DESMORONAÇÃO – Suzana

As mãos pra cima da cabeça, agarradas numa prateleira. O pescoço esticado, deixando a cabeça encurvada para trás. Os olhos fechados, introjetanto Paulo, com seus músculos e a sua pegada intensa. As pernas totalmente abertas, já trêmulas de câimbra. E prazer.

De repente, Suzana escutou um barulho. Alguém estava no escritório. Rapidamente, voltou à realidade. Ela pegou a cabeça de Gui, enterrada no encontro das duas pernas, e a afastou com força:

– Quero mais! Você é deliciosa… – ele tentou retomar o trabalho oral.

– Chega! Acho que não estamos sozinhos. – ela justificou.

– Que nada! Ninguém nunca vem aqui tão tarde.

Ele voltou a afundar dentro dela, enquanto Suzana se concentrava para gozar, pois Gui era um dos poucos caras que lhe davam zero de deleite. Tocando-se, ele atingiu o prazer antes. Ela foi em seguida, imaginando ser Paulo o causador daqueles espasmos. Nunca pôde pensar em Igor quando gozava por meio de outra pessoa.

Doida para chegar em casa, saiu do cubículo ao lado do almoxarifado, localizado na parte mais distante do escritório, desamassando a roupa e ajeitando o cabelo. Quando chegou até sua mesa, ainda conferia o look. Suzana ia se sentar, mas percebeu uma luz acesa. Estremeceu no mesmo tempo em que levantava a vista. A sala iluminada era a de Igor. O que estava fazendo ali?

Ele falava ao telefone, despreocupadamente. Abriu um enorme sorriso e fez sinal para que ela fosse até lá. Suzana não sabia o que fazer. Era incapaz de se mover. Ia retornar, para pedir que Gui se escondesse, porém, fora lenta demais. O amante acabava de adentrar no espaço, sendo percebido por Igor.

Assustadiça, se jogou na cadeira. Igor também disfarçou, colocando-se de costas. Gui se divertiu com a situação. Mandou um beijo caloroso e debochado para Suzana. Não se demorou e foi embora.

Queria sumir, desaparecer, apagar-se. Sentia-se suja. Poucas vezes, foi inundada pelo sentimento de desvalor e imundície pós-coito. Vasculhou a bolsa desesperadamente em busca de uma bala. Apesar de melada, chupou-a assim mesmo.

Bem devagar, a fim de se controlar, foi até a sala de Igor. Bateu e entrou. Recostou-se na parede. Ele permanecia numa conversa, sorrindo. Suzana fez uma “cara branca”, não devia revelar nada. Não prestou atenção em nada do que ele conversava ao telefone. Ficou repassando em que momento perdera as estribeiras e começou a traí-lo. De quem era a culpa? Dela por ser fraca, ou dele por ser tão ausente? Eram tantas viagens e afastamentos. Nunca sabia por onde ele passava. Igor não era um ser acessível, não reportava o que fazia ou aonde ia. Suzana permanecia no escuro.

Antes de ele terminar, ela focalizou uma caixinha preta de veludo na mesa. Era uma joia, certamente:

– Não imaginava que haveria alguém no escritório. Espero não estarmos sugando muito você e o… Gui em algum projeto. – Suzana apenas balançou a cabeça negativamente. – Ok! Estou errado! Sei disso, não nego. Mas, não mereço um beijo? Não vejo você há semanas, depois prometo recompensá-la.

Ele estendeu os braços, bem receptivo. Por um triz, ela quase se decidiu por virar as costas e sair correndo, abandonando-o de vez.

O abraço não a acalmou. Ela o apertou, enterrando a parte interna dos cotovelos na altura das axilas dele, deixando as mãos espalmadas perto dos ombros. Igor encaixou as mãos nos bolsos traseiros dela. Tudo o que não desejava era beijá-lo. Era uma infidelidade além da palavra:

– Não mereço você, não é? Isso um dia vai acabar, vamos ficar juntos como deve ser.

Suzana queria dizer que não dava mais, não tinham futuro, precisavam se libertar. Porém, não conseguia:

– Vamos comer algo? Me espera um pouco? Só preciso fazer mais um telefonema?

– Claro. – E lhe deu um beijo rápido no rosto.

Dando meia volta, sentou-se em uma das cadeiras de frente para a mesa de Igor, que começou a discar os números e se conteve:

– Exatamente… o que você e o Gui estavam fazendo nos fundos da empresa?

Ela segurou a respiração. Ele colocou o telefone no gancho:

– Tomávamos café.

– Você não está com hálito de café.

– Eu só comi.

Um clarão de decepção se acendeu no rosto de Igor. Sentou-se:

– Eu sei o que aconteceu. É surreal. Já notei a forma como você fica depois de ter gozado. Não posso acreditar que você estava transando no escritório!

– O que é deixa você com mais desprezo: a traição em si ou o ato dentro do escritório? – Suzana perguntou calmamente.

– Tudo! Tudo me deixa enojado de você. Pensei que tivéssemos cumplicidade e sinceridade.

– Eu ia dizer que perdemos isso, mas acho que nunca tivemos. – ela debochou.

– Não vai ao menos negar?

– Não. Não é do meu feitio.

– Logo agora… – ele pegou a caixinha de veludo, guardou-a na gaveta. – Ainda bem!

Suzana queria perguntar, mas tinha medo da resposta. Tanto a confirmação de um pedido de compromisso quanto a decepção por não ser isso gerariam um torpor e uma angústia enormes.

Igor ficou encurvado, olhando para os pés. Não chorava, embora estivesse totalmente tristonho:

– Não vai pedir desculpas? – ele sussurrou. – Mereço uma justificativa. Ou não! Você sempre deixou claro o quanto era diferente. Eu não quis enxergar a sua condição. Via uma pureza escondida, não aceitei que você fosse baixa e vulgar a todo custo e a todo momento. Me iludi com uma… mercenária. Quase me entreguei a uma bandida, uma vadia.

Já escutara tanto aquelas palavras. Dessa vez, dilaceraram. No entanto, era orgulhosa. Não ia chorar, não ia pedir desculpas:

– É uma pena você ter descoberto toda a minha verdade suja e eu não saber o que aconteceu a você, com quem esteve nas viagens, se fez…

– Eu não sou um infiel como você! – ele a cortou. – Tenho dignidade e respeito.

– Parabéns pelo exemplo! – debochou. – Agradeço por ter tentado me consertar. – Suzana se levantou. – Desejo a você uma ótima vida!

Saiu da sala, mas retornou:

– Ah, estou fora. Não faço mais estágio aqui. Você pode comunicar minha saída? É só me ligarem e eu venho para assinar o desligamento.

– O que vai fazer? Você não sabe ficar parada! – por um momento, ele se preocupou.

– Estou de boa! – riu. – Virei monitora remunerada na faculdade. Vou me dedicar à pesquisa.

Em poucos minutos perdera um amor e um estágio. Por que temos sempre de perder? O que a incomodava era a falta de informação. Igor nunca saberia da chantagem de Gui, do medo de um novo escândalo de assédio, da saudade que a impeliu a cair nos braços de qualquer um e do sentimento genuíno que possuía. Melhor assim! Ter conhecimento podia ser bem árduo e complicado.

Dirigindo, passando por um caminho mais longo que o normal, desejava não ser inundada por depressão e tristeza. Não queria ser uma típica mulherzinha. Ao contrário, iria passar tardes e noites na faculdade lendo e estudando. Seu luto pelas perdas seria transformado em vitória.

Sentia-se firme e segura. Não tinha medo da vida, da solidão e do recuo. No entanto, não ligou o rádio. Não aguentaria qualquer balada romântica internacional. Teria sido o romper de uma potente barragem emocional.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: