DESMORONAÇÃO – Bianca

O cheiro típico de churrasco, a música sertaneja animada e o falatório condenavam que Bianca teria dificuldades em ler ou dormir. Não se lembrava de alguém ter comentado com ela sobre uma festinha na sexta-feira. Se soubesse, teria acampado na casa de Suzana ou Camila. Na verdade, ninguém ia contar sobre o evento, pois os irmãos claramente se aproveitaram da ausência dos pais para se divertirem.

Pelo basculante, averiguou os convidados. Por que perdera tempo conferindo? Eram os mesmos de sempre, os típicos filhos de papai, as dondocas fúteis. Nei se sentia o rei, o dono do palco. Ria de todos, chamava a maior atenção. Nando estava mais reservado, junto de Sandro. Será que Suzana iria aparecer? Ela nunca via problema em socializar com os primos.

Enquanto bebia um suco, refletia sobre as distâncias naturais. Aos poucos, as pessoas vão se afastando, se separando. A graça da vida é a influência que ela tem em nós. Nossos gostos mudam, as percepções se transformam, os desejos tendem a não serem fiéis, outros tomam lugares.

Antes, Bianca queria ter uma vida tranquila, ser funcionária pública, passar despercebida pela família. Encontrar alguém para casar logo e anular a pressão que a avó colocava sobre ela. Isso era enfadonho demais, típico demais. Hoje se enxergava como uma advogada bem sucedida e respeitada. Séria e admirada. Totalmente desvinculada dos Bersani’s. Solteira, pois se casaria com a profissão e aceitava o defeito da falta de prazer sexual.

Tomou banho, checou os e-mails e migrou para o quarto dos pais. Era mais afastado da algazarra, teria mais sossego. Tentando ler para puxar o sono, deu um pulo de susto quando a porta bateu com estrondo. Demorou até que alguém entrasse. Deveria tê-la trancado:

– Achei você! – Nei apareceu.

– Achamos você. – Júnior surgiu em seguida.

Com os olhos sobressaltados, viu mais sete garotos entrarem no quarto, após o fechamento da porta. Eles cercaram a cama. Bianca se sentia uma oferenda, prestes a ser trucidada a qualquer momento. Tentou se acalmar, afinal, seu próprio irmão não seria capaz de abusá-la. Não tinha tanta certeza…

– Irmã querida, pensamos que você ia se juntar a nós quando chegasse. Já de pijama. Que broxante!

– Essa é a maior característica dela. – Os garotos caíram na gargalhada graças ao comentário de Júnior.

– É, estamos sabendo. Que decepcionante! – Nei fez carinha de tristonho. – Eu achava que só homem poderia ter impotência. Não poderia imaginar que minha própria irmã fosse… que você é… como é a palavra? – ele estava bem bêbado.

– Frígida! – alguém respondeu.

– Isso! Frígida, fria, insensível! Mas me conta! Por que você é assim? O que trava você? Eu ainda acho que a culpa é do Júnior. Ele é um brocha! – mais risos entre todos.

– Ah, vai tomar naquele lugar. Você sabe o quanto sou dotado.

– Explica, Bianca! Algum médico já examinou você? Pode ser psicológico, algum trauma.

– Talvez eu tenha traumatizado ela com meu tamanho. – Júnior esfregava o zíper. Os garotos riam de novo.

Cada vez mais vermelha, Bianca deixou o livro de lado. Tirou o edredom de cima de si:

– Não precisa sair da cama. – Nei se aproximou, sentando-se na beirada. – Eu, como bom irmão, vim ajudar. Alguém teve essa ideia agora na festa: você precisa se deitar com outro cara. Resolvemos nos juntar, você pode escolher quem quiser.

– Quantos quiser! – um garoto debochou.

– Isso é ultrajante… – Bianca soçobrou. – Não quero nada disso!

– Não tem o que querer. Não quero continuar sendo alvo de palhaçadas e brincadeiras por ter uma irmã fraca e defeituosa. Você escolhe um e nós trancamos vocês dois. Só abriremos quando ouvirmos os seus gritos e urros de prazer. Só acho que o Júnior não deveria entrar nessa lista.

– Todo mundo sabe? – ela não acreditava.

– Claro! Não cumpriu o combinado. – o ex-namorado deixou no ar. – Cansei de fazer um favor para você em segurar esse segredo vergonhoso.

Bianca deu um salto. Nei voou até ela, imobilizando-a, esmagando-a:

– Eu quero ver você deixar de ser dondoca e puritana. – ele sussurrou em seus ouvidos. – Ser uma freira por vocação é uma coisa, mas carregar uma dificuldade é algo impensável para um Bersani. Aprendi com vovó a forçar quando for preciso, a fazer as coisas acontecerem. E hoje você vai arrebentar esse seu problema, não importa com quem! Pode até ser comigo.

Bianca não conseguia chorar, estava em choque ao sentir o membro de seu irmão duro, recostando-a. Nei ria da situação:

– Não tem escapatória. Daqui você não sai a não ser se realizar o que eu mando. Desse quarto, você não passa. Tem muita gente tomando conta.

– Isso… é… Isso… – Bianca tentava dizer. – Tentativa. De estupro!

– Não, na verdade. Isso é. – Repentinamente ele rasgou a blusa do pijama e puxou o sutiã. Bianca gritou de dor, pois a peça demorou a rasgar. Marcas vermelhas e pulsantes ficaram na sua pele. Estava nua, mas não sentia vergonha. – Até que você é bem bonitinha! – Nei elogiou.

– Passamos do limite. Achei que era uma brincadeira. – um dos garotos disse. – Eu quero ir embora.

– Ninguém sai! – Ele gritou.

– Estão sentindo…? Parece… – Júnior olhou ao redor.

– É o cheiro do prazer, da libertação da minha irmã. Hoje ela se tornará uma Bersani melhor, quase uma Suzana. – No meio dos risos, de repente, Bianca deu duas cuspidas na cara do irmão.

– Com certeza, serei mais valiosa que você, seu imundo.

Um tapa voou até a bochecha dela:

– É fumaça! – alguém gritou.

Nesse momento, todos ficaram em silêncio. Puderem ouvir a movimentação na festa. As pessoas gritavam e clamavam por bombeiros. Os garotos saíram em debandada. A preocupação com as perdas e a confusão latente desviaram a atenção de Nei que saiu junto dos amigos. Bianca permaneceu deitada, totalmente devastada com aquela cena humilhante. Não conseguia conceber como alguém podia ser tão malvado com seu semelhante, com a própria irmã.

Sem que percebesse, o quarto começava a se inundar de fumaça. Uma sombra se formava de longe, aproximando-se da porta. Ela se assustou. Podia ser alguém reminiscente querendo abusar de si. Deveria ter fugido, aproveitado. Estava desnuda e indefesa. Esperando pelo pior, não acreditou quando Suzana parou no batente e comentou:

– Foi por pouco… O que fiz não foi em vão. Vamos embora daqui!

A prima puxou um lençol e a enlaçou com ele. Desceram correndo as escadas, passando pelos fundos. Alguns, dentre eles Nando, tentavam apagar o fogo das cortinas da sala.

Bianca se reteve. Mirou as chamas. Em um segundo, tudo estava se consumando, se esvaindo. Ela havia secado também? Toda a sua essência, depois de tanta pressão e abuso, também teria sido erradicada?

– A fumaça está forte. Vamos! – Suzana a puxou. – Também não quero estar aqui quando a perícia chegar, não conseguiria imaginar uma desculpa para o que fiz.

Bianca fez um semblante de incredulidade:

– Uai, eu tinha de desviar a atenção deles para chegar até você. Eu só encostei a vela de sete dias da tia por dois segundos no forro da cortina.

Deitada no carona, mais uma vez, Bianca apagou. Fugir da realidade e afundar no obscuro estavam se tornando constantes consolos.

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ADAPTAÇÃO – Bianca

Assim que chegaram ao Restaurante Universitário, eles se dividiram. Eulálio ficou conversando com um colega de curso, Camila tinha se dirigido ao banheiro, Suzana entrou na fila pra comprar os tickets, e Bianca foi deixar o material de mão no guarda-volumes.

Durante o trajeto, ela só escutou reclamações. O primo tinha sido deslocado para um trabalho penoso de arquivamento e eliminação de documentos. Ficava enfurnado numa sala mofada e fechada, relendo inúmeros materiais. Por incompetência, o volume de arquivos havia triplicado sem que houvesse qualquer ação de gestão.

Suzana não se sentia mais desafiada. Atuava no automático, totalmente estagnada. Passou a estagiar por três dias na semana, a fim de fazer matérias eletivas e obrigatórias. Transparecia que gostaria de sair da firma, no entanto, o ócio seria bem pior que o trabalho sem valor.

Já Camila comentava sobre o excesso de tarefas, leituras e atividades que o novo ciclo de Antropologia requisitava. Como era difícil ser caloura de novo. Para piorar, com vários novos clientes, não conseguia adiantar os afazeres no consultório. Queria muito pedir uma folga a Leo, mas não consegui pensar em deixá-lo na mão. O namoro com André também contribuía para esse turbilhão acadêmico.

Bianca, por outro lado, não tinha do que reclamar. Amava o que fazia, adorava o ambiente, tinha respeito pelos advogados da equipe, não podia conceber abandonar a firma. Porém, sempre há desvios que não estão na nossa alçada. Não depende de nós fugir ou evitá-los.

Prestes a ser atendida, uma mão pousou em seus ombros e amparou o excesso de material que carregava. Por ínfimo instante, curtiu a cortesia. Ao descobrir que era Júnior, empalidecera:

– O que você está fazendo aqui? – ele sorria como se não soubesse o teor de ameaça e medo que fazia atravessar o corpo dela.

– Vim encontrar minha namorada pra almoçarmos. Que bom que te encontrei. Posso matar o tempo. Quanto livro! Você é mesmo muito aplicada. Vai longe! – debochou.

Bianca olhou pra frente. Não gostaria que Junior se encontrasse com os primos:

– Vocês vão almoçar no RU?

– Tenho uma carteirinha falsa. – mostrou, com ares conspiradores. – Quando você vai voltar a minha casa? Dessa vez, Nando não estará lá, eu garanto. Você deu sorte.

– Se você está namorando, por que me deseja tanto? Passo a achar que você me ama e não sabe.

Junior deu uma risada sarcástica. Foi a vez de Bianca ser atendida no balcão. Ela contava com a saída dele. Não podia se ausentar dos primos por tanto tempo sem levantar suspeitas:

– Que curso sua namorada faz?

– Você ainda pergunta? Claro que é medicina. Então, você pode escolher entre hoje ou amanhã. É só aparecer. Estou doido pra testar você.

O dia estava ameno, o vento agradável. Inúmeras pessoas circulavam felizes e dispostas. Bianca queria ser uma delas, não desejava mais sofrimentos. Por uns segundos, o semblante zombeteiro de Junior a deixou proativa e determinada. Um basta necessitava irromper. Como voltar a crescer se continuava subjugada?

– Eu não vou! Prefiro virar freia a me deitar com você de novo. Faz o que você quiser. Publica no jornal, conta pra todos. Não me importo mais. Pra mim, você é totalmente desprezível.

E saiu anestesiada. Estava envolta numa névoa de indeterminação. Com aquele confronto, tinha certeza de que o retorno seria impactante. A resposta de Junior tenderia a ser catastrófica.

Quando retornou aos primos, eles conversavam sobre um assunto que não conseguiu romper a dispersão de Bianca. Sentia-se blindada. Sabia que uma revolução estava por vir, de maneira mais prodigiosa.

Não tinha medo, pois entendia que era pra bem. Às vezes o fogo destrói, poda, derruba. Porém, dá oportunidade para o novo se sobrepor e ressaltar. Uma virada, uma sacudida e uma remexida poderiam ser melhores que a inércia do terror:

– Você está quente demais! – Camila comentou quando os braços se encostaram na hora de arrumar os pratos. – Está tudo bem?

Bianca só balançou a cabeça. Na mesa, nem se lembrava do que colocou. Eulálio tinha um típico “prato de pedreiro”, com uma montanha de todas as opções do RU. Suzana priorizou mais a salada. Camila trazia uma arrumação mais balanceada:

– Eu não poderia supor o quanto a vida pode se transformar tão rápido. Há um ano, nunca poderia imaginar que eu estivesse trabalhando, cursando Antropologia e namorando. Nem eu acreditava em tanta potencialidade. – disse de maneira melancólica, mas estava satisfeita.

– Tenho mais de dois anos de experiência como estagiário da nossa futura empresa. – Eulálio debochou. – Não fui descoberto até hoje. Ah, também namorei, perdi minha moto.

– Eu não vou dizer que tenho ou estou tendo um relacionamento. – Suzana refletiu. – Só posso destacar que existe um homem em minha vida, pelo menos com mais constância, porque ele viaja tanto e não nos vemos com a frequência necessária. Troquei de estágio…

Os três fitaram Bianca. Esperavam um balanço. Apesar de ter escutado e entendido a insinuação, teve medo de falar. Tanto tempo segurando, sempre se fechando, parece que seu segredo havia estagnado. Não conseguia colocar pra fora as dúvidas sexuais, o medo de não ser capaz de ter prazer. Confortavelmente, o pavor havia se instalado a meio caminho: não descia e se assentava, nem explodia e se revelava:

– Somos tão novos… – disse, brincando com o garfo pelos alimentos. – Tudo isso pode ruir a qualquer momento. Ainda não dá pra controlarmos. Nem sei se é possível. Nós nos consideramos tão importantes e grandiosos, mas fazemos parte de um universo bem maior.

– Nos esquecemos disso. – Camila contribuiu.

– Quando menos esperamos, uma onda de devastação pode surgir sem qualquer chance de preparativo. – Bianca profetizou.

Os três pararam de comer. Lio deixou o garfo no ar. Suzana, de repente, não tinha mais fome:

– Não sabemos o que nos espera depois da faculdade, após a formatura. – Camila largou os talheres e olhou ao redor. – Achamos que é de um jeito e acabamos nos surpreendendo. Somos todos despreparados.

– Não concordo com vocês. Tem muita coisa imprevisível, mas com o tempo nos tornamos mais fortes, eu acho. – Suzana rebateu.

– Esse papo está muito cabeça para um almoço descontraído. – Eulálio cortou.

– Estou sem fome. – Bianca reclamou.

– Então, deixa comigo. – Lio enfiou o garfo e roubou o bife, além do potinho de gelatina.

Era costume do primo agir assim, fazendo a limpa nos pratos alheios. Porém, se sentiu magoada. Não queria mais interferências das pessoas. Como se tratava de seu caminho, deveria tralhar consigo mesma. Por isso, precisava demarcar bem seu espaço e a si mesma. Uma proteção partindo de dentro configurou-se em seus olhos. Mais um desafio, mais uma luta. Até quando? Em que momento estamos satisfeitos plenamente?

DISTRAÇÃO – Bianca

Por que não conseguia se abrir com detalhes como a prima? As pessoas achavam que Bianca não tinha nada de extraordinário em sua vida, por isso, não se expunha, nem se mostrava. Realmente não tinha vivência, mas havia inquietações e dúvidas. Explanar seria um bom caminho.

Enquanto esperava por Camila retornar do banheiro, teve a impressão de ter visto Nei pela festa. Estranhou. Não era do feitio do irmão aquele ambiente. Por um momento, teve receio de Júnior estar por perto. Não tardaria para que ele revelasse o passado negro que viveram. Estava certa nisso:

– Bianca! – ela se assustou. Pensou que poderia ser o ex-namorado. – Me desculpa. Não quis assustá-la.

– Tudo bem. – ela sorriu, totalmente sem graça. – Estava distraída. Quanto tempo, Carlos.

– Você é quem não me vê. Vou quase sempre ao escritório do pai e você está sempre atolada e atarefada.

– Acho que isso é um elogio.

– Certamente.

Começaram a conversar trivialidades sobre o escritório de advocacia que ele herdaria. Bianca se sentia bem perto do rapaz, embora não soubesse determinar qual era o real interesse: ele gostava dela? Era simpático ou tinha sido cativado? Com pouca interação, não conseguia precisar o porquê da recorrente procura de Carlos.

Nesse momento, não tão distante, Bianca era observada por Luca. Era a primeira vez que a via desde o beijo roubado. Uma pontada estranha brotou, um ciúme prévio talvez. Queria ir até os dois. Resolveu se afastar:

– Você vai muito ao cinema? – Carlos se interessou.

– Não tanto.

– Posso te chamar um dia?

– Ei. – Camila retornou. – Olá…

– Carlos, prazer, sou filho do chefe da Bianca. – apresentou-se.

– Oh, prazer. Eu sou prima dela, Camila. – os dois se beijaram. – Desculpe interromper, mas eu quero ir embora. Estou ligando para Suzana e Eulálio que me ignoram.

– Vamos procurá-los. Se não acharmos, vamos de táxi.

– Posso levar vocês. – Carlos foi solícito.

– De jeito nenhum. A festa está ótima. – Bianca recusou.

– Não me importo. Anota meu celular. Se vocês foram descer, me liguem.

Camila olhou atravessada para Bianca, assim que deixaram Carlos:

– Ele gosta de você.

– Gosta nada. Ninguém gosta de mim. – Camila se assustou com o ressentimento da prima.

– Bianca, não pense assim. Você é jovem, bonita, inteligente, esforçada.

– Você não sabe de nada. – cortou.

– Uai, era aqui que deixamos a moto do Lio. Ele foi embora? – Camila desviou o assunto. – Deve estar na maior putaria, esse menino.

– Suzana também…

– Vamos de táxi? Ou quer chamar o apaixonadinho por você para nos levar?

– Lógico que não vou ligar pra ele.

Bem afastadas da festa, atentas para um veículo amarelo, não viram a aproximação de Suzana com Paulo:

– Aonde vocês estão indo? Já vão embora?

As duas ficaram chocadas. Paulo deu um beijo na bochecha da prima, acenou com a cabeça e saiu. Caladas, viravam o pescoço acompanhando o homem que se afastava, enquanto a prima sorria:

– O que foi? – Suzana transparecia inocência.

– Você pegou o cara mais cobiçado…

– E galinha. – Bianca completou.

– … da universidade? Ele não fica com quase ninguém. Gosta apenas de seduzir, encantar e perceber que é desejado para nem ao menos dar um beijo.

– Não só peguei, como dei pra ele diversas vezes. O cara é bom. Faz jus à fama. Realmente poucas escolhidas merecem aproveitá-lo.

– Suzana, você já tinha contato com ele? Vocês se conheciam? – Camila questionou.

– Sabia de nome, eu acho. Uma vez, ele estava numa palestra, mas não marquei a cara dele. Nós nos esbarramos hoje. Era o destino.

– Primas! Aconteceu uma tragédia, uma merda com letras maiúsculas.

As três se sobressaltaram com olhos esbugalhados e assustados. Ele estava elétrico:

– Roubaram minha moto.

– O quê? – Suzana gritou.

– Como assim? Fica calmo! – Camila tentou.

– Eu não sei o que fazer. – ele estava prestes a chorar.

Os quatro correram até o local onde a moto tinha estado:

– Foi aqui. Juro que deixei aqui. Não foi, Camila? – Ela concordou. – Como tiraram minha moto sem ninguém ter visto?

– Vou chamar a polícia! – Suzana sumiu.

Camila enlaçou o primo para ampará-lo. Antes de imitá-la, Bianca achou Luca conversando abraçado com uma garota baixinha e esquisita. Ele falava de maneira apaixonada e sincera, ao pé do ouvido da moça, que nitidamente estava desatenta e fora de área. Teve inveja. Se imaginou naquela posição. Um estremecer percorreu todo o seu corpo:

– O que você está fazendo aqui? – Camila disse de maneira assustada.

– Eu liguei pra você milhares de vezes, depois das suas 14 chamadas. Não viu?

Por um momento, todos se esqueceram da moto. A aparição de André só poderia ser descrita como mágica:

– Fiquei desatenta. – ela ainda estava estática e abismada. – Você veio sozinho?

– Claro. Sem resposta sua, larguei aquilo tudo e vim ficar contigo. Sei que foi a Carolina quem ligou. Mas eu faço tudo mesmo é pela Camila. Sou fiel a ela.

A garota desgrudou-se de Lio e abraçou o namorado. Bianca sorriu. Ela pareou o primo, segurando-o pelos ombros.

Pensou nas perdas. Ao olhar Camila, resumiu que às vezes, achamos que as coisas se foram, mas elas permanecem. Apertando Eulálio, considerou que, em momentos, com um simples piscar, tudo desaparece. Quando percebeu o retorno de Suzana, lembrou que, sem sentir, podemos deteriorar o redor. Quanto a ela, ponderou estar cansada de ver positividade em meio a tantas privações.

COMPRESSÃO – Bianca

Despreocupada, Bianca tomava café quietinha, alheia ao entorno. Era um estado de recente despertar misturado com uma tranquilidade, raramente sentidos. Nem sempre, ela conseguia atingir tamanha passividade e calmaria. Por isso, aproveitava para divagar envolta do nada. Como estava adiantada, poderia se deixar levar pela letargia.

Nando chegou à cozinha pisando fundo. A intenção era se fazer notar. Mesmo assim, não despertou a irmã que olhava pela janela, totalmente fora de ar. Ele arrumou um pão, tomo goles de café e ficou esperando. Não queria puxar assunto, apesar de ter preparado mentalmente uma forma de ajudar sem se expor. Não podia, em hipótese alguma, transparecer que sabia de todo o plano de sua avó Lina para os quatro netos. Ele começava a não entender a razão de todo aquele ódio.

Puxou uma cadeira e ficou de lado de Bianca. Tocou de leve no braço dela. Continuou sem resposta. Pegou o pedaço de papel e o colocou em frente do prato da irmã. Por uns instantes, ela também não reagiu. Depois, a garota, lentamente, olhou para frente e desdobrou a folha. Havia um nome e um telefone. Sem precisar falar nada, fitou o irmão com cara de desentendida:

– Tenho um amigo que acabou de abrir uma firma de advocacia. Ele quer alguém da área de família. Não é a sua nova especialidade?

Bianca ficou vacilante. Desde quando seus irmãos retêm qualquer informação sobre ela? Quando podia supor que eles seriam capazes de ajudá-la? Com certeza, achou tudo muito estanho e suspeito. Nando percebeu rapidamente:

– É um contato futuro pra você. A gente nunca sabe o que pode ocorrer. Eu acho ele muito bacana e determinado. Talvez vocês comecem algo grande juntos.

Bianca se serviu de mais um pouco de café. Não tirou os olhos do papel por um tempo. Queria perguntar o porquê daquilo. No entanto, sabia que não podia forçar a barra com os irmãos. Eles estavam em uma dimensão diferente da dela. Perderam a conexão. Não seria uma simples indicação suficiente para reagrupá-los:

– Obrigada. – ousou dizer de uma maneira sem sentido e propósito.

Ao notar o irmão, ela percebeu uma seriedade intensa. O gesto de Nando não transparecia uma mera simplicidade. Era sério e determinado, com muito significado. No entanto, Bianca não conseguia definir o que indicava.

A caminho do estágio, apalpando o papel com o telefone, enquanto as mãos permaneciam no bolso, ela fez uma varredura em memórias, assuntos e situações que pudessem fazê-la entender aquela atitude no café. Totalmente encolhida por causa do forte vento, ela se perguntou até quando se sentiria inferiorizada e diminuída face os familiares. As intempéries permaneceriam por muito mais tempo? Ela aguentaria as pancadas?

Assim que se sentou na mesa, prestes a ligar o computador, fora chamada a comparecer em uma das salas de reunião. Um possível cliente a esperava desde cedo. Não tinha pedido por Bianca especificamente, embora tenha ficado claro o quanto ele queria uma estagiária, mulher, com competência e pendente para o ramo de Direito de Família. Ela desconfiou desse pedido, era demasiado direto, sem parecer. Quando bateu a porta e encarou o requisitante, arrependeu-se da falta de malícia:

– Seria melhor fechar as portas e persianas. Ficaremos bem mais a vontade. – ele riu, satisfeito. – Como você demorou! – Bianca não se moveu. – Não está feliz em me ver? – Ela ameaçou sair. – Se fosse você, não faria isso! Eu poderia gritar a todos sobre seus problemas.

Olhando para a mesa, tentando buscar uma força desconhecida, Bianca se sentou. Abriu a pasta. Serviu um copo de água. Esperou:

– Não é sua obrigação me fazer perguntas? Sondar?

– Júnior… – ela engoliu em seco. – O que você quer? Por que veio parar aqui?

– Saudades. Tem tempos que cheguei e não pudemos nos rever. Por que será? Tem me evitado? Tem medo de mim? – ele se divertia. – Pode ficar calma, por enquanto não pretendo revelar nada a seus irmãos.

– Por que você não fala nada e põe fim a essa tormenta?

– Então, ela existe. Obrigado por confirmar minha dúvida. Quer dizer que você continua frígida? Ainda é a mulher mais fria e incompetente na cama que conheço? Eu esperava mais. – Junior debochou. – Pra mim, você ia procurar ajuda, ou ia se envolver com mais homens… Você não se parece nem um pouco com Suzana.

– Não devo satisfações a você.

– Sei disso. Só que eu passei a me preocupar. Fiquei pensando: e se eu sou o culpado da Bianca ser assim? Eu posso ter sido bruto demais, grande demais…

– Convencido demais. – ela acrescentou, ele adorou.

– Bibi, quero testar você. Não posso acreditar que tenha ficado sozinha nesse tempo todo. Seus irmãos me disseram que nunca viram você com um cara, você nunca mais namorou. Realmente você se fechou e se travou.

– Nei e Nando não sabem da minha vida. Nunca souberam, nem vão saber.

– Posso resolver pelo menos isso. Ligo agora e conto que eles têm uma irmã sem desejo sexual, que não atinge o orgasmo?

– Não! – ela, pela primeira vez, se desesperou.

– Tem vergonha, não tem? Se você quiser evitar essa revelação, vá na minha casa hoje à noite. Quero comer você de novo! Do meu jeito!

Bianca cruzou as pernas, uma mão apertou a outra e o corpo se afastou da mesa, fazendo as costas espremerem mais o encosto da cadeira. O olhar sociopata e maquiavélico reverberou por dentro dela:

– Essa é minha única condição. Não me desaponte.

Júnior se levantou e beijou o topo da cabeça de Bianca. Ela sentia nojo e revolta. Não se segurou:

– O que você ganha com isso? – ele estava quase saindo, foi retido pela pergunta.

– Gosto de ver as coisas explodirem…

Bianca não soube precisar quanto tempo ficou na sala, sozinha e estática. Era como se não fosse ela mesma. Parecia que aquilo havia acontecido com outra pessoa. Não sabia mais como se consolar. Perdera a maneira de acreditar que, em algum ponto, tudo ficaria bem.

AGITAÇÃO – Bianca

Passara muito rápido ou tinha se acostumado com a solidão? Deitada na cama, Bianca, com certeza, iria sentir falta do sossego, da casa deserta, de ter todo o espaço somente para si. Se pudesse, permitira que os pais, os irmãos e a avó permanecessem mais quinze dias em terras estrangeiras.

Nesse meio tempo, ela somente leu, fez estágio e dormiu. Sem aulas, por causa do recesso acadêmico, a garota se permitiu pisar no freio e deixar as coisas em suspensão. Evitou matutar se seu estágio corria algum risco por causa de seu sobrenome, não quis pensar no beijo roubado em Luca, nem procurou os primos que também estavam de férias.

Apesar da calmaria e da falta de agito, ela estava feliz. Percebeu que o possível complicador da vida são os exageros. É buscar abraçar o mundo, é ansiar por tudo, sendo que a vida sempre foi feita de escolhas. Relembrou os ensinamentos de Economia. Tudo é um trade-off. Você tem que preferir uma coisa a outra, e só. Não se tem uma terceira opção. Abnega-se um item em prol de outro. São dois polos apenas.

O telefone tocou mais uma vez. Ela tinha ignorado diversas vezes depois que os irmãos ligaram apenas para fazer inveja. Como eles retornavam naquele dia e poderiam ter surgido problemas, resolveu atender. Não eram os familiares viajantes:

– Bianca, eu quase achei que você tinha viajado também. – Camila nem a cumprimentou.

– Acho que você pode considerar que andei por aí, sim. Foi uma jornada… espiritual, introspectiva e meditadora. – Bianca debochou.

– Poxa, todo mundo sumiu. Suzana viajou, só fiquei sabendo, dias depois, que ela estava para a Alemanha. Eulálio atende, mas diz estar muito ocupado. Você não retorna ligações do celular e na sua casa só chama e chama. Quero tanto rever vocês e conversar.

– Alguma novidade? – Bianca preferia se manter isolada o quanto pudesse, mas não iria barrar as informações da prima.

– Antes do início das aulas, André quer que eu viaje com ele. Pra conhecer os pais. Acredita? – ela estava radiante.

– Jura? E os seus pais? Quando eles vão se conhecer?

– Aí, não sei. Prefiro não misturar por enquanto. Opa, chegou um paciente. Posso ligar mais tarde?

– Vá lá! Pode sim.

Logo que desligou, Bianca sentiu-se arrependida. Não tinha nada de novo para contar ou partilhar. Apenas ficara reclusa e fechada em seu casulo, deixando todos os problemas para depois. Poderia ter conversado com Júnior, tentado convencê-lo a não revelar o seu segredo.

Para se acalmar e se distrair, resolvera fazer um bolo. Como não tinha quase nada, foi um simples, mas que tinha ficado macio. O bom do trabalho culinário foi o cheiro. Assim que os quatro pisaram na sala, sentiram o aroma espalhado. Ela também tinha passado um café, a fim de dar boas-vindas:

– Que delícia! Quem mandou vocês dois comerem biscoito. – Patrícia beijou a filha. – Parece estar muito bom. Vou comer antes de desempacotar.

– Bianca finalmente percebeu o lugar dela. Na cozinha! – Nei debochou. – Se tudo der errado, abre uma confeitaria.

Ele foi logo partindo o bolo. Nando deu um abraço na irmã. Eles ainda estavam estranhos:

– Filha, que saudades! Como você passou nesses dias sem nós? – Israel deu uma apertada longa nela.

Os cinco se sentaram à mesa. Bianca só escutou sobre o que viram, o que vivenciaram, o que descobriram, as farras que os dois irmãos aprontaram, e principalmente a benevolência da avó Lina que os havia inundado de presentes. Sorrindo, achando que ia ganhar algo, Nei tratou logo de desapontá-la:

– Só não trouxemos nada para você. Quem mandou desistir. Só ganhou, quem foi.

