DESMORONAÇÃO – Camila

Mesmo cansada, ficou de papo por um bom tempo com Leo na calçada em frente ao prédio. Camila prestava assistência ao amigo e chefe, ansiando para que ele se cansasse de desabafar. Ele se questionava sobre as escolhas, as dúvidas e o medo de ficar sozinho. Tinha conhecido um novo cara que mexia muito com ele. Porém, foram tantas desilusões e traições. Que garantia tinha de que a situação não iria se repetir?

No elevador, ela se olhou no espelho. Estava um bagaço de cansaço. Queria banho, comida e cama. Não tinha condições de ler o texto para a aula da Diana. Pensava até em matar para dormir mais. Odiava aquela mulher.

Abriu a porta da frente. Sentiu um clima pesado e estranho. A sala estava escura. Passou direto, mas se assustou com um movimento:

– Pai. Nem te vi.

Camila acendeu a luz antes de dar um beijo no topo da cabeça dele. Pedro não reagiu, era como se fosse uma estátua. Um envelope jazia na mesa, estava aberto.

Ela pensou em abstrair e ir para o quarto, mas não achou correto. Se fora solícita com o chefe, deveria também agir com passividade e apoio perante o pai:

– Aconteceu alguma coisa? – Camila se sentou.

Ele olhava para o nada, perdido:

– Você me desapontou… Uma grande, imensa decepção.

Camila recuou na cadeira, colocou as mãos debaixo do tampo, largou a bolsa no chão:

– Onde está mamãe?

– Não tive coragem de chamá-la, ou de contar pra ela. Quanto desgosto…

Camila fitou a escuridão, repassando o que teria feito de errado. Não se lembrava de nada. Não conseguia associar. Sentiu o sangue acelerar, a respiração se intensificar:

– Acho que a culpa é minha. Fechei a cara, não quis questionar. Se eu tivesse brigado, essa catástrofe teria sido evitada. Antes, me diz quem é ele? Quem é o homem que levou você para o mal caminho?

– O quê? – Os dois se encararam pela primeira vez. Pedro estava desolado, Camila tinha tremores por todo o corpo. O assunto era André.

– É claro que eu percebi, é claro que eu vi as suas fugas à noite. Inúmeras vezes, não dormiu em casa. Sabíamos que você tinha alguém, só não suspeitávamos que haveria problemas. Quem é? O que vocês escondem? – uma lágrima rolou pela face do pai. – Por que deixei você se afastar? Se pudesse, eu batia em você, espancava com força.

Camila deu um salto, pondo-se em pé. Teve medo. A cadeira se revirou, criando um baque forte e surdo. Ficaram em silêncio:

– Minha aposta é que ele é casado. Como pôde ser tão ingênua? Como se deixou levar? Camila, sempre tive orgulho de você, mas por que foi tão ingênua? Que futuro vocês têm juntos?

– Você não sabe o que fala! Temos, sim, um futuro, uma possibilidade.

– Deixa de ser estúpida e boba! Você está se estragando! – ele gritou. – Não enxerga o que tem a perder? Ele deve ser mais velho…

– É, é sim um pouco mais velho. Já tem emprego e uma vida organizada! Não vejo problema.

– Por quê, meu Deus? Por quê? Mais um desgosto pra família, mais um desgosto vindo de mim. – E chorou copiosamente.

Camila queria consolá-lo, mas sentia repulsa. Não compreendia o que havia feito de mal. Pedro se dissolvia em lágrimas. Por vezes, tentou falar algo, balbuciava e não conseguia. A fim de se sentir mais humana com ele, buscou um copo d’água com açúcar. Ela colocou em cima da mesa, rapidamente Pedro deu um tapa. Mesmo quebrando na parede distante, Camila se recurvou para voar do líquido e dos cacos.

Enquanto o pai se acalmava, ela se perguntou como as mudanças podem ser tão repentinas, capazes de nos pegar totalmente desprevenidos. Buscava a felicidade, não imaginava ter carregado tanto desapontamento:

– Sinto muito se tenho de esconder André pelo que ele é. Concordo que não deveria ser assim, mas eu o amo, pai. Estou disposta a tudo.

– Evidente. – ele disse apontando para o envelope.

Afinal, o que era aquilo? O que havia nele? Fotos comprometedoras?

– Não posso me arrepender, pai.

– Ao contrário de mim… Já não bastasse eu ser o mais fracassado dos irmãos, o que tem a condição pior. Sou o único que não tive um filho homem. Quem sabe agora você, além da vergonha, me dá um neto?

– Hã?! O quê?

Camila voou até o envelope e o abriu. Era um resultado de teste de gravidez com o seu nome, atestando positivo:

– Achei isso ontem, não consigo parar de pensar nisso. Vai desmentir? Ou vai dizer que não sabia? Quando pretendia me contar?

– Isso… Eu não fiz.

– Como não? – ele gritou mais uma vez. – Está aí: paciente ‘C. Bersani’.

– Na verdade, é meu! – Os dois ficaram pasmos. Constância apareceu na sala, de pijama. – É ‘C’ de Constância, não de Camila.

Pai e filha não ousavam dizer nada. Que notícia inimaginável era essa?

– Aconteceu. Estou de dez semanas.

– E a eritroblastose? – Pedro perguntou.

– Não sei. Estou me sentindo bem, mas vamos monitorar, além de rezar. – Constância sorriu como se não esperasse uma vitória.

Pedro foi até ela. Beijou e a abraçou com força. A decepção dera lugar à felicidade. O que uma mudança de perspectiva não era capaz?

– Um filho? Nessa idade? Somos muito velhos! É muito… louco. – O casal ria e chorava de emoção.

Sim, muito incompreensível e inesperado. Camila não acreditava estar prestes a ganhar um irmão ou irmã. Sempre quis um para serem companheiros.

De repente, os pais a puxaram. Eles se abraçaram coletivamente. Ela pensou em André. Será que conseguiria sedimentar tamanha afetividade e ligação com ele? Atingiriam uma solidez em conjunto, capaz de derrubar adversidades como as que foram ditas pelo pai? Por um tempo, temeu e se sentiu incerta:

– Nossa conversa está suspensa por enquanto, Camila. Mas, quero conhecer esse André logo. – era uma ordem, branda, mas era um comando.

– Pois eu acho que precisa, pai. André nunca me colocaria em risco, ele é um cavalheiro. É professor universitário. Antes de tudo é uma gentileza em pessoa.

– Podemos guardar segredo sobre minha gravidez? Não quero muito alarde. – Constância pediu.

Apesar do cansaço, saíram para comer algo fora e comemorarem. Camila estava feliz pela nova oportunidade aos pais. Sorria vendo os abraços, o carinho de Pedro na barriga de Constância, os planos para o novo Bersani. Era um recomeço. No entanto, rezava para que nada derrubasse esse sonho. Nunca alcançar algo não se compara à dor de ter tido e perdido.

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ADAPTAÇÃO – Camila

– Camila, o seu trabalho foi o primeiro que corrigi. É claro que te dei nota máxima. Você é muito boa.

Pela milésima vez, a sala inteira olhava para a garota que sorria disfarçando, com timidez, o ódio mortal experimentado. Aquilo era uma constante durante a aula de Diana. Nessas duas primeiras semanas, todas as vezes, a professora dava um jeito de elogiá-la: comentava sobre as roupas, pedia comentários e ficava muito satisfeita, colocava-se em discussão para sempre ressaltar o quanto era inteligente.

Para a adaptação na nova turma, aquele destaque era péssimo. Camila estava mais isolada. A inveja criada por Diana só não afastou Victor. Todas as atividades em dupla e em grupo eram desempenhadas com ele:

– Já escutou o que falam da Diana em relação a você? – perguntou na inocência. Camila, por um triz, pediu pra não saber. – Dizem que ela é lésbica e está afim de você.

Isso de novo? Mais uma vez, era o epicentro da fofoca envolvendo um professor. Dessa vez, o assunto era bem mais tórrido por ser homossexual:

– É lógico que isso não procede. Para que ela ia se expor assim, na frente de todos? Se Diana me quisesse, teria me procurado fora da sala. Nosso contato se resume às aulas. Além do mais, esqueceu que ela está em estágio probatório. É muito ruim pra reputação.

Fingindo revisar a recente escrita, ela pensou em André. O estágio probatório não evitou o namoro dos dois. A atração foi bem mais forte. No entanto, ainda estavam em segredo perante a faculdade:

– A turma vai ao cinema hoje. Vamos? – Victor mantinha a esperança de que, um dia, ela aceitasse.

– Vou trabalhar até tarde de novo. Não posso.

Até o fim da aula, Camila divagou sobre a professora. O que ela ganhava com isso? Ela não deveria, pelo contrário, tentar denegri-la, fazê-la se sentir mais burra e menos capacitada? Se realmente queria André, essa tática era bem fajuta:

– Claro que não é. – opinou Suzana. – Ela é bem mais esperta do que eu imaginava. Tenho que tirar o chapéu. Ela é uma gênia.

– Você escutou o que acabei de dizer? Não tem sentido ela me levantar e me colocar no topo, se quer me destruir pra acabar comigo.

– Espera aí. – Suzana a segurou pelo braço, cortando a caminhada. Elas tinham acabado de sair dos corredores da Faculdade de Ciências Sociais. – Você tem certeza de que ela sabe que você e o André estão juntos?

– Suzana, é claro que sei. Eu sou mulher, a gente sente essas coisas. Diana é uma cobra ou uma loba em pele de cordeiro. Tenho certeza de que ela está tramando. O olhar dela entrega.

– Então, é mais ardilosa do que eu pensava. Ela não quer destruir você. Simplesmente está tramando para que você se destrua. Ela se insinua com o André?

– Morro de ciúmes vendo os dois conversarem. É tão íntimo.

– Diana está agindo em duas frentes.

– Fala baixo. – ralhou Camila. – Pode ter conhecido.

