DESMORONAÇÃO – Eulálio

Estava tão cansado e abatido. Os dias estavam ensandecidos de rápidos e esgotadores. Apenas torcia pelo fim de semana, quando podia dormir até mais tarde. Não saía de casa, pois estava esgotado com tanta correria. Além disso, Eulálio precisava adiantar leituras e estudos para as provas, uma vez que durante a semana não encontrava tempo.

Sozinho, num recôncavo das empresas Bersani, estava quase terminando de organizar uma parte do arquivo morto. Os olhos estavam bem avermelhados pela coceira e poeira. Os espirros eram incontáveis, já que o cheiro era pavoroso de pesado e fungoso.

O único lado positivo do trabalho silencioso, recluso e paciente envolvia o pensar na vida. Mais de dois anos como estagiário, começava a gerar dúvidas se ainda teria o que aprender e crescer. Começava a se questionar se não deveria buscar algo novo, diversificar.

Deixara de lado a investigação pela verdade com relação à sua família. Não tinha como gastar suor e disposição procurando pessoas. Realmente, mente vazia se torna casa do diabo. Sem a moto para facilitar e os afazeres se intensificando, Eulálio não podia se permitir dispersar.

Desconcentrado era a palavra certa a resumir sua atitude. Ela entrou calmamente, leve e imperceptível. Cruzou os braços e o observou por muito tempo. Passara tantas semanas sozinho, nunca imaginaria que qualquer pessoa iria conferir o andamento daquela organização chata e melancólica.

Quando olhou para o lado e viu quem era, em meio segundo, perdeu os próprios sentidos. De repente, não experimentava as pernas, os braços, o corpo. Ficou pálido. A pasta escorregou do colo, esparramando folhas pela sala. No entanto, eles não deixaram de se olhar.

Eulálio ficou mudo, enquanto ela se aproximava sorrateiramente. Comparou-a com o deslizar de uma cobra, ainda mais por causa da indumentária preta, clássica e rente:

– Achou realmente que eu não descobriria, meu espúrio? Nunca vou gostar de você, mas é o meu neto mais intrépido.

Engoliu em seco. Não se atrevia a falar ou a se mexer. Lina foi até um canto, arrastou uma cadeira. O som lembrou-lhe algum tipo de tortura. Ela a pôs de frente, assoprou para espalhar a poeira e se sentou. Cruzou as pernas e fez um bico de puro desdém:

– Meu neto adulterino fingindo que pode conseguir uma vaga na minha empresa! É inacreditável! Por quanto tempo, você está aqui? Rosa não quis me dizer ao certo.

Eulálio sabia que era o momento de brigar, revidar, questionar. Tinha que partir para o ataque. Contudo, não conseguia. Era surreal. Nesse tempo todo, esperava por humilhação e escândalo quando a avó descobrisse. Nunca pôde supor um confronto íntimo e calculista:

– Não se preocupe com a Rosa, aquela ingrata. Ainda não me decidi se a despeço, já que, com aquela idade avançada, terá problemas em encontrar outro trabalho, muito menos um que pague o que nós a ofertamos. Ou talvez eu a traga para ser minha segunda secretária. Aí sim terá o castigo diário que merece por encobrir você.

O tom de voz era insensivelmente frio e agressivo. A vontade de chorar era grande. Sentia o olho se inundar:

– Quando me contaram, não acreditei. “Meu próprio neto trabalhando como estagiário?”, não podia ser. Deve ser alguém muito parecido. Até que não aguentei tantas denúncias, afirmando com tanta convicção, tive de confirmar. Quase caí para trás. Vou fazer uma confissão. – ela se aproximou, fingindo uma afeição por ele. – Tive uma pontada no coração, achei que teria um derrame de desgosto. Você quase me levou ao hospital. Sente-se poderoso com essa revelação? Só que eu sou bem mais forte que você. Sou bem mais vivida e inteligente. Você acha que precisávamos de uma arrumação aqui? É claro que não! Antes de dispensá-lo, quis que penasse, isolei você para que se sentisse inútil. Eu o rebaixei. Aqui é o seu lugar, no escuro, na poeira, na imundície. Onde mais um bastardo deve ficar?

Eulálio deu um salto da cadeira e deu às costas em pé. Recostou a testa numa das prateleiras. Chorou silenciosamente. Não conseguia segurar:

– Quantas vezes preciso afirmar que odeio você? Que tenho lástima por você? Que preferia vê-lo morto ou não concebido? Será que preciso tatuar no meu corpo ou na minha cara: ‘Eu odeio Eulálio’? Desprezo você, não me importo contigo. Tenho raiva profunda. Você não existe no meu mundo. Mesmo assim, continua se aproximando, desejando ser aceito, rastejando. Me diga! Por que tenta afastar um estigma que sempre vai carregar?

A cabeça doía, as pernas tremiam. Ele se agarrou à prateleira. Lina pôs se de pé. Foi até o ouvido e sussurrou:

– Quanto você quer para sumir da minha vida? O que preciso dar para que você deixe de ser um Bersani?

Sem entender, Eulálio virou-se para olhá-la. Queria perguntar, mas estava mais que embargado. A voz estava perdida, impedida de romper pela garganta, ao contrário das lágrimas que escorriam livremente:

– Espúrio, você teria coragem de assinar um documento tirando o meu sobrenome? Quanto você quer para deixar de assinar Bersani? Você sabe que posso te dar um carro, sei que sua moto foi roubada. Tenho condições de comprar uma casa para a vagabunda que chama de mãe. Peça algo e eu dou. Só peço que assine Eulálio José e qualquer coisa. Largue de uma vez algo que nunca vai pertencer a ti.

Nesse momento, Rosa adentrou no lugar. Ela estava descabelada, esbaforida e com os olhos esbugalhados:

– Você poderia nos dar licença? É uma conversa de vó e neto, totalmente particular. Você sabe que não deveria se intrometer. Nunca! – Mesmo sem algo concreto, havia muita ameaça naquelas palavras.

– Posso explicar, a culpa é…

– Cala a boca! Resolvo o seu caso mais tarde. Só quero que você supervisione o desligamento de Eulálio. Ele larga essa palhaçada de estágio agora. Saia!

Rosa lançou um olhar rápido de apoio a Eulálio. Retirou-se, sabendo estar próxima a sua retaliação:

– Diga, Eulálio. O que você tanto quer? Não quero que se defenda. Essa sua ousadia é irretratável. Só espero satisfazer seu desejo para que satisfaça o meu.

Ele não conseguia pensar, não tinha condições de raciocinar:

– Eu… – respirou. – Não devo… – Abaixou a cabeça e chorou. – Vou me afastar.

Sentindo que estava deslizando, Eulálio se dirigiu para fora da sala:

– Não pense que acabamos. Ainda tenho muito que compatibilizar pela enganação. – Lina proferiu.

Eulálio sabia que sim. Esperava por isso. No entanto, não tinha certeza se aguentaria ou se tentaria amortecer o ataque. Cansou. Talvez deixar de ser um Bersani fosse uma dádiva, o aliviar de um difícil fardo. Apesar de doída, a oferta de sua avó poderia ser uma salvação ou o início da liberdade. De que adianta passar pelos mesmos erros ou problemas? Progresso e desprendimento seriam possíveis soluções para um novo começo.

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