DESPROTEÇÃO – Eulálio

– Não sei se dou conta, não é uma boa ideia.

– Claro que é. Você está totalmente errado, primo. – Camila começava a ficar insatisfeita com a recusa. – Isso é tão básico, só precisa organizar papéis, atualizar o livro de finanças… Pelo que sei, é trabalho simples de contabilidade. Por que insiste em recusar?

– E por que você insiste em me ajudar? Não estou precisando de nada! – Eulálio se arrependeu. Mais tarde, agradeceria ter topado um trabalho tão tranquilo, pois sua situação teria uma nova reviravolta.

Enquanto Camila ia até a janela para respirar e não perder a paciência com o primo cabeça dura, ele tomou consciência de que não precisava ser tão mesquinho e orgulhoso. A prima agia de boa-fé. Solidarizava-se com a falta de grana, já que fora expulso do estágio nas empresas Bersani.

Mais uma vez, se tornara o primo mais pobre. Suzana e Bianca não precisavam se importar com finanças. Camila trabalhava e, desde então, estava tranquila financeiramente. Além de bastardo e sem perspectivas, não sabia por onde começar a sair da fossa que estava há algumas semanas:

– Ok! Eu faço. Qual é o meu prazo de tempo?

– Duas semanas! – Camila abriu um sorriso. – Não temos pressa.

– O Leo vai me pagar como se fosse um mês de estágio para cuidar das pendências pessoais e do consultório? Realmente é muito simples para tanto dinheiro. Não quero parecer que vou explorá-lo. Vou fazer tudo bem rápido. Obrigado, Camila.

Os dois se abraçaram:

– Talvez você seja a irmã que não tive, já que não temos irmãos. – Eulálio percebeu o quanto a prima ficou sem graça com o elogio. O que havia de inusitado naquilo? Seria o beijo que eles trocaram? – Foquei em Bianca, mas ela tem Nando e Nei.

– Falando na Bibi, que história bizarra! O que você está sabendo? – ela desconversou.

– Sei muito pouco, não nos encontramos.  Minha mãe quem me contou. Teve uma festa organizada por Nei e começou a pegar fogo. Foi uma confusão danada. Acabou com a sala.

– Foi. Ninguém entende como a vela de sétimo dia, que fica no oratório, no hall, gerou aquele incêndio todo. Há suspeitas, está sabendo? – Lio fez negativamente com a cabeça. – Andam desconfiando da Suzana.

– Por que ela colocaria fogo na casa? Espera aí. A mãe contou que viram ela saindo abraçado com a Bianca que, por sua vez, estava pelada.

– Bianca?! Pelada?! Isso não é típico dela. Gente, o que estava acontecendo naquele lugar? Só sei que ninguém fala. Colocaram todo mundo na parede, nenhum dos cinco disse nada de concreto, nem Nei e Sandro, que não têm escrúpulos, estão bem quietos. Nando diz ter estado bêbado e não viu nada, o que é mentira, pois ele ajudou a apagar o fogo. Suzana alega que estava ficando com um carinha, só confessa ter ido resgatar Bianca. Ela foi a única que não deu uma palavra.

– Suzana está solteira?

– O lance com Igor acabou faz tempo.

Eulálio precisava sair mais, interagir nem que fosse com as primas. De repente, altos acontecimentos pipocaram, mas ele não sabia de nada. Apenas Teresa trouxera algumas revelações, enquanto Camila tinha pontos mais picantes.

Tanta coisa que não sabíamos, tantos detalhes não revelados. Se abaixasse a cabeça para a avó naquele momento, sabia que seria subjugado sempre. Por isso, decidiu retomar as buscas, agir sorrateiramente para desmascarar a fera. Mal sabia que mais botes e golpes iriam ao encontro dele:

– Eulálio José! Filho! Corre aqui!

Os dois primos se entreolharam. Havia urgência. Eles foram para a varanda. Acabavam de entregar um carro zero Km na calçada. Ele tinha um laço na parte de cima. Era vermelho forte e metálico. Aquela cor o assustou. Por um tempo, desconfiou que boa coisa não seria:

– Deve haver algum engano. – Teresa comentara.

– Alguém poderia assinar a entrega? – Um dos homens perguntou.

Na impossibilidade, devido ao choque dos dois, Camila pegou a prancheta e deu uma rubrica. Dois envelopes pardos foram entregues, um para mãe, outro para o filho.

A prima acompanhou o recado da avó: “Conforme combinamos, eis os documentos. É só assinar e deixar de ser um de nós. O carro é o presente pelo seu aceite. Pela oficialização, vou conceder mais um desejo. Lina Bersani”

– Não compreendo. – Camila disse.

– Nossa avó quer que eu tire o sobrenome do meu pai. Ela me dá qualquer coisa se eu deixar de ser um Bersani.

– O quê? – Teresa estava atônita. – Além de nos expulsar, quer anular o Gabriel da nossa vida!

– Expulsar? – Foi a vez de Eulálio ficar sem entender.

– A avó monstruosa de vocês acaba de nos expulsar. Ela está tomando a casa de volta, quer que nos mudemos em um mês. Também vai cortar a nossa ajuda de custo. “Acabou a farra, vocês devem andar com as próprias pernas” são as palavras dela.

– Como ela pôde? Foi longe demais. – Camila se revoltou.

– Não há limites para Lina Bersani. E eu ainda me surpreendo. – Teresa ficou ressentida.

– Abusa do poder, nos intimida, nos derruba… – a prima estava chocada.

– Parece que não há fim. – Teresa voltou-se para dentro de casa.

Eulálio foi abraçado pela prima:

– Ela mordeu e assoprou. Debochou! Pra que preciso de um automóvel se não tenho onde morar? Que ódio! Minha mãe não merece passar por isso! Que vontade de quebrar esse carro!

– Não faça isso, Lio! Use o carro para te favorecer. Você pode vendê-lo e investir numa casa nova.

Estava desapontado consigo mesmo. Essa pequena reviravolta atestava o despreparo e o afastamento da tranquilidade. O caminho era longo e complicado.

Eulálio foi até o carro. Passou a mão pela lataria, admirou-o. Era um presente dado por motivos errados. Ressaltava o defeito, ao invés de uma congratulação. Pensou se realmente é possível se erguer e atingir o sucesso sem a ajuda de ninguém, muito menos da família. Atestou que sem apoio seria complicado, imagine com a interferência negativa, sempre puxando mais para baixo:

– Eu e o André vamos ao teatro. Vem com a gente! Hoje é sábado. Nada de bom vai sair se ficar sozinho e recluso. – propôs.

– Não quero estragar o encontro de vocês.

– Não vai. A gente vem pegar você, não precisa se preocupar com ônibus e horário.

– Eu não acho…

– Não quero saber. Você vai e pronto. – Camila abraçou o primo. – Não posso combater a vovó ou ajudar com mais propriedade. – disse com muita calma. – Mas, posso estar ao seu lado. Pode não ser nada a minha presença. Só que ela é muito verdadeira. Torço muito por nós, Lio. Um dia, vamos superar isso tudo. Sabe, ainda estamos nos construindo, fortalecendo as bases. Ainda não temos telhado, por isso sofremos tanto as intempéries. Quando menos esperarmos, vamos estar prontos. E nada, nada mesmo, vai nos derrubar.

– Vai demorar? Não aguento mais tanta porrada da vida.

– Infelizmente a construção é complexa e longa. Só que chegaremos lá! Pode crer.

Eulálio sempre teve crença em si mesmo. Isso já era um começo. Sem levar fé em nós mesmos, certeiramente estaremos fadados ao fracasso.

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