ADAPTAÇÃO – Eulálio

Sentiu ciúmes sim. Era normal e natural. A aproximação configurava-se como sutil, mas já era perceptível. As meninas da turma não ignoravam mais Bianca. Encostavam na prima, riam entre si. A intimidade começava a fluir. Enfim, ela havia se incluído:

– Sabia que fui chamada por três equipes diferentes para atuar no escritório de prática jurídica? – estava totalmente satisfeita.

– Quem te viu, quem te vê… – ele deixou no ar.

– Você está com inveja, Lio? Achei que você quisesse meu bem. – Bianca parou de arrumar o material.

– Claro que quero. Só estou surpreso.

Eles se levantaram no mesmo momento. Eulálio sentiu-se culpado por se sentir assim. Mesmo um estrangeiro no Direito, por várias vezes, era mais entrosado que a prima. Culpou a onda de azar na qual estava inserido desde que a moto fora roubada. Tudo tinha desandado.

Não conseguia se acostumar com o acordar mais cedo para enfrentar duas conduções até a faculdade. Passou a pegar o ônibus coletivo das empresas Bersani’s. Isso era um terror, pois se expunha mais. Quem fosse mais atento poderia descobrir que era um herdeiro. Com a correria e o estresse, o cansaço havia duplicado com a falta do veículo próprio. Se tivesse condições, compraria outra imediatamente:

– Sem resposta da polícia? – ela parecia ter escutado seus pensamentos.

– Desisti. Essa moto está perdida. Minha vida está perdida.

– Hum… As meninas não estão por aqui conforme combinamos. Vou ligar pra Suzana.

Eulálio se afastou da prima. Não gostava da situação atual. Logo agora que teria de fazer uma matéria obrigatória à tarde, não tinha como chegar no estágio por conta própria. Teve de pedir liberação de um dia. Pelo empenho, obteve, mas se sentia mal em receber um privilégio.

Sempre se irritava com as vantagens que os primos tinham. Havia se cansado de proteções e regalias gratuitas. Era contra isso, apesar de concordar com a meritocracia. No fundo, ele só queria ser igual, ansiava por fazer parte sem qualquer discriminação.

Naquele momento, se assustou. Ao longe, com os cabelos loiros voando, toda animada e descontraída, reconhecia-a: Catarina. Desde a festa do aniversário da empresa, não a tinha visto. Foi se afastando delicadamente da prima. A ideia era entrar na rota de colisão. Repentinamente se encontrava feliz novamente. Há tempos queira um reencontro. No entanto, não era ela.

A ‘falsa’ Catarina percebeu o olhar intenso. Ela retribuiu com um meio sorriso. Era muito igual de longe, totalmente parecidas. Eulálio pensou: se não teria a original, poderia se contentar com a similar:

– Elas estão a caminho. Vamos subir a pé para o Restaurante Universitário.

– Aquele grupinho que passou é do Direito? – Eulálio iniciou as investigações.

– Não sei. Acho que é sim.

Caso estivesse sozinho, teria se aproveitado e se aproximado:

– Sabe quem está me dando mole? – ele perguntou.

– Quem dessa vez?

– A Fatinha. Estou notando um interesse. Só que ela é tão amiga da Hélida. – explicou.

– A Hélida não tem direito algum sobre você. Ela namora.

– Não gosto de magoar.

– Lio, você consegue perceber se uma mulher finge, ou não está gostando do sexo?

Por um momento, ele parou de andar. Que pergunta era aquela? Desde quando a prima estava tão imersa em questões sexuais?

– Por que você está perguntando isso pra mim? Pergunta pra Suzana! Ela tem muito mais bagagem que nós.

– Ah, eu quero opinião masculina. Até que ponto um cara percebe que a mulher não está de corpo e alma no ato?

Eulálio não tinha tido tantas parceiras assim. Monique fora a última. Ela estava mais tranquila e aberta a experimentações. Com certeza, curtiram juntos. Talvez com Sheila, nunca fosse saber o quanto era fingimento:

– É uma percepção que não tem muita explicação. Pode ser clichê, mas o sexo é ato de comunhão, de ligação. Dá pra identificar sem compreender as razões.

Os dois ficaram pensativos. A vida é feita de máscaras. Existe sempre a necessidade de se encaixar às diversas situações. Com o sexo, não seria diferente. Às vezes, torna-se necessário simular, arriscar, esconder, se proteger. Não havia láurea ou classificações, mas os relacionamentos eram, sim, jogos. A felicidade seria o maior prêmio? O se sentir bem sem machucar o próximo representaria o ‘com louvor’ acadêmico de uma história de amor?

– Um namoro… Às vezes, parece uma grande competição.

– Sempre perdi. – Bianca disse baixinho, embora Eulálio tenha escutado.

– Se não nos preocupássemos apenas com nós mesmos, com nossos prazeres e com o medo de se mostrar, acho que seríamos mais libertos. – Eulálio filosofou de novo. – A gente sempre espera o que o outro vai dar, sem notar que também devemos oferecer… É mútuo.

– Cobra-se muito num relacionamento.

– Pior é quando cobramos de nós. Ficamos apertados sem curtir.

Suzana e Camila pararam no corredor, esperando o encontro:

– Que cara é essa? – Lio perguntou a Camila.

– André disse que me ama.

– Do nada? – Bianca perguntou e olhou para o primo. – Realmente existe muita convenção entre um casal.

– Tudo é tão simples, ou pelo menos deveria de ser. – ele respondeu.

– Um homem comentando sobre sentimentos. É algo inédito. – Suzana debochou. – O ser humano tem tudo menos a simplicidade. – completou. – Pra mim, foi essa efervescência que nos fez chegar onde estamos, nos evoluiu.

– O que eu faço? Como expressar que o amo sem parecer que fui forçada por que ele falou? – Camila soltou.

– Não faz nada. Ele ama você pela maneira que tem agido. Só mantém. – Ele estava inspirado.

– É…

Os quatro mudaram de rumo em direção ao Restaurante Universitário. Também trocaram de assunto. As convenções vieram com a pluralidade. Tantas situações pediam comportamentos menos simples. Com várias personalidades, o ser humano se desconheceu.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: