COMPRESSÃO – Camila

O cheiro de café fez com que ela acordasse. O sol aquecia as pernas. Era cedo, mas não se importava. Queria esticar a sensação de bem-estar e felicidade. Estava em paz, satisfeita com sua atual forma de viver. Trabalhava, lia e amava. Quem sabe escrevesse um livro com esses verbos, relatando os benefícios de se deixar levar, não se preocupar e aceitar as coisas como elas são. Um livro seria um exagero, com tanto clichê ao redor:

– Que sorrisinho gostoso. – André se jogou ao lado dela na cama e a beijou. – Dormiu bem?

– Extremamente.

– Fiz café. Leo dispensou você hoje?

– Sim, ele desmarcou tudo. Precisa fechar uma pesquisa importante.

– O que você quer fazer? Ficar aqui, me acompanhar até a universidade ou ir pra casa?

– Nenhuma dessas opções me agrada. – Camila fez uma careta. – Todas elas me separam de você.

André voou pra cima. Mais uma vez, naquela semana, eles iam praticar o famoso sexo matinal.

Subindo para a universidade, ela se questionou sobre nossos desejos. Quase sempre sonhamos de forma não condizente com a realidade. Por isso, ficamos frustrados. Não temos a capacidade de sincronizar nossa mente com aquilo que existe realmente:

– Você está sorrindo de novo. Eu sou o culpado por isso?

– Para você não ficar convencido, em parte sim.

– Eu também sou muito feliz por sua causa.

Em momento algum, ela enxergou momentos felizes e satisfatórios com André. Antes de ficarem juntos, só via entraves, problemas e confusões. Não acreditava ser possível vivenciar situações simples e banais, mas recheadas de paixão e intensidade.

A vida toma cada rumo. As situações vêm na hora que devem, sem que possamos controlar. O segredo da tranquilidade é aceitar com resignação tudo o que vier, tanto os momentos felizes, quanto as situações ruim.

No estacionamento da biblioteca, André e Camila trocaram um último beijo. Ele ia rumar para a faculdade, ela, depois de devolver alguns livros, ia passar em casa:

– Você lembra que nos encontramos aqui na biblioteca? Eu te dei uma carona. – ele comentou com a cabeça para fora do carro.

– Claro. Foi quando eu me apaixonei. E você, quando caiu de encantos por mim?

– Quando… – André matutou com o carro já em movimento. – Bem…, vou deixar no suspense. – E saiu pisando fundo.

– Danado! Te odeio! – Camila gritou, rindo.

Na biblioteca, enquanto checava uma estante, recebeu um beliscão na bunda. Deu um salto, já rindo, pois pensava ser André. Ficou acuada ao perceber que era Marcela, ex-colega de faculdade:

– Perdida? Procurando o quê? – elas se beijaram.

– Alguns livros de Antropologia… – Camila respondeu.

– Você é uma louca em trocar de curso. Ninguém entendeu. Você não reclamava do curso. Bem que falam, é onde menos se espera que vem o imprevisível.

As duas ficaram em silêncio. Camila se perguntou por quanto tempo ela conseguiria segurar a curiosidade:

– Sei que é um assunto pessoal. Mas é verdade que você assediou o professor André? – Pelo que parecia, a bisbilhotice falou mais forte. – Querida, todas podem desejar, só que a poucas é dado o privilégio de degustar. Aprende isso, amiga.

Camila se escandalizou internamente. Queria responder aquele disparate à altura, mas se recordou que, se fosse a alguns meses atrás, também seria incrédula como a ex-colega das Ciências Políticas:

– Você não deveria duvidar das coisas… Pode se surpreender. – Camila ousou pontuar.

– Um homem como o André pode escolher. Chove na horta com certeza. Provavelmente vai optar por alguém como ele, tipo uma professora super inteligente, uma empresária rica.

Camila estava com raiva desses comentários. Ela não se aguentou. Teve de soltar algo inflável para Marcela. Seria o primeiro passo para tornar tudo público:

– Se eu contar uma coisa pra você, jura que não revela pra ninguém? Não interessa! – ela não deixou a amiga responder. – Ninguém vai acreditar mesmo e eu posso desmentir, não há provas. Eu já beijei o André.

Marcela abriu a boca e ficou pasmada. Não conseguiu falar mais nada. Era aterrorizador. Por alguns instantes, ela ameaçava falar, mas não podia. Balançava a cabeça, negando:

– Só digo uma coisa: é perfeito. – Camila deixou-a para trás, com um sorriso de orelha a orelha.

Desde o início do tórrido romance, pela primeira vez, ela não se importava mais se haveria comentários ou julgamentos. É claro que seria vista como mentirosa, porque não contara a verdade aos professores, quando indagada sobre o suposto romance. Poderiam avacalhar afirmando que o amor brotou depois das suspeitas, como se André tivesse despertado para ela somente após as averiguações.

Com saudades e querendo comentar que já havia colocado em prática a tarefa de espalhar a notícia do relacionamento, Camila decidiu retornar à sede da Faculdade de Ciências Sociais. Estranhou, porque não havia quase ninguém. O local estava deserto.

Foi até o estacionamento e constatou que havia dois carros. O de André era um deles. Retornou ao prédio. Assim que pegou o telefone celular, escutou vozes. Se recostou numa parede, quase sendo coberta por um biombo alto que servia para colar avisos e informes. Ela se espremeu e contraiu a respiração.

André era um dos interlocutores. A outra pessoa era uma mulher. Quieta, tentou filtrar as informações:

– … vai gostar, é uma cidade ótima. Sou apaixonado. – ele comentou.

– Conto com a ajuda de vocês. Vim de uma metrópole. Tenho que descobrir os locais.

– Rapidinho você vai ficar por dentro de tudo. – André completou.

– Ah, nem creio que passei nesse concurso. Tinha tanto professor bom.

–  Queremos um perfil mais jovem e dinâmico como você.

– Agradeço o elogio. Você também é muito carismático e… disposto.

Camila sentiu que a mulher estava se insinuando. Apostava que ela ia dizer bonito. Inclinando-se ela espiou os dois. A professora recém-contratada era baixa, bunduda e de cabelos pretos escorridos. Ela estava sorrindo o tempo todo, enquanto André falava.

Ela sabia. Tinha sacado na hora. Como segurar André com uma concorrência forte? O primeiro passo seria marcar território e se impor perante ela. No entanto, Camila tremeu nas bases. Correndo, pela direção contrária, tomou o primeiro ônibus que viu passar. A confiança começara a fraquejar.

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