agora e conto que eles têm uma irmã sem desejo sexual, que não atinge o orgasmo?

– Não! – ela, pela primeira vez, se desesperou.

– Tem vergonha, não tem? Se você quiser evitar essa revelação, vá na minha casa hoje à noite. Quero comer você de novo! Do meu jeito!

Bianca cruzou as pernas, uma mão apertou a outra e o corpo se afastou da mesa, fazendo as costas espremerem mais o encosto da cadeira. O olhar sociopata e maquiavélico reverberou por dentro dela:

– Essa é minha única condição. Não me desaponte.

Júnior se levantou e beijou o topo da cabeça de Bianca. Ela sentia nojo e revolta. Não se segurou:

– O que você ganha com isso? – ele estava quase saindo, foi retido pela pergunta.

– Gosto de ver as coisas explodirem…

Bianca não soube precisar quanto tempo ficou na sala, sozinha e estática. Era como se não fosse ela mesma. Parecia que aquilo havia acontecido com outra pessoa. Não sabia mais como se consolar. Perdera a maneira de acreditar que, em algum ponto, tudo ficaria bem.

COMPRESSÃO – Suzana

Assim que pôde, Suzana procurou Igor, dias atrás, para perguntar se alguém sabia da viagem juntos para a Alemanha. Desde que retornara ao estágio, sentia que estavam diferentes e indiferentes a ela. Não a consideravam como antes, nem a incluíam nos assuntos e nos afazeres.

Apesar da insistente negativa dele, Suzana não conseguia perder a sensação de que tinha sido delatada. Estava certa em parte, apenas errara nos motivos. Eles sabiam de uma passagem da vida profissional-amorosa dela:

– Suzana, você pode me auxiliar mais tarde num projeto? – Gui perguntou, sem ao menos cumprimentá-la.

Ela tinha ficado feliz com o pedido, pois, pela primeira vez, havia sido incluída num trabalho, depois do retorno ao estágio.

Com o escritório vazio, sem outros afazeres, procurou por Gui. Antes que ele dissesse algo, ela puxou uma cadeira e se sentou ao lado. Por longos períodos, observou. Aparentemente, não havia nada a ajudar. Suzana esperou pacientemente.

Dispersa, pensando no que ela e Igor iriam fazer no final de semana, sentiu um leve roçar na altura do joelho. Ela rapidamente cortou o contato. Mirando-o, percebeu pelas calças que ele estava excitado, mas não ousava trocar olhares.

Suzana teria questionado, brigado, xingado. Como se sentia queimada, deixou passar. Pouco tempo depois, ele repetiu o gesto. Ela se levantou. Mesmo sem sede, deu, como pretexto, buscar água.

Quando retornou, encontrou Gui em pé, de costas para ela, mas de frente para a janela. A mesa estava limpa. Todo o material havia sido guardado. Suzana estranhou, além de ter se arrependido por não ter carregado o seu celular consigo. Ela tinha sacado tudo, estava encurralada:

– As pessoas ficaram sabendo da sua situação. Foi uma fofoca e tanto, embora não tenha sido nenhuma surpresa. – ele debochou.

– Ninguém tem nada a ver com a minha vida.

– Bom, a sua vida pessoal sim. Mas a profissional, não. Que vergonha. Você não precisava fazer isso. É uma Bersani. Pode ter o mundo a seus pés.

– Não devo satisfações. – ela bradou. – Se não temos mais trabalho, posso ir embora? Tenho outros compromissos.  – ela quase citou Igor, dizendo que ele a esperava. Suzana fez bem, pois Gui se referia a outro assunto. Ela imaginava que se tratava do relacionamento dos dois. Não era sobre isso:

– É cedo. Precisamos fazer um trato. Acho que não será tão dificultoso para você.

Ele foi até Suzana, que se manteve ereta, mesmo vacilando por dentro. Gui a contornou e fechou a porta. Suzana se assustou com o ruído:

– Não se preocupe. Nada do que quero você já não fez. – destilou. – O que você quer primeiro? A proposta ou meus meios de chantagem, quer dizer, meios de persuasão?

Suzana não respondeu, se manteve de costas, tentando lembrar o que fizera de errado para sofrer tal tipo de injusto. Isso parecia psicopatia. O Gui de agora não era o de antigamente. Este era frio, calculista, interesseiro, amedrontador.

Quantas facetas uma pessoa pode ter? E quantas se podem criar? Dessas, quais chegam a público? E por que razão existe esse mecanismo de visualização social? Não seria mais prático sermos honestos e verdadeiros?

