ADAPTAÇÃO – Bianca

Assim que chegaram ao Restaurante Universitário, eles se dividiram. Eulálio ficou conversando com um colega de curso, Camila tinha se dirigido ao banheiro, Suzana entrou na fila pra comprar os tickets, e Bianca foi deixar o material de mão no guarda-volumes.

Durante o trajeto, ela só escutou reclamações. O primo tinha sido deslocado para um trabalho penoso de arquivamento e eliminação de documentos. Ficava enfurnado numa sala mofada e fechada, relendo inúmeros materiais. Por incompetência, o volume de arquivos havia triplicado sem que houvesse qualquer ação de gestão.

Suzana não se sentia mais desafiada. Atuava no automático, totalmente estagnada. Passou a estagiar por três dias na semana, a fim de fazer matérias eletivas e obrigatórias. Transparecia que gostaria de sair da firma, no entanto, o ócio seria bem pior que o trabalho sem valor.

Já Camila comentava sobre o excesso de tarefas, leituras e atividades que o novo ciclo de Antropologia requisitava. Como era difícil ser caloura de novo. Para piorar, com vários novos clientes, não conseguia adiantar os afazeres no consultório. Queria muito pedir uma folga a Leo, mas não consegui pensar em deixá-lo na mão. O namoro com André também contribuía para esse turbilhão acadêmico.

Bianca, por outro lado, não tinha do que reclamar. Amava o que fazia, adorava o ambiente, tinha respeito pelos advogados da equipe, não podia conceber abandonar a firma. Porém, sempre há desvios que não estão na nossa alçada. Não depende de nós fugir ou evitá-los.

Prestes a ser atendida, uma mão pousou em seus ombros e amparou o excesso de material que carregava. Por ínfimo instante, curtiu a cortesia. Ao descobrir que era Júnior, empalidecera:

– O que você está fazendo aqui? – ele sorria como se não soubesse o teor de ameaça e medo que fazia atravessar o corpo dela.

– Vim encontrar minha namorada pra almoçarmos. Que bom que te encontrei. Posso matar o tempo. Quanto livro! Você é mesmo muito aplicada. Vai longe! – debochou.

Bianca olhou pra frente. Não gostaria que Junior se encontrasse com os primos:

– Vocês vão almoçar no RU?

– Tenho uma carteirinha falsa. – mostrou, com ares conspiradores. – Quando você vai voltar a minha casa? Dessa vez, Nando não estará lá, eu garanto. Você deu sorte.

– Se você está namorando, por que me deseja tanto? Passo a achar que você me ama e não sabe.

Junior deu uma risada sarcástica. Foi a vez de Bianca ser atendida no balcão. Ela contava com a saída dele. Não podia se ausentar dos primos por tanto tempo sem levantar suspeitas:

– Que curso sua namorada faz?

– Você ainda pergunta? Claro que é medicina. Então, você pode escolher entre hoje ou amanhã. É só aparecer. Estou doido pra testar você.

O dia estava ameno, o vento agradável. Inúmeras pessoas circulavam felizes e dispostas. Bianca queria ser uma delas, não desejava mais sofrimentos. Por uns segundos, o semblante zombeteiro de Junior a deixou proativa e determinada. Um basta necessitava irromper. Como voltar a crescer se continuava subjugada?

– Eu não vou! Prefiro virar freia a me deitar com você de novo. Faz o que você quiser. Publica no jornal, conta pra todos. Não me importo mais. Pra mim, você é totalmente desprezível.

E saiu anestesiada. Estava envolta numa névoa de indeterminação. Com aquele confronto, tinha certeza de que o retorno seria impactante. A resposta de Junior tenderia a ser catastrófica.

Quando retornou aos primos, eles conversavam sobre um assunto que não conseguiu romper a dispersão de Bianca. Sentia-se blindada. Sabia que uma revolução estava por vir, de maneira mais prodigiosa.

Não tinha medo, pois entendia que era pra bem. Às vezes o fogo destrói, poda, derruba. Porém, dá oportunidade para o novo se sobrepor e ressaltar. Uma virada, uma sacudida e uma remexida poderiam ser melhores que a inércia do terror:

– Você está quente demais! – Camila comentou quando os braços se encostaram na hora de arrumar os pratos. – Está tudo bem?

Bianca só balançou a cabeça. Na mesa, nem se lembrava do que colocou. Eulálio tinha um típico “prato de pedreiro”, com uma montanha de todas as opções do RU. Suzana priorizou mais a salada. Camila trazia uma arrumação mais balanceada:

– Eu não poderia supor o quanto a vida pode se transformar tão rápido. Há um ano, nunca poderia imaginar que eu estivesse trabalhando, cursando Antropologia e namorando. Nem eu acreditava em tanta potencialidade. – disse de maneira melancólica, mas estava satisfeita.

– Tenho mais de dois anos de experiência como estagiário da nossa futura empresa. – Eulálio debochou. – Não fui descoberto até hoje. Ah, também namorei, perdi minha moto.

– Eu não vou dizer que tenho ou estou tendo um relacionamento. – Suzana refletiu. – Só posso destacar que existe um homem em minha vida, pelo menos com mais constância, porque ele viaja tanto e não nos vemos com a frequência necessária. Troquei de estágio…

Os três fitaram Bianca. Esperavam um balanço. Apesar de ter escutado e entendido a insinuação, teve medo de falar. Tanto tempo segurando, sempre se fechando, parece que seu segredo havia estagnado. Não conseguia colocar pra fora as dúvidas sexuais, o medo de não ser capaz de ter prazer. Confortavelmente, o pavor havia se instalado a meio caminho: não descia e se assentava, nem explodia e se revelava:

– Somos tão novos… – disse, brincando com o garfo pelos alimentos. – Tudo isso pode ruir a qualquer momento. Ainda não dá pra controlarmos. Nem sei se é possível. Nós nos consideramos tão importantes e grandiosos, mas fazemos parte de um universo bem maior.

