AGITAÇÃO – Suzana

– Você realmente não quer ajuda para colocar isso tudo pra dentro?

Suzana tentava abrir o portão, rodeada por malas e bolsas. Igor estava sentado no carro com o braço e a cabeça para fora:

– Eu quero retomar minha imagem de independente. – ela riu.

– Relaxa! Já te falei que estávamos por conta de empresa.

– Nossa! Vou ter que trabalhar mais para compensar. Não gosto de ficar em dívida.

– Tem outro jeito de você pagar essa dívida… – Igor fez cara de sacana.

– Ah, é? – Suzana entrou na sacanagem. – Você quer mais de mim? Mais do que teve na Alemanha?

– Não dá para me cansar de você. Até acho que fui mais produtivo lá, sabendo que você ia me recompensar toda noite…

– …toda manhã, em várias tardes e madrugadas. – Suzana completou, antes de beijá-lo apaixonadamente.

– Quando vou te ver de novo? – Igor sussurrou, ainda com os lábios quase colados.

– Meu passe valorizou. Agora só quero você em ares internacionais.

– Atrevida!

Igor só deu partida quando ela abriu a porta de casa. Suzana ficou olhando-o sumir. Se fechasse os olhos, lembraria tudo o que fez, os lugares que conheceu, as comidas que experimentou, as cenas de sexo que protagonizou, a diversão que vivenciou.

Foram dias agitados, mas que restabeleceram os ânimos. Praticamente não gastou nada, apenas teve de tirar um novo passaporte. O resto das despesas ficou a cargo de Igor. Ele a incluiu na viagem, liberou a dispensa do estágio e fez de tudo para que ela aproveitasse a Alemanha, nos momentos em que ele estava em reunião.

A verdade era que gostaria de tê-lo acompanhado nos enfadonhos encontros de trabalho. Primeiro, porque queria aprender, entender como ser uma engenheira-empresária; Segundo, porque tinha necessidade de fazer contatos; E terceiro, porque gostaria de destilar sua sexualidade a fim de gerar ciúmes em Igor.

Assim que terminou de levar tudo para o quarto, recebeu a primeira visita:

– Chegou… bem? – Sandro ficou do batente da porta, estava sem graça de entrar.

– Sim. Correu tudo bem – Ela continuou desarrumando a bagagem, sem olhar para ele.

– Não sabia que você tinha dinheiro guardado para uma viagem a Alemanha. Você não me parece tão econômica, não sei como conseguiu juntar uma grana alta.

– Sandro, até parece que você não sabe que foi meu… – Suzana quase disse namorado. – Meu… O Igor quem bancou a viagem. Ele é meu… – ela engasgou mais uma vez. – Meu chefe! Foi tudo por conta da empresa onde eu faço estágio. – Suzana percebeu que contara toda a verdade da situação.

O irmão ficou chocado. O repentino sumisso tinha sido um mistério. Ninguém soube dos detalhes, nem dos reais motivos:

– É… Eles valorizam bem os estagiários. – Sandro ironizou.

– Tem gente que sabe valorizar. – Suzana rebateu.

Antes que ele saísse, ela lhe jogou um embrulho. Tinha uma caneca de chope em louça e uma camisa de Frankfurt. O garoto não demonstrou, mas ficou comovido com a lembrança. Ele ameaçou avançar para beijá-la, no entanto, se conteve. Alegando que ia deixá-la sozinha para descansar, voltou para o quarto.

Depois do banho, Suzana foi até a cozinha fazer um lanche leve. Enquanto preparava um chá, não percebeu a presença do pai:

– Pode fazer em dobro? Eu a acompanho.

Ela largou a colher na pia para abraçá-lo. Mateus estava mais constrito. Ela percebeu:

– Você me deixou preocupado. Fez igual sua mãe. Sumiu sem se explicar, apenas avisando que estava de partida.

– Foi tudo muito rápido, me desculpa. Não podia esperar. A oportunidade era única. – ela respondeu, enquanto servia o chá.

– Eu tolero essa atitude de sua mãe porque ela é minha esposa. Não vou aceitar você, minha filha que vive sob meu teto, fazendo o mesmo. Você me deve muitas explicações.

Suzana respirou fundo. Menos de duas horas em casa foram suficientes para minar a tranquilidade e leveza da viagem:

– Fiquei cansado de ouvir as piadas da sua avó. Ela chegou a insinuar que você tinha se tornado uma prostituta internacional. E agora isso se confirma quando vejo você chegar em casa cheia de bolsas e sacolas, depois de beijar um cara.

Ela não quis responder. Ficou observando toda a fúria e condenação que ele exalava. Lembrou-se da mãe. Inúmeras vezes, ela tratava o marido com calma e indiferença durante as crises de ciúmes, cobranças e ódio dele:

– Você sabe que eu já sou maior de idade? Que falta pouco para eu me formar? Posso ter errado em não ter avisado. Só acho que é um sinal a todos de que eu vou me emancipar em breve. Eu quero ser dona do meu próprio nariz.

– Fique a vontade pra fazer o que quiser da sua vida depois que deixar de depender de mim. Enquanto isso não acontece, você deve seguir minhas ordens.

– Mas eu sigo. – ela rebateu.

– Você não me respeita! – ele gritou. – Que cara eu fico sabendo que você viajou como acompanhante de luxo de um empresário? Que cara eu fico de saber como minha única filha é uma ávida por sexo? Que cara eu fico, na festa de comemoração da empresa que eu comando, quando minha filha sai acompanhada de um cara para um dos quartos?

Suzana segurou as mãos por baixo da mesa. Ela e Sandro trocaram olhares rápidos. Ele se manteve escondido durante a conversa:

– Quer dizer que você tem vergonha de mim? Que a imagem das outras pessoas sobre mim machuca mais do que a nossa relação?

– Não aguento ver você sempre numa situação tão vulgar, tão promíscua!

– Eu nunca julguei você. – Suzana se exalou. – Ou você pensa que nunca soubemos dos inúmeros casos amorosos que você teve? Que cara eu e Sandro ficamos ao notar que estão falando das suas aventuras sexuais, enquanto mamãe está em viagem?

Mateus estava vermelho e raivoso. Naquele momento, Sandro se acovardou e voltou ao quarto. Suzana pegou a xícara de chá e o pires com biscoitos e foi para o quarto.

Sentada na cama, comia meditando. Não gostava de se analisar com ninguém. Contudo, acabara usando da comparação durante o confronto do pai. Ela se colocou no mesmo patamar, apontou como não podiam se acusar, uma vez que agiam da mesma forma. Mesmo assim, não se sentia tão correta ou vencedora do embate. Com dois toques na porta, Mateus entrou no quarto:

– Não gostei do que você me disse… Você não sabe do que está falando. Só preciso dizer que estou feliz pelo seu retorno. Por favor, não faça isso de novo.

Ela apenas assentiu. Antes que ele saísse, Suzana o chamou novamente. Entregou, também, um presente. O pai ficou feliz pelas diversas caixas de fósforo de uma gama variada de locais da Alemanha. Desde pequeno, ele colecionava aqueles itens. Junto, havia um porta-lápis metalizado com a palavra Unternehmer:

– O que significa? – ele quis saber.

– Eu acho que é… eu amo meu pai, apesar de qualquer coisa. – ela se levantou e o abraçou.

– Numa única palavra?

– Os alemães sabem ser concisos. – ela zoou.

Trouxera também presentes para os primos e para a mãe. Suzana se sentiu tão satisfeita com a viagem, que acabou sendo muito caridosa. Infelizmente sua benevolência não afastaria as críticas e as investidas negativas por ter sido tão ousada.

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