Realmente não havia presentes para ela. Ganharam roupas, calçados, lembretes de viagem. Bianca tinha ficado de fora, excluída. Prometeu que iria juntar dinheiro mensalmente a ser gasto com uma viagem pra qualquer lugar.

A caminho do quarto, escutou que os irmãos iriam chamar Júnior e Sandro para se encontrarem. Precisavam se atualizar. Bianca temeu. Cada vez mais, sentia ser inevitável o encontro dela com o antigo amado.

Ela se trancou no quarto. Tomou banho rapidamente. Estava lendo um pouco, para se deitar mais cedo. Três toques na porta iriam mudar esse plano:

– Já vai dormir? – O pai notou o pijama.

– Já. Estou indo de manhã para o estágio.

– Entendi. – Israel entrou e fechou a porta.

– Sandro e Junior estão aqui? – Ela tentou soar firme.

– Não. Eles só passaram e pegaram o Nei o Nando.

Sentados na cama, o pai demorou a iniciar o assunto:

– Pensei muito em você nessa viagem. Não gostei de tê-la deixado sozinha.

– Fiquei bem.

– Não estou me referindo a esses quinze dias. Fico pensando no seu futuro. Se eu me for, o que será de você.

– Cruzes, pai! Não fala assim.

– A gente nunca sabe o que vai acontecer. – Israel estava enigmático. – Confesso que eu também torcia para que você tivesse um homem, que estivesse noiva… Não vejo você assim.

Bianca sorriu encantada:

– Encontramos com Cristóvão. Acredita? Eu e ele conversamos. Meu irmão é muito diferente de nós. Só ele não vê como ter sido um filho tardio fez bem. Eu o fiz um pedido. Ele me prometeu zelar por você.

Bianca sentia que o pai escondia algo. Aquilo estava estranho demais, mórbido ao extremo. Israel tirou um pacote do bolso. Era um embrulho simples:

– Comprei assim que cheguei ao Canadá. Minha intenção é marcar você. De alguma forma, quero sentir que fui essencial.

Bianca se espantou com o lindo marcador de texto que ele havia lhe dado. Era reluzente, parecia ser de ouro. Tinha a data, o local e o nome dela. Israel fez sinal para que ela olhasse atrás. Mais encantada ficou, ao ver escrito as palavras law, rigths, judgement, sentence, order. Ela ficou radiante:

– É lindo! Nunca me desgrudarei dele. – Na frente do pai, Bianca substituiu automaticamente o marcador de papel, em “Memorial do Convento” de Saramago, pelo recente presente.

Mais tarde, antes de ir dormir, se deteve olhando para o item novo. Assim como tinha feito anteriormente, no seu íntimo, sabia que precisava substituir o que era antigo na sua vida. Só assim poderia evoluir. Ficar apegada ao arcaico e ao passado poderia impedi-la de atingir seus sonhos áureos. Para alcançar o desconhecido, teria de abrir mão do seguro.

JUNÇÃO – Bianca

Bianca curtiu muito a sequência de ações vivenciadas por Suzana. Ela ria por dentro, esquecendo-se, por instantes, do temor que sentia ao vir para a festa de comemoração às empresas Bersani. A prima representava um exemplo, pois ela não aguentava mais se isolar e não poder expressar o que sentia. Havia um anseio querendo romper dentro de si e externar: o pedido de ajuda.

Queria contar aos primos o que vivenciou, relembrar toda a história com Júnior e encontrar um jeito de combater seu defeito físico. Nunca comentou com sua ginecologista, não teve coragem de perguntar os motivos da frigidez em mulheres. Será que deveria primeiro buscar por causas físicas? Depois poderia procurar um psicólogo? Só sabia que o medo de não conseguir sentir ou dar prazer barraram-na na busca por um amor. Tinha muito tempo que ela não se permitia a um relacionamento:

– Bianca, manda o Lio mudar essa cara. – Camila a tirou do mundo dos pensamentos. – Você não pode ficar bravo com Suzana pra sempre.

– Não quero falar sobre isso. – ele cortou.

– Eu já disse. – Bianca repetiu. – É um exagero brigar com ela, ainda mais por causa disso. Suzana segue o fluxo. Se ela quer alguém, ela se joga e vai. Ela pega de acordo com o que sente. Não aconteceu porque não houve clima. Não foi premeditado. – Mais tarde, ela ia repetir o mesmo discurso para outro interlocutor.

– Ah, tchau para vocês. – Eulálio saiu, deixando-as.

Camila olhou para a prima com um pesar. Não gostavam de distanciamentos:

– Vou circular por aí. Me acompanha? – Camila convidou. Ela ia aceitar, mas viu Júnior com os irmãos, no centro da festa. Ela se endureceu.

– Não. Vou ficar paradinha. É melhor.

Bianca optou por ficar sozinha e camuflada. Afinal, queria evitar Júnior pra sempre a qualquer preço. No entanto isso, não seria possível. Eventualmente ele a acharia, pois estava doido para reiniciar o tormento.

Algumas pessoas a cumprimentaram, perguntaram pela faculdade, transmitiram simpatia, e outras a ignoraram. Era normal. Bianca não era nenhuma estrela da família como seus irmãos. Eles ficavam totalmente ocupados em eventos assim. Eram requisitados, chamados e apreciados. Desde que chegaram, ficavam na parte central rindo e aparecendo. Sempre foi assim. Junto de Sandro, eram o trio de ouro. Os outros formavam o quarteto da insignificância.

Sentada em um banco, não percebeu quando Nando sentou-se próximo e longe ao mesmo tempo. Ela estranhou:

– Oi. – ele disse timidamente. Ela sorriu apenas. – Está se divertindo? – Bianca novamente não respondeu, apenas balançou a cabeça.

Quanta hipocrisia! Assim como Eulálio em relação à Suzana, Bianca não queria qualquer contato com os irmãos. Estava abalada com eles e ressentida pela forma como era tratada:

– Fico lembrando as palavras de Suzana para Sandro… Não queria que você me dissesse aquilo, em hipótese alguma. – A sinceridade do irmão despertou-a. Ele tinha toda a atenção (e surpresa) dela. – Não é correto sermos irmãos e ficarmos distantes. Quero te ajudar, saber de você…, sei lá. Não gostaria de ser negligente.

– Por que isso agora?

– Porque foi quando percebi. Somos irmãos, não desconhecidos. Acho que ser irmão mais velho serve pra isso.

– Não. Eu estou bem, não preciso de nada. – Mentiu. O que ela precisava era exatamente de uma pessoa distanciada como o irmão. Se tivesse cedido, uma boa, saudável e importante parceria teria surgido para ambos. – Dá pra resolver tudo sozinha. Talvez meu maior desafio, nessa vida, seja comigo mesmo. Eu sou o meu próprio propósito.

– Sabia que você responderia algo assim, que não precisa de tanto apoio. Você é muito egocêntrica na forma como se porta.

– E você é um capacho do Nei. – ela se descontrolou. Não seria a última vez naquela noite.

Eles se olharam. As acusações eram verdadeiras, não cabia defesa. No entanto, estavam arrependidos. Não queriam qualquer embate. Fernando realmente ansiava por se reaproximar da irmã, só não sabia como se proceder. Bianca desejava ter mais apoio em sua vida. Apesar de constrangidos, eles poderiam ter se acertado, se não fosse a aparição de Lina:

– Fernando, querido, por que está perdendo tempo aqui, com ela?

Bianca olhou brava para ele. O semblante do irmão mudou automaticamente com a chegada da avó. Tornou-se subserviente. Como um fantoche, ele respondeu com desprezo:

– Nem sei. Eu me desconcertei.

– Essa festa é para vencedores fazerem contatos. Não sei por qual motivo alguns ainda teimam em comparecer. – Lina alfinetou.

– Eu vou voltar a conversar com as pessoas.

– Querido, antes você poderia chamar o Miguel? Aquele que você conheceu hoje? Ele é a cara da sua irmã.

– Como? De novo? Achei que vocês tivessem se cansado dessa palhaçada de enfiar um casamento na minha vida. Quero ser independente.

– Essa palavra não vai constar na sua vida tão facilmente. – A avó disse de maneira forçada.

Bianca abaixou a cabeça e a sacudiu em negativa, enquanto o irmão saía para executar as ordens da matriarca. De fato, palavras não representavam nada. Elas se perdem, ganham outros sentidos na memória dos outros, ficam dispersas. É o instrumento mais fácil para atingirmos o outro, porém, é o mais fraco. Atos e gestos são mais representativos e marcantes, se tornam mais significativos. No fundo, Bianca ainda não tinha percebido que não deveria se preocupar com as ameaças.

– Sabe, eu acho que você andou perdendo a noção de quem eu sou. – Lina deu continuidade. – Eu tento fazer você se ajeitar. Todos vão sair ganhando se você se adequar. Dê uma chance a esse garoto. Ele é rico, tem boa família, é viajado. Se com essas qualidades não há garantia de sucesso matrimonial, imagina com os defeituosos.

– Quanto mais você me força, mais firme fico na minha posição em recusar. Mais desejo ficar sozinha e ser independente.

– Você ainda depende de mim. Você carrega o meu nome. Não dá para desvencilhar. Infelizmente você quer fazer dele um empecilho, ao invés de ser seu trampolim.

– Se for assim, passo assinar o sobrenome de minha mão a partir de agora.

– Isso não resolve. O ‘Bersani’ persegue e impregna. Prepare-se, minha querida, antes de você perceber, eu farei você entender o quanto é importante se encaixar na engrenagem da nossa família. Eu te dei uma chance de sair. Você não quis.

– Sair? – Bianca não compreendeu do que ela poderia estar se referindo. – Do que você está falando?

– Irmã, esse é o Miguel! – Nando chegou com o pretendente, colocando-se ao lado da avó.

Ela nem prestou atenção no garoto. Olhava Lina. Sentia que era uma guerra perdida. Sempre a avó iria arranjar um jeito de desmotivá-los ou derrubá-los. Valia a pena continuar?

Ela girou nos calcanhares e se afastou. Odiava aquela situação. Decidiu ir embora. Sem passar pela entrada principal, pois não queria chamar atenção, foi pelos fundos da festa, com a intenção de cruzar a cozinha. Sem ligar para os olhos assustados e as reclamações, Bianca foi transpondo garçons, copeiras e cozinheiros. Ao chegar numa área de descanso, em cima de uma das saídas do hotel, teve de parar com o susto de se deparar com Luca. Ele fumava. O cigarro ficou a meio caminho da boca ao olhá-la:

– Ei. – ela sussurrou.

– Oi. Você está indo embora? – Ao perceber que estava numa pose de pateta, Luca jogou o cigarro fora.

– Acho que sim, não sei. – Bianca queria ficar de papo com ele. – Precisei sair um pouco daquele ambiente.

– Você me reconhece? – ele perguntou. Ela fez cara de que não entendeu. – Você se recorda de mim?

– Claro! Da livraria. Também sei que você teve algo com minha prima.

– Suzana não me reconheceu! – ele disse de maneira triste. – Troquei meu horário na livraria só por causa dessa festa. Era uma forma de me aproximar dela.

– Por que você está me dizendo isso? – Bianca não concordava com tanto afeto em relação à prima. Sentia-se preterida mais uma vez.

– Eu servi ela várias vezes, mas ela nem se lembrou. Eu era um fantasma.

Bianca lutou contra o sentimento de consolação. No final, não aguentou:

– Não é sua culpa. Suzana é assim. Você foi só mais um. Ela não é de ninguém, é de todos. Não acho que vai existir alguém capaz de fisgá-la.

Luca relaxou ao ver o sorriso de complacência que ela transmitia. Por isso, se permitiu ser sincero com Bianca. Porém, iria cruzar uma linha complicada:

– Você me ajudaria? Você conseguiria mandar um recado para Suzana? Ou arranjar um encontro entre nós dois?

Bianca ficou revoltada. Ele estava sugerindo que ela fosse uma alcoviteira:

– Luca, você está doido? Eu acabei de falar com você para abstrair. Pra que insistir, seu lunático?! Você está perdendo seu tempo, seu ridículo! – ela gritou.

– Se você não quer me ajudar, é só falar, não precisa agredir. – ele partiu pra cima dela, estavam mais próximos, cara a cara.

– Então, abra os olhos. Deve ter outras pessoas te querendo e você não vê por causa de uma paixonite pela mulher mais libertina que conheço.

– Você deve ter ciúmes dela. Ela é bem mais bonita e consegue chamar atenção. Você é uma apagada! – Assim, começou a troca de acusações falsas.

– Olha quem fala! Você deve ser um daqueles letrados que se acha, que pode julgar a todos. O problema é que você não se enxerga!

– Você também não. Deve ser uma mimada que tem tudo na mão. Não deve saber fazer nada, não deve ter coragem para buscar o que quer.

– Não sou assim! – gritou com raiva.

Aquelas palavras foram um estopim. Eram o terror na cabeça de Bianca. Tudo o que não queria ouvir ou ser. Por isso, num impulso, ela fez o improvável. Lançou os braços no pescoço de Luca e o puxou para um beijo. A princípio, ele resistiu, depois, cedeu. Ele a enganchou na cintura. Ela enterrou as mãos no cangote do rapaz.

Eles se beijaram da maneira mais intensa e simples possível. Há anos tinham perdido o sabor de um beijo maravilhoso e desconcertante, capaz de fazê-los abstrair de tudo:

– Que escândalo! Que baixo nível!

Os dois se separam assustados. A supervisora do buffet estava incrédula:

– Eu avisei que meus garçons tinham de ser exemplares, não podiam flertar, agredir, ou brincar com os convidados. E você me traz uma ralé para ficarem juntos, nos fundos, de pouca vergonha. Você está dispensado, some da minha frente.

– Não foi culpa dele! – Bianca tentou remediar.

– Cala a boca, sua piranha. – A garota se assustou com a grosseria.

– Dobra essa língua, ela é uma Bersani! – Luca apelou, fazendo Bianca ficar possessa com a verdade. Sentia raiva do sobrenome.

A mulher ficou branca e pálida. Não acreditava na cena. Não sabia o que dizer:

– Me desculpe. Bem que me falaram que Dona Lina tinha uma neta vaga…, digo, assanhada. – ela se corrigiu. Claramente se referia a Suzana, a causadora indireta daquele evento atípico. – Eu vou sair daqui, para deixá-los mais à vontade.

Bianca queria chorar de vergonha e de ódio. Ao sair correndo, virou o pé no primeiro lance da escada que dava da área de descanso ao térreo. Ela saiu rolando extremamente rápido. Não deu tempo de Luca alcançá-la.

Desesperado, ele a pegou no colo e chegou à rua. Sem pensar, rumou para um hospital que ficava perto. Bianca aninhou-se no colo do rapaz. Esqueceu-se de tudo. Apesar da dor, a sensação era boa.

Ela foi para um quarto particular, assim que disse o nome Bersani mais uma vez. Fizeram radiografias, mas era apenas uma torção. Com medo, ela inventou e reclamou estar com muita dor. Implorou por remédios mais fortes. Desejava apagar de tudo. Os médicos não iriam ceder se fosse outra paciente. Por ela ser uma ilustre, satisfizeram seu desejo. Deram um forte calmante para dormir. Assim, ela fugiu da realidade e imergiu dentro de si própria. Ainda não estava completamente pronta pra enfrentar os verdadeiros desafios.

Fim do Primeiro Ciclo de Bianca

REVELAÇÃO – Bianca

Num domingo produtivo, deitada na cama, com os pés para o alto na cabeceira, Bianca começava a ler ‘Orgulho e Preconceito’. Experimentava uma felicidade tranquila, embora tudo estivesse prestes a ruir. Na parte da manhã, tinha terminado ‘As Vantagens de Ser Invisível’; à tarde, estudou Direito Civil e agora se permitia ter outro momento literário.

Sem perceber, seu irmão Nei abriu a porta e ficou recostado no batente por alguns instantes. Assim que notou a presença, Bianca deu um salto, colocando-se sentada, na cama. Ele sempre colocava medo. Com os braços cruzados e o olhar frio, só piorava a percepção:

– Vida boa. – ele comentou.

– Quer alguma coisa? – Bianca pensou em expulsá-lo, mas se o agredisse, poderia ser bem pior.

– Só estou reparando em você. Como você mudou.

Incomodada, a garota recuou um pouco, com as mãos atrás:

– Tem tempo que não nos encontramos… – ele deixou no ar.

– É. – Bianca já sofria por dentro.

– Você não faz ideia, não é? – ele riu rapidamente, na certa debochando. – Descobri. Sei do seu segredo.

Bianca arregalou os olhos. Ficou petrificada. Júnior deveria ter contado ao irmão sobre a intimidade dela. Era uma tragédia anunciada, apesar do anseio fervoroso para que fosse evitado de algum jeito:

– Não tenho nada a esconder. – ela tentou ser indiferente.

– Não?! Eu teria de vergonha de ser como você é tão estranha, tão complicada.

– Bianca, o pai está querendo falar com você. – Nando apareceu ao lado do irmão. – Ele espera que todos nós fossemos para a sala.

Bianca esperou um pouco, para se recompor. Nei era muito pérfido. Ele aproveitaria o pior momento para puni-la. Se pudesse, fugiria pela janela. Era infantilidade, mas o medo revela qualquer tipo de saída.

Ao encontrar os familiares reunidos, ela se assustou com a presença da avó. Lina estava no meio dos dois irmãos, abraçando-os como se fossem pintinhos debaixo de asas. Seus pais, Israel e Patrícia, conversavam num volume mais baixo. Embora estivesse na própria casa, sentia-se uma intrusa, não sabia onde se sentar:

– Você não vai crescer mais. – Nei soltou.

– Na cadeira, filha. – Israel apontou para o móvel solitário, que a deixava como se fosse a cabeça do encontro, já que os pais estavam de frente para a avó e os irmãos.

O silêncio era reinante. Bianca avaliou cada um dos presentes. Nei estava excitado; Nando, impassível; Lina, vibrante; Israel, contrariado; Patrícia, encurralada. Vontades conflitantes cruzaram a mente dela. Queria perguntar, ao mesmo tempo em que só ansiava por ficar calada:

– Como… – O pai pigarreou. – Como estão os estudos? Bem?

Bianca balançou a cabeça afirmativamente. Aonde eles queriam chegar? Mais uma vez, ela desejou pedir que adiantassem o assunto, na mesma intensidade em que gostaria que algo surpreendente ocorresse e dispersasse o grupo:

– Está se preparando? Estudando para concursos como sempre? – Israel se manteve no mesmo tema.

– Claro. Não paro de pensar no futuro.

– Isso está muito claro! – Nei debochou.

– Eu falo! – O pai foi rígido. – Você tem ficado à tarde fazendo o quê?

Mesmo somente com perguntas sobre o futuro acadêmico, Bianca, em momento algum, suspeitou sobre o motivo daquela reunião. Ela estava com Junior na cabeça, impedida de conjeturar a verdadeira descoberta:

– Estudando. – ela respondeu bem baixo.

– O quê? – o pai perquiriu.

– Israel, por favor, seja mais direto. Isso está muito… – Lina buscava uma palavra.

– Chato? Enrolado? – Nei ajudou.

– Você vai ter coragem ou não? – a matriarca indagou seriamente.

Os três netos se assustaram com a ameaça, com o ar inquisitório emanado de maneira direta e explícita. Israel não se moveu. Lina se levantou. Abriu a bolsa e tirou um maço de notas. Foi até Bianca. Jogou o dinheiro em cima dela. A garota segurou-se firme nos braços da cadeira. Não compreendia:

– Você fez por dinheiro? Seu afronte à nossa empresa foi por causa de grana? Aqui está! Ou está faltando algo? – A avó não gritava, mas falava bem forte.

– Eu não compreendo. – Bianca praticamente se desculpava.

Patrícia deu um cutucão no marido. Ele estava tão chocado como qualquer um:

– Onde você estava com a cabeça, Bianca? – Israel se levantou, mas ficou atrás da mãe. – A firma onde você faz estágio já moveu vários processos contra os Bersani’s.

– Pensou que nunca iríamos descobrir? – Nando perguntou, apontando para si e para o irmão comparsa.

Mais uma pancada no íntimo da garota. Ela, então, havia sido ingênua? Sua contratação pelo doutor Armando teria sido intencional? A falta de experiência indicava isso:

– Eles nunca falaram nada, nunca comentaram. – Disse mais a si mesma, sem encarar os familiares.