Por Gui, piedosamente e sem respaldo, estava triste. As pessoas tomam caminhos e atalhos, pensando em se dar bem. No entanto, acabam estragando suas oportunidades e suas imagens. Certamente Suzana nunca se esqueceria da forma como estava sendo tratada naquele momento. Ainda havia mais surpresas:

– Eu escolho. Vamos às evidências. Chegou às minhas mãos provas de seu… crime. Não, é muito forte. Vamos dizer, então, deslize. É isso! Você não consegue se segurar, comete pequenos deslizes. – Gui claramente saboreava a situação. – Tenho alguns documentos que retratam o caso de assédio sexual cometido por você no outro estágio.

Num estalo, ela se virou assustada. Aquela história, tempos atrás, tinha sido camuflada. Suzana achava que tinha sido enterrada:

– Quem te deu isso? – ela queria culpados. – Nada aconteceu!

– Não é o que os papéis dizem. O caso foi documentado, é claro. Eles precisavam de um respaldo, se algo vazasse. Você é muito ingênua. Achou que tudo ia ficar em segredo.

Gui fez sinal para um envelope. Ela o abriu. Com a cabeça a mil e sem concentração, viu relatórios com depoimentos, descrições e resumos de como o caso foi procedido:

– Como… Como você pegou esse material? – Suzana não conseguia crer.

– Não interessa. A pessoa só me pediu que eu espalhasse a história. Parece que ela queria apenas a sua reputação destruída. A proposta é invenção minha.

Suzana percebeu o olhar esfumaçado e maldoso de Gui pelo reflexo na janela. Teve medo de se virar e encará-lo:

– O que você quer?

– Eu te dou todas essas provas, para que você as destrua, se concordar em ficar comigo.

Ela não podia acreditar. Acabara de sofrer assédio sexual. Aquilo era completamente demais:

– Eu acho que você não tem nada a perder, está solteira. Todo mundo sabe que você não está com ninguém.

Um pouco de alívio perpassou-a. Pelo menos, não era de conhecimento público seu relacionamento com Igor. De repente, se lembrou dele. Queria procurá-lo, pedir proteção e ajuda. Porém, se sentia envergonhada:

– Sua resposta tem de ser imediata. Nosso primeiro contato tem de ser agora, aqui, nessa sala, em cima da mesa.

Sabia que a atitude de Gui era errada, ele cometia uma extorsão sexual. Mais uma vez, pensou em Igor. Sem ele na jogada, não teria problemas em se relacionar com o chantagista, uma vez que sempre suspeitou que ele a desejava. Suzana só não queria conviver com a sensação de ter traído Igor. Ou melhor, não pretendia se prestar a transar com os dois ao mesmo tempo:

– Eu não confio em você. Você vai me usar. Nunca vai me dar essas provas. Vou ficar nas suas mãos o tempo todo. Minha resposta é não! Faça o que bem entender.

Suzana trombou nele ao sair. Agradeceu a Deus por Gui não ter impedido sua passagem.

Depois que entrou no carro, antes de dar partida, no escuro e úmido estacionamento, ela colocou as mãos no rosto e chorou. Até onde as pessoas são capazes de ir para se beneficiarem e torturarem as outras por um simples e doentio prazer?

AGITAÇÃO – Camila

Camila estava na reta final de mais um livro de Roberto DaMatta. A única meta das férias era ler o máximo de autores voltados para a Antropologia. Desse jeito, pretendia chegar com alguma vantagem ou bagagem em relação aos que estavam o tempo todo focados nesse campo de saber, ao contrário dela que acabara de migrar, oriunda das Ciências Políticas. Porém, ela não precisava ter se preocupado tanto. O que ela achava defeito era diferencial: os estudos políticos serviriam de apoio e enriquecimento. Além disso, ela se encaixaria perfeitamente às matérias e às dinâmicas do novo curso.

A última paciente de Léo interrompeu a leitura para marcar o retorno. Minutos depois, ele surgiu na sala de espera. Sentou-se olhando para sua secretária, ainda imersa na leitura:

– Camila, você está liberada. Pode ir embora.

Era um blefe e uma brincadeira. No entanto, ela não percebeu, muito menos a presença dele:

– É uma bomba! – ele gritou e riu

– O quê? – Nem a ameaça ela escutara.

– Estou zoando você – ele disse depois que se recompôs. – Ai, você está muito certinha. Só vai para a casa, lê, namora… Nada de novo acontece contigo. A vida é feita de dramas, de conflitos. Não é o que falam sobre os filmes e novelas?

– Acho que é. – Camila se sentou do lado dele. – Já tive tanta confusão, quero curtir muito a calmaria.

