ADAPTAÇÃO – Bianca

Assim que chegaram ao Restaurante Universitário, eles se dividiram. Eulálio ficou conversando com um colega de curso, Camila tinha se dirigido ao banheiro, Suzana entrou na fila pra comprar os tickets, e Bianca foi deixar o material de mão no guarda-volumes.

Durante o trajeto, ela só escutou reclamações. O primo tinha sido deslocado para um trabalho penoso de arquivamento e eliminação de documentos. Ficava enfurnado numa sala mofada e fechada, relendo inúmeros materiais. Por incompetência, o volume de arquivos havia triplicado sem que houvesse qualquer ação de gestão.

Suzana não se sentia mais desafiada. Atuava no automático, totalmente estagnada. Passou a estagiar por três dias na semana, a fim de fazer matérias eletivas e obrigatórias. Transparecia que gostaria de sair da firma, no entanto, o ócio seria bem pior que o trabalho sem valor.

Já Camila comentava sobre o excesso de tarefas, leituras e atividades que o novo ciclo de Antropologia requisitava. Como era difícil ser caloura de novo. Para piorar, com vários novos clientes, não conseguia adiantar os afazeres no consultório. Queria muito pedir uma folga a Leo, mas não consegui pensar em deixá-lo na mão. O namoro com André também contribuía para esse turbilhão acadêmico.

Bianca, por outro lado, não tinha do que reclamar. Amava o que fazia, adorava o ambiente, tinha respeito pelos advogados da equipe, não podia conceber abandonar a firma. Porém, sempre há desvios que não estão na nossa alçada. Não depende de nós fugir ou evitá-los.

Prestes a ser atendida, uma mão pousou em seus ombros e amparou o excesso de material que carregava. Por ínfimo instante, curtiu a cortesia. Ao descobrir que era Júnior, empalidecera:

– O que você está fazendo aqui? – ele sorria como se não soubesse o teor de ameaça e medo que fazia atravessar o corpo dela.

– Vim encontrar minha namorada pra almoçarmos. Que bom que te encontrei. Posso matar o tempo. Quanto livro! Você é mesmo muito aplicada. Vai longe! – debochou.

Bianca olhou pra frente. Não gostaria que Junior se encontrasse com os primos:

– Vocês vão almoçar no RU?

– Tenho uma carteirinha falsa. – mostrou, com ares conspiradores. – Quando você vai voltar a minha casa? Dessa vez, Nando não estará lá, eu garanto. Você deu sorte.

– Se você está namorando, por que me deseja tanto? Passo a achar que você me ama e não sabe.

Junior deu uma risada sarcástica. Foi a vez de Bianca ser atendida no balcão. Ela contava com a saída dele. Não podia se ausentar dos primos por tanto tempo sem levantar suspeitas:

– Que curso sua namorada faz?

– Você ainda pergunta? Claro que é medicina. Então, você pode escolher entre hoje ou amanhã. É só aparecer. Estou doido pra testar você.

O dia estava ameno, o vento agradável. Inúmeras pessoas circulavam felizes e dispostas. Bianca queria ser uma delas, não desejava mais sofrimentos. Por uns segundos, o semblante zombeteiro de Junior a deixou proativa e determinada. Um basta necessitava irromper. Como voltar a crescer se continuava subjugada?

– Eu não vou! Prefiro virar freia a me deitar com você de novo. Faz o que você quiser. Publica no jornal, conta pra todos. Não me importo mais. Pra mim, você é totalmente desprezível.

E saiu anestesiada. Estava envolta numa névoa de indeterminação. Com aquele confronto, tinha certeza de que o retorno seria impactante. A resposta de Junior tenderia a ser catastrófica.

Quando retornou aos primos, eles conversavam sobre um assunto que não conseguiu romper a dispersão de Bianca. Sentia-se blindada. Sabia que uma revolução estava por vir, de maneira mais prodigiosa.

Não tinha medo, pois entendia que era pra bem. Às vezes o fogo destrói, poda, derruba. Porém, dá oportunidade para o novo se sobrepor e ressaltar. Uma virada, uma sacudida e uma remexida poderiam ser melhores que a inércia do terror:

– Você está quente demais! – Camila comentou quando os braços se encostaram na hora de arrumar os pratos. – Está tudo bem?

Bianca só balançou a cabeça. Na mesa, nem se lembrava do que colocou. Eulálio tinha um típico “prato de pedreiro”, com uma montanha de todas as opções do RU. Suzana priorizou mais a salada. Camila trazia uma arrumação mais balanceada:

– Eu não poderia supor o quanto a vida pode se transformar tão rápido. Há um ano, nunca poderia imaginar que eu estivesse trabalhando, cursando Antropologia e namorando. Nem eu acreditava em tanta potencialidade. – disse de maneira melancólica, mas estava satisfeita.

– Tenho mais de dois anos de experiência como estagiário da nossa futura empresa. – Eulálio debochou. – Não fui descoberto até hoje. Ah, também namorei, perdi minha moto.

– Eu não vou dizer que tenho ou estou tendo um relacionamento. – Suzana refletiu. – Só posso destacar que existe um homem em minha vida, pelo menos com mais constância, porque ele viaja tanto e não nos vemos com a frequência necessária. Troquei de estágio…

Os três fitaram Bianca. Esperavam um balanço. Apesar de ter escutado e entendido a insinuação, teve medo de falar. Tanto tempo segurando, sempre se fechando, parece que seu segredo havia estagnado. Não conseguia colocar pra fora as dúvidas sexuais, o medo de não ser capaz de ter prazer. Confortavelmente, o pavor havia se instalado a meio caminho: não descia e se assentava, nem explodia e se revelava:

– Somos tão novos… – disse, brincando com o garfo pelos alimentos. – Tudo isso pode ruir a qualquer momento. Ainda não dá pra controlarmos. Nem sei se é possível. Nós nos consideramos tão importantes e grandiosos, mas fazemos parte de um universo bem maior.

– Nos esquecemos disso. – Camila contribuiu.

– Quando menos esperamos, uma onda de devastação pode surgir sem qualquer chance de preparativo. – Bianca profetizou.

Os três pararam de comer. Lio deixou o garfo no ar. Suzana, de repente, não tinha mais fome:

– Não sabemos o que nos espera depois da faculdade, após a formatura. – Camila largou os talheres e olhou ao redor. – Achamos que é de um jeito e acabamos nos surpreendendo. Somos todos despreparados.

– Não concordo com vocês. Tem muita coisa imprevisível, mas com o tempo nos tornamos mais fortes, eu acho. – Suzana rebateu.

– Esse papo está muito cabeça para um almoço descontraído. – Eulálio cortou.

– Estou sem fome. – Bianca reclamou.

– Então, deixa comigo. – Lio enfiou o garfo e roubou o bife, além do potinho de gelatina.

Era costume do primo agir assim, fazendo a limpa nos pratos alheios. Porém, se sentiu magoada. Não queria mais interferências das pessoas. Como se tratava de seu caminho, deveria tralhar consigo mesma. Por isso, precisava demarcar bem seu espaço e a si mesma. Uma proteção partindo de dentro configurou-se em seus olhos. Mais um desafio, mais uma luta. Até quando? Em que momento estamos satisfeitos plenamente?

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