– Nos esquecemos disso. – Camila contribuiu.

– Quando menos esperamos, uma onda de devastação pode surgir sem qualquer chance de preparativo. – Bianca profetizou.

Os três pararam de comer. Lio deixou o garfo no ar. Suzana, de repente, não tinha mais fome:

– Não sabemos o que nos espera depois da faculdade, após a formatura. – Camila largou os talheres e olhou ao redor. – Achamos que é de um jeito e acabamos nos surpreendendo. Somos todos despreparados.

– Não concordo com vocês. Tem muita coisa imprevisível, mas com o tempo nos tornamos mais fortes, eu acho. – Suzana rebateu.

– Esse papo está muito cabeça para um almoço descontraído. – Eulálio cortou.

– Estou sem fome. – Bianca reclamou.

– Então, deixa comigo. – Lio enfiou o garfo e roubou o bife, além do potinho de gelatina.

Era costume do primo agir assim, fazendo a limpa nos pratos alheios. Porém, se sentiu magoada. Não queria mais interferências das pessoas. Como se tratava de seu caminho, deveria tralhar consigo mesma. Por isso, precisava demarcar bem seu espaço e a si mesma. Uma proteção partindo de dentro configurou-se em seus olhos. Mais um desafio, mais uma luta. Até quando? Em que momento estamos satisfeitos plenamente?

ADAPTAÇÃO – Eulálio

Sentiu ciúmes sim. Era normal e natural. A aproximação configurava-se como sutil, mas já era perceptível. As meninas da turma não ignoravam mais Bianca. Encostavam na prima, riam entre si. A intimidade começava a fluir. Enfim, ela havia se incluído:

– Sabia que fui chamada por três equipes diferentes para atuar no escritório de prática jurídica? – estava totalmente satisfeita.

– Quem te viu, quem te vê… – ele deixou no ar.

– Você está com inveja, Lio? Achei que você quisesse meu bem. – Bianca parou de arrumar o material.

– Claro que quero. Só estou surpreso.

Eles se levantaram no mesmo momento. Eulálio sentiu-se culpado por se sentir assim. Mesmo um estrangeiro no Direito, por várias vezes, era mais entrosado que a prima. Culpou a onda de azar na qual estava inserido desde que a moto fora roubada. Tudo tinha desandado.

Não conseguia se acostumar com o acordar mais cedo para enfrentar duas conduções até a faculdade. Passou a pegar o ônibus coletivo das empresas Bersani’s. Isso era um terror, pois se expunha mais. Quem fosse mais atento poderia descobrir que era um herdeiro. Com a correria e o estresse, o cansaço havia duplicado com a falta do veículo próprio. Se tivesse condições, compraria outra imediatamente:

– Sem resposta da polícia? – ela parecia ter escutado seus pensamentos.

– Desisti. Essa moto está perdida. Minha vida está perdida.

– Hum… As meninas não estão por aqui conforme combinamos. Vou ligar pra Suzana.

Eulálio se afastou da prima. Não gostava da situação atual. Logo agora que teria de fazer uma matéria obrigatória à tarde, não tinha como chegar no estágio por conta própria. Teve de pedir liberação de um dia. Pelo empenho, obteve, mas se sentia mal em receber um privilégio.

Sempre se irritava com as vantagens que os primos tinham. Havia se cansado de proteções e regalias gratuitas. Era contra isso, apesar de concordar com a meritocracia. No fundo, ele só queria ser igual, ansiava por fazer parte sem qualquer discriminação.

Naquele momento, se assustou. Ao longe, com os cabelos loiros voando, toda animada e descontraída, reconhecia-a: Catarina. Desde a festa do aniversário da empresa, não a tinha visto. Foi se afastando delicadamente da prima. A ideia era entrar na rota de colisão. Repentinamente se encontrava feliz novamente. Há tempos queira um reencontro. No entanto, não era ela.

A ‘falsa’ Catarina percebeu o olhar intenso. Ela retribuiu com um meio sorriso. Era muito igual de longe, totalmente parecidas. Eulálio pensou: se não teria a original, poderia se contentar com a similar:

– Elas estão a caminho. Vamos subir a pé para o Restaurante Universitário.

– Aquele grupinho que passou é do Direito? – Eulálio iniciou as investigações.

– Não sei. Acho que é sim.

Caso estivesse sozinho, teria se aproveitado e se aproximado:

– Sabe quem está me dando mole? – ele perguntou.

– Quem dessa vez?

– A Fatinha. Estou notando um interesse. Só que ela é tão amiga da Hélida. – explicou.

– A Hélida não tem direito algum sobre você. Ela namora.

– Não gosto de magoar.

– Lio, você consegue perceber se uma mulher finge, ou não está gostando do sexo?

Por um momento, ele parou de andar. Que pergunta era aquela? Desde quando a prima estava tão imersa em questões sexuais?

– Por que você está perguntando isso pra mim? Pergunta pra Suzana! Ela tem muito mais bagagem que nós.

– Ah, eu quero opinião masculina. Até que ponto um cara percebe que a mulher não está de corpo e alma no ato?

Eulálio não tinha tido tantas parceiras assim. Monique fora a última. Ela estava mais tranquila e aberta a experimentações. Com certeza, curtiram juntos. Talvez com Sheila, nunca fosse saber o quanto era fingimento:

– É uma percepção que não tem muita explicação. Pode ser clichê, mas o sexo é ato de comunhão, de ligação. Dá pra identificar sem compreender as razões.

Os dois ficaram pensativos. A vida é feita de máscaras. Existe sempre a necessidade de se encaixar às diversas situações. Com o sexo, não seria diferente. Às vezes, torna-se necessário simular, arriscar, esconder, se proteger. Não havia láurea ou classificações, mas os relacionamentos eram, sim, jogos. A felicidade seria o maior prêmio? O se sentir bem sem machucar o próximo representaria o ‘com louvor’ acadêmico de uma história de amor?

– Um namoro… Às vezes, parece uma grande competição.

– Sempre perdi. – Bianca disse baixinho, embora Eulálio tenha escutado.

– Se não nos preocupássemos apenas com nós mesmos, com nossos prazeres e com o medo de se mostrar, acho que seríamos mais libertos. – Eulálio filosofou de novo. – A gente sempre espera o que o outro vai dar, sem notar que também devemos oferecer… É mútuo.

– Cobra-se muito num relacionamento.

– Pior é quando cobramos de nós. Ficamos apertados sem curtir.

Suzana e Camila pararam no corredor, esperando o encontro:

– Que cara é essa? – Lio perguntou a Camila.

– André disse que me ama.

– Do nada? – Bianca perguntou e olhou para o primo. – Realmente existe muita convenção entre um casal.

– Tudo é tão simples, ou pelo menos deveria de ser. – ele respondeu.

– Um homem comentando sobre sentimentos. É algo inédito. – Suzana debochou. – O ser humano tem tudo menos a simplicidade. – completou. – Pra mim, foi essa efervescência que nos fez chegar onde estamos, nos evoluiu.

– O que eu faço? Como expressar que o amo sem parecer que fui forçada por que ele falou? – Camila soltou.

– Não faz nada. Ele ama você pela maneira que tem agido. Só mantém. – Ele estava inspirado.

– É…

Os quatro mudaram de rumo em direção ao Restaurante Universitário. Também trocaram de assunto. As convenções vieram com a pluralidade. Tantas situações pediam comportamentos menos simples. Com várias personalidades, o ser humano se desconheceu.

ADAPTAÇÃO – Camila

– Camila, o seu trabalho foi o primeiro que corrigi. É claro que te dei nota máxima. Você é muito boa.

Pela milésima vez, a sala inteira olhava para a garota que sorria disfarçando, com timidez, o ódio mortal experimentado. Aquilo era uma constante durante a aula de Diana. Nessas duas primeiras semanas, todas as vezes, a professora dava um jeito de elogiá-la: comentava sobre as roupas, pedia comentários e ficava muito satisfeita, colocava-se em discussão para sempre ressaltar o quanto era inteligente.

Para a adaptação na nova turma, aquele destaque era péssimo. Camila estava mais isolada. A inveja criada por Diana só não afastou Victor. Todas as atividades em dupla e em grupo eram desempenhadas com ele:

– Já escutou o que falam da Diana em relação a você? – perguntou na inocência. Camila, por um triz, pediu pra não saber. – Dizem que ela é lésbica e está afim de você.

Isso de novo? Mais uma vez, era o epicentro da fofoca envolvendo um professor. Dessa vez, o assunto era bem mais tórrido por ser homossexual:

– É lógico que isso não procede. Para que ela ia se expor assim, na frente de todos? Se Diana me quisesse, teria me procurado fora da sala. Nosso contato se resume às aulas. Além do mais, esqueceu que ela está em estágio probatório. É muito ruim pra reputação.

Fingindo revisar a recente escrita, ela pensou em André. O estágio probatório não evitou o namoro dos dois. A atração foi bem mais forte. No entanto, ainda estavam em segredo perante a faculdade:

– A turma vai ao cinema hoje. Vamos? – Victor mantinha a esperança de que, um dia, ela aceitasse.

– Vou trabalhar até tarde de novo. Não posso.

Até o fim da aula, Camila divagou sobre a professora. O que ela ganhava com isso? Ela não deveria, pelo contrário, tentar denegri-la, fazê-la se sentir mais burra e menos capacitada? Se realmente queria André, essa tática era bem fajuta:

– Claro que não é. – opinou Suzana. – Ela é bem mais esperta do que eu imaginava. Tenho que tirar o chapéu. Ela é uma gênia.

– Você escutou o que acabei de dizer? Não tem sentido ela me levantar e me colocar no topo, se quer me destruir pra acabar comigo.

– Espera aí. – Suzana a segurou pelo braço, cortando a caminhada. Elas tinham acabado de sair dos corredores da Faculdade de Ciências Sociais. – Você tem certeza de que ela sabe que você e o André estão juntos?

– Suzana, é claro que sei. Eu sou mulher, a gente sente essas coisas. Diana é uma cobra ou uma loba em pele de cordeiro. Tenho certeza de que ela está tramando. O olhar dela entrega.

– Então, é mais ardilosa do que eu pensava. Ela não quer destruir você. Simplesmente está tramando para que você se destrua. Ela se insinua com o André?

– Morro de ciúmes vendo os dois conversarem. É tão íntimo.

– Diana está agindo em duas frentes.

– Fala baixo. – ralhou Camila. – Pode ter conhecido.

– Que se dane! É bom que ela saiba que matei a charada. Pois bem, num primeiro momento, ela está, na verdade, diminuindo suas certezas em relação ao André. Ela quer te fazer acreditar que ele estaria melhor com ela, que eles se merecem, que o namoro de vocês é fadado ao fracasso. Essa atitude é bem sutil. Por outro lado, ela te valoriza onde? Na sala de aula! Assim, ela ajuda você a criar admiradores e possíveis ficantes que vão atentar.

– Claro… Para que, naturalmente, eu acabe traindo o André por minha causa mesmo. Você tem muita razão, prima. Ela é muito esperta. Ela age para que eu cause o término.

– Não te falei?

As duas voltaram a caminhar. A mente de Camila fervilhava. Era um jogo. Por enquanto, estava perdendo, ou melhor, deixara a adversária avançar e dominar. Era a hora de contra-atacar:

– Você se importa se eu voltar à faculdade?

– O que você vai fazer?

– Revidar.

– Eu quero ir junto. Vou dar uma olhada nessa biscate.

A situação tinha mudado. Podia perder muito se deixasse a vida levá-la, se não fizesse nada. Pisando fundo, quase correndo, não se importava se Suzana a acompanhava ou não.

Passaram primeiro no gabinete próprio de André, estava fechado. Na secretaria, não o tinham visto. Se dirigiram ao estacionamento:

– Ele tem uma reunião à tarde. Deve ter ido almoçar bem rápido. Com ela! – Camila constatou.

– Liga pra ele. – Suzana sugeriu. – Opa! Bianca está chamando. Vou atendê-la.

Suzana virou as costas para a prima. Camila hesitou. O sangue estava mais calmo. Não queria transparecer desespero para André. Há poucos dias, ele questionou que ela estava mais quieta, irritada e ciumenta. Agora tudo parecia culpa da influência de Diana. Naquele momento, o telefone tocou. Era André:

– Ei.

– Camila, eu nem confirmei se você ia realmente almoçar com seus primos no Restaurante Universitário. Vocês estão juntos?

– Sim. Suzana está comigo já. Vamos encontrar com Bianca e Eulálio daqui a pouco. Por que você quer saber isso?

– Acabei de chegar ao shopping sozinho. Se você não tivesse companhia, ia voltar pra te pegar.

– Que lindo! – ela transpareceu mais melancólica que amorosa.

– Você está bem? – quis saber. – A aula foi boa? Está cansada?

– Não. Nada aconteceu. Obrigado pela lembrança, mas preciso conversar com os primos. Posso passar na sua casa depois do trabalho?

– Eu tenho que organizar minhas aulas.

– Eu não vou atrapalhar, tenho que ler um caminhão de xerox. – Camila justificou.

– Tudo bem, espero você.

– Obrigada. Tchauzinho.

– Até mais, amo você.

Camila ficou muda. Era a primeira vez que ele se declarava. A ligação ficou em suspenso. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

Queria dizer que o amava também. Contudo, não desejava parecer que tinha sido apenas como uma resposta:

– André, eu… tenho de desligar. As meninas…

– É, eu sei. Vá lá. – e desligou.

– O que foi? – Suzana estava tensa. – Você está branca! Eles estão juntos? Quer que eu te leve até eles de carro?

– Não. André disse que me ama, de maneira natural. Ele está sozinho.

– Vamos. Acho que nos preocupamos demais. – Suzana abraçou-a pelo ombro. –Tudo está garantido.

Estaria mesmo? A vida era tão imprevisível. Por mais que nos preparemos, ela dá um jeito de abalar e assustar.

DISTRAÇÃO – Bianca

Por que não conseguia se abrir com detalhes como a prima? As pessoas achavam que Bianca não tinha nada de extraordinário em sua vida, por isso, não se expunha, nem se mostrava. Realmente não tinha vivência, mas havia inquietações e dúvidas. Explanar seria um bom caminho.

Enquanto esperava por Camila retornar do banheiro, teve a impressão de ter visto Nei pela festa. Estranhou. Não era do feitio do irmão aquele ambiente. Por um momento, teve receio de Júnior estar por perto. Não tardaria para que ele revelasse o passado negro que viveram. Estava certa nisso:

– Bianca! – ela se assustou. Pensou que poderia ser o ex-namorado. – Me desculpa. Não quis assustá-la.

– Tudo bem. – ela sorriu, totalmente sem graça. – Estava distraída. Quanto tempo, Carlos.

– Você é quem não me vê. Vou quase sempre ao escritório do pai e você está sempre atolada e atarefada.

– Acho que isso é um elogio.

– Certamente.

Começaram a conversar trivialidades sobre o escritório de advocacia que ele herdaria. Bianca se sentia bem perto do rapaz, embora não soubesse determinar qual era o real interesse: ele gostava dela? Era simpático ou tinha sido cativado? Com pouca interação, não conseguia precisar o porquê da recorrente procura de Carlos.

Nesse momento, não tão distante, Bianca era observada por Luca. Era a primeira vez que a via desde o beijo roubado. Uma pontada estranha brotou, um ciúme prévio talvez. Queria ir até os dois. Resolveu se afastar:

– Você vai muito ao cinema? – Carlos se interessou.

– Não tanto.

– Posso te chamar um dia?

– Ei. – Camila retornou. – Olá…

– Carlos, prazer, sou filho do chefe da Bianca. – apresentou-se.

