AGITAÇÃO – Eulálio

Tinha sido encurralado e estava com muita raiva. Maurício estava, a semana toda, insistindo para se encontrarem. Ele não tinha ânimo para beber com o amigo, mas na sexta, tentando relaxar, aceitou. Era tudo uma cilada. Ele foi direto para o cara a cara com Sheila:

– Você já pediu alguma coisa?

– Não. – a garota respondeu timidamente.

Ele se virou e chamou o garçom. Pediu dois refrigerantes e uma porção de petiscos:

– Não esperava por você. – ele comentou.

– Eu também não um reencontro. Você anda sumido de todos.

Eulálio a encarou. Por mais que estivesse fechada e reservada, ele percebia que Sheila ainda nutria alguma esperança por detrás daquela aparência. Ele refletiu no quanto transmitimos pelo nosso corpo, como era fácil capturar as mensagens encaminhadas de um jeito não oral. Apesar de pouco convívio, ele conhecia a ex-namorada. Teve um arrepio ao constatar que talvez ela também o entendesse de maneira subliminar:

– O que está acontecendo com você, Lio?  Você está diferente e mudado. Pra mim, parece que você está… sombrio.

Eulálio não quis confirmar. No entanto, era exatamente assim que se sentia. Durante o período de recesso da faculdade, dormiu mais do que de costume, fez exercícios e jogou bola com o pessoal do bairro, porém, não se desligou do propósito em buscar informações do passado. Queria desenterrar tudo o que a família Bersani tinha passado.

Tentou começar pela mãe. Ao contrário do filho, Teresa não tinha empenho algum por reestabelecer contato com o passado. Ela tinha seus motivos: não sabia tanto quanto o filho imaginava; cortou os laços com os Bersani’s assim que Gabriel, pai de Eulálio, falecera; e sentia ódio e raiva ao se lembrar de tudo o que passou.

Aproveitando um final de semana sem a mãe em casa, ele fez uma busca enorme em gavetas, caixas e papéis perdidos e empoeirados. Queria alguma pista, algo que pudesse colocá-lo na trilha. No íntimo, ele sonhava em descobrir algo surpreendente de Lina. Desse jeito, poderia chantageá-la. Esse era um sonho tremendamente instigante:

– Eu me sinto o mesmo, não mudei. Só estou mais recluso. – ele exprimiu.

– Não é verdade. Você está sem brilho.

Outra confirmação de Sheila fez com que ele ficasse um pouco mais abalado. O garçom apareceu nesse momento, quebrando o tênue fio de conversa. Eles comeram e beberam, nitidamente desconfortáveis:

– Eu pensei que… – Sheila recomeçou.

– Me desculpa.

– Por quê?

– Por fazê-la sofrer.

Não conseguiram falar mais nada. Ele comeu. Ela só bebeu. Por um bom tempo, os dois olharam o redor, notaram as pessoas, mostravam estar refletindo, embora só estivessem desligados, imersos num estado de niilismo:

– Acabou? Então, terminamos… De vez! – Sheila fez a colocação derradeira.

– Acho que sim. Por minha causa, por minha inabilidade.

Eulálio pagou a conta e ofereceu uma carona. Ela se recusou veemente. Antes de ir para o ponto, ela tocou nos braços dele. Eulálio ia colocar o capacete, já estava sentado na moto:

– Você nunca me deu uma chance de verdade. Eu nunca penetrei em você. Nunca saberei se eu fui incapaz ou se você é um cara muito resistente e duro. Eu sinto… – Sheila chorou. – Incapacidade, me sinto incapaz. E se eu nunca conseguir encontrar alguém que…?

Eulálio a puxou e a envolveu num abraço. Ele não soltou as lágrimas. Em momento algum, ele sentiu remorso ou compaixão:

– Não diga isso, Sheila. Você é boa do jeito que é. Não precisa melhorar nada. Você vai se encontrar, nós vamos nos encontrar.

Dirigindo no automático, Eulálio não se sentiu desligado de Sheila. Era como se uma parte dele permanecesse vinculado a ex. A culpa disso era a falta de honestidade. Nem no fim, ele pode dizer a verdade e se abrir.

Ele prensara que o não dito, o guardado, o oculto poderiam ser benéficos, pois protegeriam. De repente, constatou que poderiam ser determinantes para o infortúnio, o desassossego e o apego. Saber era libertador, conhecer fornecia armas, compreender impulsionava.

Ao chegar em casa, Teresa cochilava no sofá. Ele sentou-se no braço do móvel e acariciou os pés de sua mãe. Ela acordou com um pequeno pulo. Rapidamente sorriu:

– Você chegou cedo. – ela comentou.

– Não estava tão animado. Mãe, sei que você se recusa, que não gosta… Mas eu necessito saber. Isso vai me fazer entender melhor sobre minha família, sobre o meu pai. Se eu nunca enxergar o painel completo, – ele olhou pra frente, como se enxergasse um grande quadro. – não vou me libertar. É como se eu estivesse constantemente preso.

– Não acho que isso vai trazer algo de bom. Os Bersani’s são… tóxicos! Quase nada de bom veio daquilo lá.

– Você quis dinheiro. Eu sei disso.

– Não me interessa saber como você descobriu. Eu só busquei o que é meu por direito. Tenho umas ideias em mente. Quero contar com você e seus conhecimentos no futuro.

– Claro que pode. Também quero ter o seu apoio. Me ajuda a entender? A compreender?

– Filho, as coisas se perdem, tudo aconteceu há tanto tempo. É um passado remoto. Além do mais, todo mundo sabe do perigo que é enfrentar Lina Bersani. Você pode acabar se arrependendo ou se machucando.

– Eu já estou ferido. Sou um bastardo, não conheci meu pai. Sou considerado um renegado por todos. Apenas desejo ter um alívio.

Teresa suspirou. Ela se solidarizou com Eulálio. Percebeu que precisava deixá-lo embarcar nessa história. Independente de qualquer resultado, benéfico ou maléfico, o filho poderia se libertar:

– Tem duas pessoas que você pode procurar. – Rapidamente ele se pôs em alerta para memorizar as informações. – Uma é mais fácil de se achar, mas não vai soltar com tanta facilidade o que você busca. A outra vai ser mais difícil de localizar, mas pode ser que entregue tudo de bandeja.

– Quem são? – ele se sentia empolgado.

– Procure o padre Francisco, na Igreja de São Geraldo. Ele foi um grande confidente de sua avó. Deve estar aposentado. Quando você era criança, ele já era bem velho. Pelo que me lembro, ele era o pároco da Igreja de São José, onde foi recebida a homenagem a seu pai, por meio do Anjo Gabriel. – Eulálio fez que sim com a cabeça. – A outra pessoa… Eu gostava dela. Era terrível.

– De quem você está falando?

– Maria Marlene, sua tia-avó. Que pessoa agradável. Era sincera em demasia.

– Tia-avó? Irmã da Lina? – Eulálio nunca ouvira falar naquela pessoa.

– Não! Lina não tem família. É a irmã do seu avô. Maria Marlene e Lina se odiavam, é claro. Todo mundo percebia isso. Quando eu trabalhei para seus avós, ela já estava cortando os laços, não fazia questão de procurar o irmão. Ela é solteirona, sabe? Ninguém tem ideia de onde ela foi parar, pode ser que tenha morrido. Diziam, na época, que a maior briga que Lina teve com seu avô foi quando ela descobriu que ele contou tudo sobre o passado dela à Maria Marlene.

– Tia Maria Marlene… – Eulálio balbuciou. – Por que você nunca me falou dela?

– Ah, sei lá. Não faço questão de ficar lembrando os Bersani’s. Eu não sei onde você pode procurá-la. No aniversário de Camila de uns dez ou onze anos, eu levei você. Sem querer alguém se lembrou dela. Não me recordo se foi Constância ou Valéria, só sei que alguém comentou que ninguém da família sabia o paradeiro dela, nem endereço nem nada. A mulher havia evaporado.

Olhando para o escuro, Eulálio intuiu: Maria Marlene teria grandes respostas. Ele estava certo sobre isso, mas completamente errado na certeza em achá-la, porque era a tia-avó quem iria encontrar os quatro primos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: