DISTRAÇÃO – Camila

Pela décima terceira vez, o telefone chamou, chamou e ficou sem resposta. André devia estar realmente entretido. Camila só ficava mais aflita. Sem muita fé, tentou outra vez. Ele atendeu, ou melhor, alguém aceitou a chamada. O barulho era enorme, muito falatório:

– Alô! Alô! André! – gritou.

Aos poucos, o som foi se acalmando até ficar mais tranquilo. Camila olhou o visor. Achou que tinha caído a conexão:

– André? O que está acontecendo?

– Oi!

Camila ficou petrificada com a voz feminina que irrompeu pelos seus ouvidos. Não soube identificar a origem de tanto ódio. Não precisava de apresentações. Identificava Diana como se a conhecesse há anos:

– Onde está o André?

– Ah, não sei… – ou ela estava bêbada ou se passando de cínica. – Ele está por aí… Cansei de sentir o celular vibrando perto de mim. Quem quer falar com ele?

– É Ca… – ela se suprimiu. Lembrou que tinha sido listada como ‘C’ no telefone dele. – Carolina. Posso falar com André?

– Eu não sei onde ele está. Quer deixar recado?

– Não.

– Por acaso, você é a misteriosa namorada?

Camila apertou o celular com força e trancou as pernas. Estava possuída de raiva. Bianca a encontrara com o semblante mais bravo possível:

– Eu… Só… Deixa. Ele retorna.

– Então, está bem. – e desligou.

Camila perdera a voz:

– O que foi? – Bianca quis saber.

– Espera!

Rediscou para André. Fora em vão. A mensagem alegava fora de área ou desligado. Camila sabia que Diana era capaz de tudo:

– Aquela vaca, aquela safada! – esbravejou.

– Quem?

– A professora nova, Diana. Ela está roubando André de mim. Minha vontade era aparecer naquela festa. Acredita que ela desligou o telefone dele? E por que ele deixou o celular com ela? Que bandida! Que praga!

– Camila, fica calma. Foi um imprevisto.

– A gente sabe, sempre sabe. Eu sei no meu íntimo que ela está armando, pronta para um bote.

– Vem. Vamos achar os primos. Se for o caso, eu me vou de táxi contigo aonde você quiser.

Sem pensar em mais nada, sem focalizar a festa, Camila seguia Bianca, até o momento em que foi parada:

– Engraçado. No caminho, achei que vi Nando. Agora posso jurar que vi Sandro passar. Eles não iam para uma festa num sítio?

Camila não respondeu. Não se importava:

– Quem é aquela que está vindo para cá? – A prima perguntou.

Com um desgosto marcante, apresentou Bianca a Marcela, ex-colega das Ciências Políticas:

– Não imaginava que você viria.

Bianca não entendeu a indireta. Camila, por sua vez, sabia do que se tratava. Marcela não ficava sem graça por ter forçado a barra na intimidade:

– Por quê? – fez-se de desentendida.

– Soube que nossos professores estão num jantar para eles com maridos e mulheres. Pensei que você fosse ser uma acompanhante.

Como ela sabia dessas coisas? Não desejava dar satisfações. De fato, não precisava. Para Marcela, qualquer resposta seria uma farsa. A ausência de André ao lado dela e a falta no jantar dos professores indicavam mentira pura:

– Posso falar? Não imaginava que você pudesse ser tão… falsa! – Marcela soltou sem pudores.

– Quê? – Bianca olhava de uma para a outra. – Menina, do que você está falando?

– Camila sabe. Ainda bem que não acreditei. Imagina se eu espalho essa fofoca irreal de você com o André.

Antes que pudessem arquitetar uma resposta, um bando de pessoas emergiu entre elas. Eram calouros e veteranos das Ciências Sociais. Faziam farras e gritavam:

– Essa daqui nos abandonou. Foi para a Antropologia. – Marcela destacou Camila. – Não é mais veterana de vocês.

– E essa daqui fala de mais. Cuidado com ela! – Bianca repetiu o gesto feito para a prima, mudando o foco para Marcela.

– Eu também vou começar o ciclo de Antropologia. Como você se chama?

Um garoto novinho, com muita cara de adolescente e porte raquítico, chacoalhou uma mão de Camila. Ela respondeu quase inadiavelmente:

– Sou o Victor. – ele emendou.

– A gente se vê na aula. – Camila deixou o grupo.

– Sem paciência? – Bianca a seguiu.

– Sem cabeça também. Preciso de uma água. Vamos pegar uma?

– O que você quiser.

Bem longe do grupo, Camila se virou para observá-los. Victor ainda a encarava com uma cara em branco. Ela lançou um sorriso. Ia pertencer àquele conjunto, se ligar a eles. No entanto, nunca seria parte. Já tinha passado pelo início de um novo ciclo de estudos no Bacharelado, não estava límpida e transparente, tinha bagagem, marcas e experiência. Um recomeço é totalmente diferente de um começo simples.

Num local mais calmo da festa, o telefone de Camila chamou várias vezes dentro da bolsa, enquanto desabafava com a prima. Não percebeu. Para ela, tinha perdido o amor, embora, muitas das vezes, temos sucesso sem que nada precise ser feito por nós mesmos.

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