– Oh, prazer. Eu sou prima dela, Camila. – os dois se beijaram. – Desculpe interromper, mas eu quero ir embora. Estou ligando para Suzana e Eulálio que me ignoram.

– Vamos procurá-los. Se não acharmos, vamos de táxi.

– Posso levar vocês. – Carlos foi solícito.

– De jeito nenhum. A festa está ótima. – Bianca recusou.

– Não me importo. Anota meu celular. Se vocês foram descer, me liguem.

Camila olhou atravessada para Bianca, assim que deixaram Carlos:

– Ele gosta de você.

– Gosta nada. Ninguém gosta de mim. – Camila se assustou com o ressentimento da prima.

– Bianca, não pense assim. Você é jovem, bonita, inteligente, esforçada.

– Você não sabe de nada. – cortou.

– Uai, era aqui que deixamos a moto do Lio. Ele foi embora? – Camila desviou o assunto. – Deve estar na maior putaria, esse menino.

– Suzana também…

– Vamos de táxi? Ou quer chamar o apaixonadinho por você para nos levar?

– Lógico que não vou ligar pra ele.

Bem afastadas da festa, atentas para um veículo amarelo, não viram a aproximação de Suzana com Paulo:

– Aonde vocês estão indo? Já vão embora?

As duas ficaram chocadas. Paulo deu um beijo na bochecha da prima, acenou com a cabeça e saiu. Caladas, viravam o pescoço acompanhando o homem que se afastava, enquanto a prima sorria:

– O que foi? – Suzana transparecia inocência.

– Você pegou o cara mais cobiçado…

– E galinha. – Bianca completou.

– … da universidade? Ele não fica com quase ninguém. Gosta apenas de seduzir, encantar e perceber que é desejado para nem ao menos dar um beijo.

– Não só peguei, como dei pra ele diversas vezes. O cara é bom. Faz jus à fama. Realmente poucas escolhidas merecem aproveitá-lo.

– Suzana, você já tinha contato com ele? Vocês se conheciam? – Camila questionou.

– Sabia de nome, eu acho. Uma vez, ele estava numa palestra, mas não marquei a cara dele. Nós nos esbarramos hoje. Era o destino.

– Primas! Aconteceu uma tragédia, uma merda com letras maiúsculas.

As três se sobressaltaram com olhos esbugalhados e assustados. Ele estava elétrico:

– Roubaram minha moto.

– O quê? – Suzana gritou.

– Como assim? Fica calmo! – Camila tentou.

– Eu não sei o que fazer. – ele estava prestes a chorar.

Os quatro correram até o local onde a moto tinha estado:

– Foi aqui. Juro que deixei aqui. Não foi, Camila? – Ela concordou. – Como tiraram minha moto sem ninguém ter visto?

– Vou chamar a polícia! – Suzana sumiu.

Camila enlaçou o primo para ampará-lo. Antes de imitá-la, Bianca achou Luca conversando abraçado com uma garota baixinha e esquisita. Ele falava de maneira apaixonada e sincera, ao pé do ouvido da moça, que nitidamente estava desatenta e fora de área. Teve inveja. Se imaginou naquela posição. Um estremecer percorreu todo o seu corpo:

– O que você está fazendo aqui? – Camila disse de maneira assustada.

– Eu liguei pra você milhares de vezes, depois das suas 14 chamadas. Não viu?

Por um momento, todos se esqueceram da moto. A aparição de André só poderia ser descrita como mágica:

– Fiquei desatenta. – ela ainda estava estática e abismada. – Você veio sozinho?

– Claro. Sem resposta sua, larguei aquilo tudo e vim ficar contigo. Sei que foi a Carolina quem ligou. Mas eu faço tudo mesmo é pela Camila. Sou fiel a ela.

A garota desgrudou-se de Lio e abraçou o namorado. Bianca sorriu. Ela pareou o primo, segurando-o pelos ombros.

Pensou nas perdas. Ao olhar Camila, resumiu que às vezes, achamos que as coisas se foram, mas elas permanecem. Apertando Eulálio, considerou que, em momentos, com um simples piscar, tudo desaparece. Quando percebeu o retorno de Suzana, lembrou que, sem sentir, podemos deteriorar o redor. Quanto a ela, ponderou estar cansada de ver positividade em meio a tantas privações.

DISTRAÇÃO – Camila

Pela décima terceira vez, o telefone chamou, chamou e ficou sem resposta. André devia estar realmente entretido. Camila só ficava mais aflita. Sem muita fé, tentou outra vez. Ele atendeu, ou melhor, alguém aceitou a chamada. O barulho era enorme, muito falatório:

– Alô! Alô! André! – gritou.

Aos poucos, o som foi se acalmando até ficar mais tranquilo. Camila olhou o visor. Achou que tinha caído a conexão:

– André? O que está acontecendo?

– Oi!

Camila ficou petrificada com a voz feminina que irrompeu pelos seus ouvidos. Não soube identificar a origem de tanto ódio. Não precisava de apresentações. Identificava Diana como se a conhecesse há anos:

– Onde está o André?

– Ah, não sei… – ou ela estava bêbada ou se passando de cínica. – Ele está por aí… Cansei de sentir o celular vibrando perto de mim. Quem quer falar com ele?

– É Ca… – ela se suprimiu. Lembrou que tinha sido listada como ‘C’ no telefone dele. – Carolina. Posso falar com André?

– Eu não sei onde ele está. Quer deixar recado?

– Não.

– Por acaso, você é a misteriosa namorada?

Camila apertou o celular com força e trancou as pernas. Estava possuída de raiva. Bianca a encontrara com o semblante mais bravo possível:

– Eu… Só… Deixa. Ele retorna.

– Então, está bem. – e desligou.

Camila perdera a voz:

– O que foi? – Bianca quis saber.

– Espera!

Rediscou para André. Fora em vão. A mensagem alegava fora de área ou desligado. Camila sabia que Diana era capaz de tudo:

– Aquela vaca, aquela safada! – esbravejou.

– Quem?

– A professora nova, Diana. Ela está roubando André de mim. Minha vontade era aparecer naquela festa. Acredita que ela desligou o telefone dele? E por que ele deixou o celular com ela? Que bandida! Que praga!

– Camila, fica calma. Foi um imprevisto.

– A gente sabe, sempre sabe. Eu sei no meu íntimo que ela está armando, pronta para um bote.

– Vem. Vamos achar os primos. Se for o caso, eu me vou de táxi contigo aonde você quiser.

Sem pensar em mais nada, sem focalizar a festa, Camila seguia Bianca, até o momento em que foi parada:

– Engraçado. No caminho, achei que vi Nando. Agora posso jurar que vi Sandro passar. Eles não iam para uma festa num sítio?

Camila não respondeu. Não se importava:

– Quem é aquela que está vindo para cá? – A prima perguntou.

Com um desgosto marcante, apresentou Bianca a Marcela, ex-colega das Ciências Políticas:

– Não imaginava que você viria.

Bianca não entendeu a indireta. Camila, por sua vez, sabia do que se tratava. Marcela não ficava sem graça por ter forçado a barra na intimidade:

– Por quê? – fez-se de desentendida.

– Soube que nossos professores estão num jantar para eles com maridos e mulheres. Pensei que você fosse ser uma acompanhante.

Como ela sabia dessas coisas? Não desejava dar satisfações. De fato, não precisava. Para Marcela, qualquer resposta seria uma farsa. A ausência de André ao lado dela e a falta no jantar dos professores indicavam mentira pura:

– Posso falar? Não imaginava que você pudesse ser tão… falsa! – Marcela soltou sem pudores.

– Quê? – Bianca olhava de uma para a outra. – Menina, do que você está falando?

– Camila sabe. Ainda bem que não acreditei. Imagina se eu espalho essa fofoca irreal de você com o André.

Antes que pudessem arquitetar uma resposta, um bando de pessoas emergiu entre elas. Eram calouros e veteranos das Ciências Sociais. Faziam farras e gritavam:

– Essa daqui nos abandonou. Foi para a Antropologia. – Marcela destacou Camila. – Não é mais veterana de vocês.

– E essa daqui fala de mais. Cuidado com ela! – Bianca repetiu o gesto feito para a prima, mudando o foco para Marcela.

– Eu também vou começar o ciclo de Antropologia. Como você se chama?

Um garoto novinho, com muita cara de adolescente e porte raquítico, chacoalhou uma mão de Camila. Ela respondeu quase inadiavelmente:

– Sou o Victor. – ele emendou.

– A gente se vê na aula. – Camila deixou o grupo.

– Sem paciência? – Bianca a seguiu.

– Sem cabeça também. Preciso de uma água. Vamos pegar uma?

– O que você quiser.

Bem longe do grupo, Camila se virou para observá-los. Victor ainda a encarava com uma cara em branco. Ela lançou um sorriso. Ia pertencer àquele conjunto, se ligar a eles. No entanto, nunca seria parte. Já tinha passado pelo início de um novo ciclo de estudos no Bacharelado, não estava límpida e transparente, tinha bagagem, marcas e experiência. Um recomeço é totalmente diferente de um começo simples.

Num local mais calmo da festa, o telefone de Camila chamou várias vezes dentro da bolsa, enquanto desabafava com a prima. Não percebeu. Para ela, tinha perdido o amor, embora, muitas das vezes, temos sucesso sem que nada precise ser feito por nós mesmos.

DISTRAÇÃO – Suzana

Perdida em pensamentos, Suzana esperava por Bianca descer. Focava o pisca-alerta sem perceber que estava prestes a ser multada. Um guarda de trânsito havia passado pela terceira vez, e o carro permanecia no mesmo local. Ele se decidia se valia a pena pelo horário avançado. Ela voava internamente, bem desligada.

Pegou o celular inúmeras vezes. Pagaria uma fortuna por uma ligação internacional. Por isso, desistiu. Durante o dia, arquitetou uma forma de usar o telefone da empresa. Não achou a coragem. Como se expor com a tremenda distância? Talvez o problema não fossem os milhares de quilômetros, mas sim, o receio em se abrir. Não queria ser a indefesa ou a pobre coitada que precisa de um homem para se proteger. Além do mais, achava que devia partir de Igor o contato. Ele tinha, subitamente, viajado mais uma vez. E não a havia procurado, estava incomunicável. As coisas se transformam muito rapidamente, sem nos darmos conta:

– Suzana, desculpa te fazer esperar. Nós não combinamos mais tarde? – Bianca deu um beijo estalado.

– Sem problemas. Adiantei.

A prima comentava os casos loucos, as situações bizarras, as intimidades de família. Imersa na própria dúvida e preocupação, Suzana achava que era uma forte candidata a problemas jurídicos no futuro:

– Não aguento mais andar. – reclamou Bianca. – Quando voltarmos pra pegar o carro, teremos que percorrer isso tudo de novo?

