COMPRESSÃO – Suzana

Assim que pôde, Suzana procurou Igor, dias atrás, para perguntar se alguém sabia da viagem juntos para a Alemanha. Desde que retornara ao estágio, sentia que estavam diferentes e indiferentes a ela. Não a consideravam como antes, nem a incluíam nos assuntos e nos afazeres.

Apesar da insistente negativa dele, Suzana não conseguia perder a sensação de que tinha sido delatada. Estava certa em parte, apenas errara nos motivos. Eles sabiam de uma passagem da vida profissional-amorosa dela:

– Suzana, você pode me auxiliar mais tarde num projeto? – Gui perguntou, sem ao menos cumprimentá-la.

Ela tinha ficado feliz com o pedido, pois, pela primeira vez, havia sido incluída num trabalho, depois do retorno ao estágio.

Com o escritório vazio, sem outros afazeres, procurou por Gui. Antes que ele dissesse algo, ela puxou uma cadeira e se sentou ao lado. Por longos períodos, observou. Aparentemente, não havia nada a ajudar. Suzana esperou pacientemente.

Dispersa, pensando no que ela e Igor iriam fazer no final de semana, sentiu um leve roçar na altura do joelho. Ela rapidamente cortou o contato. Mirando-o, percebeu pelas calças que ele estava excitado, mas não ousava trocar olhares.

Suzana teria questionado, brigado, xingado. Como se sentia queimada, deixou passar. Pouco tempo depois, ele repetiu o gesto. Ela se levantou. Mesmo sem sede, deu, como pretexto, buscar água.

Quando retornou, encontrou Gui em pé, de costas para ela, mas de frente para a janela. A mesa estava limpa. Todo o material havia sido guardado. Suzana estranhou, além de ter se arrependido por não ter carregado o seu celular consigo. Ela tinha sacado tudo, estava encurralada:

– As pessoas ficaram sabendo da sua situação. Foi uma fofoca e tanto, embora não tenha sido nenhuma surpresa. – ele debochou.

– Ninguém tem nada a ver com a minha vida.

– Bom, a sua vida pessoal sim. Mas a profissional, não. Que vergonha. Você não precisava fazer isso. É uma Bersani. Pode ter o mundo a seus pés.

– Não devo satisfações. – ela bradou. – Se não temos mais trabalho, posso ir embora? Tenho outros compromissos.  – ela quase citou Igor, dizendo que ele a esperava. Suzana fez bem, pois Gui se referia a outro assunto. Ela imaginava que se tratava do relacionamento dos dois. Não era sobre isso:

– É cedo. Precisamos fazer um trato. Acho que não será tão dificultoso para você.

Ele foi até Suzana, que se manteve ereta, mesmo vacilando por dentro. Gui a contornou e fechou a porta. Suzana se assustou com o ruído:

– Não se preocupe. Nada do que quero você já não fez. – destilou. – O que você quer primeiro? A proposta ou meus meios de chantagem, quer dizer, meios de persuasão?

Suzana não respondeu, se manteve de costas, tentando lembrar o que fizera de errado para sofrer tal tipo de injusto. Isso parecia psicopatia. O Gui de agora não era o de antigamente. Este era frio, calculista, interesseiro, amedrontador.

Quantas facetas uma pessoa pode ter? E quantas se podem criar? Dessas, quais chegam a público? E por que razão existe esse mecanismo de visualização social? Não seria mais prático sermos honestos e verdadeiros?

Por Gui, piedosamente e sem respaldo, estava triste. As pessoas tomam caminhos e atalhos, pensando em se dar bem. No entanto, acabam estragando suas oportunidades e suas imagens. Certamente Suzana nunca se esqueceria da forma como estava sendo tratada naquele momento. Ainda havia mais surpresas:

– Eu escolho. Vamos às evidências. Chegou às minhas mãos provas de seu… crime. Não, é muito forte. Vamos dizer, então, deslize. É isso! Você não consegue se segurar, comete pequenos deslizes. – Gui claramente saboreava a situação. – Tenho alguns documentos que retratam o caso de assédio sexual cometido por você no outro estágio.

Num estalo, ela se virou assustada. Aquela história, tempos atrás, tinha sido camuflada. Suzana achava que tinha sido enterrada:

– Quem te deu isso? – ela queria culpados. – Nada aconteceu!

– Não é o que os papéis dizem. O caso foi documentado, é claro. Eles precisavam de um respaldo, se algo vazasse. Você é muito ingênua. Achou que tudo ia ficar em segredo.

Gui fez sinal para um envelope. Ela o abriu. Com a cabeça a mil e sem concentração, viu relatórios com depoimentos, descrições e resumos de como o caso foi procedido:

– Como… Como você pegou esse material? – Suzana não conseguia crer.

– Não interessa. A pessoa só me pediu que eu espalhasse a história. Parece que ela queria apenas a sua reputação destruída. A proposta é invenção minha.

Suzana percebeu o olhar esfumaçado e maldoso de Gui pelo reflexo na janela. Teve medo de se virar e encará-lo:

– O que você quer?

– Eu te dou todas essas provas, para que você as destrua, se concordar em ficar comigo.

Ela não podia acreditar. Acabara de sofrer assédio sexual. Aquilo era completamente demais:

– Eu acho que você não tem nada a perder, está solteira. Todo mundo sabe que você não está com ninguém.

Um pouco de alívio perpassou-a. Pelo menos, não era de conhecimento público seu relacionamento com Igor. De repente, se lembrou dele. Queria procurá-lo, pedir proteção e ajuda. Porém, se sentia envergonhada:

– Sua resposta tem de ser imediata. Nosso primeiro contato tem de ser agora, aqui, nessa sala, em cima da mesa.

Sabia que a atitude de Gui era errada, ele cometia uma extorsão sexual. Mais uma vez, pensou em Igor. Sem ele na jogada, não teria problemas em se relacionar com o chantagista, uma vez que sempre suspeitou que ele a desejava. Suzana só não queria conviver com a sensação de ter traído Igor. Ou melhor, não pretendia se prestar a transar com os dois ao mesmo tempo:

– Eu não confio em você. Você vai me usar. Nunca vai me dar essas provas. Vou ficar nas suas mãos o tempo todo. Minha resposta é não! Faça o que bem entender.

Suzana trombou nele ao sair. Agradeceu a Deus por Gui não ter impedido sua passagem.

Depois que entrou no carro, antes de dar partida, no escuro e úmido estacionamento, ela colocou as mãos no rosto e chorou. Até onde as pessoas são capazes de ir para se beneficiarem e torturarem as outras por um simples e doentio prazer?

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