DISTRAÇÃO – Bianca

Por que não conseguia se abrir com detalhes como a prima? As pessoas achavam que Bianca não tinha nada de extraordinário em sua vida, por isso, não se expunha, nem se mostrava. Realmente não tinha vivência, mas havia inquietações e dúvidas. Explanar seria um bom caminho.

Enquanto esperava por Camila retornar do banheiro, teve a impressão de ter visto Nei pela festa. Estranhou. Não era do feitio do irmão aquele ambiente. Por um momento, teve receio de Júnior estar por perto. Não tardaria para que ele revelasse o passado negro que viveram. Estava certa nisso:

– Bianca! – ela se assustou. Pensou que poderia ser o ex-namorado. – Me desculpa. Não quis assustá-la.

– Tudo bem. – ela sorriu, totalmente sem graça. – Estava distraída. Quanto tempo, Carlos.

– Você é quem não me vê. Vou quase sempre ao escritório do pai e você está sempre atolada e atarefada.

– Acho que isso é um elogio.

– Certamente.

Começaram a conversar trivialidades sobre o escritório de advocacia que ele herdaria. Bianca se sentia bem perto do rapaz, embora não soubesse determinar qual era o real interesse: ele gostava dela? Era simpático ou tinha sido cativado? Com pouca interação, não conseguia precisar o porquê da recorrente procura de Carlos.

Nesse momento, não tão distante, Bianca era observada por Luca. Era a primeira vez que a via desde o beijo roubado. Uma pontada estranha brotou, um ciúme prévio talvez. Queria ir até os dois. Resolveu se afastar:

– Você vai muito ao cinema? – Carlos se interessou.

– Não tanto.

– Posso te chamar um dia?

– Ei. – Camila retornou. – Olá…

– Carlos, prazer, sou filho do chefe da Bianca. – apresentou-se.

– Oh, prazer. Eu sou prima dela, Camila. – os dois se beijaram. – Desculpe interromper, mas eu quero ir embora. Estou ligando para Suzana e Eulálio que me ignoram.

– Vamos procurá-los. Se não acharmos, vamos de táxi.

– Posso levar vocês. – Carlos foi solícito.

– De jeito nenhum. A festa está ótima. – Bianca recusou.

– Não me importo. Anota meu celular. Se vocês foram descer, me liguem.

Camila olhou atravessada para Bianca, assim que deixaram Carlos:

– Ele gosta de você.

– Gosta nada. Ninguém gosta de mim. – Camila se assustou com o ressentimento da prima.

– Bianca, não pense assim. Você é jovem, bonita, inteligente, esforçada.

– Você não sabe de nada. – cortou.

– Uai, era aqui que deixamos a moto do Lio. Ele foi embora? – Camila desviou o assunto. – Deve estar na maior putaria, esse menino.

– Suzana também…

– Vamos de táxi? Ou quer chamar o apaixonadinho por você para nos levar?

– Lógico que não vou ligar pra ele.

Bem afastadas da festa, atentas para um veículo amarelo, não viram a aproximação de Suzana com Paulo:

– Aonde vocês estão indo? Já vão embora?

As duas ficaram chocadas. Paulo deu um beijo na bochecha da prima, acenou com a cabeça e saiu. Caladas, viravam o pescoço acompanhando o homem que se afastava, enquanto a prima sorria:

– O que foi? – Suzana transparecia inocência.

– Você pegou o cara mais cobiçado…

– E galinha. – Bianca completou.

– … da universidade? Ele não fica com quase ninguém. Gosta apenas de seduzir, encantar e perceber que é desejado para nem ao menos dar um beijo.

– Não só peguei, como dei pra ele diversas vezes. O cara é bom. Faz jus à fama. Realmente poucas escolhidas merecem aproveitá-lo.

– Suzana, você já tinha contato com ele? Vocês se conheciam? – Camila questionou.

– Sabia de nome, eu acho. Uma vez, ele estava numa palestra, mas não marquei a cara dele. Nós nos esbarramos hoje. Era o destino.

– Primas! Aconteceu uma tragédia, uma merda com letras maiúsculas.

As três se sobressaltaram com olhos esbugalhados e assustados. Ele estava elétrico:

– Roubaram minha moto.

– O quê? – Suzana gritou.

– Como assim? Fica calmo! – Camila tentou.

– Eu não sei o que fazer. – ele estava prestes a chorar.

Os quatro correram até o local onde a moto tinha estado:

– Foi aqui. Juro que deixei aqui. Não foi, Camila? – Ela concordou. – Como tiraram minha moto sem ninguém ter visto?

– Vou chamar a polícia! – Suzana sumiu.

Camila enlaçou o primo para ampará-lo. Antes de imitá-la, Bianca achou Luca conversando abraçado com uma garota baixinha e esquisita. Ele falava de maneira apaixonada e sincera, ao pé do ouvido da moça, que nitidamente estava desatenta e fora de área. Teve inveja. Se imaginou naquela posição. Um estremecer percorreu todo o seu corpo:

– O que você está fazendo aqui? – Camila disse de maneira assustada.

– Eu liguei pra você milhares de vezes, depois das suas 14 chamadas. Não viu?

Por um momento, todos se esqueceram da moto. A aparição de André só poderia ser descrita como mágica:

– Fiquei desatenta. – ela ainda estava estática e abismada. – Você veio sozinho?

– Claro. Sem resposta sua, larguei aquilo tudo e vim ficar contigo. Sei que foi a Carolina quem ligou. Mas eu faço tudo mesmo é pela Camila. Sou fiel a ela.

A garota desgrudou-se de Lio e abraçou o namorado. Bianca sorriu. Ela pareou o primo, segurando-o pelos ombros.

Pensou nas perdas. Ao olhar Camila, resumiu que às vezes, achamos que as coisas se foram, mas elas permanecem. Apertando Eulálio, considerou que, em momentos, com um simples piscar, tudo desaparece. Quando percebeu o retorno de Suzana, lembrou que, sem sentir, podemos deteriorar o redor. Quanto a ela, ponderou estar cansada de ver positividade em meio a tantas privações.

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