DESPROTEÇÃO – Suzana

Era mais difícil do que imaginava. Contudo, era até prazeroso. Os primeiros momentos como monitora configuravam-se como paradoxais. Suzana se espantava com a burrice e a falta de atenção, ao mesmo tempo em que se maravilhava e se orgulhava quando eles, enfim, compreendiam.

Havia todo um preparo e uma paciência a serem aplicados e desenvolvidos. Tinha de dominar e revisar o conteúdo antes da sessão de monitoria. A cada plantão, percebia o quanto afortunada era por assimilar mais rapidamente a matéria.

De início, passava e cobrava exercícios. Então, perdia alguns momentos, em casa, corrigindo-os. Parou com aquilo. Ganhava bem menos, se comparasse os dois estágios anteriores de prática. Não ia fazer em demasia. Com tantas decepções, não precisava se sentir desvalorizada. No entanto, aquele dia seria um exemplo de como as pessoas sempre podem afundar, não há limites para a queda.

O começo do sucumbir foi silencioso e sorrateiro. Poderia esperar tudo, menos a presença daquele colega de faculdade tão odiado: Marcus, o estagiário que a fez passar por um dos maiores constrangimentos. Quando foi expulsa, acusada de um assédio mentiroso, nunca o viu pelos corredores da faculdade. Ele era alguns períodos acima dela. Se ia assistir à aula de monitoria, isso era sinal de que ele tinha pendências.

A princípio, Suzana fechou a cara. Que direito ele tinha? Era um sem vergonha, falso e arrogante. Decidiu não responder qualquer solicitação vinda de Marcus. Depois, percebeu que precisava separar os fatos. Naquele espaço, era uma bolsista, encarregada de tirar dúvidas. Não importava quem deveria ajudar.

Com o desenrolar, acabou se esquecendo dele. Estando distraída, escrevendo no quadro, não se tocou que a pergunta veio de Marcus. Se segurou e respondeu com simpatia. Era passado. Precisava se desapegar. Isso era mais difícil na prática…

Enquanto a turma conversava e resolvia exercícios, pensou sobre os percalços que passara por causa daquela distante safadeza. Fora há tão pouco tempo… No entanto, outras coisas haviam ocorrido: o novo estágio na firma de Igor e a recente bolsa de monitora, as declarações de amor, a viagem, o término… Realmente houve um efeito cascata de proporções inexplicáveis. Sabíamos que a vida tende a ser surpreendente e cheia de reviravoltas. Só que nunca estamos preparados.

Assim que dispensou a turma, teve outro susto. Marcus se prostrou em frente pra mesa. Se pudesse, dava-lhe um tapa na cara:

– Você deve estar querendo me bater…

– Você é um bom leitor de linguagem corporal. – continuou a desprezá-lo.

– Eu fiquei abismado. Você é uma boa professora. Me ajudou pra caramba.

– É para isso que estou aqui. – Suzana se levantou da mesa.

– Eu acho que eu me arrependo. – ela travou, encarando-o. – O escritório perdeu uma ótima estagiária. Aquele lugar nunca foi o mesmo depois que você saiu. Perdeu o brilho.

Suzana voltou a se sentar. Ficara contente e vaidosa com aquela revelação. Porém, não podia caiar nas garras ou lábias daquele homem. Quanto tempo gastou odiando-o, pensando em maneiras de se vingar…

– O que você quer? O que você ganha em me dizer isso? – acusou.

– Nada. Só estou sendo honesto, falando a verdade. Fizemos algo errado contigo apenas.

– Apenas? Vocês me escorraçaram sem me dar chance para nada. E você sabia que era tudo mentira.

– Eu não sabia. Juro que não sabia! Havia insinuações, olhares…

– Que não significavam nada! Você tem ideia do inferno que passei? Das noites mal dormidas? Do ódio que senti de mim? Eu me vi a mercê de pessoas que não me conhecem. Tive de recomeçar em outra empresa, parei numa área que não gosto. Tive de abrir mão do estágio porque essa história inventada caiu nos ouvidos de outras pessoas. Deve ter saído de você! Para quem contou o meu caso?

Marcus ficou branco, assustado. Parecia que ela havia descoberto algo:

– O que foi? Fala! – Suzana se impôs.