– Claro que quer, eu sei disso, ainda mais nos braços de um professor lindo e bem apaixonado. – ele sorriu, ela repetiu o gesto.

– Você gostou dele? De verdade?

– Claro. Se você quiser dividir comigo… – Léo fez uma cara de sacana.

– Já não basta a mudança na faculdade? Já não basta o fato de ele ser meu professor? Ainda quer colocar mais gente na minha relação? Você está me agourando? – Na verdade, poderia ser uma premonição. O relacionamento dos dois estava prestes a virar um triângulo.

– De jeito nenhum! Quero seu melhor. – ele a beijou. – Mas eu tenho que te dar um toque: pega mal vir trabalhar com a roupa repetida.

– Oh! – Camila ficou surpresa. – Você notou?

– Claro! Eu sou gay, esqueceu? Reparo em roupas. Você está com a mesma saia e o mesmo sapato, além do casaco.

– Você me pegou! Dormi na casa do André.

– De novo? – ele foi mais escandaloso do que o normal.

– O que você esperava? Nós estamos no calor do momento. Deixei a entender para minha família que estava estudando, que ia para casa das amigas discutir temas e nos divertir um pouco, mas na verdade, estava amando. É tão surreal isso! Nunca poderia me imaginar dizendo que tenho um namorado.

– Que delícia! Você vão fazer bobices na casa dos pais dele?

– Leonardo! Que safadeza! – ela bateu nos braços do patrão, enquanto ele ria. – Quem você pensa que sou? Tenho escrúpulos. E nós não vamos mais. Ele tem compromisso cedo na segunda. Foi convocado para ajudar numa banca de seleção. Ele não pode participar, pois está no estágio probatório, mas pediram que ele preparasse todo o trâmite. Acredita? São todos um bando de exploradores.

– Minha querida, e quem não é? Hoje em dia todo mundo quer alguma coisa de alguém.

Mais tarde, Camila aceitou a carona de Léo. No caminho, foi a vez dele de contar sobre seus relacionamentos. Para ela, estava ficando mais fácil compreender as histórias e aceitar o universo homossexual. Ele era regido por outras fórmulas, era um pouco mais despregado de convenções.

Em seu quarto, ela voltou a se questionar sobre os padrões e as convenções. Ainda tinha medo do retorno das aulas, pois André estava destinado a escancarar o relacionamento dos dois. Ela entendia e sabia que ninguém poderia se interpor ou criticá-los. No entanto, continuava receosa.

Ele estava doido para apresentá-la aos pais, que viviam no interior. O mesmo não se procedia com Camila. De jeito nenhum, queria levá-lo até sua casa. Imaginava o rebu na quando todos descobrissem que ela namorava o próprio professor.

Talvez fossem o temor e o receio que a impediam de se soltar. Afinal, quem poderia obrigá-la a agir ou a ser de uma forma? Cada um deve ser responsável por si próprio apenas.

O telefone celular tocou. Era André. Antes de atender, fechou a porta para que não fosse ouvida:

– Por que você não veio para minha casa? – a voz dele ardia de desejo.

– Não queria ser inconveniente, nem abusar tanto.

– Eu também pensava do mesmo jeito. Não quero explorar você – ele soou de forma melodiosa. – Só quero te amar.

Camila ficou sem palavras. Agora entendia a dificuldade em deixar transparecer o relacionamento na vida real. Seu caso com André tinha muitos tons oníricos, límpidos e principalmente imaculados:

– Eu não sei o que dizer pra sair de casa a essa hora. – Camila confidenciou.

– Foge. Tranca a porta e sai. Eu pego você em quinze minutos.

Ela fez uma pequena e rápida mala. Só quando teve muita certeza, escapuliu do quarto até a porta da cozinha. Ao contrário do que imaginava, seu pai dormia no sofá da sala. Ele constatou que ela fugia, mas não teve coragem de interpor ou constrangê-la.

Na esquina, André já a esperava. Da janela, o pai observava. Como ele queria descobrir com quem a filha estava.

Depois que se beijaram, Camila sentiu um arrepio tremendo. Era bom demais para ser verdade. Por isso, um temor repentino transpareceu, verbalizado sem freios:

– Não queria ver ou estar com mais ninguém. Pra mim, você é tudo.

André acariciou o pescoço da namorada e arrancou com o carro. Seria difícil deixar a sensação de intromissão que pairava na cabeça de Camila.

AGITAÇÃO – Eulálio

Tinha sido encurralado e estava com muita raiva. Maurício estava, a semana toda, insistindo para se encontrarem. Ele não tinha ânimo para beber com o amigo, mas na sexta, tentando relaxar, aceitou. Era tudo uma cilada. Ele foi direto para o cara a cara com Sheila:

– Você já pediu alguma coisa?

