DISTRAÇÃO – Eulálio

Enquanto esperava Camila descer, Eulálio observava o trânsito tranquilo. O ar também estava ameno, nem muito úmido, nem tão seco. A excitação percorria o próprio corpo. Há quanto tempo não se sentia tão disposto e empolgado? Nem acreditava que as primas haviam concordado, embora Suzana e Bianca pudessem desistir. Ambas iriam mais tarde, após o estágio, para a festa de boas-vindas ao novo semestre letivo.

Ele havia convidado todas com o objetivo de demonstrar uma maior proximidade. Por semanas, estiveram isolados, descansando e dando um break no cotidiano. Os quatro sentiam falta e saudades, porém, estavam imersos em questionamentos e dúvidas singulares, além de uma certeza de incompatibilidade e incompreensão.

Eulálio não havia contado a ninguém a respeito da sua busca por informações da família. Não pretendia ser desmotivado, muito menos desacreditado em seu empenho detetivesco. Ele mesmo se perguntava se não estava indo longe demais ou perdendo tempo nessa busca desenfreada:

– Se a gente beber demais, como faz? Se eu estiver zonza, desço de táxi. – Camila abraçou-o e pegou o capacete. – Não corre muito, fico nervosa.

Rindo, ele fez o motor roncar. A prima deu um tapa nas costas do piloto.

O espaço central do campus fervilhava de pessoas. Grande parte dos alunos tinha voltado antes para se aclimatarem a mais um período letivo. Isso garantiu o sucesso da festa, organizada pelo Diretório dos Estudantes:

– Isso está top! – Camila resumiu.

– Promete. – Lio riu.

Os dois circularam, compraram bebidas e se empolgaram:

– Hoje não fico sozinho nem a pau! – ele disse. Ao perceber que a prima não respondera, deu-lhe uma cutucada. – O que foi?

– Perdi o André.

– Vocês terminaram?

– Antes fosse. – ela se virou e saiu andando.

– Camila, deixa de palhaçada. O que está acontecendo?

– Lio, você não veio para escutar minhas lamúrias. Você também se recusa a falar de si. Por que eu deveria me abri contigo? Vamos procurar uns conhecidos. – Camila tentava se afastar.

– Nada disso! Quero saber. O que o André te fez?

Ela respirou fundo. Olhou para os lados. Não teria escapatória:

– É uma professora nova, recém-admitida. Chama Diana. André só sabe falar dela. Estão super amigos e juntos. Sinto que ele está caindo na dela. Agora estão num jantar para os professores. A princípio, eu ia. Depois, ele achou melhor não misturarmos as coisas em demasia. Além disso, desistimos de revelar nosso namoro para a faculdade. Não, foi ele quem achou melhor esperarmos. Ele decidiu.

– Prima, nada aconteceu, não é?

– Não, é só uma sensação, um sexto sentido. Estamos perdendo a ligação…

De repente, Camila parou de falar e abriu a boca. Ela estava paralisada. Eulálio não compreendeu e se virou. Era uma miragem:

– Não pode ser… – Camila disse abaixando o tom de voz.

Maurício e Sheila estavam abraçadinhos, se beijando, se paparicando:

– Isso é real? – Eulálio cogitou.

– Pode ser uma revanche. – Camila supôs.

– Será que é para nos atingir? Eles se abraçaram exatamente na nossa frente para nos deixar com ciúmes?

– É inconcebível e ultrajante. Mas pode ser divertido. – Camila estava sendo sacana. – Vamos fazer uma loucura? Tem coragem? – Eulálio fez que sim. O que teria a perder? – Vem.

Camila o puxou e o levou para mais a frente. O objetivo era ficarem bem visíveis. Ela o abraçou. Os rostos se aproximaram. Eulálio puxou fundo a respiração:

– Camila, tem certeza?

Os dois se beijaram. No início, foi estranho. Depois, foram desenvolvendo, intensificando. Pararam naturalmente, quando deu vontade:

– Você beija bem, Lio.

– Camila, você é gostosa mesmo.

Os dois sorriram, voltando a se abraçarem. O gesto só piorou a situação. Enquanto se beijavam, foram acompanhados por pasmos Maurício e Sheila. A cumplicidade trouxe mais consternação. Quando os quatro se viram, a ex de Eulálio segurava as lágrimas. Ela virou as costas e sai correndo:

– Quanta enganação… Não podia imaginar! – Maurício era a decepção em pessoa. Ele também se retirou.

Camila e Eulálio ficaram sem graça. Rodaram pela festa sem comentar nada. No entanto, um questionamento tomava vida dentro dele:

– Você já ficou com Sandro, Nei, ou Fernando?

– Não!

– Estou no lucro.

– Você considera um beijo como uma ficada?  – ela questionou.

– Claro! Mesmo na palhaçada, mesmo efêmero, nós nos conectamos.

Camila permaneceu um pouco pensativa:

– Vou ligar para o André. Acho que vou ao estacionamento. Tem menos barulho.

Eulálio se questionou se teria despertado emoções na prima. Ele não sentiu nada com aquele beijo, a não ser divertimento. Dando de ombros, voltou–se para a festa. Nada de neuras naquele momento.

No caminho de comprar mais bebida, encontrou uma veterana da Administração. Eles sempre se olharam atravessado. Naquele dia, tudo estava claro e direto demais. Cumprimentaram e logo estavam se beijando. Eulálio só pensava que pra ser feliz, ações e coisas simples bastavam.

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