DISTRAÇÃO – Suzana

Perdida em pensamentos, Suzana esperava por Bianca descer. Focava o pisca-alerta sem perceber que estava prestes a ser multada. Um guarda de trânsito havia passado pela terceira vez, e o carro permanecia no mesmo local. Ele se decidia se valia a pena pelo horário avançado. Ela voava internamente, bem desligada.

Pegou o celular inúmeras vezes. Pagaria uma fortuna por uma ligação internacional. Por isso, desistiu. Durante o dia, arquitetou uma forma de usar o telefone da empresa. Não achou a coragem. Como se expor com a tremenda distância? Talvez o problema não fossem os milhares de quilômetros, mas sim, o receio em se abrir. Não queria ser a indefesa ou a pobre coitada que precisa de um homem para se proteger. Além do mais, achava que devia partir de Igor o contato. Ele tinha, subitamente, viajado mais uma vez. E não a havia procurado, estava incomunicável. As coisas se transformam muito rapidamente, sem nos darmos conta:

– Suzana, desculpa te fazer esperar. Nós não combinamos mais tarde? – Bianca deu um beijo estalado.

– Sem problemas. Adiantei.

A prima comentava os casos loucos, as situações bizarras, as intimidades de família. Imersa na própria dúvida e preocupação, Suzana achava que era uma forte candidata a problemas jurídicos no futuro:

– Não aguento mais andar. – reclamou Bianca. – Quando voltarmos pra pegar o carro, teremos que percorrer isso tudo de novo?

– Nunca vi a universidade tão cheia. Quanta gente gata.

Quando elas decidiram ligar para Camila ou André, Bianca apontou:

– Não é o Lio, travado de beijo na boca?

– Cadê? – Suzana mirou o dedo apontado. – Que fogo! Bom pra ele! Quem é?

– Parece que é uma garota da minha sala, a Hélida. Mas ela tem namorado! – Bianca matutava.

– Ou não tem mais, ou essa Hélida está numa puta traição. Vamos lá deixá-los sem graça?

Puxando a prima, saiu em disparada. Quando estavam quase chegando, ela se colidiu com um cara. Os dois se chocaram e caíram para trás, de bunda no chão. Bianca conseguiu se manter em pé, apesar do puxão que levou.

Suzana e o rapaz rapidamente se levantaram. Ela se batia para limpar a sujeira. Ele a encarava, estava deslumbrado. Não tardou para Eulálio se juntar ao grupo. Hélida ficou gelada ao encarar Bianca:

– Você está bem? – o desconhecido perguntou.

Suzana estava possessa. Ia levantar o tom de voz, mas ficou sem fala. Ele era um deus, todo grande e malhado. Os cabelos espetados, um sorriso luminoso e os olhos verdes falsos maravilhosos. Ela sabia quem era:

– Estou… Não foi nada. Não vi você.

– Nem eu. – E os dois riram, entregando estarem encantados.

– Ei, Hélida. Animada para voltar a estudar? Como foi de férias? – Bianca perguntou.

– Claro. – ela sorriu sem graça, sem raciocinar. Rapidamente descolou as mãos dadas com Lio. – Minhas amigas devem estar me procurando. Tchau!

Eulálio se assustou. Olhou feio pra Bianca:

– Porra! A ficada estava prometendo se esticar. Hélida é facinha, eu ia levá-la pra outro lugar. Mas você tratou de lembrá-la do namorado.

– Isso não é certo. – Bianca respondeu. – Vai render confusão.

– Para os dois. Tem tanta gente aqui! Você vai arranjar outra rapidinho. – Suzana intrometeu-se.

– Tem razão. Vamos em busca da quinta menina da noite.

– Cruzes! Depois pega sapinho e não sabe o porquê. – Bianca ralhou.

Eulálio saiu, seguido de Bianca. Suzana e o rapaz ainda se observavam:

– Me desculpe. Sou o Paulo, da Química.

– Antunes?

– Exatamente. – ele riu. – Me conhece?

– Você tem uma fama… Eu sou Suzana, faço Engenharia Civil.

– Bersani?

– Sim.

– Você também é famosa. – ele a deixou sem graça.

– Meus primos estão me esperando. – Bianca acenava. – Nos vemos por aí?

– Acho que não. Prefiro não deixar por conta da sorte. Podemos nos rever aqui, nesse mesmo lugar, em 15 minutos?

– Não sei…

– Vou ficar te esperando.

Suzana não deu resposta. Saiu rebolando e se sentindo a mulher mais gostosa do pedaço. E também, a mais desafortunada. Chamara a atenção do cara mais cobiçado e idolatrado da Universidade.

Eulálio logo foi cantar outra garota que riu pra ele no momento em que passavam. Bianca ligava pra Camila. Suzana pensava se seria capaz de trair Igor. Estava totalmente atraída por Paulo. Sabia que seria um estrondo. receava destruir sua atual relação.

Olhando em volta, pensou se Igor se fazia a mesma pergunta. Viajando sempre, conhecendo inúmeras pessoas, ele também deveria se sentir tentado. Que garantia ela tinha de fidelidade?

Bianca contatou Camila, marcando de se encontraram numa outra entrada da festa. Pediu para que Suzana esperasse com Eulálio naquele mesmo lugar. Com o primo já chupando a orelha da garota, Suzana resolveu sair de perto. Se ficasse vendo a cena, só se sentiria mais tentada.

Corajosa e temerária, foi se dirigindo lentamente pelo local da colisão. Paulo olhava-a de frente, com os braços cruzados e o porte sério. Suzana sabia que não ia resistir:

– Você veio rápido.

– Não sou de esperar. Quando quero, vou atrás. – ela respondeu.

– Você me quer. – ele disse triunfante.

– Você me deseja. – ela roçou uma perna na parte dura e volumosa da calça. Paulo recuou incrédulo.

– Não me provoca!

– Não sou disso.

Suzana pulou no pescoço dele e enganchou as pernas na cintura. Paulo rapidamente a abraçou. Suzana já se exasperava de prazer. Ele era muito forte, tremendamente intenso, imensamente delicioso.

Perdeu a noção do tempo, do lugar, dos fatos. Quando abriu os olhos, depois de mais uma gozada, o carro estava embaçado de suor. Estava deitada em cima de Paulo, com as costas apoiada no peito dele. Não acreditava como conseguiu fazer tanta coisa dentro de um automóvel, sendo ele tão grande e pesado.

Paulo assoprava no pescoço da garota, quase querendo mais. Suzana achava que fora rápido demais. Agarraram-se na festa, depois estavam a caminho do estacionamento, sem saber se andavam ou beijavam. E dentro do carro foi uma loucura. Ele recomeçou a acariciá-la, até que a garota focalizou o aparelho de som apagado. Sem música internacional de impacto, sem cumplicidade sentimental, sem Igor. Apenas carne, desejo e prazer. Atacou-o de novo, porque a culpa da traição a cortava. Tinha cruzado uma linha perigosa.

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