– Pelo amor de Deus! Eles vão te usar. O seu estágio é uma peça de ataque a nós. Você se deixou seduzir como uma…

– Boba? Otária? Idiota? – Nei completou, com prazer, a avó.

Todos os olhares se voltaram para ele. Enquanto isso, Bianca se levantou e foi para trás da cadeira. Ela se posicionou de costas para todos. Sentia-se encurralada, desvalorizada, desacreditada:

– Você sabe o que vai ter que fazer. – Lina afirmou. Bianca gelou ao sentir o sopro de palavras em sua nuca. – Nunca mais voltar lá, acabar com esse estágio. Aceitar a viagem de seus pais como desculpa.

– Nunca! – Bianca se virou rápido e enfrentou todos. – De jeito nenhum! – Ela estava tomada por uma força descontrolada.

– O quê? Você está afirmando que não vai sair? Que vai ficar como está? Minha vontade é de te dar um tapa para te acordar.

– Dá, então! – ela enfrentou. – Mas eu não deixo o meu estágio. Estou no Direito de Família. As ações contra vocês devem ser empresariais. Não vou me meter nesse assunto. Dá para separar totalmente.

– Só se for em seu mundo de sonhos. – Nei interpôs.

Bianca resolver sair em retirada. Se ninguém ia defendê-la, preferia ficar sozinha. Lina agarrou-a pelo braço e a sacudiu. Todos se retesaram. Ninguém se mexeu:

– Resolveu ser criança de novo? Fazer birra? Você vai ter que honrar nossa família, me respeitar. – A matriarca dizia e aumentava a intensidade como apertava o braço da neta, que não sentia nada.

– Eu devo ter respeito? Baseado em quê? Você nunca me respeitou. Você sempre me odiou. Acho ótimo estar num lugar onde você não submete seu poder. – Bianca processou todos os argumentos. – Me arrependo de não ter feito isso antes. Fiquei perto demais de vocês e me intoxiquei. Não quero precisar daquilo que vocês querem me obrigar. Vou chegar aonde bem quiser, do meu jeito, sem qualquer interferência.

– Você não me conhece. Eu vou fazer você sair de lá. – A avó soava certeira.

– Vou esperar. Trabalhando. Aprendendo. Ganhando meu próprio dinheiro.

As duas se encararam. Se enfrentaram. Se odiaram. Lina soltou-a:

– Eu vou com vocês na viagem de férias. Vamos nos divertir muito, meus netos. Tomarei o lugar dessa desalmada. Nós não vamos para o Chile. Iremos à América do Norte. Acho o Canadá lindo. Eu vou providenciar…

Bianca abstraiu às palavras de despeito de sua avó, já que seu maior sonho era ir aos Estados Unidos.

A descoberta de seu estágio secreto fora bem pior do que imaginava. Antes de fechar a porta do quarto, o pai apareceu em frente a ela:

– Por mim. Por mim, eu peço. Deixe esse escritório.

– Em troca de quê? O que eu vou fazer? Por incrível que pareça, eu despertei, me encontrei. Eu me fiz ser reconhecida, vista, notada. Se vocês tivessem me enxergado e me levado em consideração, talvez eu estivesse em outro caminho. Só o que querem é me arranjar um casamento. Agora que comecei a ser independente, não quero mais parar. Passei a amar o campo de família.

– Direito de Família? Pensava que você sonhava em ser juíza. Não quer ser funcionária pública?

– Mudei. Olha que inusitado! Talvez eu possa fazer mudanças nas famílias dos outros, porque não posso fazer na minha.

Israel não podia rebater. Ninguém obteve sucesso tentando controlar os Bersani’s. No entanto, ele viu uma fagulha dentro da filha. Seria um pecado apagá-la, apesar de os dois saberem que as próprias situações atávicas se mantinham firmes e persistentes.

De repente, Bianca começou a chorar naturalmente:

– Por que as coisas têm que ser assim?

Israel abraçou a filha e beijou o topo de sua cabeça:

– Você, como futura advogada, sabe melhor que eu. Tem que se seguir as formas e os jeitos de se proceder. Uma vez ou outra, conseguimos ludibriar o caminho que foi traçado sem termos ciência dele.

Israel também chorou, porém em silêncio, pois queria confortar a filha. Não precisaram dizer mais nada.

VALORIZAÇÃO – Bianca

Três palavras, por incrível que pareça, proferidas sem maldade por Nei, tiveram um impacto fulminante na cabeça de Bianca:

– Júnior vai voltar. – o irmão anunciara, enquanto chegavam em casa para o almoço.

Já era um dia totalmente atípico. Para começar, tinha tido outra briga com o pai, no café da manhã, por causa da viagem. Ele queria entender a recusa dela, enquanto a filha se esquivava. Depois, na faculdade, descobriu ter tirado uma nota boa na prova de Processo, apesar de não ter estudado nada. Parecia que sua mente tinha vida própria. Realmente sua cabeça iria se mostrar extremamente fervilhante e sem controle, ao trazer a tona os piores momentos da vida da garota.

Para fechar, assim que chegara ao estágio, recebera um convite. Aceitara no supetão, pois já estava desequilibrada emocionalmente. No decorrer da tarde, ao notar as possíveis intenções da chamada, antes que enlouquecesse, decidiu que se havia alguém imparcial pra uma opinião num momento de tremenda dúvida, Camila era a escolha mais acertada:

– Prima, é Bianca!

– Por que você está sussurrando?

– Porque estou tensa, mais do que o normal. Não sei o que fazer. Meu chefe acaba de me convidar para um happy hour. Achei que era um encontro geral com todos, mas acabei de descobrir que é exclusivo. Só seremos nós dois. E tem outro detalhe: ele não costuma chamar estagiários para beber.

– Qual é o seu medo? Você acha que ele pode assediar? – Camila estava intrigada.

– Não sei. Não consigo imaginar se ele seria capaz de um golpe baixo. Eu gosto do senhor Armando, porque ele me trata bem, confia no que faço. Só que ele é casado. Mas eu não quero ser indelicada, desistindo do contato dele. Eu aprendo bastante o vendo em prática. Por favor, me diga o que fazer.

– Realmente o painel é complicado. Eu não faço ideia.

– Me ajude, Camila. Não liguei para o Lio, porque ele ia dizer que é assédio e que eu deveria sair fora. Não liguei para Suzana, porque ela ia achar o máximo e mandar eu ir cair nos braços do meu chefe. Só você pode me salvar.

– Bianca, a questão é que você não sabe de nada ainda. Só vai saber se entrar em campo e sondar o que está pegando. Então, saia com o chefe e veja as intenções dele. Quanto mais cedo fizer isso, melhor. Antes tarde do que quando as coisas estiverem com mais envolvimento. Me entende?

Horas mais tarde, Bianca esperava no saguão pela chegada do chefe. Tremia de nervoso. Era uma situação inesperada. Desde Júnior, não se via mais como uma mulher desejada. Acreditava não ter qualquer sex appeal. Ou será que ela o cativara com a personalidade? Isso poderia ser bom, pois beleza, de fato, era algo passageiro.

Ao se sentar no sofá, ela se sentia envergonhada pela situação. Poderia virar fofoca entre os advogados. Seria um tremendo escândalo. Arrepiou friamente por se lembrar da crise evitada há quase dois anos. Por sorte, Júnior nunca revelou a verdade sobre ela. Cansada de tanto sentir medo e terror, não acreditou ao descobrir que ele resolvera morar no exterior. Desde então, o segredo estava guardado e selado, até a notícia de Nei abalar as estruturas internas da irmã.

Afinal, por que fora tão afoita com o Júnior? Ele fora o primeiro homem que desejou, o segundo a levá-la para a cama. Por sua culpa, deixou-o desgostoso e criou para si um estigma terrível.

Era ela realmente responsável? Era um problema interno, por isso, deveria ter sido testada. No entanto, não quis descobrir ser era físico ou psicológico. No início, à noite, antes de dormir, se questionava sobre a razão daquele entrave. Nunca teve coragem de contar a ninguém. Chorou, imensas vezes, sozinha, até que abstraiu, já que não parecia ter solução. Mesmo com tanta variedade e oportunidades ao redor, ela optara por se fechar. Alguns problemas travados tendem a ficar sem solução. Em relação à sua vida amorosa, Bianca nunca conseguiu mudar essa percepção:

– Que cara aflita! Algum problema? – Armando aparecera em frente a ela.

– Nada não. – respondeu no susto.

Dentro do elevador, ambos estavam sem graças com a proximidade e a falta de assunto. E se Armando a agarrasse naquele espaço fechado? Começou a apertar a mão de tanto nervoso. No estacionamento, houve outro indício: ele foi um cavalheiro, abrindo a porta para ela. Bianca tinha um defeito. Ela se iludia muito com o exterior.

No bar, só piorou. Eles se sentaram na mesa mais afastada, num canto escuro e reservado. Era tarde demais. Como dar a Armando uma desculpa para fugir desse típico encontro de amor?

– Você está quieta e apreensiva. Está nervosa? – por cima da mesa, ele segurou a mão dela. – Eu só quero me aproximar mais de você.

Bianca queria gritar. É lógico que sonhara em encontrar um homem especial que a valorizasse e a respeitasse. Contudo, o envolvimento com Júnior havia sido um desastre. Ele foi um dos motivos para a garota ter se afundado nos estudos, deixando a azaração de lado. Pela forma como sofreu, passara a ter um receio paralisador. Estava fechada no quesito amor por causa de seu defeito:

– Por quê? – ela teve de sondar.

– Eu gosto de você.

Bianca soltou um suspiro assustado. Não podia ser real, não devia ter acontecido, não conseguiria mais olhar para ele:

– Não desse jeito, Bianca. Eu sou casado, muito bem casado e feliz. Desculpe se atormentei você com essa suspeita. Nada disso! Bem, se eu fosse solteiro e da sua idade, com certeza, investiria em você.

Ela não acreditava no que ouvira. Piscou várias vezes. Ele não a queria, mas a estava cantando? Estava satisfeito no casamento, mas revelara o quanto a admirava e a desejava? Não teve como evitar uma memória antiga de Júnior, esquecida há muito: “Eu tenho vergonha de ter me relacionado contigo. Tentei diversas vezes, mas me desculpe por mentir e te iludir. Não consigo, de jeito nenhum. Bem, se eu não tivesse tido outras mulheres, quem sabe, poderia aceitar sua falha. Por que você não procura ajuda, você é com certeza uma mulher…”

– Bianca! Bianca! – Armando a trouxe de volta à realidade. – Você está totalmente dispersa.