– Que se dane! É bom que ela saiba que matei a charada. Pois bem, num primeiro momento, ela está, na verdade, diminuindo suas certezas em relação ao André. Ela quer te fazer acreditar que ele estaria melhor com ela, que eles se merecem, que o namoro de vocês é fadado ao fracasso. Essa atitude é bem sutil. Por outro lado, ela te valoriza onde? Na sala de aula! Assim, ela ajuda você a criar admiradores e possíveis ficantes que vão atentar.

– Claro… Para que, naturalmente, eu acabe traindo o André por minha causa mesmo. Você tem muita razão, prima. Ela é muito esperta. Ela age para que eu cause o término.

– Não te falei?

As duas voltaram a caminhar. A mente de Camila fervilhava. Era um jogo. Por enquanto, estava perdendo, ou melhor, deixara a adversária avançar e dominar. Era a hora de contra-atacar:

– Você se importa se eu voltar à faculdade?

– O que você vai fazer?

– Revidar.

– Eu quero ir junto. Vou dar uma olhada nessa biscate.

A situação tinha mudado. Podia perder muito se deixasse a vida levá-la, se não fizesse nada. Pisando fundo, quase correndo, não se importava se Suzana a acompanhava ou não.

Passaram primeiro no gabinete próprio de André, estava fechado. Na secretaria, não o tinham visto. Se dirigiram ao estacionamento:

– Ele tem uma reunião à tarde. Deve ter ido almoçar bem rápido. Com ela! – Camila constatou.

– Liga pra ele. – Suzana sugeriu. – Opa! Bianca está chamando. Vou atendê-la.

Suzana virou as costas para a prima. Camila hesitou. O sangue estava mais calmo. Não queria transparecer desespero para André. Há poucos dias, ele questionou que ela estava mais quieta, irritada e ciumenta. Agora tudo parecia culpa da influência de Diana. Naquele momento, o telefone tocou. Era André:

– Ei.

– Camila, eu nem confirmei se você ia realmente almoçar com seus primos no Restaurante Universitário. Vocês estão juntos?

– Sim. Suzana está comigo já. Vamos encontrar com Bianca e Eulálio daqui a pouco. Por que você quer saber isso?

– Acabei de chegar ao shopping sozinho. Se você não tivesse companhia, ia voltar pra te pegar.

– Que lindo! – ela transpareceu mais melancólica que amorosa.

– Você está bem? – quis saber. – A aula foi boa? Está cansada?

– Não. Nada aconteceu. Obrigado pela lembrança, mas preciso conversar com os primos. Posso passar na sua casa depois do trabalho?

– Eu tenho que organizar minhas aulas.

– Eu não vou atrapalhar, tenho que ler um caminhão de xerox. – Camila justificou.

– Tudo bem, espero você.

– Obrigada. Tchauzinho.

– Até mais, amo você.

Camila ficou muda. Era a primeira vez que ele se declarava. A ligação ficou em suspenso. Nenhum dos dois sabia o que dizer.

Queria dizer que o amava também. Contudo, não desejava parecer que tinha sido apenas como uma resposta:

– André, eu… tenho de desligar. As meninas…

– É, eu sei. Vá lá. – e desligou.

– O que foi? – Suzana estava tensa. – Você está branca! Eles estão juntos? Quer que eu te leve até eles de carro?

– Não. André disse que me ama, de maneira natural. Ele está sozinho.

– Vamos. Acho que nos preocupamos demais. – Suzana abraçou-a pelo ombro. –Tudo está garantido.

Estaria mesmo? A vida era tão imprevisível. Por mais que nos preparemos, ela dá um jeito de abalar e assustar.

DISTRAÇÃO – Camila

Pela décima terceira vez, o telefone chamou, chamou e ficou sem resposta. André devia estar realmente entretido. Camila só ficava mais aflita. Sem muita fé, tentou outra vez. Ele atendeu, ou melhor, alguém aceitou a chamada. O barulho era enorme, muito falatório:

– Alô! Alô! André! – gritou.

Aos poucos, o som foi se acalmando até ficar mais tranquilo. Camila olhou o visor. Achou que tinha caído a conexão:

– André? O que está acontecendo?

– Oi!

Camila ficou petrificada com a voz feminina que irrompeu pelos seus ouvidos. Não soube identificar a origem de tanto ódio. Não precisava de apresentações. Identificava Diana como se a conhecesse há anos:

– Onde está o André?

– Ah, não sei… – ou ela estava bêbada ou se passando de cínica. – Ele está por aí… Cansei de sentir o celular vibrando perto de mim. Quem quer falar com ele?

– É Ca… – ela se suprimiu. Lembrou que tinha sido listada como ‘C’ no telefone dele. – Carolina. Posso falar com André?

– Eu não sei onde ele está. Quer deixar recado?

– Não.

– Por acaso, você é a misteriosa namorada?

Camila apertou o celular com força e trancou as pernas. Estava possuída de raiva. Bianca a encontrara com o semblante mais bravo possível:

– Eu… Só… Deixa. Ele retorna.

– Então, está bem. – e desligou.

Camila perdera a voz:

– O que foi? – Bianca quis saber.

– Espera!

Rediscou para André. Fora em vão. A mensagem alegava fora de área ou desligado. Camila sabia que Diana era capaz de tudo:

– Aquela vaca, aquela safada! – esbravejou.

– Quem?

– A professora nova, Diana. Ela está roubando André de mim. Minha vontade era aparecer naquela festa. Acredita que ela desligou o telefone dele? E por que ele deixou o celular com ela? Que bandida! Que praga!

– Camila, fica calma. Foi um imprevisto.

– A gente sabe, sempre sabe. Eu sei no meu íntimo que ela está armando, pronta para um bote.

– Vem. Vamos achar os primos. Se for o caso, eu me vou de táxi contigo aonde você quiser.

Sem pensar em mais nada, sem focalizar a festa, Camila seguia Bianca, até o momento em que foi parada:

– Engraçado. No caminho, achei que vi Nando. Agora posso jurar que vi Sandro passar. Eles não iam para uma festa num sítio?

Camila não respondeu. Não se importava:

– Quem é aquela que está vindo para cá? – A prima perguntou.

Com um desgosto marcante, apresentou Bianca a Marcela, ex-colega das Ciências Políticas:

– Não imaginava que você viria.

Bianca não entendeu a indireta. Camila, por sua vez, sabia do que se tratava. Marcela não ficava sem graça por ter forçado a barra na intimidade:

– Por quê? – fez-se de desentendida.

– Soube que nossos professores estão num jantar para eles com maridos e mulheres. Pensei que você fosse ser uma acompanhante.

Como ela sabia dessas coisas? Não desejava dar satisfações. De fato, não precisava. Para Marcela, qualquer resposta seria uma farsa. A ausência de André ao lado dela e a falta no jantar dos professores indicavam mentira pura:

– Posso falar? Não imaginava que você pudesse ser tão… falsa! – Marcela soltou sem pudores.

– Quê? – Bianca olhava de uma para a outra. – Menina, do que você está falando?

– Camila sabe. Ainda bem que não acreditei. Imagina se eu espalho essa fofoca irreal de você com o André.

Antes que pudessem arquitetar uma resposta, um bando de pessoas emergiu entre elas. Eram calouros e veteranos das Ciências Sociais. Faziam farras e gritavam:

– Essa daqui nos abandonou. Foi para a Antropologia. – Marcela destacou Camila. – Não é mais veterana de vocês.

– E essa daqui fala de mais. Cuidado com ela! – Bianca repetiu o gesto feito para a prima, mudando o foco para Marcela.

– Eu também vou começar o ciclo de Antropologia. Como você se chama?

Um garoto novinho, com muita cara de adolescente e porte raquítico, chacoalhou uma mão de Camila. Ela respondeu quase inadiavelmente:

– Sou o Victor. – ele emendou.

– A gente se vê na aula. – Camila deixou o grupo.

– Sem paciência? – Bianca a seguiu.

– Sem cabeça também. Preciso de uma água. Vamos pegar uma?

– O que você quiser.

Bem longe do grupo, Camila se virou para observá-los. Victor ainda a encarava com uma cara em branco. Ela lançou um sorriso. Ia pertencer àquele conjunto, se ligar a eles. No entanto, nunca seria parte. Já tinha passado pelo início de um novo ciclo de estudos no Bacharelado, não estava límpida e transparente, tinha bagagem, marcas e experiência. Um recomeço é totalmente diferente de um começo simples.

Num local mais calmo da festa, o telefone de Camila chamou várias vezes dentro da bolsa, enquanto desabafava com a prima. Não percebeu. Para ela, tinha perdido o amor, embora, muitas das vezes, temos sucesso sem que nada precise ser feito por nós mesmos.

COMPRESSÃO – Camila

O cheiro de café fez com que ela acordasse. O sol aquecia as pernas. Era cedo, mas não se importava. Queria esticar a sensação de bem-estar e felicidade. Estava em paz, satisfeita com sua atual forma de viver. Trabalhava, lia e amava. Quem sabe escrevesse um livro com esses verbos, relatando os benefícios de se deixar levar, não se preocupar e aceitar as coisas como elas são. Um livro seria um exagero, com tanto clichê ao redor:

– Que sorrisinho gostoso. – André se jogou ao lado dela na cama e a beijou. – Dormiu bem?

– Extremamente.

– Fiz café. Leo dispensou você hoje?

– Sim, ele desmarcou tudo. Precisa fechar uma pesquisa importante.

– O que você quer fazer? Ficar aqui, me acompanhar até a universidade ou ir pra casa?

– Nenhuma dessas opções me agrada. – Camila fez uma careta. – Todas elas me separam de você.

André voou pra cima. Mais uma vez, naquela semana, eles iam praticar o famoso sexo matinal.

Subindo para a universidade, ela se questionou sobre nossos desejos. Quase sempre sonhamos de forma não condizente com a realidade. Por isso, ficamos frustrados. Não temos a capacidade de sincronizar nossa mente com aquilo que existe realmente:

– Você está sorrindo de novo. Eu sou o culpado por isso?

– Para você não ficar convencido, em parte sim.

– Eu também sou muito feliz por sua causa.