– Não. – a garota respondeu timidamente.

Ele se virou e chamou o garçom. Pediu dois refrigerantes e uma porção de petiscos:

– Não esperava por você. – ele comentou.

– Eu também não um reencontro. Você anda sumido de todos.

Eulálio a encarou. Por mais que estivesse fechada e reservada, ele percebia que Sheila ainda nutria alguma esperança por detrás daquela aparência. Ele refletiu no quanto transmitimos pelo nosso corpo, como era fácil capturar as mensagens encaminhadas de um jeito não oral. Apesar de pouco convívio, ele conhecia a ex-namorada. Teve um arrepio ao constatar que talvez ela também o entendesse de maneira subliminar:

– O que está acontecendo com você, Lio?  Você está diferente e mudado. Pra mim, parece que você está… sombrio.

Eulálio não quis confirmar. No entanto, era exatamente assim que se sentia. Durante o período de recesso da faculdade, dormiu mais do que de costume, fez exercícios e jogou bola com o pessoal do bairro, porém, não se desligou do propósito em buscar informações do passado. Queria desenterrar tudo o que a família Bersani tinha passado.

Tentou começar pela mãe. Ao contrário do filho, Teresa não tinha empenho algum por reestabelecer contato com o passado. Ela tinha seus motivos: não sabia tanto quanto o filho imaginava; cortou os laços com os Bersani’s assim que Gabriel, pai de Eulálio, falecera; e sentia ódio e raiva ao se lembrar de tudo o que passou.

Aproveitando um final de semana sem a mãe em casa, ele fez uma busca enorme em gavetas, caixas e papéis perdidos e empoeirados. Queria alguma pista, algo que pudesse colocá-lo na trilha. No íntimo, ele sonhava em descobrir algo surpreendente de Lina. Desse jeito, poderia chantageá-la. Esse era um sonho tremendamente instigante:

– Eu me sinto o mesmo, não mudei. Só estou mais recluso. – ele exprimiu.

– Não é verdade. Você está sem brilho.

Outra confirmação de Sheila fez com que ele ficasse um pouco mais abalado. O garçom apareceu nesse momento, quebrando o tênue fio de conversa. Eles comeram e beberam, nitidamente desconfortáveis:

– Eu pensei que… – Sheila recomeçou.

– Me desculpa.

– Por quê?

– Por fazê-la sofrer.

Não conseguiram falar mais nada. Ele comeu. Ela só bebeu. Por um bom tempo, os dois olharam o redor, notaram as pessoas, mostravam estar refletindo, embora só estivessem desligados, imersos num estado de niilismo:

– Acabou? Então, terminamos… De vez! – Sheila fez a colocação derradeira.

– Acho que sim. Por minha causa, por minha inabilidade.

Eulálio pagou a conta e ofereceu uma carona. Ela se recusou veemente. Antes de ir para o ponto, ela tocou nos braços dele. Eulálio ia colocar o capacete, já estava sentado na moto:

– Você nunca me deu uma chance de verdade. Eu nunca penetrei em você. Nunca saberei se eu fui incapaz ou se você é um cara muito resistente e duro. Eu sinto… – Sheila chorou. – Incapacidade, me sinto incapaz. E se eu nunca conseguir encontrar alguém que…?

Eulálio a puxou e a envolveu num abraço. Ele não soltou as lágrimas. Em momento algum, ele sentiu remorso ou compaixão:

– Não diga isso, Sheila. Você é boa do jeito que é. Não precisa melhorar nada. Você vai se encontrar, nós vamos nos encontrar.

Dirigindo no automático, Eulálio não se sentiu desligado de Sheila. Era como se uma parte dele permanecesse vinculado a ex. A culpa disso era a falta de honestidade. Nem no fim, ele pode dizer a verdade e se abrir.

Ele prensara que o não dito, o guardado, o oculto poderiam ser benéficos, pois protegeriam. De repente, constatou que poderiam ser determinantes para o infortúnio, o desassossego e o apego. Saber era libertador, conhecer fornecia armas, compreender impulsionava.

Ao chegar em casa, Teresa cochilava no sofá. Ele sentou-se no braço do móvel e acariciou os pés de sua mãe. Ela acordou com um pequeno pulo. Rapidamente sorriu:

– Você chegou cedo. – ela comentou.

– Não estava tão animado. Mãe, sei que você se recusa, que não gosta… Mas eu necessito saber. Isso vai me fazer entender melhor sobre minha família, sobre o meu pai. Se eu nunca enxergar o painel completo, – ele olhou pra frente, como se enxergasse um grande quadro. – não vou me libertar. É como se eu estivesse constantemente preso.

– Não acho que isso vai trazer algo de bom. Os Bersani’s são… tóxicos! Quase nada de bom veio daquilo lá.

– Você quis dinheiro. Eu sei disso.

– Não me interessa saber como você descobriu. Eu só busquei o que é meu por direito. Tenho umas ideias em mente. Quero contar com você e seus conhecimentos no futuro.

– Claro que pode. Também quero ter o seu apoio. Me ajuda a entender? A compreender?

– Filho, as coisas se perdem, tudo aconteceu há tanto tempo. É um passado remoto. Além do mais, todo mundo sabe do perigo que é enfrentar Lina Bersani. Você pode acabar se arrependendo ou se machucando.

– Eu já estou ferido. Sou um bastardo, não conheci meu pai. Sou considerado um renegado por todos. Apenas desejo ter um alívio.

Teresa suspirou. Ela se solidarizou com Eulálio. Percebeu que precisava deixá-lo embarcar nessa história. Independente de qualquer resultado, benéfico ou maléfico, o filho poderia se libertar:

– Tem duas pessoas que você pode procurar. – Rapidamente ele se pôs em alerta para memorizar as informações. – Uma é mais fácil de se achar, mas não vai soltar com tanta facilidade o que você busca. A outra vai ser mais difícil de localizar, mas pode ser que entregue tudo de bandeja.

– Quem são? – ele se sentia empolgado.

– Procure o padre Francisco, na Igreja de São Geraldo. Ele foi um grande confidente de sua avó. Deve estar aposentado. Quando você era criança, ele já era bem velho. Pelo que me lembro, ele era o pároco da Igreja de São José, onde foi recebida a homenagem a seu pai, por meio do Anjo Gabriel. – Eulálio fez que sim com a cabeça. – A outra pessoa… Eu gostava dela. Era terrível.

– De quem você está falando?

– Maria Marlene, sua tia-avó. Que pessoa agradável. Era sincera em demasia.

– Tia-avó? Irmã da Lina? – Eulálio nunca ouvira falar naquela pessoa.

– Não! Lina não tem família. É a irmã do seu avô. Maria Marlene e Lina se odiavam, é claro. Todo mundo percebia isso. Quando eu trabalhei para seus avós, ela já estava cortando os laços, não fazia questão de procurar o irmão. Ela é solteirona, sabe? Ninguém tem ideia de onde ela foi parar, pode ser que tenha morrido. Diziam, na época, que a maior briga que Lina teve com seu avô foi quando ela descobriu que ele contou tudo sobre o passado dela à Maria Marlene.

– Tia Maria Marlene… – Eulálio balbuciou. – Por que você nunca me falou dela?

– Ah, sei lá. Não faço questão de ficar lembrando os Bersani’s. Eu não sei onde você pode procurá-la. No aniversário de Camila de uns dez ou onze anos, eu levei você. Sem querer alguém se lembrou dela. Não me recordo se foi Constância ou Valéria, só sei que alguém comentou que ninguém da família sabia o paradeiro dela, nem endereço nem nada. A mulher havia evaporado.

Olhando para o escuro, Eulálio intuiu: Maria Marlene teria grandes respostas. Ele estava certo sobre isso, mas completamente errado na certeza em achá-la, porque era a tia-avó quem iria encontrar os quatro primos.

AGITAÇÃO – Suzana

– Você realmente não quer ajuda para colocar isso tudo pra dentro?

Suzana tentava abrir o portão, rodeada por malas e bolsas. Igor estava sentado no carro com o braço e a cabeça para fora:

– Eu quero retomar minha imagem de independente. – ela riu.

– Relaxa! Já te falei que estávamos por conta de empresa.

– Nossa! Vou ter que trabalhar mais para compensar. Não gosto de ficar em dívida.

– Tem outro jeito de você pagar essa dívida… – Igor fez cara de sacana.

– Ah, é? – Suzana entrou na sacanagem. – Você quer mais de mim? Mais do que teve na Alemanha?

– Não dá para me cansar de você. Até acho que fui mais produtivo lá, sabendo que você ia me recompensar toda noite…

– …toda manhã, em várias tardes e madrugadas. – Suzana completou, antes de beijá-lo apaixonadamente.

– Quando vou te ver de novo? – Igor sussurrou, ainda com os lábios quase colados.

– Meu passe valorizou. Agora só quero você em ares internacionais.

– Atrevida!