– Nunca vi a universidade tão cheia. Quanta gente gata.

Quando elas decidiram ligar para Camila ou André, Bianca apontou:

– Não é o Lio, travado de beijo na boca?

– Cadê? – Suzana mirou o dedo apontado. – Que fogo! Bom pra ele! Quem é?

– Parece que é uma garota da minha sala, a Hélida. Mas ela tem namorado! – Bianca matutava.

– Ou não tem mais, ou essa Hélida está numa puta traição. Vamos lá deixá-los sem graça?

Puxando a prima, saiu em disparada. Quando estavam quase chegando, ela se colidiu com um cara. Os dois se chocaram e caíram para trás, de bunda no chão. Bianca conseguiu se manter em pé, apesar do puxão que levou.

Suzana e o rapaz rapidamente se levantaram. Ela se batia para limpar a sujeira. Ele a encarava, estava deslumbrado. Não tardou para Eulálio se juntar ao grupo. Hélida ficou gelada ao encarar Bianca:

– Você está bem? – o desconhecido perguntou.

Suzana estava possessa. Ia levantar o tom de voz, mas ficou sem fala. Ele era um deus, todo grande e malhado. Os cabelos espetados, um sorriso luminoso e os olhos verdes falsos maravilhosos. Ela sabia quem era:

– Estou… Não foi nada. Não vi você.

– Nem eu. – E os dois riram, entregando estarem encantados.

– Ei, Hélida. Animada para voltar a estudar? Como foi de férias? – Bianca perguntou.

– Claro. – ela sorriu sem graça, sem raciocinar. Rapidamente descolou as mãos dadas com Lio. – Minhas amigas devem estar me procurando. Tchau!

Eulálio se assustou. Olhou feio pra Bianca:

– Porra! A ficada estava prometendo se esticar. Hélida é facinha, eu ia levá-la pra outro lugar. Mas você tratou de lembrá-la do namorado.

– Isso não é certo. – Bianca respondeu. – Vai render confusão.

– Para os dois. Tem tanta gente aqui! Você vai arranjar outra rapidinho. – Suzana intrometeu-se.

– Tem razão. Vamos em busca da quinta menina da noite.

– Cruzes! Depois pega sapinho e não sabe o porquê. – Bianca ralhou.

Eulálio saiu, seguido de Bianca. Suzana e o rapaz ainda se observavam:

– Me desculpe. Sou o Paulo, da Química.

– Antunes?

– Exatamente. – ele riu. – Me conhece?

– Você tem uma fama… Eu sou Suzana, faço Engenharia Civil.

– Bersani?

– Sim.

– Você também é famosa. – ele a deixou sem graça.

– Meus primos estão me esperando. – Bianca acenava. – Nos vemos por aí?

– Acho que não. Prefiro não deixar por conta da sorte. Podemos nos rever aqui, nesse mesmo lugar, em 15 minutos?

– Não sei…

– Vou ficar te esperando.

Suzana não deu resposta. Saiu rebolando e se sentindo a mulher mais gostosa do pedaço. E também, a mais desafortunada. Chamara a atenção do cara mais cobiçado e idolatrado da Universidade.

Eulálio logo foi cantar outra garota que riu pra ele no momento em que passavam. Bianca ligava pra Camila. Suzana pensava se seria capaz de trair Igor. Estava totalmente atraída por Paulo. Sabia que seria um estrondo. receava destruir sua atual relação.

Olhando em volta, pensou se Igor se fazia a mesma pergunta. Viajando sempre, conhecendo inúmeras pessoas, ele também deveria se sentir tentado. Que garantia ela tinha de fidelidade?

Bianca contatou Camila, marcando de se encontraram numa outra entrada da festa. Pediu para que Suzana esperasse com Eulálio naquele mesmo lugar. Com o primo já chupando a orelha da garota, Suzana resolveu sair de perto. Se ficasse vendo a cena, só se sentiria mais tentada.

Corajosa e temerária, foi se dirigindo lentamente pelo local da colisão. Paulo olhava-a de frente, com os braços cruzados e o porte sério. Suzana sabia que não ia resistir:

– Você veio rápido.

– Não sou de esperar. Quando quero, vou atrás. – ela respondeu.

– Você me quer. – ele disse triunfante.

– Você me deseja. – ela roçou uma perna na parte dura e volumosa da calça. Paulo recuou incrédulo.

– Não me provoca!

– Não sou disso.

Suzana pulou no pescoço dele e enganchou as pernas na cintura. Paulo rapidamente a abraçou. Suzana já se exasperava de prazer. Ele era muito forte, tremendamente intenso, imensamente delicioso.

Perdeu a noção do tempo, do lugar, dos fatos. Quando abriu os olhos, depois de mais uma gozada, o carro estava embaçado de suor. Estava deitada em cima de Paulo, com as costas apoiada no peito dele. Não acreditava como conseguiu fazer tanta coisa dentro de um automóvel, sendo ele tão grande e pesado.

Paulo assoprava no pescoço da garota, quase querendo mais. Suzana achava que fora rápido demais. Agarraram-se na festa, depois estavam a caminho do estacionamento, sem saber se andavam ou beijavam. E dentro do carro foi uma loucura. Ele recomeçou a acariciá-la, até que a garota focalizou o aparelho de som apagado. Sem música internacional de impacto, sem cumplicidade sentimental, sem Igor. Apenas carne, desejo e prazer. Atacou-o de novo, porque a culpa da traição a cortava. Tinha cruzado uma linha perigosa.

DISTRAÇÃO – Eulálio

Enquanto esperava Camila descer, Eulálio observava o trânsito tranquilo. O ar também estava ameno, nem muito úmido, nem tão seco. A excitação percorria o próprio corpo. Há quanto tempo não se sentia tão disposto e empolgado? Nem acreditava que as primas haviam concordado, embora Suzana e Bianca pudessem desistir. Ambas iriam mais tarde, após o estágio, para a festa de boas-vindas ao novo semestre letivo.

Ele havia convidado todas com o objetivo de demonstrar uma maior proximidade. Por semanas, estiveram isolados, descansando e dando um break no cotidiano. Os quatro sentiam falta e saudades, porém, estavam imersos em questionamentos e dúvidas singulares, além de uma certeza de incompatibilidade e incompreensão.

Eulálio não havia contado a ninguém a respeito da sua busca por informações da família. Não pretendia ser desmotivado, muito menos desacreditado em seu empenho detetivesco. Ele mesmo se perguntava se não estava indo longe demais ou perdendo tempo nessa busca desenfreada:

– Se a gente beber demais, como faz? Se eu estiver zonza, desço de táxi. – Camila abraçou-o e pegou o capacete. – Não corre muito, fico nervosa.

Rindo, ele fez o motor roncar. A prima deu um tapa nas costas do piloto.

O espaço central do campus fervilhava de pessoas. Grande parte dos alunos tinha voltado antes para se aclimatarem a mais um período letivo. Isso garantiu o sucesso da festa, organizada pelo Diretório dos Estudantes:

– Isso está top! – Camila resumiu.

– Promete. – Lio riu.

Os dois circularam, compraram bebidas e se empolgaram:

– Hoje não fico sozinho nem a pau! – ele disse. Ao perceber que a prima não respondera, deu-lhe uma cutucada. – O que foi?

– Perdi o André.

– Vocês terminaram?

– Antes fosse. – ela se virou e saiu andando.

– Camila, deixa de palhaçada. O que está acontecendo?

– Lio, você não veio para escutar minhas lamúrias. Você também se recusa a falar de si. Por que eu deveria me abri contigo? Vamos procurar uns conhecidos. – Camila tentava se afastar.

– Nada disso! Quero saber. O que o André te fez?

Ela respirou fundo. Olhou para os lados. Não teria escapatória:

– É uma professora nova, recém-admitida. Chama Diana. André só sabe falar dela. Estão super amigos e juntos. Sinto que ele está caindo na dela. Agora estão num jantar para os professores. A princípio, eu ia. Depois, ele achou melhor não misturarmos as coisas em demasia. Além disso, desistimos de revelar nosso namoro para a faculdade. Não, foi ele quem achou melhor esperarmos. Ele decidiu.

– Prima, nada aconteceu, não é?

– Não, é só uma sensação, um sexto sentido. Estamos perdendo a ligação…

De repente, Camila parou de falar e abriu a boca. Ela estava paralisada. Eulálio não compreendeu e se virou. Era uma miragem:

– Não pode ser… – Camila disse abaixando o tom de voz.

Maurício e Sheila estavam abraçadinhos, se beijando, se paparicando:

– Isso é real? – Eulálio cogitou.

– Pode ser uma revanche. – Camila supôs.

– Será que é para nos atingir? Eles se abraçaram exatamente na nossa frente para nos deixar com ciúmes?

– É inconcebível e ultrajante. Mas pode ser divertido. – Camila estava sendo sacana. – Vamos fazer uma loucura? Tem coragem? – Eulálio fez que sim. O que teria a perder? – Vem.

Camila o puxou e o levou para mais a frente. O objetivo era ficarem bem visíveis. Ela o abraçou. Os rostos se aproximaram. Eulálio puxou fundo a respiração:

– Camila, tem certeza?

Os dois se beijaram. No início, foi estranho. Depois, foram desenvolvendo, intensificando. Pararam naturalmente, quando deu vontade:

– Você beija bem, Lio.

– Camila, você é gostosa mesmo.

Os dois sorriram, voltando a se abraçarem. O gesto só piorou a situação. Enquanto se beijavam, foram acompanhados por pasmos Maurício e Sheila. A cumplicidade trouxe mais consternação. Quando os quatro se viram, a ex de Eulálio segurava as lágrimas. Ela virou as costas e sai correndo:

– Quanta enganação… Não podia imaginar! – Maurício era a decepção em pessoa. Ele também se retirou.

Camila e Eulálio ficaram sem graça. Rodaram pela festa sem comentar nada. No entanto, um questionamento tomava vida dentro dele:

– Você já ficou com Sandro, Nei, ou Fernando?

– Não!

– Estou no lucro.

– Você considera um beijo como uma ficada?  – ela questionou.

– Claro! Mesmo na palhaçada, mesmo efêmero, nós nos conectamos.

Camila permaneceu um pouco pensativa:

– Vou ligar para o André. Acho que vou ao estacionamento. Tem menos barulho.

Eulálio se questionou se teria despertado emoções na prima. Ele não sentiu nada com aquele beijo, a não ser divertimento. Dando de ombros, voltou–se para a festa. Nada de neuras naquele momento.

No caminho de comprar mais bebida, encontrou uma veterana da Administração. Eles sempre se olharam atravessado. Naquele dia, tudo estava claro e direto demais. Cumprimentaram e logo estavam se beijando. Eulálio só pensava que pra ser feliz, ações e coisas simples bastavam.