Em momento algum, ela enxergou momentos felizes e satisfatórios com André. Antes de ficarem juntos, só via entraves, problemas e confusões. Não acreditava ser possível vivenciar situações simples e banais, mas recheadas de paixão e intensidade.

A vida toma cada rumo. As situações vêm na hora que devem, sem que possamos controlar. O segredo da tranquilidade é aceitar com resignação tudo o que vier, tanto os momentos felizes, quanto as situações ruim.

No estacionamento da biblioteca, André e Camila trocaram um último beijo. Ele ia rumar para a faculdade, ela, depois de devolver alguns livros, ia passar em casa:

– Você lembra que nos encontramos aqui na biblioteca? Eu te dei uma carona. – ele comentou com a cabeça para fora do carro.

– Claro. Foi quando eu me apaixonei. E você, quando caiu de encantos por mim?

– Quando… – André matutou com o carro já em movimento. – Bem…, vou deixar no suspense. – E saiu pisando fundo.

– Danado! Te odeio! – Camila gritou, rindo.

Na biblioteca, enquanto checava uma estante, recebeu um beliscão na bunda. Deu um salto, já rindo, pois pensava ser André. Ficou acuada ao perceber que era Marcela, ex-colega de faculdade:

– Perdida? Procurando o quê? – elas se beijaram.

– Alguns livros de Antropologia… – Camila respondeu.

– Você é uma louca em trocar de curso. Ninguém entendeu. Você não reclamava do curso. Bem que falam, é onde menos se espera que vem o imprevisível.

As duas ficaram em silêncio. Camila se perguntou por quanto tempo ela conseguiria segurar a curiosidade:

– Sei que é um assunto pessoal. Mas é verdade que você assediou o professor André? – Pelo que parecia, a bisbilhotice falou mais forte. – Querida, todas podem desejar, só que a poucas é dado o privilégio de degustar. Aprende isso, amiga.

Camila se escandalizou internamente. Queria responder aquele disparate à altura, mas se recordou que, se fosse a alguns meses atrás, também seria incrédula como a ex-colega das Ciências Políticas:

– Você não deveria duvidar das coisas… Pode se surpreender. – Camila ousou pontuar.

– Um homem como o André pode escolher. Chove na horta com certeza. Provavelmente vai optar por alguém como ele, tipo uma professora super inteligente, uma empresária rica.

Camila estava com raiva desses comentários. Ela não se aguentou. Teve de soltar algo inflável para Marcela. Seria o primeiro passo para tornar tudo público:

– Se eu contar uma coisa pra você, jura que não revela pra ninguém? Não interessa! – ela não deixou a amiga responder. – Ninguém vai acreditar mesmo e eu posso desmentir, não há provas. Eu já beijei o André.

Marcela abriu a boca e ficou pasmada. Não conseguiu falar mais nada. Era aterrorizador. Por alguns instantes, ela ameaçava falar, mas não podia. Balançava a cabeça, negando:

– Só digo uma coisa: é perfeito. – Camila deixou-a para trás, com um sorriso de orelha a orelha.

Desde o início do tórrido romance, pela primeira vez, ela não se importava mais se haveria comentários ou julgamentos. É claro que seria vista como mentirosa, porque não contara a verdade aos professores, quando indagada sobre o suposto romance. Poderiam avacalhar afirmando que o amor brotou depois das suspeitas, como se André tivesse despertado para ela somente após as averiguações.

Com saudades e querendo comentar que já havia colocado em prática a tarefa de espalhar a notícia do relacionamento, Camila decidiu retornar à sede da Faculdade de Ciências Sociais. Estranhou, porque não havia quase ninguém. O local estava deserto.

Foi até o estacionamento e constatou que havia dois carros. O de André era um deles. Retornou ao prédio. Assim que pegou o telefone celular, escutou vozes. Se recostou numa parede, quase sendo coberta por um biombo alto que servia para colar avisos e informes. Ela se espremeu e contraiu a respiração.

André era um dos interlocutores. A outra pessoa era uma mulher. Quieta, tentou filtrar as informações:

– … vai gostar, é uma cidade ótima. Sou apaixonado. – ele comentou.

– Conto com a ajuda de vocês. Vim de uma metrópole. Tenho que descobrir os locais.

– Rapidinho você vai ficar por dentro de tudo. – André completou.

– Ah, nem creio que passei nesse concurso. Tinha tanto professor bom.

–  Queremos um perfil mais jovem e dinâmico como você.

– Agradeço o elogio. Você também é muito carismático e… disposto.

Camila sentiu que a mulher estava se insinuando. Apostava que ela ia dizer bonito. Inclinando-se ela espiou os dois. A professora recém-contratada era baixa, bunduda e de cabelos pretos escorridos. Ela estava sorrindo o tempo todo, enquanto André falava.

Ela sabia. Tinha sacado na hora. Como segurar André com uma concorrência forte? O primeiro passo seria marcar território e se impor perante ela. No entanto, Camila tremeu nas bases. Correndo, pela direção contrária, tomou o primeiro ônibus que viu passar. A confiança começara a fraquejar.

AGITAÇÃO – Camila

Camila estava na reta final de mais um livro de Roberto DaMatta. A única meta das férias era ler o máximo de autores voltados para a Antropologia. Desse jeito, pretendia chegar com alguma vantagem ou bagagem em relação aos que estavam o tempo todo focados nesse campo de saber, ao contrário dela que acabara de migrar, oriunda das Ciências Políticas. Porém, ela não precisava ter se preocupado tanto. O que ela achava defeito era diferencial: os estudos políticos serviriam de apoio e enriquecimento. Além disso, ela se encaixaria perfeitamente às matérias e às dinâmicas do novo curso.

A última paciente de Léo interrompeu a leitura para marcar o retorno. Minutos depois, ele surgiu na sala de espera. Sentou-se olhando para sua secretária, ainda imersa na leitura:

– Camila, você está liberada. Pode ir embora.

Era um blefe e uma brincadeira. No entanto, ela não percebeu, muito menos a presença dele:

– É uma bomba! – ele gritou e riu

– O quê? – Nem a ameaça ela escutara.

– Estou zoando você – ele disse depois que se recompôs. – Ai, você está muito certinha. Só vai para a casa, lê, namora… Nada de novo acontece contigo. A vida é feita de dramas, de conflitos. Não é o que falam sobre os filmes e novelas?

– Acho que é. – Camila se sentou do lado dele. – Já tive tanta confusão, quero curtir muito a calmaria.

– Claro que quer, eu sei disso, ainda mais nos braços de um professor lindo e bem apaixonado. – ele sorriu, ela repetiu o gesto.

– Você gostou dele? De verdade?

– Claro. Se você quiser dividir comigo… – Léo fez uma cara de sacana.

– Já não basta a mudança na faculdade? Já não basta o fato de ele ser meu professor? Ainda quer colocar mais gente na minha relação? Você está me agourando? – Na verdade, poderia ser uma premonição. O relacionamento dos dois estava prestes a virar um triângulo.

– De jeito nenhum! Quero seu melhor. – ele a beijou. – Mas eu tenho que te dar um toque: pega mal vir trabalhar com a roupa repetida.

– Oh! – Camila ficou surpresa. – Você notou?

– Claro! Eu sou gay, esqueceu? Reparo em roupas. Você está com a mesma saia e o mesmo sapato, além do casaco.

– Você me pegou! Dormi na casa do André.

– De novo? – ele foi mais escandaloso do que o normal.

– O que você esperava? Nós estamos no calor do momento. Deixei a entender para minha família que estava estudando, que ia para casa das amigas discutir temas e nos divertir um pouco, mas na verdade, estava amando. É tão surreal isso! Nunca poderia me imaginar dizendo que tenho um namorado.

– Que delícia! Você vão fazer bobices na casa dos pais dele?

– Leonardo! Que safadeza! – ela bateu nos braços do patrão, enquanto ele ria. – Quem você pensa que sou? Tenho escrúpulos. E nós não vamos mais. Ele tem compromisso cedo na segunda. Foi convocado para ajudar numa banca de seleção. Ele não pode participar, pois está no estágio probatório, mas pediram que ele preparasse todo o trâmite. Acredita? São todos um bando de exploradores.

– Minha querida, e quem não é? Hoje em dia todo mundo quer alguma coisa de alguém.

Mais tarde, Camila aceitou a carona de Léo. No caminho, foi a vez dele de contar sobre seus relacionamentos. Para ela, estava ficando mais fácil compreender as histórias e aceitar o universo homossexual. Ele era regido por outras fórmulas, era um pouco mais despregado de convenções.

Em seu quarto, ela voltou a se questionar sobre os padrões e as convenções. Ainda tinha medo do retorno das aulas, pois André estava destinado a escancarar o relacionamento dos dois. Ela entendia e sabia que ninguém poderia se interpor ou criticá-los. No entanto, continuava receosa.

Ele estava doido para apresentá-la aos pais, que viviam no interior. O mesmo não se procedia com Camila. De jeito nenhum, queria levá-lo até sua casa. Imaginava o rebu na quando todos descobrissem que ela namorava o próprio professor.

Talvez fossem o temor e o receio que a impediam de se soltar. Afinal, quem poderia obrigá-la a agir ou a ser de uma forma? Cada um deve ser responsável por si próprio apenas.

O telefone celular tocou. Era André. Antes de atender, fechou a porta para que não fosse ouvida:

– Por que você não veio para minha casa? – a voz dele ardia de desejo.

– Não queria ser inconveniente, nem abusar tanto.

– Eu também pensava do mesmo jeito. Não quero explorar você – ele soou de forma melodiosa. – Só quero te amar.

Camila ficou sem palavras. Agora entendia a dificuldade em deixar transparecer o relacionamento na vida real. Seu caso com André tinha muitos tons oníricos, límpidos e principalmente imaculados:

– Eu não sei o que dizer pra sair de casa a essa hora. – Camila confidenciou.

– Foge. Tranca a porta e sai. Eu pego você em quinze minutos.

Ela fez uma pequena e rápida mala. Só quando teve muita certeza, escapuliu do quarto até a porta da cozinha. Ao contrário do que imaginava, seu pai dormia no sofá da sala. Ele constatou que ela fugia, mas não teve coragem de interpor ou constrangê-la.

Na esquina, André já a esperava. Da janela, o pai observava. Como ele queria descobrir com quem a filha estava.

Depois que se beijaram, Camila sentiu um arrepio tremendo. Era bom demais para ser verdade. Por isso, um temor repentino transpareceu, verbalizado sem freios:

– Não queria ver ou estar com mais ninguém. Pra mim, você é tudo.

André acariciou o pescoço da namorada e arrancou com o carro. Seria difícil deixar a sensação de intromissão que pairava na cabeça de Camila.

JUNÇÃO – Camila

Por qualquer espaço que andava, Camila sabia e percebia que a mãe a estava vigiando. Aquilo era insuportável de todas as maneiras. Sentia-se uma criança que não podia desapontar os pais, não podia se sujar, não podia interagir da forma como queria. Talvez o grande causador dessa ligação seja o fato de ela ser filha única. Se tivesse algum irmão, talvez as atenções fossem divididas. Mais tarde, ela iria compreender que estava absolutamente certa.

A situação não era pior por causa do pai. O que faltava, vindo de Constância, ela adquiria dele. Pedro era um parceiro. Em momento algum, tentava podá-la. Por isso, ela se aproximou. Numa roda de amigos, discursava apaixonado sobre mecânica e produtividade. Camila tinha quase certeza de que outros, além dela, não compreendiam a explicação e a genialidade do assunto.

Quando eles se dispersaram, Pedro pode desviar suas atenções à filha:

– Não está gostando? Cadê seus primos? – ele sempre soube quem eram as verdadeiras companhias de Camila.

– Estão dispersos. Não estamos muito bem uns com os outros.

– Você está com uma cara péssima. Bebe uma com seu pai?

Sabendo da desaprovação materna, aceitou prontamente uma cervejinha com ele. Foi dito e feito! De longe, Constância fez cara de zangada com tamanha parceria entre os dois. Não sabia se o pai fazia de propósito como ela. No entanto, os dois pareciam grandes amigos, numa mesa de bar. Eles riam, descontraíam e se acalentavam:

– Você sente que pertence a isso? – ela fez um gesto amplo, englobando toda a festa.

– Não. Nunca achei que faço parte. Depois que comecei a crescer na empresa, a aumentar minhas responsabilidades, percebi que ganhei mais respeito e consideração, mas não me sinto enquadrado nesse universo.

– A gente passa tanto tempo ao redor da família e da empresa. Apesar disso, não é certo nos sentirmos tão afastados, tão estranhos.

– Ah, filha, abstrai. A pior falta de consideração é o desprezo. Eu não deveria te falar isso, mas… – ele se inclinou para mais perto. – …se você se importar muito com o juízo alheio, acaba não vivendo. Se eu tivesse dado ouvido aos outros, não teria… me casado e você não estaria aqui.

Camila sorriu. Era uma declaração linda. Seria a primeira da noite:

– Eu já sofri muito com sua avó. Pode não parecer, mas ela me atormentou também. Sei o que vocês passam. Talvez eu tenha sido o mais errático de todos os filhos dela. Mesmo quando o Gabriel engravidou a Teresa, não perdi o meu posto de pior. Eu era simplório, não ligava muito para essa vida que ela queria nos forçar a ter.

– Sou um pouco assim… – ela revelou.

– Eu já percebi isso. – ele sorriu. – Sofri tanto antes de você nascer. Sempre achava que não ia dar certo de novo.

Camila fez uma cara branca. Pela primeira vez, percebeu que a comunicação com o pai estaria aberta para um assunto sempre camuflado. Ela desconfiava que algum segredo rondava o seu nascimento. Não demonstrou muita ânsia em saber, a fim de não despertar Pedro perante o tema proibido:

– Por sua mãe, nós teríamos tentado mais. Só que eu estava cansado de tanto aborto. Foram quatro antes de você. Honestamente, eu tinha medo de perder Constância. Era tanto sangue, tanta dor, tanto desapontamento. Ela se forçava e não obtinha êxito. Você é nosso milagre. – ele sorriu e estendeu a mão até o rosto dela. Camila roçou os dedos do pai nas bochechas.

– Eu não sabia que era uma dádiva…

– Seu sangue foi o verdadeiro milagre. Você é do tipo negativo. Os outros não eram. Sua mãe passou a todos eles eritroblastose. Sabe o que é?

– Não me recordo.

– Constância teve contato com sangue positivo antes, numa cirurgia que fez quando garota. Ela é negativa. Por isso, produziu anticorpos. Os bebes sendo Rh positivo eram afetados. Era um tipo forte, ela ficava internada por longos tempos. Todos eles eram homens, acredita?

– Sério? – Camila sabia o quanto um descendente masculino era valioso no meio dos Bersani’s.

– Sim. Eu quis assumir a culpa. Queria inventar alguma doença genética, tipo hemofilia… – ele bebeu mais um gole de cerveja.

Parecia que o assunto tinha se encerrado. Camila ainda pulsava com muitas dúvidas. Resolveu arriscar. Esse movimento seria certeiro:

– Vovó culpou minha mãe. – ela afirmou para dar a entender que sabia de algo.

– Claro. Ela nunca deixou Constância se esquecer do problema. Atormentava, soltava indiretas. Era muito difícil. Eu me contorcia por dentro de raiva. Aos poucos, minha mãe substituiu os comentários pelo olhar. Ela passou a mirar Constância de maneira a deixar claro que nunca esqueceria, que sempre a culparia. Era uma agressão velada e direta. Sua mãe queria continuar tentando outros filhos. Eu não deixei. Eu evitei o sofrimento físico naquele momento, mas não pude prever o sofrimento moral que ela teria de carregar. Na minha opinião, só uma pessoa foi mais destratada pela sua avó do que a Constância: Eulálio, seu primo.

Camila ficou pensativa. Era tanta informação nova. Por mais que não tivesse culpa, sentia-se um fardo para os pais. Apesar de ter sido uma sobrevivente, também se sentia defeituosa como os irmãos perdidos:

– Eles tinham nome? Tiveram nome? – ela perguntou.

– Os dois primeiros sim. Os últimos não. Perdemos a esperança. Você só ganhou um nome quando nasceu. Não conseguíamos fazer planos.

A garota se solidarizava com aquela situação pretérita. De alguma forma, prometeu amenizar a situação. Não podia carregar tanta desfeita, ou propiciar mais angústia e pesar:

– Você está com uma cara terrível, minha filha. Eu não devia ter comentado nada, ainda mais agora em momento de festa.

A contragosto e forçado, ela esboçou um sorriso e o abraçou. A mãe apareceu naquele momento. Camila ficou feliz com a aparição e a agarrou também. Os três ficaram grudados por um longo período. No princípio, estava incômodo, mas depois perceberam o quão reconfortante era. Fazia tempos que não se expressavam sem palavras ou que verdadeiramente ficassem próximos e unidos:

– Eu preciso mijar! – Pedro cortou o clima e deixou as duas a sós.

– Dá uma maneirada na bebida, por favor. – Constância disse assim que tomou o lugar do esposo.

Em outra situação, Camila ficaria brava e responderia. Hoje não. Ela sorriu de maneira amável:

– Não entendo por que você não convidou o Leo. Vocês trabalham juntos. Alguma coisa tem de sair dessa relação.

– Mãe, acredite em mim, pelo menos dessa vez. Nunca vai rolar nada entre eu e meu chefe. – ela frisou bem as palavras.

– Que cara é essa? E cruza as pernas. Daqui a pouco, qualquer um vai ver sua calcinha, porque esse vestido…

– Obrigada. – A garota interrompeu. – Posso não compreender seus motivos, mas sei que tem boas intenções. Não irei desapontá-la.

– Do que você está falando?

– Do que você passou por mim. Se eu pudesse escolher, teria vindo como um homem. Poderia ter aliviado seu fardo.

Constância estava sobressaltada. Não queria reviver ou relembrar, muito menos com a filha.  Pedro não tinha o direito de ter revelado os transtornos passados por eles. Era um segredo que não precisava vir à tona:

– Você não precisa se importar com isso. Acabou, passou. – Ela estava embargada.

– Passei a compreender você melhor, mãe. Entendo as suas cobranças.

– Você diz isso agora, da boca pra fora. Camila, o que eu quero de você é uma coisa: seja ambiciosa. Eu deveria ter sido mais determinada e focada. Não vejo isso ao seu redor. Você não luta, você não procura, você não deseja! A pessoa ambiciosa cresce, porque quer mais, quer sempre o melhor. Ela não para nunca. Você vai trocar de curso, eu não me oponho. Só espero que você deixe de ser apática, que aprenda e se dedique. Você tem oportunidades, mas elas caem ao seu redor e você não as aproveita. Eu não quero ver a minha filha única perdida e desencontrada. Esse é meu maior pesar. Saber que você fracassou, que não alcançou, que não foi feliz.

Sem perceber, lágrimas escorreram pelo rosto de Camila. Aquilo era pesado e intenso. Continha uma verdade fulminante. Ela não conseguiria refutar ou rebater:

– Atrapalho? Acho que não. – Lina se colocou no meio das duas. Camila se virou para a frente do bar, limpando as lágrimas.

– Deseja beber algo? Eu pego. – Constância desviou a atenção da sogra por momentos a fim de que Camila se recompusesse.

– Estou ótima, embora esteja assombrada. Camila, mais uma vez, suas escolhas de roupas são horríveis. Seu vestido está descosturando atrás, perto da alça.

Para destacar o local, Lina fez questão de puxar as pontas e arregaçar mais a parte rompida. Camila deu um pulo do banco e se virou. Se deixasse, ficaria rasgada e pelada para o prazer da avó:

– Você não tem nenhum senso de decência. Nem parece ser minha neta. Se morasse comigo, eu vigiaria o que você come. Constância, você e ela poderiam fazer uma dieta.

– Nós vamos entrar na academia, não vamos, filha?

Camila queria dar uma resposta para a avó, no entanto, se conteve. Perto da mãe, teria mais respeito e seguiria as regras dela:

– Claro! Já sei em qual podemos ir. Lá, teremos muita aula de aeróbica. Vamos nos divertir e queimar muitas calorias. – Camila não estava mentindo, andava interessada em cuidar mais do corpo.

Lina, por outro lado, esperava alguma reação da neta. Assim, poderia rebater. Ela ficou sem saída:

– É lindo ver duas filhas se darem tão bem. Graças a Deus, não fui ‘abençoada’ com isso. – disse e saiu.

– Por que ela é assim? – Camila olhou a pompa da avó pelo salão.

– Passado. É tudo uma carcaça. Lina esconde algo. Só que ninguém foi esperto o suficiente para saber onde achar. – Constância deu um beijo na filha e se retirou.

Pedro também não apareceu de novo. Por isso, Camila foi procurar os primos. Eles estavam sumidos. No andar inferior, encontrou Maurício e Sheila sentados. Ele estava disperso, embora tenha ficado alerta no momento em que ela surgiu no campo de visão dele. Já a ex-namorada de Eulálio aparentava uma melancolia tremenda:

– Onde está todo mundo?

– Sumiu. – Sheila não estava para papo.

– Estávamos quase indo embora. Eulálio não responde o celular e a gente não conhece ninguém por aqui. – Maurício respondeu.

Meio sem paciência, Camila virou as costas e voltou suas atenções para a festa. Mal se afastou, Maurício se pôs na frente:

– Camila… Você está tão… Bem, tem muito tempo que não te vejo… Eu vim por… Eu aceitei vir a essa festa por sua causa. Desde aquele dia, no aniversário do seu tio, eu… sei lá. Foi bom demais, não foi? Eu gostei de quando… Droga! Perco as palavras perto de você.

Camila se manteve em silêncio. Como queria corresponder àquela agitação dele. Se pudesse, corroboraria e se entregaria mais uma vez. Contudo, seria um erro. Maurício havia sido um substituto apenas, alguém para tentar diminuir o sofrimento e a dor. Não merecia ser ludibriado:

– Maurício, eu estava bêbada. Você também. Foi uma loucura. Apenas isso! Não consigo conceber que você tenha se apaixonado por mim naquele estado louco.

– O amor não é tão racional assim. Dá pra escolher o que a gente sente? Dá pra controlar? Veja Sheila. A razão manda ela desistir. Já os sentimentos fortes mandam continuar.

– É diferente. Eles tiveram envolvimento.

– Nós também. – ele pontuou. – Por que não nos damos uma chance? Eu posso surpreender você.

Camila suspirou. Era verdade. Pior não ficaria. Quem sabe, por uma obra do destino, ele poderia ser mais do que ela esperaria. Talvez ela devesse se permitir o improvável. A cura, muitas das vezes, está onde não percebemos. Não sabemos o quanto a solução está perto:

– Eu não posso prometer nada a você. Estou devastada por dentro, Maurício. Sofri, há pouco tempo, por alguém que gostei muito. Achei que ele fosse meu grande amor.

– Deixa eu te ajudar a superar? Eu quero tentar.

Ela o abraçou. Mentalmente, disse sim. Depois, perceberia como tinha sido uma aceitação em vão:

– Isso é maravilhoso. Eu agradeço. Vamos sair daqui? – ela sugeriu.

– O que você preferir.

– Me espera na entrada do hotel. Só vou despedir dos meus pais.

– E eu vou dar adeus a Sheila.

Satisfeita, Camila retornou ao piso superior. Agir era melhor do que se afundar na inércia. Aparentemente André também pensava da mesma forma. Ela não conseguia acreditar que ele estivesse olhando para ela intensamente e se aproximando cada vez mais. Ela parou, esperando pela chegada. Se acaso se mexesse, cairia. O professor estava lindo, trajando um terno simples. Parecia uma miragem:

– Até que enfim, encontrei você. E nem é uma festa tão grande.

– O que você está fazendo aqui?

– Precisava ver você. – ele respondeu.

– Enlouqueceu?

– Sim, por você. Sou loucamente apaixonado por você. Não consigo evitar, é maior do que eu poderia prever. É errado, mas eu não quero mais lutar contra. Quero você do meu lado. Eu te amo, Camila Bersani. Não me interessa se você é minha aluna.

– Como você entrou na festa? – Ela estava alucinada com a declaração. Não raciocinava direito, por isso, desviou o assunto.

– Eu sabia do evento pela turma do futebol da Suzana. Eu só menti. Me apresentei como Anderson, é claro. – Ele riu sem graça, ela também não se segurou. – Inventei que perdi meu convite. Disse que era um fornecedor importante e grande amigo dos netos da empresa. Citei o nome dos sete primos.

– Na ordem, do mais velho à mais nova? – ela brincou.

– Aí é pedir demais.

– E eles deixaram você entrar? Simples assim?

– Alguém resiste ao meu charme?

– Bom, eu não resisto. – Ela se aproximou dele que, rapidamente, laçou Camila pela cintura. – O que você está fazendo?

– Eu falo sério. Vou lutar para você. Não quero esconder nada.

– E a faculdade?

– Vamos dar um jeito. O que importa agora é ficar com você.

André ia beijá-la. Ela desviou, saindo de seus braços:

– Não aqui! Por favor, vamos sair.

Lado a lado, eles foram em direção à escada. Só quando chegou ao saguão, Camila viu Maurício na entrada e se assustou. Ela foi para o balcão da recepção automaticamente. Precisava se esconder. Não queria magoar ninguém. André não entendeu.

Procurando uma saída, lembrou-se das palavras de sua mãe:

– Vamos ficar aqui mesmo! – ela disse ao amado. – Nós queremos um quarto, o mais especial que você tiver. – Falou para a recepcionista.

– Eu pago, então! – André embarcou na loucura.

No elevador, eles não se aguentavam. As mãos se tocavam de leve, a respiração ficava mais ofegante. Fechavam os olhos de paixão. O ascensorista estático não percebia nada.

No momento em que as portas se fecharam, André encurralou Camila numa parede:

– Eu quero muito você.

Um beijo espetacular fez com que os dois se esquecessem de tudo. Mais uma vez, se entregaram:

– Eu também amo você, André. Amo muito.

Se não tivessem pudor, teriam feito sexo naquele corredor. No entanto, conseguiram se conter e entrar no quarto. Ao ouvir a porta bater, Camila só pensou que também estava fechando uma nova fase em sua vida. Teria refletido mais, no entanto, se jogou com força e ardor nos braços de André. Como de costume, de maneira natural e instintiva, deram vazão ao amor, sem se importar com as dificuldades e as consequências que viriam. E foi mais que sensacional, tinha sido esplêndido e fabuloso.

Fim do Primeiro Ciclo de Camila

REVELAÇÃO – Camila

– Professor, dá licença? A aluna Camila Bersani pode me acompanhar até a coordenação?

Ela olhou para o material, para o quadro e para o professor, antes de focar a funcionária. Todas as atenções se viraram sobre ela. Arriada, deu um salto na cadeira e se dispôs a caminhar junto da mensageira.

Passando pelos corredores, Camila não compreendia aquele pedido da coordenação. Não tinha qualquer pendência, nem tinha se submetido a algum problema. Ou teria? Esquematizou uma pergunta de sondagem, mas rapidamente chegaram à pequena sala de destino.

Assim que a porta foi batida, ela se espantou. Além do coordenador, dois professores, um homem e uma mulher, de períodos avançados estavam presentes. Todos se cumprimentaram, só depois ela se sentou:

– Camila, é um assunto delicado. Porém, não podemos evitá-lo. Você conhece o professor André?

Ela ficou arrepiada. Temeu com a dúvida se eles perceberam ou não sua reação. A mão da direita, da razão, agarrou a da esquerda, da emoção. Camila mordeu os lábios. Apenas balançou a cabeça, assentindo. Não olhou para os outros dois professores, apesar de sentir a vibração gélida deles:

– Não sei se você soube, mas há algum tempo, houve suspeitas de que ele teve um envolvimento com uma aluna. Ela era orientanda dele. Ao que parece, foi um mal entendido. Eles se afastaram e nada além se sucedeu.

O coordenador fez uma pausa. Recostou-se na cadeira, mas mantendo as mãos apoiadas na mesa. Claramente, Camila se sentia numa emboscada, arrastada contra uma quina, sem poder sair. Resolveu que falaria o mínimo possível. Tudo poderia ser usado contra ela, ou melhor, contra André:

– Isso é sério, muito sério. Não toleramos envolvimentos inapropriados entre alunos e professores, sejam eles de qualquer tipo. O caso fica mais complicado por que o professor André ainda é novo na casa, está em estágio probatório.

Camila queria fingir um desmaio. Ou torceu para que André rompesse na sala e pusesse fim àquele tribunal, como se realizasse um resgate. Embora tenha brincado com o fogo, ela não estava preparada para as consequências:

– Chegou ao nosso conhecimento algo em relação a você. Nós a chamamos aqui a título de verificação apenas. Não queremos prejudicá-la, só ouvi-la. Quanto antes resolvermos isso, melhor.

Com uma coragem nascida do pavor, ela encarou um professor de cada vez:

– Os senhores poderiam ser mais diretos? O que estão buscando?

Um silêncio se instalou entre todos por um período:

– Você teve um caso afetivo com o professor André? – a professora tomou a dianteira.

Camila respirou fundo. Cruzou os braços no peito.  Tinha de ser sincera:

– Não. Não tive um caso amoroso com ele. – Não era uma mentira. Foram alguns momentos casuais.

– O professor André deu em cima de você? – o coordenador tomou as rédeas novamente.

– Não. – Rapidamente, com prazer, ela se recordou da primeira vez que ficaram. Ele não era André, ela não era Camila. Tornaram-se Anderson e Carol, totalmente diferentes e à parte da realidade:

– Vocês tiveram qualquer aproximação sexual ou intencional?

– Sim, tivemos.

O trio ficou assustado novamente. As duas respostas anteriores acalmaram. Contudo, houve um desvio significativo de volta à seriedade:

– Como foi isso? – a professora disse de maneira delicada.

– Eu preciso comentar algo tão pessoal? – Camila teve medo.

– É necessário! – o outro docente disse suas primeiras palavras.

– Algumas vezes, eu permiti um contato. Eu deixei entender que gostaria de ter algo a mais com ele.

– Você? Foi você quem tentou ter um caso com o André? – a professora queria elucidação.

– Foi. Digo por mim, pelo que senti e pelo que fiz. Eu demonstrei ter uma atração por ele. – Aquilo era outra verdade. Do tipo parcial, digamos assim.

– Por quê? Ou melhor, o que motivou você a isso?

Camila percebeu que não conseguiria ser tão efêmera e rasa na totalidade. Se as perguntas se prolongassem, teria de mentir ou seria obrigada a contar toda a verdade. Ela olhou para os próprios pés. Respirou fundo. Daria um último golpe. Pela primeira vez, entendia o significado de sacrifício: pelo bem do outro, aceitava um prejuízo a si mesma. Esse ônus valia por poupar alguém que merecia:

– Eu amo o professor André. Há muito tempo, amo ele. É errado e proibido, mas não resisti. Eu quero ele, desejo-o. Mas não podemos ficar juntos. Sei disso, sempre soube. Só não consegui evitar. Por isso, como não foi possível estarmos juntos, decidi, pelo meu próprio bem, mudar de curso. Semestre que vem, passo para a Antropologia. Já estou com os pedidos de requisição. Peguei na secretaria. Vou me sentir melhor afastada dele que ainda me faz amá-lo com muita intensidade.

Como um zumbi, Camila deixou a coordenação. Caminhou devagar até a sala de aula, entrou, juntou os materiais e saiu do prédio das Ciências Sociais. Afastada, ligou para Eulálio. Pediu que a encontrasse:

– Camila, que cara é essa? – ele a abraçou, ela não respondeu ao contato.

– Eu explico depois. Você me faz um favor? Agora? Se eu for à secretaria e pedir os papéis de mudança de curso, pode ficar muito suspeito. Tem que transparecer que eu já estava intencionada. – ela disse mais para si própria.

– Você pode me explicar o que aconteceu?

– Não agora! Depois! Vá na secretaria e peça os formulários de requisição para mudança de curso. Rápido!

Minutos longos se consumiram até que o primo tivesse voltado:

– Eles tiveram de fazer cópias. – Camila segurou os papéis entregues por Eulálio, como se estivesse em transe. – Você está mudando de curso por causa do André? Você está se prejudicando por causa dele?

Ela permaneceu em silêncio:

– Que raiva! – o primo explodiu. – Tenho um teste agora. Vou chamar Bianca.

Camila só pensava em ir para casa. Foi caminhado lentamente pelos corredores, em direção ao ponto de ônibus. Antes, quando quis André perto, ele não apareceu. Agora, com tudo encerrado, ele surgiu de frente a ela. Estava bem bravo:

– O que você fez?

– Para o seu bem, é melhor não ser visto perto de mim. – Ela tentou se desvencilhar, ele se manteve, bloqueando-a.

– O que você falou?

– A verdade!

– Como? – ele se espantou, alterando o tom de voz. – Eles me inocentaram, sei lá. Terminaram a sindicância sobre meu segundo caso de assédio!

– Eu apenas expus o que aconteceu na minha percepção. – Cada palavra proferida machucava mais a garota.

– Eu preciso saber o que eles perguntaram, o que você respondeu, se…

Camila precisava encerrar o envolvimento. Saiu em disparada, correndo pelos longos corredores. Ele se pôs atrás. Ambos voavam velozmente, desviando-se. Sem rumo, Camila subiu uma escada, caindo num segundo andar. Ficou encurralada num canto escuro. Ela arfava, de medo e paixão, com a aproximação de André. Não queria ser questionada. Doía:

– Por que você fez isso? Por que me inocentou? – eles ficaram cara a cara.

– Não é óbvio?

– Você não precisava. – André estava enfurecido.

– Eu tinha de te proteger! Não podia deixar que te prejudicassem.

– Você não devia! Por que você mentiu?

– Eu disse a verdade! – Ela gritou. Aquela constatação foi o pior choque. – Você não entendeu ainda? – Camila segurou o choro. – Eu não menti em momento algum. Só disse a verdade. Sim, eu desejo você. Sim, eu me aproximei de você diversas vezes. Sim, eu quero trocar de curso. Sim, eu amo você.

André avançou mais. Camila recuou e virou o rosto. Assim que ele esticou o braço para tocá-la, ela o empurrou:

– Acabou, André. É o nosso fim. Me deixa!

Ela andou mais rápido a princípio, depois correu. Escondeu-se no ponto, desejando por um ônibus. Também ansiava para que André não aparecesse:

– Camila? Onde você estava? – Bianca sentou-se ao seu lado.

– Me leva para casa? Eu só quero meu quarto. – pediu.

As primas se abraçaram. Durante o trajeto todo, ficaram juntas. Camila estava entorpecida, enquanto Bianca se segurava para não afobá-la com perguntas. Quando chegaram em casa, Camila soltou o choro, amparada pela prima. Nas histórias, não se comentava a dor interna daqueles que se sacrificavam. Sobressaiam os atos. Os sentimentos pesados e pesarosos eram omitidos. Talvez por serem demasiadamente sufocantes.

VALORIZAÇÃO – Camila

Ele tinha percebido que ela estava de más intenções. A roupa estava mais vistosa, bem provocante. A blusa era mais decotada, de várias cores, puxando para o vermelho. Camila tinha escovado o cabelo, exagerado no perfume e se valido da calça mais apertada, a fim de arrebitar a bunda. De qualquer jeito, iria seduzi-lo. Trazê-lo definitivamente para seus braços era a meta.

Enquanto organizava a agenda da semana que vem, ela se questionou se havia exagerado, tanto no visual, quanto na postura. Não era seu feitio se jogar em cima de alguém. Pensou em Suzana. A prima tinha conseguido influenciá-la? Não tinha esse costume ousado. Contudo, desde o fiasco com André, a busca por alguém a ocupar-lhe o coração tinha se tornado desesperadora.

Alguém consegue tomar o lugar cujo dono ainda se mantém presente? Como alcançar e usufruir a posse, se o titular continuava estabelecido? Camila tinha uma meta: achar alguém que tirasse, à força, seu desejo pelo professor. Servia qualquer indivíduo, menos mulheres. Ela gostava pra caramba de homens.

Ao escutar a campainha, demorou a acreditar no que via. Suzana estava do outro lado do vidro, acenando:

– O que você está fazendo aqui, mulher? – Camila questionou a prima. – Eu estava pensando em você.

– Por quê?

– Eu estava… querendo saber… – Camila se embolou pela vergonha. – Uma ajuda, você poderia me… me dar uma mão, quer dizer, um conselho. Mas e você? Está perdida?

– Vim pegar um projeto e passei para te ver. Rola um lanche? Aqui embaixo? Posso te ajudar.

– Bem rapidinho? – Camila determinou.

Assim que avisou Leo e fechou a porta, Suzana parou a prima e a olhou de cima a baixo:

– Você vai aonde com esse visual?

– Eu estou programada para aprontar hoje. – Camila anunciou, adentrando no elevador.

– Que delícia! Posso ir junto?

– Claro que não! Eu vou laçar uma pessoa.

– Menina, o que deu em você? Está totalmente se jogando. Adorei. Posso saber de quem estamos falando?

– Do meu chefe, o Leo!

– Exatamente o que você vai fazer com ele? – Suzana fez uma cara de espanto e de negação.

– Vou jogar um charme antes de irmos embora. Tenho certeza de que vou ficar com ele naquele consultório, hoje à noite.

– Camila, não faça isso. Eu te peço.

– Por ele ser meu chefe? Olha quem fala! Não é você que é doida para dar para o Igor dentro de uma sala de trabalho?

Suzana ficou desarmada. Camila sentiu-se superior. Era muita hipocrisia:

– Eu só falo pelo seu bem. Eu sei dessas coisas. Nada de interessante vai vir, ainda mais com o Leo.

– Você não conhece ele! Meu chefe é ótimo. – Camila saiu do elevador batendo os pés com força.

Até chegarem à lanchonete e fazerem seus pedidos, permaneceram em silêncio. Sozinhas, um pouco depois, Suzana retomou o raciocínio:

– Sei que você não quer que eu me intrometa. Sei também que eu deveria ser a última pessoa a lhe dizer isso por tudo o que fiz. Mas eu te peço. Não avance nele. Nada vai acontecer e você vai ser arrepender.

– Por acaso, você já ficou com ele para saber? Como você pode dizer isso se não sabe quem ele é?

– A irresponsabilidade custa caro. Quando envolve sexo, pior fica.

– Suzana, o fato de você ter se envolvido com tantos homens não a faz uma grande entendedora.

– Então, está bem. Só me conte depois!

O resto do lanche entre elas foi frio e superficial. Não estavam com vontade de fofocar, nem contar qualquer novidade.

O passar do dia foi deixando Camila mais agitada. Não sabia se conseguiria ser capaz. Com a mão segurando o queixo, pensando como agarraria Leonardo, percebeu metade de seu reflexo na tela do computador. Não se reconhecia de verdade. Ajeitou a sobrancelha, fisgou o próprio olhar.

Refletiu sobre os rumos da vida. Mudamos muito rápido. Deixamos de desejar, desejamos o impensável. Podíamos ser mais estáticos e determinados. Não somos parecidos com os insetos, mas constantemente mudamos nossa carapaça. A diferença é que nosso processo ocorria internamente:

– Nem creio que o dia acabou! – Leo surgiu na sala, jogando-se no sofá e esticando as pernas. Camila tomou um susto. – Minha última paciente acabou de me ligar no celular para desmarcar.

Ele deu um sorrisinho. Camila respondeu da mesma maneira. Ela não teria coragem de agarrá-lo no ambiente de trabalho. Definitivamente precisaria de um drinque antes:

– Leo, eu estou meio livre agora. Quer tomar algo?

– Ótima ideia! – ele se levantou num pulo e deixou a sala de espera. Ela achou que ele fosse buscar as suas coisas. Começou a fechar os programas do computador.

Sem entender, Camila se surpreendeu mais uma vez com o chefe parado na soleira segurando uma garrafa de vinho tinto:

– Você se importa de tomar em copos?

– Nem um pouco. – ela respondeu desacreditada.

Os dois ficaram no sofá, bebendo e debatendo trivialidades. Ele contou passagens da faculdade, Camila revelou suas dúvidas. Cada vez mais se aproximavam, porém, como ela descobriria minutos depois, por motivos diferentes. A garota achava que Leo estava caído por ela, que o tinha conquistado.

Durante uma risada dele, ela se inclinou, apoiando a mão direita no ombro dele. Com a outra, puxou a cabeça do dentista e tentou beijá-lo. Os lábios se recostaram:

– O que você está fazendo? – Leonardo gritou, em pé. Transparecia estar enfurecido.

– Eu… achei que a gente… podia se aproveitar, ou melhor, aproveitar mais.

– Por que, Camila? Mesmo sendo seu chefe, nunca lhe dei liberdade para tanto.

– E agora? Toda essa conversa mole? O vinho? A aproximação? Medo de assédio sexual? – Camila queria diminuir a própria culpa.

– Você entendeu errado. Somos amigos.

– Entendi. Você é igual todo mundo, é uma outra versão do André! – Ela estava alterada. Deixou a emoção fluir. – Só muda a profissão. Os dois têm medo das pessoas, não é? Do que as pessoas vão dizer, quando souberem que um namora uma aluna, enquanto o outro fica com a secretária! Vocês são receosos com a reputação, não é esse o motivo?

– Claro que não! – Leonardo olhava para ela estupefato.

– Então é por minha causa, pelo meu corpo feio e grande? Vocês sabem que sou bonita, só não sigo um padrão de beleza magro! Por isso, me renegam.

Leonardo continuava pasmado. Ele voltou a se sentar. Antes que Camila caísse no choro, pegou o rosto dela e disse:

– Não é por isso. Eu sou gay.

Automaticamente, Camila colocou as mãos na boca de susto:

– Me desculpe. – disse ainda com os lábios tapados.

– Eu deveria ter falado antes. Eu até que queria, mas a gente não estava tão próximo assim. Como as coisas se misturaram agora, tive de revelar.

– Ai, me desculpa. – Camila estava morta de vergonha. Ela abraçou as coxas, enterrando a cabeça nas pernas:

– Deixa disso, não se martirize!

– Eu sou uma besta. Nunca poderia imaginar que você fosse gay. Cheguei até a me arrumar especialmente para te seduzir.

Eles se olharam por dois segundos e explodiram de rir. Riram muito. Se abraçaram para selar aquela amizade já concebida:

– Deixa eu te falar uma coisa. – Leo soou o mais honesto. – Ainda não sei o que aconteceu com esse André, mas nenhum homem pode ditar quem você é, o que deseja, o que sonha. Qualquer relacionamento tem de ser… complementador, não norteador. Não quero que você se duvide, ou se desacredite por causa de um cara. Eles não merecem tanto holofote. – ele brincou.

– Posso? – Camila fez biquinho.

– Esse beijo pode!

Camila deu um estalo no rosto dele:

– E vamos continuar a beber em outro bar! – Leo convidou. – Quero saber desse André, vou te contar minha recente separação dramática. Só tem uma coisa: é um bar aonde só vão gays, então, estou pensando só em mim.

– Quem disse que não posso recuperar um homossexual? – ela brincou.

– Convencida! Quem dera pudéssemos mudar as pessoas… Mas boa sorte! Pelo preconceito da minha família, eu seria o primeiro a mudar de time com sua fórmula.

Rindo juntos, fecharam o consultório e foram se descobrir. Apesar de cedo para uma constatação e estar um pouco alterada, Camila percebeu que tinha perdido um potencial namorado, contudo, havia ganhado um amigo mais que especial.

TEMPORÃO – Camila

A produção tinha sido impecável, com unhas bem feitas e vibrantes, cabelo escovado e escorrido, uma calça jeans provocante, sandálias de salto alto, e blusa totalmente decotada. O visual era a ferramenta para que Camila pudesse aproveitar o aniversário do tio Cristóvão, com intuito de suplantar o professor André de sua mente. A arrumação funcionava como indumentária mágica, quase teatral, que a transformava em outra pessoa, mais agressiva, independente e certeira.

Tentando sair sem que fosse notada pelos pais que, certamente, estranhariam tamanha preparação, ela se assustou em dar de cara com a avó Lina na sala. De fato, a surpresa estampou-se perante as duas:

– Bem, muito bem! Quem poderia imaginar que você tivesse bom gosto? Se eu tivesse uma máquina fotográfica tiraria uma foto de recordação desse dia histórico! – a matriarca dos Bersani’s não perdia tempo.

– Pensei que estivesse em viagem. Não é o costume? Ausentar-se da família no aniversário do filho mais novo?

– Tenho de resolver assuntos pendentes com o seu pai. Vocês não sabem, mas deixei de ficar de fora ou longe, durante o aniversário do Cristóvão. Gosto de aparecer nos sítio no dia seguinte para averiguar os estragos. Faço questão que meu filho pague tudo depois.

– É esse o seu presente de aniversário para ele? – Camila atacou.

– Não, isso são ônus, por eu dar a ele a liberdade de usufruir de minha propriedade sem a minha vigilância. Digamos que é a minha caridade ou bondade anual. – ela debochou.

Camila riu de incredulidade. Queria fugir da avó o quanto antes, porém suspeitou que ela poderia estar mais disponível a se abrir por causa da data. Ou ela seria tão insensível assim?

– Eu me pergunto se você sente alguma coisa por alguém. Você consegue se ligar a um outro ser humano? Cristóvão é seu mais novo, deveria ser o mais paparicado, ao invés de ser o mais negligenciado. Eu sou uma das suas netas, constantemente atacada por você. Qual é o ganho pelo afastamento de todos nós?

– Um dia vocês todos vão entender… – Lina fora evasiva. Camila manteve o interesse. – Acredito que aquilo que não mata fortalece. Faço um bem a todos, cobrando, brigando, impulsionando a serem melhores.

– Isso é meio chavão. Em troca de raiva e ódio? – a neta acrescentou.

– Meu método é duro, quase militar. Tomei muitas surras de meus pais. Aprendi com o castigo e a dor. Interprete minhas palavras como uma forma de chicote propulsor.

– Você acredita nisso? É tão surreal… É, não deveria ser espantoso pra mim.

– Por quê?

– Eu não conheço você, nós não sabemos quem você é. Apenas entendemos do que você é capaz. Estamos adultos, o tempo passou, e a senhora permanece uma incógnita.

– Não seja…

– Filha, a Suzana… – Pedro irrompeu na sala, sem perceber a íntima conversa entre as duas. – Me desculpe. Olá, mãe. Não sabia que a senhora estava aqui. Constância não me chamou. Camila, Suzana está lá embaixo, esperando por você. Uau! Como você está linda!

– Só poderia emagrecer um pouco. – Lina não perdeu a oportunidade.

– Mande outro abraço para o Cristóvão. – Pedro passou por cima do comentário de sua mãe.

Camila beijou e abraçou o pai calorosamente. Antes de sair, encarou a avó e meneou a cabeça. Dona Lina repetiu o gesto.

No carro, Suzana reclamou da demora da prima:

– Estava tendo uma conversa familiar com a nossa querida avó. Será que algum sentimento tenro e amável já brotou dentro dela? – Camila questionou, antes de reportar a conversa.

Assim que chegaram ao sítio, as duas ficaram surpresas com a arrumação do local. Estava tudo impecável, com a decoração puxando para o informal, num clima de welcome to the jangle. Tochas foram espalhadas pelas árvores, as luzes deixavam o local sombrio, cheio de promessas. Uma pista de dança maravilhosa fora colocada ao lado da piscina. Poucas mesas estavam dispersas, a ideia era fazer todo mundo circular e dançar. Cristóvão deve ter gastado uma alta quantia:

– Não sei se meu traje se adéqua a isso. – Camila comentou. – Você está linda de vestido púrpura. Que coque diferente, Suzana.

– Eu transei a tarde inteira e perdi meu horário de salão. Tive de improvisar.

Camila estava deslumbrada. Ela se perguntou se um dia conseguiria alcançar tamanha opulência. A jovialidade de Cristóvão contrastava com o universo endinheirado no qual ele estava imerso. Não seria cedo demais para ter tanta fortuna e esbanjar? Por outro lado, ela se perguntou o que ganhava numa vida regrada a economia e gastos controlados. Isso não a deixava mais livre, nem menos preocupada. Pelo contrário, Camila sentia-se oprimida por estar tão distante da estabilidade financeira e do sucesso:

– Sobrinhas, que bom que vocês chegaram! Até que enfim. Cadê o resto de vocês?

– Parabéns, desejo muita saúde e felicidades. Seu presente está com a Bianca. – Camila comentou, enquanto se beijavam. – Tio, tem tanto tempo que não nos vemos?

– É, são muitas viagens. Às vezes, eu acho que foi um fardo grande capitanear as empresas Bersani no campo internacional. É muita pressão e responsabilidade.

– Mas tem seus benefícios. Aparentemente você tem tido êxito – Suzana elogiou, gesticulando para o entorno.

Camila achou a fala da prima bem dúbia. Parecia que ela flertava com o aniversariante.

– Não posso reclamar! Como vocês duas estão? E os estudos?

– Doida pra formar. Quero trabalhar como você e ser bem sucedida. – Suzana resumiu.

– Eu ando desgostosa com o curso. Talvez eu troque ou mude de habilitação. – Camila revelou. – Eu não sei se me encaixo nas Ciências Políticas.

– Como vocês não têm ideia do quanto a faculdade é a melhor época da vida. E olha que eu nem fiz. Já formei no ensino médio e caí na empresa. Se eu pudesse, teria adiado minha entrada no mundo adulto. Aproveitem esse período. Nele, vocês têm uma rede de proteção, ainda podem errar.

– Eu sou muito ansiosa quanto ao mercado de trabalho. Sou doida para ser independente, fazer meu nome, ter status. – Suzana comentou.

– Você é um caso a parte, sobrinha. – Os dois se olharam por um período demorado – É muito veloz e determinada. Outros precisam de um tempo maior para se descobrir, para se encontrarem. Só depois, alcançam a firmeza e a prosperidade. – Cristóvão estava dizendo diretamente a Camila.

Era uma mensagem nítida e verdadeira. Qual é o motivo da pressa? Por que o tempo não pode ser diferente para cada um? Haveria problema se escolhesse um caminho mais devagar? De onde surge a cobrança: dela mesma ou do redor?

Suzana viu um conhecido e retirou-se do grupo. Tio e sobrinha puderam ter mais um momento íntimo:

– Camila, eu queria poder ajudá-la como não me ajudaram. Soube que você está conciliando faculdade e trabalho. De quanto você precisa para se manter?

Ela não sabia explicar o quanto estava satisfeita com o emprego, por não atrapalhar os estudos. Conseguia se divertir com o Léo. Sentia-se prestativa dessa forma:

– Tio Cris, eu agradeço. De verdade, fico feliz por você querer me ajudar, mas está tudo bem. Não me sinto pressionada a me manter no consultório.

– Só tem uma coisa. Você não deveria trabalhar em algo mais próximo do seu curso de Política, não é? Você não está gostando mais?

– Eu não me vejo em outra campo sem ser o da Ciências Sociais. Não sei bem, mas tenho vontade de trocar de curso, talvez optar pela Antropologia.

– Nada na área da saúde? Você daria uma ótima médica.

– Cruzes! De jeito nenhum. – Os dois riram de maneira cúmplice.

– Bom, eu preciso circular. Não se esqueça de mim. Vamos tirar muitas fotos! Se precisar de qualquer coisa, serei o seu apaziguador e tranquilizador nesse mundo cada vez mais rápido.

Por um momento sozinha, Camila pensou na passagem do tempo. Cada vez mais, as correntes, os estilos literários, as modas, os costumes têm se modificado velozmente. Nada perdura com tamanha facilidade. Atualmente pairava uma obrigação por ser feliz, bem-sucedido e independente. Alguém é capaz de se manter assim sempre?

Muito se comenta entre a relação do ser e do ter. É preferível construir a essência interior do indivíduo, ao invés de buscar a constante posse das coisas. Camila percebeu que outra conexão possuía tamanha importância: o ser com o estar. Ela não era plenamente feliz, muito menos decidida e completa. No entanto, se a vida representa o ‘estar acontecendo’, ela passaria a se preocupar com o modo como tudo está ocorrendo no presente. Isso engloba o desapego ao passado e o esquecimento do futuro. Mais uma vez, Camila perceberia que qualquer tarefa é sempre mais fácil na teoria.

MEDIAÇÃO – Camila

Mesmo o shopping vazio, não a encontrava. Camila não queria se passar por insensível. Ela sabia que era boa, apoiadora e compreensível. Precisava se desculpar, acertar os ponteiros. Necessitava achar Suzana de qualquer jeito para pedir perdão e consertar as piadas malvadas que fez.

Rodou pelos corredores, entrou em lojas, averiguou o banheiro, correu, tentou o celular, se desesperou. A prima poderia ter ido embora, magoada e raivosa, pela forma como ela brincara com a duvidosa situação sexual. Infelizmente a intimidade fora a grande culpada. Sempre brincou com Suzana, porém entre elas. Não deveria ter externado na frente de estranhos.

Cansada, recostou-se num dos pilares brancos. Nunca poderia ser uma antropóloga. Se com a prima teve um juízo feroz e cortante, o que aconteceria quando analisasse o outro? O desconhecido certamente despertaria asco e repulsa. Sentia que sua alteridade estava comprometida. Era preconceituosa, moralista e autoritária. Não conseguiria ser alguém desprovida dos valores morais que funcionam como filtros de análise. Tinha de permanecer nas Ciências Políticas:

– Sabia que ia encontrar você aqui. Bem, eu sabia que sua prima ia encontrar com vocês depois do jogo. Quero conversar.

André a encontrara num pior momento. Estava abalada e desfocada. O que pensaria ao vê-la daquela forma?

– Olá. – Ambos trocaram dois beijos castos. – Tem um tempo que não te vejo. Parece que está fugindo. Não fiquei sabendo quando voltaria do congresso nacional de Ciências Sociais.

– Por causa de contatos, acabei esticando no local do evento. – Ele estava sem graça. – Foi bom para espairecer um pouco. Eu precisava.

Uma mulher loira cruzou a vista de Camila. Ela se lançou à frente, desprezando André. Ela estava prestes a gritar. Não era a prima:

– Você está bem? Parece aflita… Você está perdida? Cadê seus primos?

– Estou procurando a Suzana. Fiz besteira com ela. Eu a magoei. – confessou.

– Deixe um pouco de tempo passar. Pelo que conheço, se ela for no futebol como é na vida, um tempo diminuto basta para se reaproximar e esquecer tudo. Suzana é muito simplista.

No fundo, Camila sabia o quão certo ele estava. André era um ótimo reparador das pessoas. Suas palavras eram mais um ponto para ele no placar da paixão. Por que, mesmo numa situação triste, ele conseguia fazê-la mudar de perspectiva e ainda arrebatá-la mais? Que homem especial era esse?

– Seu semblante está mudando. Bom saber que eu alcanço seu íntimo facilmente.

Camila não respondeu. Tinha duplo sentido naquilo. Tal efeito subliminar a fez esquecer o entorno, no mesmo momento em que passou a ser observada. Suzana, de longe, decidiu não interromper a prima num momento tão abrasador. Era o que a linguagem corporal evidenciava. Eulálio, recém-chegado ao shopping, ficou curioso com a cena, escolheu por não cortá-la também. Queria saber do que Camila era capaz:

– Talvez eu seja muito evidente… – ela ficou acanhada.

– Depois do nosso último encontro, receio que devemos ser muito claros.

– Se você insiste…

Ela tentou enlaçá-lo. André se esquivou:

– Melhor não, ainda mais com a situação de agora. É um lugar muito comum e cheio. – Ele se desculpou.

– Não quer arriscar?

– Não. Não depois da advertência. – O professor disse baixo, como se conversasse consigo próprio.

– Que advertência? – Camila estava em alerta. Já imaginava o que poderia ser.

– O caso com a Vanessa rendou mais que fofocas. Tive uma pesada e preocupada reunião. Fui advertido. Pediram que eu me afastasse dela e fosse cauteloso com as outras. Não querem me perder por causa de um escândalo de assédio.

Suzana estava intrigada. O corpo dele era ambíguo, desejava-a, mas ao mesmo tempo se continha. Por outro lado, a prima tinha se fechado e recuado. Ela estava resistente. Talvez ele tenha soltado algo bombante. Eulálio curtia a situação. Camila tinha avançado, ele a repeliu. Ambos pareciam magoados e ressentidos:

– Pensei que estivéssemos mais próximos… Achei que… Poderia acontecer de ficarmos mais juntos. – Camila desabafou.

– Eu quero isso. Só não pode ser agora, por nosso bem.

– Não, André, é pelo seu bem apenas. – Camila o encarou. – Você é tão esperto e sagaz. Não imaginava descobrir um lado tão subserviente.

– O que você quer que eu faça? Esse é meu emprego. Lutei por ele. Eu quero você, Camila. No entanto, tenho de recuar.

– Eu não entendo. Minha situação é igual a da Vanessa? Minha condição de aluna é um argumento preciso e irrefutável? Por ser meu professor, estamos condenados?

André não respondeu. Não precisava. Camila deu as costas e se retirou.

– Espera, não é bem assim…

Caminhando decidida, embora de cabeça baixa, assustou-se com as mãos em sua cintura. Era Suzana. Ela recostou a cabeça nos ombros da prima:

– Vou mandar uma mensagem para Bianca nos encontrar na praça de alimentação. – Eulálio disse calmamente, colocando-se no outro lado da prima.

– Me desculpe por… – Camila transmitia pesar.

– Esquecemos aquilo, tudo bem? Eu estava estranha. – Suzana resumiu.

– É como me sinto agora. Eu não entendo o André. Como duas pessoas podem se encaixar tão bem e não conseguirem ficar juntos?

Enquanto ela questionava, Eulálio olhou para trás. André os seguia. O garoto fez cara séria e movimentou a cabeça em negativa. O professor parou, deixando-os partir:

– Camila, o entrave está na cabeça dele. Você não tem que se culpar. Por mim, você se afastaria e esperaria. Quem sabe ele sente falta e se toca? – sugeriu Suzana.

– Não sei… Isso é sério. Relação professor-aluna sempre é um problema. Será que você não o deseja só pela excitação do proibido? – Eulálio teve uma abordagem distinta. – Talvez seja melhor tirar o time de campo agora antes que seja tarde.

Camila não queria se afastar ou assumir a derrota. Podia constantemente transparecer fadado ao fracasso, contudo ela botava fé na relação deles:

– Quero um sorvete. Preciso de um. – ela disse, olhando uma sorveteria.

– Nós já vamos almoçar. – Eulálio censurou.

– Deixa ela! Vai fazê-la feliz. – Suzana discordou.

– Não é chocolate que faz vocês, mulheres, ficarem menos depressivas? – Eulálio estava realmente curioso.

As duas sorriram. Acariciaram, ao mesmo tempo, o rosto dele. Foi um singelo e rápido momento afetivo. Porém, alastrou uma força tremenda. Somente aquela conexão inesperada evitou que Camila se sentisse oca. Na vida, desapontamentos e fracassos podem ser um tratamento de choque. Nos fazem parar de cutucar o machucado, a fim de deixar a cicatriz se fechar, ao mesmo tempo em que nos ocupamos com novas promessas.