Igor só deu partida quando ela abriu a porta de casa. Suzana ficou olhando-o sumir. Se fechasse os olhos, lembraria tudo o que fez, os lugares que conheceu, as comidas que experimentou, as cenas de sexo que protagonizou, a diversão que vivenciou.

Foram dias agitados, mas que restabeleceram os ânimos. Praticamente não gastou nada, apenas teve de tirar um novo passaporte. O resto das despesas ficou a cargo de Igor. Ele a incluiu na viagem, liberou a dispensa do estágio e fez de tudo para que ela aproveitasse a Alemanha, nos momentos em que ele estava em reunião.

A verdade era que gostaria de tê-lo acompanhado nos enfadonhos encontros de trabalho. Primeiro, porque queria aprender, entender como ser uma engenheira-empresária; Segundo, porque tinha necessidade de fazer contatos; E terceiro, porque gostaria de destilar sua sexualidade a fim de gerar ciúmes em Igor.

Assim que terminou de levar tudo para o quarto, recebeu a primeira visita:

– Chegou… bem? – Sandro ficou do batente da porta, estava sem graça de entrar.

– Sim. Correu tudo bem – Ela continuou desarrumando a bagagem, sem olhar para ele.

– Não sabia que você tinha dinheiro guardado para uma viagem a Alemanha. Você não me parece tão econômica, não sei como conseguiu juntar uma grana alta.

– Sandro, até parece que você não sabe que foi meu… – Suzana quase disse namorado. – Meu… O Igor quem bancou a viagem. Ele é meu… – ela engasgou mais uma vez. – Meu chefe! Foi tudo por conta da empresa onde eu faço estágio. – Suzana percebeu que contara toda a verdade da situação.

O irmão ficou chocado. O repentino sumisso tinha sido um mistério. Ninguém soube dos detalhes, nem dos reais motivos:

– É… Eles valorizam bem os estagiários. – Sandro ironizou.

– Tem gente que sabe valorizar. – Suzana rebateu.

Antes que ele saísse, ela lhe jogou um embrulho. Tinha uma caneca de chope em louça e uma camisa de Frankfurt. O garoto não demonstrou, mas ficou comovido com a lembrança. Ele ameaçou avançar para beijá-la, no entanto, se conteve. Alegando que ia deixá-la sozinha para descansar, voltou para o quarto.

Depois do banho, Suzana foi até a cozinha fazer um lanche leve. Enquanto preparava um chá, não percebeu a presença do pai:

– Pode fazer em dobro? Eu a acompanho.

Ela largou a colher na pia para abraçá-lo. Mateus estava mais constrito. Ela percebeu:

– Você me deixou preocupado. Fez igual sua mãe. Sumiu sem se explicar, apenas avisando que estava de partida.

– Foi tudo muito rápido, me desculpa. Não podia esperar. A oportunidade era única. – ela respondeu, enquanto servia o chá.

– Eu tolero essa atitude de sua mãe porque ela é minha esposa. Não vou aceitar você, minha filha que vive sob meu teto, fazendo o mesmo. Você me deve muitas explicações.

Suzana respirou fundo. Menos de duas horas em casa foram suficientes para minar a tranquilidade e leveza da viagem:

– Fiquei cansado de ouvir as piadas da sua avó. Ela chegou a insinuar que você tinha se tornado uma prostituta internacional. E agora isso se confirma quando vejo você chegar em casa cheia de bolsas e sacolas, depois de beijar um cara.

Ela não quis responder. Ficou observando toda a fúria e condenação que ele exalava. Lembrou-se da mãe. Inúmeras vezes, ela tratava o marido com calma e indiferença durante as crises de ciúmes, cobranças e ódio dele:

– Você sabe que eu já sou maior de idade? Que falta pouco para eu me formar? Posso ter errado em não ter avisado. Só acho que é um sinal a todos de que eu vou me emancipar em breve. Eu quero ser dona do meu próprio nariz.

– Fique a vontade pra fazer o que quiser da sua vida depois que deixar de depender de mim. Enquanto isso não acontece, você deve seguir minhas ordens.

– Mas eu sigo. – ela rebateu.

– Você não me respeita! – ele gritou. – Que cara eu fico sabendo que você viajou como acompanhante de luxo de um empresário? Que cara eu fico de saber como minha única filha é uma ávida por sexo? Que cara eu fico, na festa de comemoração da empresa que eu comando, quando minha filha sai acompanhada de um cara para um dos quartos?

Suzana segurou as mãos por baixo da mesa. Ela e Sandro trocaram olhares rápidos. Ele se manteve escondido durante a conversa:

– Quer dizer que você tem vergonha de mim? Que a imagem das outras pessoas sobre mim machuca mais do que a nossa relação?

– Não aguento ver você sempre numa situação tão vulgar, tão promíscua!

– Eu nunca julguei você. – Suzana se exalou. – Ou você pensa que nunca soubemos dos inúmeros casos amorosos que você teve? Que cara eu e Sandro ficamos ao notar que estão falando das suas aventuras sexuais, enquanto mamãe está em viagem?

Mateus estava vermelho e raivoso. Naquele momento, Sandro se acovardou e voltou ao quarto. Suzana pegou a xícara de chá e o pires com biscoitos e foi para o quarto.

Sentada na cama, comia meditando. Não gostava de se analisar com ninguém. Contudo, acabara usando da comparação durante o confronto do pai. Ela se colocou no mesmo patamar, apontou como não podiam se acusar, uma vez que agiam da mesma forma. Mesmo assim, não se sentia tão correta ou vencedora do embate. Com dois toques na porta, Mateus entrou no quarto:

– Não gostei do que você me disse… Você não sabe do que está falando. Só preciso dizer que estou feliz pelo seu retorno. Por favor, não faça isso de novo.

Ela apenas assentiu. Antes que ele saísse, Suzana o chamou novamente. Entregou, também, um presente. O pai ficou feliz pelas diversas caixas de fósforo de uma gama variada de locais da Alemanha. Desde pequeno, ele colecionava aqueles itens. Junto, havia um porta-lápis metalizado com a palavra Unternehmer:

– O que significa? – ele quis saber.

– Eu acho que é… eu amo meu pai, apesar de qualquer coisa. – ela se levantou e o abraçou.

– Numa única palavra?

– Os alemães sabem ser concisos. – ela zoou.

Trouxera também presentes para os primos e para a mãe. Suzana se sentiu tão satisfeita com a viagem, que acabou sendo muito caridosa. Infelizmente sua benevolência não afastaria as críticas e as investidas negativas por ter sido tão ousada.

AGITAÇÃO – Bianca

Passara muito rápido ou tinha se acostumado com a solidão? Deitada na cama, Bianca, com certeza, iria sentir falta do sossego, da casa deserta, de ter todo o espaço somente para si. Se pudesse, permitira que os pais, os irmãos e a avó permanecessem mais quinze dias em terras estrangeiras.

Nesse meio tempo, ela somente leu, fez estágio e dormiu. Sem aulas, por causa do recesso acadêmico, a garota se permitiu pisar no freio e deixar as coisas em suspensão. Evitou matutar se seu estágio corria algum risco por causa de seu sobrenome, não quis pensar no beijo roubado em Luca, nem procurou os primos que também estavam de férias.

Apesar da calmaria e da falta de agito, ela estava feliz. Percebeu que o possível complicador da vida são os exageros. É buscar abraçar o mundo, é ansiar por tudo, sendo que a vida sempre foi feita de escolhas. Relembrou os ensinamentos de Economia. Tudo é um trade-off. Você tem que preferir uma coisa a outra, e só. Não se tem uma terceira opção. Abnega-se um item em prol de outro. São dois polos apenas.

O telefone tocou mais uma vez. Ela tinha ignorado diversas vezes depois que os irmãos ligaram apenas para fazer inveja. Como eles retornavam naquele dia e poderiam ter surgido problemas, resolveu atender. Não eram os familiares viajantes:

– Bianca, eu quase achei que você tinha viajado também. – Camila nem a cumprimentou.

– Acho que você pode considerar que andei por aí, sim. Foi uma jornada… espiritual, introspectiva e meditadora. – Bianca debochou.

– Poxa, todo mundo sumiu. Suzana viajou, só fiquei sabendo, dias depois, que ela estava para a Alemanha. Eulálio atende, mas diz estar muito ocupado. Você não retorna ligações do celular e na sua casa só chama e chama. Quero tanto rever vocês e conversar.

– Alguma novidade? – Bianca preferia se manter isolada o quanto pudesse, mas não iria barrar as informações da prima.

– Antes do início das aulas, André quer que eu viaje com ele. Pra conhecer os pais. Acredita? – ela estava radiante.

– Jura? E os seus pais? Quando eles vão se conhecer?

– Aí, não sei. Prefiro não misturar por enquanto. Opa, chegou um paciente. Posso ligar mais tarde?

– Vá lá! Pode sim.

Logo que desligou, Bianca sentiu-se arrependida. Não tinha nada de novo para contar ou partilhar. Apenas ficara reclusa e fechada em seu casulo, deixando todos os problemas para depois. Poderia ter conversado com Júnior, tentado convencê-lo a não revelar o seu segredo.

Para se acalmar e se distrair, resolvera fazer um bolo. Como não tinha quase nada, foi um simples, mas que tinha ficado macio. O bom do trabalho culinário foi o cheiro. Assim que os quatro pisaram na sala, sentiram o aroma espalhado. Ela também tinha passado um café, a fim de dar boas-vindas:

– Que delícia! Quem mandou vocês dois comerem biscoito. – Patrícia beijou a filha. – Parece estar muito bom. Vou comer antes de desempacotar.

– Bianca finalmente percebeu o lugar dela. Na cozinha! – Nei debochou. – Se tudo der errado, abre uma confeitaria.

Ele foi logo partindo o bolo. Nando deu um abraço na irmã. Eles ainda estavam estranhos:

– Filha, que saudades! Como você passou nesses dias sem nós? – Israel deu uma apertada longa nela.

Os cinco se sentaram à mesa. Bianca só escutou sobre o que viram, o que vivenciaram, o que descobriram, as farras que os dois irmãos aprontaram, e principalmente a benevolência da avó Lina que os havia inundado de presentes. Sorrindo, achando que ia ganhar algo, Nei tratou logo de desapontá-la:

– Só não trouxemos nada para você. Quem mandou desistir. Só ganhou, quem foi.

Realmente não havia presentes para ela. Ganharam roupas, calçados, lembretes de viagem. Bianca tinha ficado de fora, excluída. Prometeu que iria juntar dinheiro mensalmente a ser gasto com uma viagem pra qualquer lugar.

A caminho do quarto, escutou que os irmãos iriam chamar Júnior e Sandro para se encontrarem. Precisavam se atualizar. Bianca temeu. Cada vez mais, sentia ser inevitável o encontro dela com o antigo amado.

Ela se trancou no quarto. Tomou banho rapidamente. Estava lendo um pouco, para se deitar mais cedo. Três toques na porta iriam mudar esse plano:

– Já vai dormir? – O pai notou o pijama.

– Já. Estou indo de manhã para o estágio.

– Entendi. – Israel entrou e fechou a porta.

– Sandro e Junior estão aqui? – Ela tentou soar firme.

– Não. Eles só passaram e pegaram o Nei o Nando.

Sentados na cama, o pai demorou a iniciar o assunto:

– Pensei muito em você nessa viagem. Não gostei de tê-la deixado sozinha.

– Fiquei bem.

– Não estou me referindo a esses quinze dias. Fico pensando no seu futuro. Se eu me for, o que será de você.

– Cruzes, pai! Não fala assim.

– A gente nunca sabe o que vai acontecer. – Israel estava enigmático. – Confesso que eu também torcia para que você tivesse um homem, que estivesse noiva… Não vejo você assim.

Bianca sorriu encantada:

– Encontramos com Cristóvão. Acredita? Eu e ele conversamos. Meu irmão é muito diferente de nós. Só ele não vê como ter sido um filho tardio fez bem. Eu o fiz um pedido. Ele me prometeu zelar por você.

Bianca sentia que o pai escondia algo. Aquilo estava estranho demais, mórbido ao extremo. Israel tirou um pacote do bolso. Era um embrulho simples:

– Comprei assim que cheguei ao Canadá. Minha intenção é marcar você. De alguma forma, quero sentir que fui essencial.

Bianca se espantou com o lindo marcador de texto que ele havia lhe dado. Era reluzente, parecia ser de ouro. Tinha a data, o local e o nome dela. Israel fez sinal para que ela olhasse atrás. Mais encantada ficou, ao ver escrito as palavras law, rigths, judgement, sentence, order. Ela ficou radiante:

– É lindo! Nunca me desgrudarei dele. – Na frente do pai, Bianca substituiu automaticamente o marcador de papel, em “Memorial do Convento” de Saramago, pelo recente presente.

Mais tarde, antes de ir dormir, se deteve olhando para o item novo. Assim como tinha feito anteriormente, no seu íntimo, sabia que precisava substituir o que era antigo na sua vida. Só assim poderia evoluir. Ficar apegada ao arcaico e ao passado poderia impedi-la de atingir seus sonhos áureos. Para alcançar o desconhecido, teria de abrir mão do seguro.

O início do 2° Ciclo

4 Primos já tem data para voltar: vai ser na sexta-feira, dia 10 de maio.

Dessa vez, quem abre o 2° Ciclo é Bianca Bersani.

E, na primeira rodada, um texto de dois em dois dias na seguinte ordem: Suzana, Eulálio e Camila.

Até a próxima semana!