COMPRESSÃO – Eulálio

Até ele se sentia um chato devido à tamanha insistência. Anos atrás, tinha ficado com uma aluna da Comunicação. Eles engataram um ficar constante. Sempre quando se encontravam em festas, travavam de beijos. Eulálio sabia que Monique esperava mais, contudo ele não estava disposto a namorar. Era calouro, enquanto ela já estava formando. Apenas uma recusa fez com que os dois não ficassem nunca mais. Da última vez que teve notícias, ela estava trabalhando na Diocese da cidade.

Com a recente dica de Teresa, não tinha noção de como localizar o famoso padre, confidente de sua avó. O nome de Monique não saltou de primeira na cabeça dele. Alguns dias se passaram até que se lembrasse disso, num estalo. Ficou contente consigo mesmo, era um sinal de que conseguiria elucidar a história completa dos Bersani’s.

A tarefa de localização não foi tão árdua, a receptividade da ex-ficante não se apresentou de igual maneira. Eulálio conseguira os telefones do trabalho e o celular, além de tê-la encontrado nas redes sociais. Por mais que tentasse, deixasse recados e insistisse, Monique não respondia.

Duas vezes, bateu na porta da Assessoria de Comunicação da Diocese para se falarem pessoalmente. Ou ela era muito compromissada, ou o estava enganando. Falava com as mesmas pessoas que sempre o reconheciam como o aluno da Administração, amigo da jornalista Monique, ansioso para conversarem.

Já não tinha tantas esperanças, quando o celular tocou:

– Ora, ora, ora… Quem diria que eu voltaria a ser procurada pelo simpático Eulálio? É um mundo muito inusitado. – Monique sentia-se superior com a situação.

– Eu também nunca imaginaria que você fosse capaz de me enrolar tanto. Isso não parecia ser do seu feitio.

-Hum… As pessoas surpreendem.

– Você quer me deixar surpreso de novo? Com sua bondade e atenção a mim?

– Não! Você é um caso perdido. – ela riu.

– Eu não penso dessa forma. E se a gente se encontrasse de novo? Poderíamos parar de onde terminamos?

– Aonde você quer me levar? – Monique começava a ceder.

– Num motel, durante três horas, por minha conta.

– E o que você quer que eu faça?

– Gostaria que você localizasse um padre pra mim, ele trabalhou por anos na Igreja de São José.

– Por que você precisa se encontrar com ele? – o faro jornalístico só ampliava as perguntas.

– Por causa de minha avó, eu… – Eulálio não podia revelar tanto. – Eu queria que eles se reencontrassem novamente. Acho que faria bem a ela retomar o passado.

– Que lindo! Que garoto delicado. Antes de eu responder, nosso programa está de pé? Pra amanhã, às 19h?

– Claro. Quero ver se você me aguenta.

– Vamos ver quem pede pra parar primeiro. – Monique debochou de volta. – Então, sinto te dizer que ele morreu tem uns quatro anos. Estava muito senil e esquecido, não falava nada com nada. Foi aposentado compulsivamente, não queria parar, tinha sido transferido para uma casa de repouso que é usada…

Tarde da noite, Eulálio remoía seus pensamentos, enquanto despachava memorandos. Não se preocupava, pois a empresa estava deserta. Também não tinha garantia nenhuma de que a tia Maria Marlene tivesse viva. Como ninguém falava dessa parente desgarrada, nunca conseguiria um endereço ou algum contato.

Passando pela sala da avó-poderosa, se assustou com a porta a ser aberta. Derrubou as folhas sem querer. Abaixou-se rapidamente e, de olhos fechados, encurvou-se. Pelos pés, percebeu que não era Lina, mas sim, sua secretária. Ela conhecia os netos da patroa, mas não sequer focalizou o estagiário, quando deu um polido boa noite.

Com a sala vazia e o local deserto, Eulálio decidiu apelar. Alguma agenda ou lista de contatos teria o nome da tia-avó. Sem pensar, adentrou no espaço austero e nada afável. A princípio, teve medo. Estava estagnado. Não sabia como proceder. Um pavor brotou ao perceber que iria desmacular o local.

De supetão, vasculhou gavetas, arquivos, pastas. Mexeu em agendas de compromissos, lista de contatos. Não lograva êxito. Sem saber se partia para a sala da sua avó, quase teve um espasmo quando a porta se abriu. Não dava pra dizer quem estava mais pálido, ele ou Dona Rosa, a diretora do RH:

– O que você está fazendo aqui? Está louco! – ela cochichou. – Sua vó está chegando. Tem uma reunião extraoficial comigo pra cortes de pessoas.

Eulálio rodou de um lado para o outro, como uma barata tonta. Não pensava direito, não raciocinava. Correu pra janela. Pular era uma burrice. Dona Rosa olhava para os cantos sem saber onde ele poderia ficar. Os dois começaram a escutar os passos. Lina aproximava. Eulálio sentiu o sangue descer para os pés. Num supetão, percebeu o buraco central na mesa da secretária, onde os pés descansavam. Se espremeu ali, ficando todo torto. Na pressa, a cadeira caiu.

Quando Lina abriu a porta, Rosa recolocava a cadeira na reentrância, apertando mais o garoto:

– Que cara é essa? Parece que viu assombração. Vamos, não quero sair tarde daqui.

Rosa não conseguia responder. O alívio incapacitara seus músculos. Passados alguns minutos, Eulálio cuidadosamente e silenciosamente pôs-se pra fora do esconderijo. Como um raio, correu para a própria sala.

Ele esperou pacientemente. Sabia que Rosa voltaria:

– Eulálio, eu nem sei o que dizer pra te repreender…

– Eu sei.

– Você se arriscou de mais. Se ela não passa no banheiro antes, estaríamos escorraçados. O que você queria?

– Eu estava procurando um telefone… ou endereço.

– De quem?

– Da minha tia-avó.

– Dona Maria Marlene? – Rosa assustou-se. – Desde quando você tem assuntos com ela? Sua tia sumiu para o mundo. Quem te falou dela?

– Minha mãe.

– Por que você precisa contatá-la?

– Eu… não sei. Me sinto mal em saber que ela existe e ninguém se dá ao trabalho de procurar. Acho injusto. Sei o que é ficar na margem. É muito ruim ser colocado de lado.

– Você nunca vai achá-la. Pode ter certeza.

– Por quê?

– As pessoas não acham Maria Marlene. Ela acha as pessoas. Ela vai vir até você.

– Como sabe disso? – ele não entendia.

– Meu primeiro emprego foi como secretária dela. Devo muito a sua tia-avó. Não garanto que vocês vão se encontrar, mas posso interceder por você.

– Me fale dela! Onde ela está?

– Não sei muito, nem poderia contar. Prometi nunca revelar nada. O que posso fazer é pedir que ela reapareça. De vez em quando, ela surge e nós nos falamos. É sempre quando ela quer.

Voando na moto, Eulálio se perguntou o que o impedia de desaparecer. O que o segurava no caminho de sempre, ao invés de seguir pela rodovia em busca de um novo começo e do anonimato? O que ele enxergava como revanche era simplesmente carência.

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