– Realmente. Você me dá um momento? Vou ao toalete passar uma água no rosto.

Recostada na pia, ela estremecia num ritmo acelerado. Por que estava se lembrando daquilo? Precisava superar, embora nunca tenha tentado. Desde que Júnior fora embora, não tinha ido para cama com ninguém mais. Teria tido a sorte de o problema ter desaparecido por conta própria?

Olhando-se no espelho, sentiu vergonha. Ninguém sabia, porque não conseguiria aceitar o julgamento dos outros. Fechou os olhos e relembrou mais uma passagem do ex-ficante, dentro do banheiro da casa da avó: “Você está bêbada e tentando me seduzir. Para! Eu não quero. De jeito nenhum, vou fazer sexo com você de novo. Me recuso! Você é muito ruim de cama, nas vezes que fizemos, foi tudo terrível. Na minha opinião, você é frígida! Isso sim!”

Jogando mais água no rosto, respirou fundo para esquecer aquilo. Estava enlouquecendo. Tinha de ir para casa imediatamente.

Chegando à mesa, não compreendeu o que via. No lugar do chefe, estava um jovem sentado. Assim que ela se aproximou, ele se levantou sorridente e a cumprimentou com um aperto de mão:

– Você é a famosa Bianca? Sou o Carlos Armando, filho do seu chefe. Meu pai fala demais de você. Ele a admira tanto. Às vezes, mamãe chega a ter ciúmes.

– E onde ele está?

– Ah, não vou mentir. Isso tudo foi uma armação. Ele está dando um jeito de eu me aproximar de você. Quer que nos conhecemos. Ele torce para que você se torne a nora dele.

Era o dia mais estranho da vida dela. Tudo estava descontrolado e fora de órbita:

– Você quer pedir algo para comer?

Ele estava sendo muito simpático e solícito. E se ele passasse a gostar dela? E quisesse ir para cama? Não queria que mais uma pessoa soubesse da sua condição, da sua trava. Preferia ficar sozinha. O maior medo era que Júnior revelasse a alguém e, principalmente a seus irmãos, que ela era uma mulher broxa, entre quatro paredes. Afinal, uma mulher também pode broxar? Existiria essa denominação feminina?

– Carlos, eu esqueci meu… batom no banheiro. Eu vou buscar.

Ela refez o caminho, mas se desviou no momento em que não estava mais à vista. Ela saiu em disparada do local. Era indelicado, mas não conseguia sustentar aquela situação. Qualquer elogio, qualquer estima mostrados pelos homens não conseguiriam derrubar a ótica que ela tem carregado desde o fiasco com Júnior.

Às vezes, há um lado positivo em se ocultar nossos medos e problemas. Bianca não estava preparada para enfrentá-los. Isso era claro. A garota tinha acabado de afundar numa grande tristeza depressiva, com a palavra frígida pulsando em sua mente. Pegou o primeiro ônibus que viu, foi para os fundos e chorou. Sem noção do tempo, deu várias voltas, completando o mesmo itinerário inúmeras vezes.

Ela não tinha noção do quão devastador havia sido permanecer estática e fria no patamar da solidão. Não percebia que dependia dela superar, pois só enxergava a saída por meio da validação positiva de alguém. Ela era mais uma vítima do mundo pós-moderno: não importa a maneira como você se entende, só o coletivo pode gerar valor, quando um grande número de pessoas convalida quem você é.

TEMPORÃO – Bianca

Com o antigo vestido branco, usado em sua missa de debutante, Bianca surgiu na sala, onde seus pais jogavam tranca. Ela ficou com medo de algum julgamento pela antiguidade do traje, mas eles olharam rapidamente para a filha, sorriram e voltaram à concentração:

– Onde estão os meninos? Eles não vão à festa do tio Cristóvão?

– Acredito que a resposta de Nei tenha sido ‘de jeito nenhum’. – Israel respondeu sem desviar-se do jogo.

– E agora? Todo mundo já foi. Vou gastar uma fortuna de táxi até o sítio.

– Assim que acabarmos essa mão, seu pai te leva. – Patrícia tomou a decisão.

No início, a espera estava tranquila, depois Bianca ficou entediada. Não se segurando de excitação e de vontade de se jogar na festa, resolveu conversar com os pais. Quem sabe distraía um deles e a partida terminava rápido:

– Por que a vovó teve o Cristóvão tão tarde? A diferença entre vocês é enorme.

O silêncio se manteve. Ela pensou que era por causa do jogo. Mais tarde, descobriria que aquilo era um assunto delicado, necessariamente relegado ao desprezo.

– Bati. Vamos logo! – De supetão, Israel se levantou. – Eu ainda não parabenizei meu irmão. É bom que podemos nos falar.

No carro, Bianca não queria pensar em nada, apenas chegar, dançar, beber e se divertir. Ela teria de fazer um esforço tremendo para não levar as dúvidas para a festa do tio:

– Bianca, eu e sua mãe tomamos uma decisão. Por um milagre, seus irmãos toparam. Sei que não será problema para você. Se lembra como nos divertíamos nas nossas viagens coletivas? Me recordo que você tinha uns 10 anos na última vez que saímos todos juntos. Para reativarmos nossa tradição, estamos esquematizando férias familiares, depois das comemorações do aniversário das empresas Bersani.

– Quê? – Bianca se espantou.

– Já decidimos o local: vamos todos para o Chile. Passaremos duas semanas passeando. Pelo que vi, vai bater com suas férias de faculdade.

Bianca estava em choque. Rapidamente se lembrou do contrato de estágio. Não poderia se ausentar do escritório durante o período inicial. Era uma das cláusulas. Contudo, ela sabia, no fundo, que o impedimento era outro. Ela estava amando o aprendizado, não queria se afastar ou deixar os casos em andamento. Tensa por antecipação, ela engoliu em seco. Como negar o convite sem revelar o real motivo, o estágio?

– Pai, eu não sei se eu quero ir… Estou com uns projetos de férias.

– Filha! Pelo amor de Deus! Você não faz nada. Você só estuda. Seus irmãos trabalham e não se opuseram. Por que você não quer?

– Não sei. Eu estava com ideia de fazer um curso. Tenho de ver detalhes.

– Você tem que estudar menos, isso sim! Você se dedica demais. Não aceito uma negativa sua. – O pai estava determinado. Ele ficara furioso.

Desanimada, Bianca pisou na festa sem tanta animação. Cristóvão percebeu o baixo astral da sobrinha, ao receber o presente dos quatro sobrinhos. Porém, o papo com o irmão impediu-o de tocar no assunto. O estágio era dela, um segredo seu. Representava uma conquista própria. Em hipótese alguma, tinha intenção de que sua família descobrisse por enquanto. Que outra desculpa daria ao pai?

Precisava conversar com alguém, mas todos estavam ocupados, divertindo-se. Suzana estava louca na pista, dançando sem pudores. Ela estava nitidamente insinuando para um dos músicos. Camila estava travada de beijo na boca, enquanto tentava se mexer ao som da musica. Eulálio conversava intimamente com Sheila.

Circulou pelo espaço, comeu e nem animou a beber. Por que mesmo sem saberem da vida dela, seus familiares continuavam a se meter? Por muito tempo, ela deixou que eles tomassem conta, decidissem e interferissem. Começara a sentir o gosto da liberdade e da independência, embora tardiamente, e não pretendia permitir outras interferências. Como odiou estar numa família de manipuladores e autoritários:

– Você não está se divertindo o bastante! Pegue uma bebida e vamos dançar. – Cristóvão tentou forçá-la a se mexer.

– Tio, onde você estava? – Suzana apareceu, agarrando o aniversariante. – Está tudo ótimo! Ei, Bianca, você vem também. – A prima estava bem tonta.

– Vão vocês. Eu quero ficar um pouco de fora, sem suar.

– Deixa de ser complexada! Qual é o problema da vez? – Suzana perguntou.

– Nossa família! – Bianca não se privou.

– Acho que a resposta ideal… – Camila surgiu abraçada por trás pelo Maurício, que tentava desconcentrá-la, fungando no cangote dela. – Para! Espera… A meu ver, a nossa maior tragédia chama-se Paulina Bersani.

Eles ficaram pensativos, rememorando, cada um, o que já tinham passado nas mãos da matriarca. Nem o pior porre poderia fazê-los esquecer a pior humilhação:

– Por que ela nos odeia? – Camila disse aleatoriamente.

– E por que ela só gosta do Nando, do Nei e do Sandro? – Suzana fez um acréscimo.

– Isso é óbvio! – Cristóvão respondeu.

– Por quê? – Bianca externou em nome das primas.

– Eles são homens. É muito simples. Minha mãe só respeita e valoriza os descendentes homens. Dizem que ela… – O tio parou no meio da frase, mas conteve-se. Ficou claro que ele ia revelar algo. – Ela deu sorte de ter cinco homens e preza isso com força. Ela odeia vocês três por serem meninas.

– Mas e o Eulálio? – Bianca refutou.

– Ele é bastardo. Essa marca é insuperável.

– E você? Por que ela odeia você? – Camila não se conteve. – Qual é a sua marca?

Cristóvão ficou pensativo. Bianca olhou para a prima que fez a pergunta. Ela teria sido ousada? Contudo, era uma pergunta que todos ansiavam pela resposta há muito tempo. Ela estava farta de preterições.

Alguns assuntos não eram discutidos, nem comentados. Ficavam paralisados e ignorados. Para Bianca, era sinal de fraqueza. A família revelava-se extremamente rasa e mesquinha por não enfrentar alguns dos problemas. Todos eram contidos demais principalmente em relação a fraquezas. Quase ninguém enfrentava nada. Tais pensamentos eram a semente da força que ela teria para contestar as amarras e as retaliações futuras:

– Ela me odeia porque sou a marca da falha dela. Eu sou a prova do erro que ela cometeu. – Ele disse da maneira mais insensata e insensível, nenhuma das sobrinhas entendeu. As três estavam com a respiração em suspenso. – Ah, dane-se, é sobre mim, então vou contar. Ela traiu o pai com um cara que ela tinha amado na adolescência. Acabou engravidando durante o caso. Como sempre, a poderosa Lina quis reverter o jogo, de maneira a atacar e ferir o avô de vocês. Eu seria seu trunfo, uma forma de sempre menosprezá-lo e zombar do coitado, pois ele criaria um filho de outro cara. Quis o destino o contrário. Por tipo sanguíneo, eu sou realmente um Bersani. Ela vai me detestar para sempre pelo fato de não ter servido a seus propósitos.

Aquilo era bizarro demais. As três não iriam esquecer aquela história:

– É verdade? Que coisa mais enrolada. – Bianca comentou.

– Quer dizer que a avó sabe ser uma safada? – Suzana explodiu de rir. – Então, eu tenho a quem puxar. – E voltou à pista bem mais animada.

– Isso é muito raso, eu acho. Tem mais motivos que desconhecemos para tanto ódio. – Camila pensava.

– Eu acho minha mãe tão maluca e desgovernada. Pra mim, essas razões bastam. – Cristóvão arrebatou, retirando-se.

Camila voltou a beijar Maurício, enquanto Bianca refletia sobre o íntimo das pessoas. Ninguém tinha acesso, não se podia saber os reais medos, desejos e impulsos. É tudo tão preservado. Mesmo assim, queremos analisar e atestar como são os sujeitos por dentro. Até no Direito Penal, o dolo, que é a vontade consciente e interna, consegue ser provada pelo externo e pelos atos. No entanto, a ligação entre íntimo e exterior pode ser tão clara?

Bianca temia ser uma pessoa tão alva, quanto seu vestido. Sua bondade ainda iria ser um entrave, deixando-a vulnerável. Teria que se endurecer? Até quando sem perder a honestidade consigo própria e os outros? Não queria ser uma boba para sempre. Por isso, sedimentou o que iria fazer em relação à proposta de viagem em família. Sem mais respostas urgentes, marchou para a pista de dança. Não se pode teimar e forçar, cada ato tem seu desenrolar próprio. Não dá para colher frutos sem estarem maduros.

MEDIAÇÃO – Bianca

Decidiu não se envolver. Suzana magoada rompeu para fora da livraria, com Camila ao seu enlace. Foi tudo por causa de um comentário infeliz. Poderia ir atrás, ajudar na conciliação e tentar que ambas fossem sensatas e espairecessem. No entanto, Bianca fez a opção de ficar na plateia. Elas deveriam resolver sozinhas. Não gostaria de ser árbitro, muito menos defensora de uma das partes. Uma pontada de remorso brotou, mas ela lembrou-se das confusões de família, apreciadas no estágio. Dessa vez, ela poderia se negar a atuar.

De repente, Bianca se deu conta de que Luca permanecia no mesmo local, encarando-a. Ele provavelmente deve ter ficado sem graça:

– Desculpa. Isso foi desnecessário. – ela soltou.

Luca sorriu torto. Bianca ficou fascinada por alguns minutos. Sem graça, pensou na primeira coisa que surgiu em sua mente:

– Já tem o livro do filme ‘O Lado Bom da Vida’? Eu amei essa história.

– Chegou sim. Eu pego pra você.

Bianca ficou observando-o caminhar. Era um pouco mais alto que ela, um porte amplo sem ser de atleta ou de frequentador de academia. Transparecia ser do tipo nerd, característica bem admirada pela garota:

– Está num preço bom. – Enquanto repassava o objeto, os dedos dele roçaram nas mãos dela. Bianca deu um ligeiro salto de surpresa, Luca não notou.

– Obrigada. Vou folheá-lo.

Bianca curtiu o que estava lendo, despojada numa poltrona, embora se sentisse um pouco culpada. Deveria averiguar os lançamentos do Direito, talvez até comprar algum título da área de família.

Teria ficado tranquila durante a leitura, se não houvesse a inesperada troca de olhares. Por alguns momentos, Luca a pegava olhando-o; em outras, ela se assustava com ele a observando. A fim de cortar o contato visual, decidiu por passear pelas estantes. Ela já ia comprar o livro que folheava, junto com o presente de aniversário do tio.

A caminho da parte jurídica, pensou estar diante de uma miragem. Recostada numa estante, Tânia abraçava livros infantis e respirava nervosamente:

– Tânia? O que está acontecendo? Você está bem?

Inesperadamente, a ex-amiga voou no pescoço de Bianca. Chorando, revelou o caso:

– Eu não aguento. É muito pra mim. Foi Deus que trouxe você a mim nesse momento assustador. Quero desistir, amiga, quero fugir. Não sei se dou conta.

Bianca não sabia como proceder. Do que ela estava se referindo?

– Fugi de meu filho. Aproveitei um deslize de minha mãe e escapuli. Entrei no último lugar onde ela me procuraria. Já estou aqui há uns dez minutos. Peguei esses livros como desculpa. Não suporto mais essa vida de casada, de mãe, de responsável, de cuidadora. Quero um tempo só pra mim!

Era clichê, no entanto foi a única explicação na mente de Bianca. Tânia teve de perder para valorizar. Da maneira mais dolorosa, aprendeu a transitoriedade e a certeza de nossas decisões:

– Calma. Vamos tomar um café? Respirar um pouco.

– Não posso! Por causa do bebê, estou proibida. – Tânia gritou. – Nem a um café, tenho direito.

Assustada com mais um momento de destaque na livraria, Bianca decidiu que evitaria aquele espaço por uns meses. As pessoas estavam encarando-as de novo. Ali não era lugar de terapia. Luca era um dos que acompanhava o novo drama:

– Amiga, eu sinto sua falta. Éramos felizes e não sabíamos. Se eu pudesse voltaria ao tempo.

As palavras de Tânia tiveram um efeito brilhante. Enfim, sentia-se valorizada. Qual é o motivo que nos faz só acreditar em algo e, principalmente, em nós mesmos, se um terceiro atestar, dando um aval?

– Não te falei, dona Graciema! Olha ela ali.

As duas se sobressaltaram. Velozmente, surgiram na frente delas a mãe de Tânia, segurando o bebê, acompanhada de uma recente amiga de Tânia, chamada Antônia:

– Bianca, quanto tempo! – Mesmo possessas, houve tempo de beijos fingidos entre as quatro. Um pequeno silêncio se instalou:

– Passeando? Como está esse gostoso? – Bianca cortou o gelo do momento, pegando o garoto no colo.

– Enorme. Está crescendo muito. – Graciema tentou ser simpática. – Tânia, onde você estava? Por que fugiu? O que está fazendo?

– Eu passei e vi Bianca aqui dentro. A senhora se lembra de como ela é uma leitora feroz? Eu entrei, nos cumprimentamos rápido e quando voltei para ver se vocês me esperaram, não tinha ninguém. Foi a Bianca que me fez ficar aqui. Ela disse que se eu ficasse num lugar só seria mais fácil de nos reencontrarmos, não foi?

Sem mais brincar com o bebê, Bianca fitou a amiga, ou ex-amiga, ou falsa-amiga. Não sabia. De repente, ela fora acusada de ser a culpada pela escapada de Tânia. Ela queria exercer seu direito ao contraditório e à ampla defesa:

– Bem, eu…

– Se era para esperar num lugar, deveria ser na porta! – acusou Graciema. – No fundo da loja, eu não iria encontrar ninguém. Pra mim, vocês estavam se escondendo. Que criancice!

– Mãe, a Bianca estava cansada. Ela pediu que nós nos sentássemos um pouco e colocássemos a conversa em dia. Temos tanta saudade.

– Da Bianca? Desde quando você tem saudades da Bianca? – Num inocente rompante de verdade, Antônia perguntou de maneira debochada. Tânia a fuzilou com o olhar. – Ah, é verdade! Você tem dito o quanto se distanciou dela pra mim!

– Isso está muito mal contado. Vocês não têm mais contato e de repente desejam passar horas conversando numa livraria? – Graciema não era otária, conhecia a filha que tinha.

– Eu achava que não tinha mais laços com Bianca. É só vê-la para perceber o quanto nos gostamos. Você se recorda que ela foi no batizado, não é? – Tânia fortaleceu a tese.

Durante aquele debate, Bianca não deu uma palavra. Era apenas uma figurante, no meio de uma disputa sem sentido. Era tudo uma falta de honestidade concreta. Ninguém queria assumir o quanto estava desgostosa com a situação. Mãe e filha esperavam um futuro brilhante. No entanto, estavam presas cuidando de um rebento. Graciema e Tânia nunca assumiriam os problemas. Sempre disfarçariam.

Naquele momento, Bianca percebeu que a oralidade não ia adiantar de nada. Não queria mais estar perto daquela gente. Repassou o bebê para Antônia:

– Eu… tenho um compromisso. Me desculpem. Nós nos vemos depois.

– Então, vamos aproveitar o nosso passeio? – Antônia comentou.

Contudo, havia mais uma alegação a ser jogada em Bianca:

– Você contou a novidade para sua querida amiga de infância? – Graciema tinha transmitido uma carga maligna na voz.

– Ah, ainda não, né? Está muito cedo.

– Ela não é uma estranha. Ela te conhece. – Antônia, volúvel e volátil como sempre, colocou-se agora a favor de Graciema.  – Essa novidade tem de ser espalhada e celebrada.

– Eu acho que me esqueço que é uma dádiva, mas eu estou assustada. – Tânia riu forçadamente. – Bianca, eu estou grávida.

– Já? – Todas ficaram perplexas com a honestidade de Bianca. – Me desculpe. Não imaginava que você estava tentando de novo.

Por alguns segundos, as duas se olharam. Tudo estava claro para elas. Tânia estava se afundando cada vez mais numa vida que não se apresentava satisfatória como ela imaginava. No fundo, invejava a liberdade de Bianca, isto é, as potencialidades a serem descobertas. Por isso, descartou a antiga amizade. Ter Bianca perto era doloroso:

– Parabéns!

Elas se abraçaram. Foi breve e significativo. Bianca poderia ter transmitido uma força. Poderia acalmá-la e reconfortá-la. Não o fez. Não tinha mais competência como mediadora ou conciliadora na vida de Tânia. E não fora por sua opção.

Vendo o grupo se retirar, Bianca olhou os livros em sua mão. Todos os dois terminavam suas histórias de maneira feliz. Porém, poderia sempre optar por um caminho mais tranquilo. Se a vida é uma escolha, ela faria de tudo para adentrar no lado bom, ao invés de se perder no cinza e no obscuro. Realmente a vida é uma eterna reconstrução e reafirmação.