ADAPTAÇÃO – Camila

– Camila, o seu trabalho foi o primeiro que corrigi. É claro que te dei nota máxima. Você é muito boa.

Pela milésima vez, a sala inteira olhava para a garota que sorria disfarçando, com timidez, o ódio mortal experimentado. Aquilo era uma constante durante a aula de Diana. Nessas duas primeiras semanas, todas as vezes, a professora dava um jeito de elogiá-la: comentava sobre as roupas, pedia comentários e ficava muito satisfeita, colocava-se em discussão para sempre ressaltar o quanto era inteligente.

Para a adaptação na nova turma, aquele destaque era péssimo. Camila estava mais isolada. A inveja criada por Diana só não afastou Victor. Todas as atividades em dupla e em grupo eram desempenhadas com ele:

– Já escutou o que falam da Diana em relação a você? – perguntou na inocência. Camila, por um triz, pediu pra não saber. – Dizem que ela é lésbica e está afim de você.

Isso de novo? Mais uma vez, era o epicentro da fofoca envolvendo um professor. Dessa vez, o assunto era bem mais tórrido por ser homossexual:

– É lógico que isso não procede. Para que ela ia se expor assim, na frente de todos? Se Diana me quisesse, teria me procurado fora da sala. Nosso contato se resume às aulas. Além do mais, esqueceu que ela está em estágio probatório. É muito ruim pra reputação.

Fingindo revisar a recente escrita, ela pensou em André. O estágio probatório não evitou o namoro dos dois. A atração foi bem mais forte. No entanto, ainda estavam em segredo perante a faculdade:

– A turma vai ao cinema hoje. Vamos? – Victor mantinha a esperança de que, um dia, ela aceitasse.

– Vou trabalhar até tarde de novo. Não posso.

Até o fim da aula, Camila divagou sobre a professora. O que ela ganhava com isso? Ela não deveria, pelo contrário, tentar denegri-la, fazê-la se sentir mais burra e menos capacitada? Se realmente queria André, essa tática era bem fajuta:

– Claro que não é. – opinou Suzana. – Ela é bem mais esperta do que eu imaginava. Tenho que tirar o chapéu. Ela é uma gênia.

– Você escutou o que acabei de dizer? Não tem sentido ela me levantar e me colocar no topo, se quer me destruir pra acabar comigo.

– Espera aí. – Suzana a segurou pelo braço, cortando a caminhada. Elas tinham acabado de sair dos corredores da Faculdade de Ciências Sociais. – Você tem certeza de que ela sabe que você e o André estão juntos?

– Suzana, é claro que sei. Eu sou mulher, a gente sente essas coisas. Diana é uma cobra ou uma loba em pele de cordeiro. Tenho certeza de que ela está tramando. O olhar dela entrega.

– Então, é mais ardilosa do que eu pensava. Ela não quer destruir você. Simplesmente está tramando para que você se destrua. Ela se insinua com o André?

– Morro de ciúmes vendo os dois conversarem. É tão íntimo.

– Diana está agindo em duas frentes.

– Fala baixo. – ralhou Camila. – Pode ter conhecido.

– Que se dane! É bom que ela saiba que matei a charada. Pois bem, num primeiro momento, ela está, na verdade, diminuindo suas certezas em relação ao André. Ela quer te fazer acreditar que ele estaria melhor com ela, que eles se merecem, que o namoro de vocês é fadado ao fracasso. Essa atitude é bem sutil. Por outro lado, ela te valoriza onde? Na sala de aula! Assim, ela ajuda você a criar admiradores e possíveis ficantes que vão atentar.

– Claro… Para que, naturalmente, eu acabe traindo o André por minha causa mesmo. Você tem muita razão, prima. Ela é muito esperta. Ela age para que eu cause o término.

– Não te falei?

As duas voltaram a caminhar. A mente de Camila fervilhava. Era um jogo. Por enquanto, estava perdendo, ou melhor, deixara a adversária avançar e dominar. Era a hora de contra-atacar:

– Você se importa se eu voltar à faculdade?

– O que você vai fazer?

– Revidar.

– Eu quero ir junto. Vou dar uma olhada nessa biscate.

A situação tinha mudado. Podia perder muito se deixasse a vida levá-la, se não fizesse nada. Pisando fundo, quase correndo, não se importava se Suzana a acompanhava ou não.

Passaram primeiro no gabinete próprio de André, estava fechado. Na secretaria, não o tinham visto. Se dirigiram ao estacionamento:

– Ele tem uma reunião à tarde. Deve ter ido almoçar bem rápido. Com ela! – Camila constatou.

– Liga pra ele. – Suzana sugeriu. – Opa! Bianca está chamando. Vou atendê-la.

Suzana virou as costas para a prima. Camila hesitou. O sangue estava mais calmo. Não queria transparecer desespero para André. Há poucos dias, ele questionou que ela estava mais quieta, irritada e ciumenta. Agora tudo parecia culpa da influência de Diana. Naquele momento, o telefone tocou. Era André:

– Ei.

– Camila, eu nem confirmei se você ia realmente almoçar com seus primos no Restaurante Universitário. Vocês estão juntos?

– Sim. Suzana está comigo já. Vamos encontrar com Bianca e Eulálio daqui a pouco. Por que você quer saber isso?

– Acabei de chegar ao shopping sozinho. Se você não tivesse companhia, ia voltar pra te pegar.

– Que lindo! – ela transpareceu mais melancólica que amorosa.

– Você está bem? – quis saber. – A aula foi boa? Está cansada?

– Não. Nada aconteceu. Obrigado pela lembrança, mas preciso conversar com os primos. Posso passar na sua casa depois do trabalho?

– Eu tenho que organizar minhas aulas.

– Eu não vou atrapalhar, tenho que ler um caminhão de xerox. – Camila justificou.

– Tudo bem, espero você.

– Obrigada. Tchauzinho.

– Até mais, amo você.

Camila ficou muda. Era a primeira vez que ele se declarava. A ligação ficou em suspenso. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

Queria dizer que o amava também. Contudo, não desejava parecer que tinha sido apenas como uma resposta:

– André, eu… tenho de desligar. As meninas…

– É, eu sei. Vá lá. – e desligou.

– O que foi? – Suzana estava tensa. – Você está branca! Eles estão juntos? Quer que eu te leve até eles de carro?

– Não. André disse que me ama, de maneira natural. Ele está sozinho.

– Vamos. Acho que nos preocupamos demais. – Suzana abraçou-a pelo ombro. –Tudo está garantido.

Estaria mesmo? A vida era tão imprevisível. Por mais que nos preparemos, ela dá um jeito de abalar e assustar.

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