DESMORONAÇÃO – Camila

Mesmo cansada, ficou de papo por um bom tempo com Leo na calçada em frente ao prédio. Camila prestava assistência ao amigo e chefe, ansiando para que ele se cansasse de desabafar. Ele se questionava sobre as escolhas, as dúvidas e o medo de ficar sozinho. Tinha conhecido um novo cara que mexia muito com ele. Porém, foram tantas desilusões e traições. Que garantia tinha de que a situação não iria se repetir?

No elevador, ela se olhou no espelho. Estava um bagaço de cansaço. Queria banho, comida e cama. Não tinha condições de ler o texto para a aula da Diana. Pensava até em matar para dormir mais. Odiava aquela mulher.

Abriu a porta da frente. Sentiu um clima pesado e estranho. A sala estava escura. Passou direto, mas se assustou com um movimento:

– Pai. Nem te vi.

Camila acendeu a luz antes de dar um beijo no topo da cabeça dele. Pedro não reagiu, era como se fosse uma estátua. Um envelope jazia na mesa, estava aberto.

Ela pensou em abstrair e ir para o quarto, mas não achou correto. Se fora solícita com o chefe, deveria também agir com passividade e apoio perante o pai:

– Aconteceu alguma coisa? – Camila se sentou.

Ele olhava para o nada, perdido:

– Você me desapontou… Uma grande, imensa decepção.

Camila recuou na cadeira, colocou as mãos debaixo do tampo, largou a bolsa no chão:

– Onde está mamãe?

– Não tive coragem de chamá-la, ou de contar pra ela. Quanto desgosto…

Camila fitou a escuridão, repassando o que teria feito de errado. Não se lembrava de nada. Não conseguia associar. Sentiu o sangue acelerar, a respiração se intensificar:

– Acho que a culpa é minha. Fechei a cara, não quis questionar. Se eu tivesse brigado, essa catástrofe teria sido evitada. Antes, me diz quem é ele? Quem é o homem que levou você para o mal caminho?

– O quê? – Os dois se encararam pela primeira vez. Pedro estava desolado, Camila tinha tremores por todo o corpo. O assunto era André.

– É claro que eu percebi, é claro que eu vi as suas fugas à noite. Inúmeras vezes, não dormiu em casa. Sabíamos que você tinha alguém, só não suspeitávamos que haveria problemas. Quem é? O que vocês escondem? – uma lágrima rolou pela face do pai. – Por que deixei você se afastar? Se pudesse, eu batia em você, espancava com força.

Camila deu um salto, pondo-se em pé. Teve medo. A cadeira se revirou, criando um baque forte e surdo. Ficaram em silêncio:

– Minha aposta é que ele é casado. Como pôde ser tão ingênua? Como se deixou levar? Camila, sempre tive orgulho de você, mas por que foi tão ingênua? Que futuro vocês têm juntos?

– Você não sabe o que fala! Temos, sim, um futuro, uma possibilidade.

– Deixa de ser estúpida e boba! Você está se estragando! – ele gritou. – Não enxerga o que tem a perder? Ele deve ser mais velho…

– É, é sim um pouco mais velho. Já tem emprego e uma vida organizada! Não vejo problema.

– Por quê, meu Deus? Por quê? Mais um desgosto pra família, mais um desgosto vindo de mim. – E chorou copiosamente.

Camila queria consolá-lo, mas sentia repulsa. Não compreendia o que havia feito de mal. Pedro se dissolvia em lágrimas. Por vezes, tentou falar algo, balbuciava e não conseguia. A fim de se sentir mais humana com ele, buscou um copo d’água com açúcar. Ela colocou em cima da mesa, rapidamente Pedro deu um tapa. Mesmo quebrando na parede distante, Camila se recurvou para voar do líquido e dos cacos.

Enquanto o pai se acalmava, ela se perguntou como as mudanças podem ser tão repentinas, capazes de nos pegar totalmente desprevenidos. Buscava a felicidade, não imaginava ter carregado tanto desapontamento:

– Sinto muito se tenho de esconder André pelo que ele é. Concordo que não deveria ser assim, mas eu o amo, pai. Estou disposta a tudo.

– Evidente. – ele disse apontando para o envelope.

Afinal, o que era aquilo? O que havia nele? Fotos comprometedoras?

– Não posso me arrepender, pai.

– Ao contrário de mim… Já não bastasse eu ser o mais fracassado dos irmãos, o que tem a condição pior. Sou o único que não tive um filho homem. Quem sabe agora você, além da vergonha, me dá um neto?

– Hã?! O quê?

Camila voou até o envelope e o abriu. Era um resultado de teste de gravidez com o seu nome, atestando positivo:

– Achei isso ontem, não consigo parar de pensar nisso. Vai desmentir? Ou vai dizer que não sabia? Quando pretendia me contar?

– Isso… Eu não fiz.

– Como não? – ele gritou mais uma vez. – Está aí: paciente ‘C. Bersani’.

– Na verdade, é meu! – Os dois ficaram pasmos. Constância apareceu na sala, de pijama. – É ‘C’ de Constância, não de Camila.

Pai e filha não ousavam dizer nada. Que notícia inimaginável era essa?

– Aconteceu. Estou de dez semanas.

– E a eritroblastose? – Pedro perguntou.

– Não sei. Estou me sentindo bem, mas vamos monitorar, além de rezar. – Constância sorriu como se não esperasse uma vitória.

Pedro foi até ela. Beijou e a abraçou com força. A decepção dera lugar à felicidade. O que uma mudança de perspectiva não era capaz?

– Um filho? Nessa idade? Somos muito velhos! É muito… louco. – O casal ria e chorava de emoção.

Sim, muito incompreensível e inesperado. Camila não acreditava estar prestes a ganhar um irmão ou irmã. Sempre quis um para serem companheiros.

De repente, os pais a puxaram. Eles se abraçaram coletivamente. Ela pensou em André. Será que conseguiria sedimentar tamanha afetividade e ligação com ele? Atingiriam uma solidez em conjunto, capaz de derrubar adversidades como as que foram ditas pelo pai? Por um tempo, temeu e se sentiu incerta:

– Nossa conversa está suspensa por enquanto, Camila. Mas, quero conhecer esse André logo. – era uma ordem, branda, mas era um comando.

– Pois eu acho que precisa, pai. André nunca me colocaria em risco, ele é um cavalheiro. É professor universitário. Antes de tudo é uma gentileza em pessoa.

– Podemos guardar segredo sobre minha gravidez? Não quero muito alarde. – Constância pediu.

Apesar do cansaço, saíram para comer algo fora e comemorarem. Camila estava feliz pela nova oportunidade aos pais. Sorria vendo os abraços, o carinho de Pedro na barriga de Constância, os planos para o novo Bersani. Era um recomeço. No entanto, rezava para que nada derrubasse esse sonho. Nunca alcançar algo não se compara à dor de ter tido e perdido.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: