ADAPTAÇÃO – Suzana

Suzana entrou como bala na sala de aula. Não viu o tempo passar enquanto estava com os primos, durante o almoço no Restaurante Universitário. O professor já passava teoria no quadro, ela se assustou com a disposição do docente. Grande parte da turma nem sonhava em começar a copiar. Também ficou intrigada com os diversos olhares em cima de si. Por um tempo, suspeitou se a roupa estava ousada demais.

Na carteira, tentou se concentrar, apesar de alguns ainda estarem encarando-a. Já não bastava toda a atenção no estágio, que parecia aumentar cada vez mais? Suzana fez uma vistoria ao redor. Para quem perguntaria o que estava acontecendo?

Ser solitária tinha suas vantagens. Era libertador, você não desapontaria seus companheiros, conseguia focar naquilo que gosta e não se gasta tempo com fofocas, aparências e cortesias. Passar pela faculdade sem tantos laços não a incomodava. O futebol aos finais de semana já bastava.

No entanto, naquele momento, a garota se questionou se poderia viver sem a referência dos outros. A vida em comunidade ansiava pela alteridade. Lembrou-se de um enunciado dos tempos de teatrinho da escola. Adorava a frase de Shakespeare: “Sabemos o que somos, não o que podemos ser.” Será que no fundo nos conhecemos realmente? Talvez nunca precisássemos de terapia se nos olhássemos por nós próprios, sem esperar pelo retorno ou averiguação alheia.

Rapidamente, varreu o sentimento de solidão que brotava. Estava bem daquela forma. Não esperava mudança alguma. Engenheira e pragmática que era, precisava da vida sólida e certeira. Porém, apesar das regras, o universo carrega o caos e a desordem. Muitas das vezes, eles são incontidos e até mesmo necessários.

Durante a aula, Suzana fez todas as tarefas, compreendeu a matéria, mas não interagiu. Não quis se mostrar, nem dividir conhecimento. Antes do fim, um colega sentou-se na cadeira vazia mais próxima:

– Suzana, você é tão calma. Vai até esperar o fim dessa aula.

Ela o encarou. Que constatação era aquela?

– Eu estaria bem nervoso. – continuou. – Tem uns três da turma que nem vieram na aula pra se prepararem.

Suzana fez cara de dúvida, como se ele fosse um lunático. Ou ela fosse uma tapada. Não compreendia o propósito daquela conversa:

– Jonas, eu não sei do que você está falando.

– Você é Bersani, não é? – ela confirmou com a cabeça. – Então, é você mesma! Tanta gente ficou desconfiado com o seu interesse repentino. Se vai ser bom pra você…

De repente, tudo fazia sentido. Os olhares, o clima tenso… Algo estava acontecendo. Como não transparecer que não sabia do que se tratava?

– É… Eu não esperava mesmo, porque…

– Que isso?! Você é boa demais. É claro que você vai ser uma das primeiras colocadas na seleção de monitoria do professor Mattoso. Até acho que você vai ganhar bolsa.

Suzana abriu um sorriso enorme. Porém, estava entorpecida. Desde quando ela tentava ser monitora? E pra ganhar bolsa? Com uma calma impressionante, arrumou o material e saiu da sala antes do término, sem pegar a segunda frequência.

Voou pelos corredores. Sabia aonde deveria ir: quadro de avisos. Entupido de todos os tipos de papeis, recados e promoções, demorou a encontrar, no canto direito, mais para baixo. Era o resultado da primeira fase, análise de currículo e de histórico escolar. Suzana estava em terceiro lugar, entre nove candidatos, buscando quatro vagas, apenas duas com bolsa.

Em breves segundos, xingou. Como assim? Ela não tinha se inscrito em nada. Nunca comentara ter qualquer desejo em se tornar monitora. Será que era uma pegadinha ou um tipo de brincadeira? Voltou à leitura do aviso. A segunda fase, relativa à prova, era naquele dia, mas já tinha começado há mais de 20 minutos.

Na dúvida se participaria ou não, decidiu tirar satisfações com professor Mattoso. Quem a havia colocado naquela situação esdrúxula?

Assim que pisou na sala, mais uma vez, tudo ficou em suspenso, com olhares voltados a ela. Calmamente, foi até a mesa do professor:

– Pensei que não viesse. – ele disse, estendendo uma folha com questões e outra de papel almaço. – Não poderei estender o tempo pelo seu atraso. Você tem quase uma hora e meia.

– Quem disse que eu vim fazer? – Suzana foi ríspida. – Só quero saber por que estou inscrita numa seleção que não desejo participar.

– Como irei saber? Eu só recebi os documentos, ponderei e pontuei, e fiz as classificações.

Os dois se olharam. Ela sentia a mentira, ou melhor, a fala cínica. Antes que pudesse atacar, ele fez sua cartada:

– Sempre constatei que os melhores alunos de engenharia são, antes de tudo, ousados. Não temem o desafio. Tornam-se profissionais que pegam e resolvem, sempre contornando prazos e problemas. Talvez eu tenha me enganado com você.

Suzana ficou rubra. Que provocação! Quando ele desceu a mão com os papeis estendidos, ela rapidamente os tomou:

– Não tenho nada pra fazer agora. Vou me distrair.

Quebrou a cara literalmente. A lista era pesadíssima, cheia de exercícios complicados e pegadinhas. Tudo era um suplício de tão difícil. Aos poucos, os alunos iam saindo, fazendo-a se sentir uma burra.

Após o prazo final, a sala estava vazia. Mattoso foi até Suzana, sentou-se em cima do tampo da mesa à frente:

– Não posso ficar mais, terei de recolher.

– Faltam quatro. Só mais um pouco!

– Quatro? – ele se assustou. – Você resolveu o resto? – Suzana ficou sem entender a pergunta. – O que deixou menos sem fazer, entregou faltando dez. Você foi muito bem.

Fora a vez de ela se surpreender. Mattoso pegou as folhas e a deixou atordoada:

– Quando sai o resultado?

– Em cinco dias, na semana que vem.

Suzana estava tão esgotada, com a mão e o pescoço doendo. Não se importava de ficar sozinha por alguns minutos. Mattoso demorou a se organizar e sair:

– Posso ser a primeira a ser entrevistada? Na terceira fase, na semana que vem? – Suzana disse olhando para o quadro.

O professor parou no batente da porta. Virou o pescoço e deu um leve sorriso:

– Só se você trouxer seu currículo e histórico. Preciso corrigir uma falha no meu processo seletivo. Não posso transparecer impessoalidade ou preferências. – e saiu.

Suzana respirou fundo. De onde tiraria os requisitos para ser uma boa monitora? Do que mais ela seria capaz sem nunca desconfiar de ter outros potenciais?

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