AGITAÇÃO – Camila

Camila estava na reta final de mais um livro de Roberto DaMatta. A única meta das férias era ler o máximo de autores voltados para a Antropologia. Desse jeito, pretendia chegar com alguma vantagem ou bagagem em relação aos que estavam o tempo todo focados nesse campo de saber, ao contrário dela que acabara de migrar, oriunda das Ciências Políticas. Porém, ela não precisava ter se preocupado tanto. O que ela achava defeito era diferencial: os estudos políticos serviriam de apoio e enriquecimento. Além disso, ela se encaixaria perfeitamente às matérias e às dinâmicas do novo curso.

A última paciente de Léo interrompeu a leitura para marcar o retorno. Minutos depois, ele surgiu na sala de espera. Sentou-se olhando para sua secretária, ainda imersa na leitura:

– Camila, você está liberada. Pode ir embora.

Era um blefe e uma brincadeira. No entanto, ela não percebeu, muito menos a presença dele:

– É uma bomba! – ele gritou e riu

– O quê? – Nem a ameaça ela escutara.

– Estou zoando você – ele disse depois que se recompôs. – Ai, você está muito certinha. Só vai para a casa, lê, namora… Nada de novo acontece contigo. A vida é feita de dramas, de conflitos. Não é o que falam sobre os filmes e novelas?

– Acho que é. – Camila se sentou do lado dele. – Já tive tanta confusão, quero curtir muito a calmaria.

– Claro que quer, eu sei disso, ainda mais nos braços de um professor lindo e bem apaixonado. – ele sorriu, ela repetiu o gesto.

– Você gostou dele? De verdade?

– Claro. Se você quiser dividir comigo… – Léo fez uma cara de sacana.

– Já não basta a mudança na faculdade? Já não basta o fato de ele ser meu professor? Ainda quer colocar mais gente na minha relação? Você está me agourando? – Na verdade, poderia ser uma premonição. O relacionamento dos dois estava prestes a virar um triângulo.

– De jeito nenhum! Quero seu melhor. – ele a beijou. – Mas eu tenho que te dar um toque: pega mal vir trabalhar com a roupa repetida.

– Oh! – Camila ficou surpresa. – Você notou?

– Claro! Eu sou gay, esqueceu? Reparo em roupas. Você está com a mesma saia e o mesmo sapato, além do casaco.

– Você me pegou! Dormi na casa do André.

– De novo? – ele foi mais escandaloso do que o normal.

– O que você esperava? Nós estamos no calor do momento. Deixei a entender para minha família que estava estudando, que ia para casa das amigas discutir temas e nos divertir um pouco, mas na verdade, estava amando. É tão surreal isso! Nunca poderia me imaginar dizendo que tenho um namorado.

– Que delícia! Você vão fazer bobices na casa dos pais dele?

– Leonardo! Que safadeza! – ela bateu nos braços do patrão, enquanto ele ria. – Quem você pensa que sou? Tenho escrúpulos. E nós não vamos mais. Ele tem compromisso cedo na segunda. Foi convocado para ajudar numa banca de seleção. Ele não pode participar, pois está no estágio probatório, mas pediram que ele preparasse todo o trâmite. Acredita? São todos um bando de exploradores.

– Minha querida, e quem não é? Hoje em dia todo mundo quer alguma coisa de alguém.

Mais tarde, Camila aceitou a carona de Léo. No caminho, foi a vez dele de contar sobre seus relacionamentos. Para ela, estava ficando mais fácil compreender as histórias e aceitar o universo homossexual. Ele era regido por outras fórmulas, era um pouco mais despregado de convenções.

Em seu quarto, ela voltou a se questionar sobre os padrões e as convenções. Ainda tinha medo do retorno das aulas, pois André estava destinado a escancarar o relacionamento dos dois. Ela entendia e sabia que ninguém poderia se interpor ou criticá-los. No entanto, continuava receosa.

Ele estava doido para apresentá-la aos pais, que viviam no interior. O mesmo não se procedia com Camila. De jeito nenhum, queria levá-lo até sua casa. Imaginava o rebu na quando todos descobrissem que ela namorava o próprio professor.

Talvez fossem o temor e o receio que a impediam de se soltar. Afinal, quem poderia obrigá-la a agir ou a ser de uma forma? Cada um deve ser responsável por si próprio apenas.

O telefone celular tocou. Era André. Antes de atender, fechou a porta para que não fosse ouvida:

– Por que você não veio para minha casa? – a voz dele ardia de desejo.

– Não queria ser inconveniente, nem abusar tanto.

– Eu também pensava do mesmo jeito. Não quero explorar você – ele soou de forma melodiosa. – Só quero te amar.

Camila ficou sem palavras. Agora entendia a dificuldade em deixar transparecer o relacionamento na vida real. Seu caso com André tinha muitos tons oníricos, límpidos e principalmente imaculados:

– Eu não sei o que dizer pra sair de casa a essa hora. – Camila confidenciou.

– Foge. Tranca a porta e sai. Eu pego você em quinze minutos.

Ela fez uma pequena e rápida mala. Só quando teve muita certeza, escapuliu do quarto até a porta da cozinha. Ao contrário do que imaginava, seu pai dormia no sofá da sala. Ele constatou que ela fugia, mas não teve coragem de interpor ou constrangê-la.

Na esquina, André já a esperava. Da janela, o pai observava. Como ele queria descobrir com quem a filha estava.

Depois que se beijaram, Camila sentiu um arrepio tremendo. Era bom demais para ser verdade. Por isso, um temor repentino transpareceu, verbalizado sem freios:

– Não queria ver ou estar com mais ninguém. Pra mim, você é tudo.

André acariciou o pescoço da namorada e arrancou com o carro. Seria difícil deixar a sensação de intromissão que pairava na cabeça de Camila.

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