– Nada! É melhor eu ir.

A garota agarrou no pulso dele. Uma força incontrolável a fez enterrar as unhas contra a própria mão, ferindo-se:

– Você, Marcus, não faz nada de graça. Anda! Conta! Quem te subornou a revelar os detalhes do suposto assédio? Quanto você recebeu?

– Eu não sei quem são… – ele miou.

– Sabe sim! Você deve ter recebido e procurou saber quem era o seu benfeitor.

– É melhor você não saber. – ele se repuxou. Suzana se manteve firme, colocando-se de pé. A mesa que estava entre eles quase virou. – Quando eles me abordaram, eu não sabia. Mas foi tanto dinheiro, fiquei curioso. Acabei descobrindo.

– Eu vou ter que bater em você! Conta!

– Foi a sua avó, junto de seu primo Nei.

Suzana soltou Marcus. A mão estava dormente, mas ela nem sentiu. Havia um roxo no pulso do garoto:

– Como é?

– Eles me chamaram para um café após o expediente. Queriam detalhes. Eu não podia dizer, mas eles me ofereceram dinheiro. Acabei reunindo o material sobre você.

Suzana estava incrédula. Sentia um ódio percorrer toda a espinha. Se pudesse, voltava ao tempo e empurraria Nei para o meio das labaredas de fogo provocadas por ela:

– Eu queria propor algo a você para que eu fique de boca calada. – Mais descrente, Suzana ficou. – Prometo nunca falar com mais ninguém sobre isso, se você me indicar para a vaga de estágio de onde você saiu. Preciso ganhar novas experiências. Boa que é, tanto no sentido de trabalho quanto no sexual, deve ter deixado portas abertas. Pode, muito bem, me indicar para substituí-la.

Num súbito, ela enfiou um tapa na cara de Marcus. A mão, não recuperada da cãibra, doeu muito. Porém, estava aliviada:

– Você pode contar essa história pra qualquer pessoa, para a presidente, para o papa. Foda-se, não me importo! De mim, você não recebe nada. E some da minha monitoria. Você nunca mais vai dividir uma sala comigo.

Bufando de ódio, deu um grito de ódio ao ser bloqueada no corredor. Paulo, da Química, sorria sem graça:

– O que é? O que você quer? – ela disse extremamente atemorizante. Se arrependeu. Ele não tinha culpa de nada.

– Vejo que não é uma boa hora, mas não posso mais evitar. Há dias, tenho te rodeado, tentando criar coragem.

– Pra quê? – Suzana, de repente, ficou apreensiva.

– É melhor eu dizer logo. Tenho sífilis. Você pode estar contaminada.

A informação demorou a ser processada. Suzana se sentia voando, como se o corpo tivesse se desprendido da alma. Esta estava subindo, perdida, descompassada:

– Você está bem? – ele pôs as mãos no ombro dela.

– Sai! – desvencilhou-se de Paulo, sentindo nojo.

Cambaleando, foi ao estacionamento. Entrou no carro. A cabeça latejava. Não conseguiria tirar aquilo da mente. Isso a atormentaria para sempre. Numa manobra brusca, mudou de direção e parou no Hospital Universitário.

Andando a esmo pelos corredores, sentiu-se uma louca. Tinha plano de saúde, não precisava estar ali, até que a reconheceu, carregando uns materiais numa bandeja de inox:

– Catarina, não é? Você não faz faculdade particular?

– Faço, mas pedi para ser voluntária. Você está estranha, está tudo bem?

– Não. Preciso colher meu sangue. Eu pago se for preciso. Acho que estou contaminada com alguma doença venérea.

Agarrou-se no pescoço da estudante. Catarina era bem mais baixa e mais magra, porém, não sucumbiu, manteve-se firme. Carregou Suzana até um cubículo, recolocou-a numa cadeira:

– Não saia daqui! Já volto.

Sozinha, indefesa, atacada e finalizada. Suzana não sabia a quem recorrer. Foram dois baques tremendos. Sempre soube do ódio da avó. Não esperava tamanha destruição. E adorava sexo. Não conseguia conceber que estava contaminada com alguma doença. Olhou um armário cheio de remédios. Na ousou ver se estava aberto. Se conferisse, faria uma besteira.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: