AGITAÇÃO – Bianca

Passara muito rápido ou tinha se acostumado com a solidão? Deitada na cama, Bianca, com certeza, iria sentir falta do sossego, da casa deserta, de ter todo o espaço somente para si. Se pudesse, permitira que os pais, os irmãos e a avó permanecessem mais quinze dias em terras estrangeiras.

Nesse meio tempo, ela somente leu, fez estágio e dormiu. Sem aulas, por causa do recesso acadêmico, a garota se permitiu pisar no freio e deixar as coisas em suspensão. Evitou matutar se seu estágio corria algum risco por causa de seu sobrenome, não quis pensar no beijo roubado em Luca, nem procurou os primos que também estavam de férias.

Apesar da calmaria e da falta de agito, ela estava feliz. Percebeu que o possível complicador da vida são os exageros. É buscar abraçar o mundo, é ansiar por tudo, sendo que a vida sempre foi feita de escolhas. Relembrou os ensinamentos de Economia. Tudo é um trade-off. Você tem que preferir uma coisa a outra, e só. Não se tem uma terceira opção. Abnega-se um item em prol de outro. São dois polos apenas.

O telefone tocou mais uma vez. Ela tinha ignorado diversas vezes depois que os irmãos ligaram apenas para fazer inveja. Como eles retornavam naquele dia e poderiam ter surgido problemas, resolveu atender. Não eram os familiares viajantes:

– Bianca, eu quase achei que você tinha viajado também. – Camila nem a cumprimentou.

– Acho que você pode considerar que andei por aí, sim. Foi uma jornada… espiritual, introspectiva e meditadora. – Bianca debochou.

– Poxa, todo mundo sumiu. Suzana viajou, só fiquei sabendo, dias depois, que ela estava para a Alemanha. Eulálio atende, mas diz estar muito ocupado. Você não retorna ligações do celular e na sua casa só chama e chama. Quero tanto rever vocês e conversar.

– Alguma novidade? – Bianca preferia se manter isolada o quanto pudesse, mas não iria barrar as informações da prima.

– Antes do início das aulas, André quer que eu viaje com ele. Pra conhecer os pais. Acredita? – ela estava radiante.

– Jura? E os seus pais? Quando eles vão se conhecer?

– Aí, não sei. Prefiro não misturar por enquanto. Opa, chegou um paciente. Posso ligar mais tarde?

– Vá lá! Pode sim.

Logo que desligou, Bianca sentiu-se arrependida. Não tinha nada de novo para contar ou partilhar. Apenas ficara reclusa e fechada em seu casulo, deixando todos os problemas para depois. Poderia ter conversado com Júnior, tentado convencê-lo a não revelar o seu segredo.

Para se acalmar e se distrair, resolvera fazer um bolo. Como não tinha quase nada, foi um simples, mas que tinha ficado macio. O bom do trabalho culinário foi o cheiro. Assim que os quatro pisaram na sala, sentiram o aroma espalhado. Ela também tinha passado um café, a fim de dar boas-vindas:

– Que delícia! Quem mandou vocês dois comerem biscoito. – Patrícia beijou a filha. – Parece estar muito bom. Vou comer antes de desempacotar.

– Bianca finalmente percebeu o lugar dela. Na cozinha! – Nei debochou. – Se tudo der errado, abre uma confeitaria.

Ele foi logo partindo o bolo. Nando deu um abraço na irmã. Eles ainda estavam estranhos:

– Filha, que saudades! Como você passou nesses dias sem nós? – Israel deu uma apertada longa nela.

Os cinco se sentaram à mesa. Bianca só escutou sobre o que viram, o que vivenciaram, o que descobriram, as farras que os dois irmãos aprontaram, e principalmente a benevolência da avó Lina que os havia inundado de presentes. Sorrindo, achando que ia ganhar algo, Nei tratou logo de desapontá-la:

– Só não trouxemos nada para você. Quem mandou desistir. Só ganhou, quem foi.

Realmente não havia presentes para ela. Ganharam roupas, calçados, lembretes de viagem. Bianca tinha ficado de fora, excluída. Prometeu que iria juntar dinheiro mensalmente a ser gasto com uma viagem pra qualquer lugar.

A caminho do quarto, escutou que os irmãos iriam chamar Júnior e Sandro para se encontrarem. Precisavam se atualizar. Bianca temeu. Cada vez mais, sentia ser inevitável o encontro dela com o antigo amado.

Ela se trancou no quarto. Tomou banho rapidamente. Estava lendo um pouco, para se deitar mais cedo. Três toques na porta iriam mudar esse plano:

– Já vai dormir? – O pai notou o pijama.

– Já. Estou indo de manhã para o estágio.

– Entendi. – Israel entrou e fechou a porta.

– Sandro e Junior estão aqui? – Ela tentou soar firme.

– Não. Eles só passaram e pegaram o Nei o Nando.

Sentados na cama, o pai demorou a iniciar o assunto:

– Pensei muito em você nessa viagem. Não gostei de tê-la deixado sozinha.

– Fiquei bem.

– Não estou me referindo a esses quinze dias. Fico pensando no seu futuro. Se eu me for, o que será de você.

– Cruzes, pai! Não fala assim.

– A gente nunca sabe o que vai acontecer. – Israel estava enigmático. – Confesso que eu também torcia para que você tivesse um homem, que estivesse noiva… Não vejo você assim.

Bianca sorriu encantada:

– Encontramos com Cristóvão. Acredita? Eu e ele conversamos. Meu irmão é muito diferente de nós. Só ele não vê como ter sido um filho tardio fez bem. Eu o fiz um pedido. Ele me prometeu zelar por você.

Bianca sentia que o pai escondia algo. Aquilo estava estranho demais, mórbido ao extremo. Israel tirou um pacote do bolso. Era um embrulho simples:

– Comprei assim que cheguei ao Canadá. Minha intenção é marcar você. De alguma forma, quero sentir que fui essencial.

Bianca se espantou com o lindo marcador de texto que ele havia lhe dado. Era reluzente, parecia ser de ouro. Tinha a data, o local e o nome dela. Israel fez sinal para que ela olhasse atrás. Mais encantada ficou, ao ver escrito as palavras law, rigths, judgement, sentence, order. Ela ficou radiante:

– É lindo! Nunca me desgrudarei dele. – Na frente do pai, Bianca substituiu automaticamente o marcador de papel, em “Memorial do Convento” de Saramago, pelo recente presente.

Mais tarde, antes de ir dormir, se deteve olhando para o item novo. Assim como tinha feito anteriormente, no seu íntimo, sabia que precisava substituir o que era antigo na sua vida. Só assim poderia evoluir. Ficar apegada ao arcaico e ao passado poderia impedi-la de atingir seus sonhos áureos. Para alcançar o desconhecido, teria de abrir mão do seguro.

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