COMPRESSÃO – Bianca

Despreocupada, Bianca tomava café quietinha, alheia ao entorno. Era um estado de recente despertar misturado com uma tranquilidade, raramente sentidos. Nem sempre, ela conseguia atingir tamanha passividade e calmaria. Por isso, aproveitava para divagar envolta do nada. Como estava adiantada, poderia se deixar levar pela letargia.

Nando chegou à cozinha pisando fundo. A intenção era se fazer notar. Mesmo assim, não despertou a irmã que olhava pela janela, totalmente fora de ar. Ele arrumou um pão, tomo goles de café e ficou esperando. Não queria puxar assunto, apesar de ter preparado mentalmente uma forma de ajudar sem se expor. Não podia, em hipótese alguma, transparecer que sabia de todo o plano de sua avó Lina para os quatro netos. Ele começava a não entender a razão de todo aquele ódio.

Puxou uma cadeira e ficou de lado de Bianca. Tocou de leve no braço dela. Continuou sem resposta. Pegou o pedaço de papel e o colocou em frente do prato da irmã. Por uns instantes, ela também não reagiu. Depois, a garota, lentamente, olhou para frente e desdobrou a folha. Havia um nome e um telefone. Sem precisar falar nada, fitou o irmão com cara de desentendida:

– Tenho um amigo que acabou de abrir uma firma de advocacia. Ele quer alguém da área de família. Não é a sua nova especialidade?

Bianca ficou vacilante. Desde quando seus irmãos retêm qualquer informação sobre ela? Quando podia supor que eles seriam capazes de ajudá-la? Com certeza, achou tudo muito estanho e suspeito. Nando percebeu rapidamente:

– É um contato futuro pra você. A gente nunca sabe o que pode ocorrer. Eu acho ele muito bacana e determinado. Talvez vocês comecem algo grande juntos.

Bianca se serviu de mais um pouco de café. Não tirou os olhos do papel por um tempo. Queria perguntar o porquê daquilo. No entanto, sabia que não podia forçar a barra com os irmãos. Eles estavam em uma dimensão diferente da dela. Perderam a conexão. Não seria uma simples indicação suficiente para reagrupá-los:

– Obrigada. – ousou dizer de uma maneira sem sentido e propósito.

Ao notar o irmão, ela percebeu uma seriedade intensa. O gesto de Nando não transparecia uma mera simplicidade. Era sério e determinado, com muito significado. No entanto, Bianca não conseguia definir o que indicava.

A caminho do estágio, apalpando o papel com o telefone, enquanto as mãos permaneciam no bolso, ela fez uma varredura em memórias, assuntos e situações que pudessem fazê-la entender aquela atitude no café. Totalmente encolhida por causa do forte vento, ela se perguntou até quando se sentiria inferiorizada e diminuída face os familiares. As intempéries permaneceriam por muito mais tempo? Ela aguentaria as pancadas?

Assim que se sentou na mesa, prestes a ligar o computador, fora chamada a comparecer em uma das salas de reunião. Um possível cliente a esperava desde cedo. Não tinha pedido por Bianca especificamente, embora tenha ficado claro o quanto ele queria uma estagiária, mulher, com competência e pendente para o ramo de Direito de Família. Ela desconfiou desse pedido, era demasiado direto, sem parecer. Quando bateu a porta e encarou o requisitante, arrependeu-se da falta de malícia:

– Seria melhor fechar as portas e persianas. Ficaremos bem mais a vontade. – ele riu, satisfeito. – Como você demorou! – Bianca não se moveu. – Não está feliz em me ver? – Ela ameaçou sair. – Se fosse você, não faria isso! Eu poderia gritar a todos sobre seus problemas.

Olhando para a mesa, tentando buscar uma força desconhecida, Bianca se sentou. Abriu a pasta. Serviu um copo de água. Esperou:

– Não é sua obrigação me fazer perguntas? Sondar?

– Júnior… – ela engoliu em seco. – O que você quer? Por que veio parar aqui?

– Saudades. Tem tempos que cheguei e não pudemos nos rever. Por que será? Tem me evitado? Tem medo de mim? – ele se divertia. – Pode ficar calma, por enquanto não pretendo revelar nada a seus irmãos.

– Por que você não fala nada e põe fim a essa tormenta?

– Então, ela existe. Obrigado por confirmar minha dúvida. Quer dizer que você continua frígida? Ainda é a mulher mais fria e incompetente na cama que conheço? Eu esperava mais. – Junior debochou. – Pra mim, você ia procurar ajuda, ou ia se envolver com mais homens… Você não se parece nem um pouco com Suzana.

– Não devo satisfações a você.

– Sei disso. Só que eu passei a me preocupar. Fiquei pensando: e se eu sou o culpado da Bianca ser assim? Eu posso ter sido bruto demais, grande demais…

– Convencido demais. – ela acrescentou, ele adorou.

– Bibi, quero testar você. Não posso acreditar que tenha ficado sozinha nesse tempo todo. Seus irmãos me disseram que nunca viram você com um cara, você nunca mais namorou. Realmente você se fechou e se travou.

– Nei e Nando não sabem da minha vida. Nunca souberam, nem vão saber.

– Posso resolver pelo menos isso. Ligo agora e conto que eles têm uma irmã sem desejo sexual, que não atinge o orgasmo?

– Não! – ela, pela primeira vez, se desesperou.

– Tem vergonha, não tem? Se você quiser evitar essa revelação, vá na minha casa hoje à noite. Quero comer você de novo! Do meu jeito!

Bianca cruzou as pernas, uma mão apertou a outra e o corpo se afastou da mesa, fazendo as costas espremerem mais o encosto da cadeira. O olhar sociopata e maquiavélico reverberou por dentro dela:

– Essa é minha única condição. Não me desaponte.

Júnior se levantou e beijou o topo da cabeça de Bianca. Ela sentia nojo e revolta. Não se segurou:

– O que você ganha com isso? – ele estava quase saindo, foi retido pela pergunta.

– Gosto de ver as coisas explodirem…

Bianca não soube precisar quanto tempo ficou na sala, sozinha e estática. Era como se não fosse ela mesma. Parecia que aquilo havia acontecido com outra pessoa. Não sabia mais como se consolar. Perdera a maneira de acreditar que, em algum ponto, tudo ficaria bem.

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