DESMORONAÇÃO – Bianca

O cheiro típico de churrasco, a música sertaneja animada e o falatório condenavam que Bianca teria dificuldades em ler ou dormir. Não se lembrava de alguém ter comentado com ela sobre uma festinha na sexta-feira. Se soubesse, teria acampado na casa de Suzana ou Camila. Na verdade, ninguém ia contar sobre o evento, pois os irmãos claramente se aproveitaram da ausência dos pais para se divertirem.

Pelo basculante, averiguou os convidados. Por que perdera tempo conferindo? Eram os mesmos de sempre, os típicos filhos de papai, as dondocas fúteis. Nei se sentia o rei, o dono do palco. Ria de todos, chamava a maior atenção. Nando estava mais reservado, junto de Sandro. Será que Suzana iria aparecer? Ela nunca via problema em socializar com os primos.

Enquanto bebia um suco, refletia sobre as distâncias naturais. Aos poucos, as pessoas vão se afastando, se separando. A graça da vida é a influência que ela tem em nós. Nossos gostos mudam, as percepções se transformam, os desejos tendem a não serem fiéis, outros tomam lugares.

Antes, Bianca queria ter uma vida tranquila, ser funcionária pública, passar despercebida pela família. Encontrar alguém para casar logo e anular a pressão que a avó colocava sobre ela. Isso era enfadonho demais, típico demais. Hoje se enxergava como uma advogada bem sucedida e respeitada. Séria e admirada. Totalmente desvinculada dos Bersani’s. Solteira, pois se casaria com a profissão e aceitava o defeito da falta de prazer sexual.

Tomou banho, checou os e-mails e migrou para o quarto dos pais. Era mais afastado da algazarra, teria mais sossego. Tentando ler para puxar o sono, deu um pulo de susto quando a porta bateu com estrondo. Demorou até que alguém entrasse. Deveria tê-la trancado:

– Achei você! – Nei apareceu.

– Achamos você. – Júnior surgiu em seguida.

Com os olhos sobressaltados, viu mais sete garotos entrarem no quarto, após o fechamento da porta. Eles cercaram a cama. Bianca se sentia uma oferenda, prestes a ser trucidada a qualquer momento. Tentou se acalmar, afinal, seu próprio irmão não seria capaz de abusá-la. Não tinha tanta certeza…

– Irmã querida, pensamos que você ia se juntar a nós quando chegasse. Já de pijama. Que broxante!

– Essa é a maior característica dela. – Os garotos caíram na gargalhada graças ao comentário de Júnior.

– É, estamos sabendo. Que decepcionante! – Nei fez carinha de tristonho. – Eu achava que só homem poderia ter impotência. Não poderia imaginar que minha própria irmã fosse… que você é… como é a palavra? – ele estava bem bêbado.

– Frígida! – alguém respondeu.

– Isso! Frígida, fria, insensível! Mas me conta! Por que você é assim? O que trava você? Eu ainda acho que a culpa é do Júnior. Ele é um brocha! – mais risos entre todos.

– Ah, vai tomar naquele lugar. Você sabe o quanto sou dotado.

– Explica, Bianca! Algum médico já examinou você? Pode ser psicológico, algum trauma.

– Talvez eu tenha traumatizado ela com meu tamanho. – Júnior esfregava o zíper. Os garotos riam de novo.

Cada vez mais vermelha, Bianca deixou o livro de lado. Tirou o edredom de cima de si:

– Não precisa sair da cama. – Nei se aproximou, sentando-se na beirada. – Eu, como bom irmão, vim ajudar. Alguém teve essa ideia agora na festa: você precisa se deitar com outro cara. Resolvemos nos juntar, você pode escolher quem quiser.

– Quantos quiser! – um garoto debochou.

– Isso é ultrajante… – Bianca soçobrou. – Não quero nada disso!

– Não tem o que querer. Não quero continuar sendo alvo de palhaçadas e brincadeiras por ter uma irmã fraca e defeituosa. Você escolhe um e nós trancamos vocês dois. Só abriremos quando ouvirmos os seus gritos e urros de prazer. Só acho que o Júnior não deveria entrar nessa lista.

– Todo mundo sabe? – ela não acreditava.

– Claro! Não cumpriu o combinado. – o ex-namorado deixou no ar. – Cansei de fazer um favor para você em segurar esse segredo vergonhoso.

Bianca deu um salto. Nei voou até ela, imobilizando-a, esmagando-a:

– Eu quero ver você deixar de ser dondoca e puritana. – ele sussurrou em seus ouvidos. – Ser uma freira por vocação é uma coisa, mas carregar uma dificuldade é algo impensável para um Bersani. Aprendi com vovó a forçar quando for preciso, a fazer as coisas acontecerem. E hoje você vai arrebentar esse seu problema, não importa com quem! Pode até ser comigo.

Bianca não conseguia chorar, estava em choque ao sentir o membro de seu irmão duro, recostando-a. Nei ria da situação:

– Não tem escapatória. Daqui você não sai a não ser se realizar o que eu mando. Desse quarto, você não passa. Tem muita gente tomando conta.

– Isso… é… Isso… – Bianca tentava dizer. – Tentativa. De estupro!

– Não, na verdade. Isso é. – Repentinamente ele rasgou a blusa do pijama e puxou o sutiã. Bianca gritou de dor, pois a peça demorou a rasgar. Marcas vermelhas e pulsantes ficaram na sua pele. Estava nua, mas não sentia vergonha. – Até que você é bem bonitinha! – Nei elogiou.

– Passamos do limite. Achei que era uma brincadeira. – um dos garotos disse. – Eu quero ir embora.

– Ninguém sai! – Ele gritou.

– Estão sentindo…? Parece… – Júnior olhou ao redor.

– É o cheiro do prazer, da libertação da minha irmã. Hoje ela se tornará uma Bersani melhor, quase uma Suzana. – No meio dos risos, de repente, Bianca deu duas cuspidas na cara do irmão.

– Com certeza, serei mais valiosa que você, seu imundo.

Um tapa voou até a bochecha dela:

– É fumaça! – alguém gritou.

Nesse momento, todos ficaram em silêncio. Puderem ouvir a movimentação na festa. As pessoas gritavam e clamavam por bombeiros. Os garotos saíram em debandada. A preocupação com as perdas e a confusão latente desviaram a atenção de Nei que saiu junto dos amigos. Bianca permaneceu deitada, totalmente devastada com aquela cena humilhante. Não conseguia conceber como alguém podia ser tão malvado com seu semelhante, com a própria irmã.

Sem que percebesse, o quarto começava a se inundar de fumaça. Uma sombra se formava de longe, aproximando-se da porta. Ela se assustou. Podia ser alguém reminiscente querendo abusar de si. Deveria ter fugido, aproveitado. Estava desnuda e indefesa. Esperando pelo pior, não acreditou quando Suzana parou no batente e comentou:

– Foi por pouco… O que fiz não foi em vão. Vamos embora daqui!

A prima puxou um lençol e a enlaçou com ele. Desceram correndo as escadas, passando pelos fundos. Alguns, dentre eles Nando, tentavam apagar o fogo das cortinas da sala.

Bianca se reteve. Mirou as chamas. Em um segundo, tudo estava se consumando, se esvaindo. Ela havia secado também? Toda a sua essência, depois de tanta pressão e abuso, também teria sido erradicada?

– A fumaça está forte. Vamos! – Suzana a puxou. – Também não quero estar aqui quando a perícia chegar, não conseguiria imaginar uma desculpa para o que fiz.

Bianca fez um semblante de incredulidade:

– Uai, eu tinha de desviar a atenção deles para chegar até você. Eu só encostei a vela de sete dias da tia por dois segundos no forro da cortina.

Deitada no carona, mais uma vez, Bianca apagou. Fugir da realidade e afundar no obscuro estavam se tornando constantes consolos.

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