DESPROTEÇÃO – Eulálio

– Não sei se dou conta, não é uma boa ideia.

– Claro que é. Você está totalmente errado, primo. – Camila começava a ficar insatisfeita com a recusa. – Isso é tão básico, só precisa organizar papéis, atualizar o livro de finanças… Pelo que sei, é trabalho simples de contabilidade. Por que insiste em recusar?

– E por que você insiste em me ajudar? Não estou precisando de nada! – Eulálio se arrependeu. Mais tarde, agradeceria ter topado um trabalho tão tranquilo, pois sua situação teria uma nova reviravolta.

Enquanto Camila ia até a janela para respirar e não perder a paciência com o primo cabeça dura, ele tomou consciência de que não precisava ser tão mesquinho e orgulhoso. A prima agia de boa-fé. Solidarizava-se com a falta de grana, já que fora expulso do estágio nas empresas Bersani.

Mais uma vez, se tornara o primo mais pobre. Suzana e Bianca não precisavam se importar com finanças. Camila trabalhava e, desde então, estava tranquila financeiramente. Além de bastardo e sem perspectivas, não sabia por onde começar a sair da fossa que estava há algumas semanas:

– Ok! Eu faço. Qual é o meu prazo de tempo?

– Duas semanas! – Camila abriu um sorriso. – Não temos pressa.

– O Leo vai me pagar como se fosse um mês de estágio para cuidar das pendências pessoais e do consultório? Realmente é muito simples para tanto dinheiro. Não quero parecer que vou explorá-lo. Vou fazer tudo bem rápido. Obrigado, Camila.

Os dois se abraçaram:

– Talvez você seja a irmã que não tive, já que não temos irmãos. – Eulálio percebeu o quanto a prima ficou sem graça com o elogio. O que havia de inusitado naquilo? Seria o beijo que eles trocaram? – Foquei em Bianca, mas ela tem Nando e Nei.

– Falando na Bibi, que história bizarra! O que você está sabendo? – ela desconversou.

– Sei muito pouco, não nos encontramos.  Minha mãe quem me contou. Teve uma festa organizada por Nei e começou a pegar fogo. Foi uma confusão danada. Acabou com a sala.

– Foi. Ninguém entende como a vela de sétimo dia, que fica no oratório, no hall, gerou aquele incêndio todo. Há suspeitas, está sabendo? – Lio fez negativamente com a cabeça. – Andam desconfiando da Suzana.

– Por que ela colocaria fogo na casa? Espera aí. A mãe contou que viram ela saindo abraçado com a Bianca que, por sua vez, estava pelada.

– Bianca?! Pelada?! Isso não é típico dela. Gente, o que estava acontecendo naquele lugar? Só sei que ninguém fala. Colocaram todo mundo na parede, nenhum dos cinco disse nada de concreto, nem Nei e Sandro, que não têm escrúpulos, estão bem quietos. Nando diz ter estado bêbado e não viu nada, o que é mentira, pois ele ajudou a apagar o fogo. Suzana alega que estava ficando com um carinha, só confessa ter ido resgatar Bianca. Ela foi a única que não deu uma palavra.

– Suzana está solteira?

– O lance com Igor acabou faz tempo.

Eulálio precisava sair mais, interagir nem que fosse com as primas. De repente, altos acontecimentos pipocaram, mas ele não sabia de nada. Apenas Teresa trouxera algumas revelações, enquanto Camila tinha pontos mais picantes.

Tanta coisa que não sabíamos, tantos detalhes não revelados. Se abaixasse a cabeça para a avó naquele momento, sabia que seria subjugado sempre. Por isso, decidiu retomar as buscas, agir sorrateiramente para desmascarar a fera. Mal sabia que mais botes e golpes iriam ao encontro dele:

– Eulálio José! Filho! Corre aqui!

Os dois primos se entreolharam. Havia urgência. Eles foram para a varanda. Acabavam de entregar um carro zero Km na calçada. Ele tinha um laço na parte de cima. Era vermelho forte e metálico. Aquela cor o assustou. Por um tempo, desconfiou que boa coisa não seria:

– Deve haver algum engano. – Teresa comentara.

– Alguém poderia assinar a entrega? – Um dos homens perguntou.

Na impossibilidade, devido ao choque dos dois, Camila pegou a prancheta e deu uma rubrica. Dois envelopes pardos foram entregues, um para mãe, outro para o filho.

A prima acompanhou o recado da avó: “Conforme combinamos, eis os documentos. É só assinar e deixar de ser um de nós. O carro é o presente pelo seu aceite. Pela oficialização, vou conceder mais um desejo. Lina Bersani”

– Não compreendo. – Camila disse.

– Nossa avó quer que eu tire o sobrenome do meu pai. Ela me dá qualquer coisa se eu deixar de ser um Bersani.

– O quê? – Teresa estava atônita. – Além de nos expulsar, quer anular o Gabriel da nossa vida!

– Expulsar? – Foi a vez de Eulálio ficar sem entender.

– A avó monstruosa de vocês acaba de nos expulsar. Ela está tomando a casa de volta, quer que nos mudemos em um mês. Também vai cortar a nossa ajuda de custo. “Acabou a farra, vocês devem andar com as próprias pernas” são as palavras dela.

– Como ela pôde? Foi longe demais. – Camila se revoltou.

– Não há limites para Lina Bersani. E eu ainda me surpreendo. – Teresa ficou ressentida.

– Abusa do poder, nos intimida, nos derruba… – a prima estava chocada.

– Parece que não há fim. – Teresa voltou-se para dentro de casa.

Eulálio foi abraçado pela prima:

– Ela mordeu e assoprou. Debochou! Pra que preciso de um automóvel se não tenho onde morar? Que ódio! Minha mãe não merece passar por isso! Que vontade de quebrar esse carro!

– Não faça isso, Lio! Use o carro para te favorecer. Você pode vendê-lo e investir numa casa nova.

Estava desapontado consigo mesmo. Essa pequena reviravolta atestava o despreparo e o afastamento da tranquilidade. O caminho era longo e complicado.

Eulálio foi até o carro. Passou a mão pela lataria, admirou-o. Era um presente dado por motivos errados. Ressaltava o defeito, ao invés de uma congratulação. Pensou se realmente é possível se erguer e atingir o sucesso sem a ajuda de ninguém, muito menos da família. Atestou que sem apoio seria complicado, imagine com a interferência negativa, sempre puxando mais para baixo:

– Eu e o André vamos ao teatro. Vem com a gente! Hoje é sábado. Nada de bom vai sair se ficar sozinho e recluso. – propôs.

– Não quero estragar o encontro de vocês.

– Não vai. A gente vem pegar você, não precisa se preocupar com ônibus e horário.

– Eu não acho…

– Não quero saber. Você vai e pronto. – Camila abraçou o primo. – Não posso combater a vovó ou ajudar com mais propriedade. – disse com muita calma. – Mas, posso estar ao seu lado. Pode não ser nada a minha presença. Só que ela é muito verdadeira. Torço muito por nós, Lio. Um dia, vamos superar isso tudo. Sabe, ainda estamos nos construindo, fortalecendo as bases. Ainda não temos telhado, por isso sofremos tanto as intempéries. Quando menos esperarmos, vamos estar prontos. E nada, nada mesmo, vai nos derrubar.

– Vai demorar? Não aguento mais tanta porrada da vida.

– Infelizmente a construção é complexa e longa. Só que chegaremos lá! Pode crer.

Eulálio sempre teve crença em si mesmo. Isso já era um começo. Sem levar fé em nós mesmos, certeiramente estaremos fadados ao fracasso.

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DESMORONAÇÃO – Eulálio

Estava tão cansado e abatido. Os dias estavam ensandecidos de rápidos e esgotadores. Apenas torcia pelo fim de semana, quando podia dormir até mais tarde. Não saía de casa, pois estava esgotado com tanta correria. Além disso, Eulálio precisava adiantar leituras e estudos para as provas, uma vez que durante a semana não encontrava tempo.

Sozinho, num recôncavo das empresas Bersani, estava quase terminando de organizar uma parte do arquivo morto. Os olhos estavam bem avermelhados pela coceira e poeira. Os espirros eram incontáveis, já que o cheiro era pavoroso de pesado e fungoso.

O único lado positivo do trabalho silencioso, recluso e paciente envolvia o pensar na vida. Mais de dois anos como estagiário, começava a gerar dúvidas se ainda teria o que aprender e crescer. Começava a se questionar se não deveria buscar algo novo, diversificar.

Deixara de lado a investigação pela verdade com relação à sua família. Não tinha como gastar suor e disposição procurando pessoas. Realmente, mente vazia se torna casa do diabo. Sem a moto para facilitar e os afazeres se intensificando, Eulálio não podia se permitir dispersar.

Desconcentrado era a palavra certa a resumir sua atitude. Ela entrou calmamente, leve e imperceptível. Cruzou os braços e o observou por muito tempo. Passara tantas semanas sozinho, nunca imaginaria que qualquer pessoa iria conferir o andamento daquela organização chata e melancólica.

Quando olhou para o lado e viu quem era, em meio segundo, perdeu os próprios sentidos. De repente, não experimentava as pernas, os braços, o corpo. Ficou pálido. A pasta escorregou do colo, esparramando folhas pela sala. No entanto, eles não deixaram de se olhar.

Eulálio ficou mudo, enquanto ela se aproximava sorrateiramente. Comparou-a com o deslizar de uma cobra, ainda mais por causa da indumentária preta, clássica e rente:

– Achou realmente que eu não descobriria, meu espúrio? Nunca vou gostar de você, mas é o meu neto mais intrépido.

Engoliu em seco. Não se atrevia a falar ou a se mexer. Lina foi até um canto, arrastou uma cadeira. O som lembrou-lhe algum tipo de tortura. Ela a pôs de frente, assoprou para espalhar a poeira e se sentou. Cruzou as pernas e fez um bico de puro desdém:

– Meu neto adulterino fingindo que pode conseguir uma vaga na minha empresa! É inacreditável! Por quanto tempo, você está aqui? Rosa não quis me dizer ao certo.

Eulálio sabia que era o momento de brigar, revidar, questionar. Tinha que partir para o ataque. Contudo, não conseguia. Era surreal. Nesse tempo todo, esperava por humilhação e escândalo quando a avó descobrisse. Nunca pôde supor um confronto íntimo e calculista:

– Não se preocupe com a Rosa, aquela ingrata. Ainda não me decidi se a despeço, já que, com aquela idade avançada, terá problemas em encontrar outro trabalho, muito menos um que pague o que nós a ofertamos. Ou talvez eu a traga para ser minha segunda secretária. Aí sim terá o castigo diário que merece por encobrir você.

O tom de voz era insensivelmente frio e agressivo. A vontade de chorar era grande. Sentia o olho se inundar:

– Quando me contaram, não acreditei. “Meu próprio neto trabalhando como estagiário?”, não podia ser. Deve ser alguém muito parecido. Até que não aguentei tantas denúncias, afirmando com tanta convicção, tive de confirmar. Quase caí para trás. Vou fazer uma confissão. – ela se aproximou, fingindo uma afeição por ele. – Tive uma pontada no coração, achei que teria um derrame de desgosto. Você quase me levou ao hospital. Sente-se poderoso com essa revelação? Só que eu sou bem mais forte que você. Sou bem mais vivida e inteligente. Você acha que precisávamos de uma arrumação aqui? É claro que não! Antes de dispensá-lo, quis que penasse, isolei você para que se sentisse inútil. Eu o rebaixei. Aqui é o seu lugar, no escuro, na poeira, na imundície. Onde mais um bastardo deve ficar?

Eulálio deu um salto da cadeira e deu às costas em pé. Recostou a testa numa das prateleiras. Chorou silenciosamente. Não conseguia segurar:

– Quantas vezes preciso afirmar que odeio você? Que tenho lástima por você? Que preferia vê-lo morto ou não concebido? Será que preciso tatuar no meu corpo ou na minha cara: ‘Eu odeio Eulálio’? Desprezo você, não me importo contigo. Tenho raiva profunda. Você não existe no meu mundo. Mesmo assim, continua se aproximando, desejando ser aceito, rastejando. Me diga! Por que tenta afastar um estigma que sempre vai carregar?

A cabeça doía, as pernas tremiam. Ele se agarrou à prateleira. Lina pôs se de pé. Foi até o ouvido e sussurrou:

– Quanto você quer para sumir da minha vida? O que preciso dar para que você deixe de ser um Bersani?

Sem entender, Eulálio virou-se para olhá-la. Queria perguntar, mas estava mais que embargado. A voz estava perdida, impedida de romper pela garganta, ao contrário das lágrimas que escorriam livremente:

– Espúrio, você teria coragem de assinar um documento tirando o meu sobrenome? Quanto você quer para deixar de assinar Bersani? Você sabe que posso te dar um carro, sei que sua moto foi roubada. Tenho condições de comprar uma casa para a vagabunda que chama de mãe. Peça algo e eu dou. Só peço que assine Eulálio José e qualquer coisa. Largue de uma vez algo que nunca vai pertencer a ti.

Nesse momento, Rosa adentrou no lugar. Ela estava descabelada, esbaforida e com os olhos esbugalhados:

– Você poderia nos dar licença? É uma conversa de vó e neto, totalmente particular. Você sabe que não deveria se intrometer. Nunca! – Mesmo sem algo concreto, havia muita ameaça naquelas palavras.

– Posso explicar, a culpa é…

– Cala a boca! Resolvo o seu caso mais tarde. Só quero que você supervisione o desligamento de Eulálio. Ele larga essa palhaçada de estágio agora. Saia!

Rosa lançou um olhar rápido de apoio a Eulálio. Retirou-se, sabendo estar próxima a sua retaliação:

– Diga, Eulálio. O que você tanto quer? Não quero que se defenda. Essa sua ousadia é irretratável. Só espero satisfazer seu desejo para que satisfaça o meu.

Ele não conseguia pensar, não tinha condições de raciocinar:

– Eu… – respirou. – Não devo… – Abaixou a cabeça e chorou. – Vou me afastar.

Sentindo que estava deslizando, Eulálio se dirigiu para fora da sala:

– Não pense que acabamos. Ainda tenho muito que compatibilizar pela enganação. – Lina proferiu.

Eulálio sabia que sim. Esperava por isso. No entanto, não tinha certeza se aguentaria ou se tentaria amortecer o ataque. Cansou. Talvez deixar de ser um Bersani fosse uma dádiva, o aliviar de um difícil fardo. Apesar de doída, a oferta de sua avó poderia ser uma salvação ou o início da liberdade. De que adianta passar pelos mesmos erros ou problemas? Progresso e desprendimento seriam possíveis soluções para um novo começo.

ADAPTAÇÃO – Eulálio

Sentiu ciúmes sim. Era normal e natural. A aproximação configurava-se como sutil, mas já era perceptível. As meninas da turma não ignoravam mais Bianca. Encostavam na prima, riam entre si. A intimidade começava a fluir. Enfim, ela havia se incluído:

– Sabia que fui chamada por três equipes diferentes para atuar no escritório de prática jurídica? – estava totalmente satisfeita.

– Quem te viu, quem te vê… – ele deixou no ar.

– Você está com inveja, Lio? Achei que você quisesse meu bem. – Bianca parou de arrumar o material.

– Claro que quero. Só estou surpreso.

Eles se levantaram no mesmo momento. Eulálio sentiu-se culpado por se sentir assim. Mesmo um estrangeiro no Direito, por várias vezes, era mais entrosado que a prima. Culpou a onda de azar na qual estava inserido desde que a moto fora roubada. Tudo tinha desandado.

Não conseguia se acostumar com o acordar mais cedo para enfrentar duas conduções até a faculdade. Passou a pegar o ônibus coletivo das empresas Bersani’s. Isso era um terror, pois se expunha mais. Quem fosse mais atento poderia descobrir que era um herdeiro. Com a correria e o estresse, o cansaço havia duplicado com a falta do veículo próprio. Se tivesse condições, compraria outra imediatamente:

– Sem resposta da polícia? – ela parecia ter escutado seus pensamentos.

– Desisti. Essa moto está perdida. Minha vida está perdida.

– Hum… As meninas não estão por aqui conforme combinamos. Vou ligar pra Suzana.

Eulálio se afastou da prima. Não gostava da situação atual. Logo agora que teria de fazer uma matéria obrigatória à tarde, não tinha como chegar no estágio por conta própria. Teve de pedir liberação de um dia. Pelo empenho, obteve, mas se sentia mal em receber um privilégio.

Sempre se irritava com as vantagens que os primos tinham. Havia se cansado de proteções e regalias gratuitas. Era contra isso, apesar de concordar com a meritocracia. No fundo, ele só queria ser igual, ansiava por fazer parte sem qualquer discriminação.

Naquele momento, se assustou. Ao longe, com os cabelos loiros voando, toda animada e descontraída, reconhecia-a: Catarina. Desde a festa do aniversário da empresa, não a tinha visto. Foi se afastando delicadamente da prima. A ideia era entrar na rota de colisão. Repentinamente se encontrava feliz novamente. Há tempos queira um reencontro. No entanto, não era ela.

A ‘falsa’ Catarina percebeu o olhar intenso. Ela retribuiu com um meio sorriso. Era muito igual de longe, totalmente parecidas. Eulálio pensou: se não teria a original, poderia se contentar com a similar:

– Elas estão a caminho. Vamos subir a pé para o Restaurante Universitário.

– Aquele grupinho que passou é do Direito? – Eulálio iniciou as investigações.

– Não sei. Acho que é sim.

Caso estivesse sozinho, teria se aproveitado e se aproximado:

– Sabe quem está me dando mole? – ele perguntou.

– Quem dessa vez?

– A Fatinha. Estou notando um interesse. Só que ela é tão amiga da Hélida. – explicou.

– A Hélida não tem direito algum sobre você. Ela namora.

– Não gosto de magoar.

– Lio, você consegue perceber se uma mulher finge, ou não está gostando do sexo?

Por um momento, ele parou de andar. Que pergunta era aquela? Desde quando a prima estava tão imersa em questões sexuais?

– Por que você está perguntando isso pra mim? Pergunta pra Suzana! Ela tem muito mais bagagem que nós.

– Ah, eu quero opinião masculina. Até que ponto um cara percebe que a mulher não está de corpo e alma no ato?

Eulálio não tinha tido tantas parceiras assim. Monique fora a última. Ela estava mais tranquila e aberta a experimentações. Com certeza, curtiram juntos. Talvez com Sheila, nunca fosse saber o quanto era fingimento:

– É uma percepção que não tem muita explicação. Pode ser clichê, mas o sexo é ato de comunhão, de ligação. Dá pra identificar sem compreender as razões.

Os dois ficaram pensativos. A vida é feita de máscaras. Existe sempre a necessidade de se encaixar às diversas situações. Com o sexo, não seria diferente. Às vezes, torna-se necessário simular, arriscar, esconder, se proteger. Não havia láurea ou classificações, mas os relacionamentos eram, sim, jogos. A felicidade seria o maior prêmio? O se sentir bem sem machucar o próximo representaria o ‘com louvor’ acadêmico de uma história de amor?

– Um namoro… Às vezes, parece uma grande competição.

– Sempre perdi. – Bianca disse baixinho, embora Eulálio tenha escutado.

– Se não nos preocupássemos apenas com nós mesmos, com nossos prazeres e com o medo de se mostrar, acho que seríamos mais libertos. – Eulálio filosofou de novo. – A gente sempre espera o que o outro vai dar, sem notar que também devemos oferecer… É mútuo.

– Cobra-se muito num relacionamento.

– Pior é quando cobramos de nós. Ficamos apertados sem curtir.

Suzana e Camila pararam no corredor, esperando o encontro:

– Que cara é essa? – Lio perguntou a Camila.

– André disse que me ama.

– Do nada? – Bianca perguntou e olhou para o primo. – Realmente existe muita convenção entre um casal.

– Tudo é tão simples, ou pelo menos deveria de ser. – ele respondeu.

– Um homem comentando sobre sentimentos. É algo inédito. – Suzana debochou. – O ser humano tem tudo menos a simplicidade. – completou. – Pra mim, foi essa efervescência que nos fez chegar onde estamos, nos evoluiu.

– O que eu faço? Como expressar que o amo sem parecer que fui forçada por que ele falou? – Camila soltou.

– Não faz nada. Ele ama você pela maneira que tem agido. Só mantém. – Ele estava inspirado.

– É…

Os quatro mudaram de rumo em direção ao Restaurante Universitário. Também trocaram de assunto. As convenções vieram com a pluralidade. Tantas situações pediam comportamentos menos simples. Com várias personalidades, o ser humano se desconheceu.

DISTRAÇÃO – Eulálio

Enquanto esperava Camila descer, Eulálio observava o trânsito tranquilo. O ar também estava ameno, nem muito úmido, nem tão seco. A excitação percorria o próprio corpo. Há quanto tempo não se sentia tão disposto e empolgado? Nem acreditava que as primas haviam concordado, embora Suzana e Bianca pudessem desistir. Ambas iriam mais tarde, após o estágio, para a festa de boas-vindas ao novo semestre letivo.

Ele havia convidado todas com o objetivo de demonstrar uma maior proximidade. Por semanas, estiveram isolados, descansando e dando um break no cotidiano. Os quatro sentiam falta e saudades, porém, estavam imersos em questionamentos e dúvidas singulares, além de uma certeza de incompatibilidade e incompreensão.

Eulálio não havia contado a ninguém a respeito da sua busca por informações da família. Não pretendia ser desmotivado, muito menos desacreditado em seu empenho detetivesco. Ele mesmo se perguntava se não estava indo longe demais ou perdendo tempo nessa busca desenfreada:

– Se a gente beber demais, como faz? Se eu estiver zonza, desço de táxi. – Camila abraçou-o e pegou o capacete. – Não corre muito, fico nervosa.

Rindo, ele fez o motor roncar. A prima deu um tapa nas costas do piloto.

O espaço central do campus fervilhava de pessoas. Grande parte dos alunos tinha voltado antes para se aclimatarem a mais um período letivo. Isso garantiu o sucesso da festa, organizada pelo Diretório dos Estudantes:

– Isso está top! – Camila resumiu.

– Promete. – Lio riu.

Os dois circularam, compraram bebidas e se empolgaram:

– Hoje não fico sozinho nem a pau! – ele disse. Ao perceber que a prima não respondera, deu-lhe uma cutucada. – O que foi?

– Perdi o André.

– Vocês terminaram?

– Antes fosse. – ela se virou e saiu andando.

– Camila, deixa de palhaçada. O que está acontecendo?

– Lio, você não veio para escutar minhas lamúrias. Você também se recusa a falar de si. Por que eu deveria me abri contigo? Vamos procurar uns conhecidos. – Camila tentava se afastar.

– Nada disso! Quero saber. O que o André te fez?

Ela respirou fundo. Olhou para os lados. Não teria escapatória:

– É uma professora nova, recém-admitida. Chama Diana. André só sabe falar dela. Estão super amigos e juntos. Sinto que ele está caindo na dela. Agora estão num jantar para os professores. A princípio, eu ia. Depois, ele achou melhor não misturarmos as coisas em demasia. Além disso, desistimos de revelar nosso namoro para a faculdade. Não, foi ele quem achou melhor esperarmos. Ele decidiu.

– Prima, nada aconteceu, não é?

– Não, é só uma sensação, um sexto sentido. Estamos perdendo a ligação…

De repente, Camila parou de falar e abriu a boca. Ela estava paralisada. Eulálio não compreendeu e se virou. Era uma miragem:

– Não pode ser… – Camila disse abaixando o tom de voz.

Maurício e Sheila estavam abraçadinhos, se beijando, se paparicando:

– Isso é real? – Eulálio cogitou.

– Pode ser uma revanche. – Camila supôs.

– Será que é para nos atingir? Eles se abraçaram exatamente na nossa frente para nos deixar com ciúmes?

– É inconcebível e ultrajante. Mas pode ser divertido. – Camila estava sendo sacana. – Vamos fazer uma loucura? Tem coragem? – Eulálio fez que sim. O que teria a perder? – Vem.

Camila o puxou e o levou para mais a frente. O objetivo era ficarem bem visíveis. Ela o abraçou. Os rostos se aproximaram. Eulálio puxou fundo a respiração:

– Camila, tem certeza?

Os dois se beijaram. No início, foi estranho. Depois, foram desenvolvendo, intensificando. Pararam naturalmente, quando deu vontade:

– Você beija bem, Lio.

– Camila, você é gostosa mesmo.

Os dois sorriram, voltando a se abraçarem. O gesto só piorou a situação. Enquanto se beijavam, foram acompanhados por pasmos Maurício e Sheila. A cumplicidade trouxe mais consternação. Quando os quatro se viram, a ex de Eulálio segurava as lágrimas. Ela virou as costas e sai correndo:

– Quanta enganação… Não podia imaginar! – Maurício era a decepção em pessoa. Ele também se retirou.

Camila e Eulálio ficaram sem graça. Rodaram pela festa sem comentar nada. No entanto, um questionamento tomava vida dentro dele:

– Você já ficou com Sandro, Nei, ou Fernando?

– Não!

– Estou no lucro.

– Você considera um beijo como uma ficada?  – ela questionou.

– Claro! Mesmo na palhaçada, mesmo efêmero, nós nos conectamos.

Camila permaneceu um pouco pensativa:

– Vou ligar para o André. Acho que vou ao estacionamento. Tem menos barulho.

Eulálio se questionou se teria despertado emoções na prima. Ele não sentiu nada com aquele beijo, a não ser divertimento. Dando de ombros, voltou–se para a festa. Nada de neuras naquele momento.

No caminho de comprar mais bebida, encontrou uma veterana da Administração. Eles sempre se olharam atravessado. Naquele dia, tudo estava claro e direto demais. Cumprimentaram e logo estavam se beijando. Eulálio só pensava que pra ser feliz, ações e coisas simples bastavam.

COMPRESSÃO – Eulálio

Até ele se sentia um chato devido à tamanha insistência. Anos atrás, tinha ficado com uma aluna da Comunicação. Eles engataram um ficar constante. Sempre quando se encontravam em festas, travavam de beijos. Eulálio sabia que Monique esperava mais, contudo ele não estava disposto a namorar. Era calouro, enquanto ela já estava formando. Apenas uma recusa fez com que os dois não ficassem nunca mais. Da última vez que teve notícias, ela estava trabalhando na Diocese da cidade.

Com a recente dica de Teresa, não tinha noção de como localizar o famoso padre, confidente de sua avó. O nome de Monique não saltou de primeira na cabeça dele. Alguns dias se passaram até que se lembrasse disso, num estalo. Ficou contente consigo mesmo, era um sinal de que conseguiria elucidar a história completa dos Bersani’s.

A tarefa de localização não foi tão árdua, a receptividade da ex-ficante não se apresentou de igual maneira. Eulálio conseguira os telefones do trabalho e o celular, além de tê-la encontrado nas redes sociais. Por mais que tentasse, deixasse recados e insistisse, Monique não respondia.

Duas vezes, bateu na porta da Assessoria de Comunicação da Diocese para se falarem pessoalmente. Ou ela era muito compromissada, ou o estava enganando. Falava com as mesmas pessoas que sempre o reconheciam como o aluno da Administração, amigo da jornalista Monique, ansioso para conversarem.

Já não tinha tantas esperanças, quando o celular tocou:

– Ora, ora, ora… Quem diria que eu voltaria a ser procurada pelo simpático Eulálio? É um mundo muito inusitado. – Monique sentia-se superior com a situação.

– Eu também nunca imaginaria que você fosse capaz de me enrolar tanto. Isso não parecia ser do seu feitio.

-Hum… As pessoas surpreendem.

– Você quer me deixar surpreso de novo? Com sua bondade e atenção a mim?

– Não! Você é um caso perdido. – ela riu.

– Eu não penso dessa forma. E se a gente se encontrasse de novo? Poderíamos parar de onde terminamos?

– Aonde você quer me levar? – Monique começava a ceder.

– Num motel, durante três horas, por minha conta.

– E o que você quer que eu faça?

– Gostaria que você localizasse um padre pra mim, ele trabalhou por anos na Igreja de São José.

– Por que você precisa se encontrar com ele? – o faro jornalístico só ampliava as perguntas.

– Por causa de minha avó, eu… – Eulálio não podia revelar tanto. – Eu queria que eles se reencontrassem novamente. Acho que faria bem a ela retomar o passado.

– Que lindo! Que garoto delicado. Antes de eu responder, nosso programa está de pé? Pra amanhã, às 19h?

– Claro. Quero ver se você me aguenta.

– Vamos ver quem pede pra parar primeiro. – Monique debochou de volta. – Então, sinto te dizer que ele morreu tem uns quatro anos. Estava muito senil e esquecido, não falava nada com nada. Foi aposentado compulsivamente, não queria parar, tinha sido transferido para uma casa de repouso que é usada…

Tarde da noite, Eulálio remoía seus pensamentos, enquanto despachava memorandos. Não se preocupava, pois a empresa estava deserta. Também não tinha garantia nenhuma de que a tia Maria Marlene tivesse viva. Como ninguém falava dessa parente desgarrada, nunca conseguiria um endereço ou algum contato.

Passando pela sala da avó-poderosa, se assustou com a porta a ser aberta. Derrubou as folhas sem querer. Abaixou-se rapidamente e, de olhos fechados, encurvou-se. Pelos pés, percebeu que não era Lina, mas sim, sua secretária. Ela conhecia os netos da patroa, mas não sequer focalizou o estagiário, quando deu um polido boa noite.

Com a sala vazia e o local deserto, Eulálio decidiu apelar. Alguma agenda ou lista de contatos teria o nome da tia-avó. Sem pensar, adentrou no espaço austero e nada afável. A princípio, teve medo. Estava estagnado. Não sabia como proceder. Um pavor brotou ao perceber que iria desmacular o local.

De supetão, vasculhou gavetas, arquivos, pastas. Mexeu em agendas de compromissos, lista de contatos. Não lograva êxito. Sem saber se partia para a sala da sua avó, quase teve um espasmo quando a porta se abriu. Não dava pra dizer quem estava mais pálido, ele ou Dona Rosa, a diretora do RH:

– O que você está fazendo aqui? Está louco! – ela cochichou. – Sua vó está chegando. Tem uma reunião extraoficial comigo pra cortes de pessoas.

Eulálio rodou de um lado para o outro, como uma barata tonta. Não pensava direito, não raciocinava. Correu pra janela. Pular era uma burrice. Dona Rosa olhava para os cantos sem saber onde ele poderia ficar. Os dois começaram a escutar os passos. Lina aproximava. Eulálio sentiu o sangue descer para os pés. Num supetão, percebeu o buraco central na mesa da secretária, onde os pés descansavam. Se espremeu ali, ficando todo torto. Na pressa, a cadeira caiu.

Quando Lina abriu a porta, Rosa recolocava a cadeira na reentrância, apertando mais o garoto:

– Que cara é essa? Parece que viu assombração. Vamos, não quero sair tarde daqui.

Rosa não conseguia responder. O alívio incapacitara seus músculos. Passados alguns minutos, Eulálio cuidadosamente e silenciosamente pôs-se pra fora do esconderijo. Como um raio, correu para a própria sala.

Ele esperou pacientemente. Sabia que Rosa voltaria:

– Eulálio, eu nem sei o que dizer pra te repreender…

– Eu sei.

– Você se arriscou de mais. Se ela não passa no banheiro antes, estaríamos escorraçados. O que você queria?

– Eu estava procurando um telefone… ou endereço.

– De quem?

– Da minha tia-avó.

– Dona Maria Marlene? – Rosa assustou-se. – Desde quando você tem assuntos com ela? Sua tia sumiu para o mundo. Quem te falou dela?

– Minha mãe.

– Por que você precisa contatá-la?

– Eu… não sei. Me sinto mal em saber que ela existe e ninguém se dá ao trabalho de procurar. Acho injusto. Sei o que é ficar na margem. É muito ruim ser colocado de lado.

– Você nunca vai achá-la. Pode ter certeza.

– Por quê?

– As pessoas não acham Maria Marlene. Ela acha as pessoas. Ela vai vir até você.

– Como sabe disso? – ele não entendia.

– Meu primeiro emprego foi como secretária dela. Devo muito a sua tia-avó. Não garanto que vocês vão se encontrar, mas posso interceder por você.

– Me fale dela! Onde ela está?

– Não sei muito, nem poderia contar. Prometi nunca revelar nada. O que posso fazer é pedir que ela reapareça. De vez em quando, ela surge e nós nos falamos. É sempre quando ela quer.

Voando na moto, Eulálio se perguntou o que o impedia de desaparecer. O que o segurava no caminho de sempre, ao invés de seguir pela rodovia em busca de um novo começo e do anonimato? O que ele enxergava como revanche era simplesmente carência.

AGITAÇÃO – Eulálio

Tinha sido encurralado e estava com muita raiva. Maurício estava, a semana toda, insistindo para se encontrarem. Ele não tinha ânimo para beber com o amigo, mas na sexta, tentando relaxar, aceitou. Era tudo uma cilada. Ele foi direto para o cara a cara com Sheila:

– Você já pediu alguma coisa?

– Não. – a garota respondeu timidamente.

Ele se virou e chamou o garçom. Pediu dois refrigerantes e uma porção de petiscos:

– Não esperava por você. – ele comentou.

– Eu também não um reencontro. Você anda sumido de todos.

Eulálio a encarou. Por mais que estivesse fechada e reservada, ele percebia que Sheila ainda nutria alguma esperança por detrás daquela aparência. Ele refletiu no quanto transmitimos pelo nosso corpo, como era fácil capturar as mensagens encaminhadas de um jeito não oral. Apesar de pouco convívio, ele conhecia a ex-namorada. Teve um arrepio ao constatar que talvez ela também o entendesse de maneira subliminar:

– O que está acontecendo com você, Lio?  Você está diferente e mudado. Pra mim, parece que você está… sombrio.

Eulálio não quis confirmar. No entanto, era exatamente assim que se sentia. Durante o período de recesso da faculdade, dormiu mais do que de costume, fez exercícios e jogou bola com o pessoal do bairro, porém, não se desligou do propósito em buscar informações do passado. Queria desenterrar tudo o que a família Bersani tinha passado.

Tentou começar pela mãe. Ao contrário do filho, Teresa não tinha empenho algum por reestabelecer contato com o passado. Ela tinha seus motivos: não sabia tanto quanto o filho imaginava; cortou os laços com os Bersani’s assim que Gabriel, pai de Eulálio, falecera; e sentia ódio e raiva ao se lembrar de tudo o que passou.

Aproveitando um final de semana sem a mãe em casa, ele fez uma busca enorme em gavetas, caixas e papéis perdidos e empoeirados. Queria alguma pista, algo que pudesse colocá-lo na trilha. No íntimo, ele sonhava em descobrir algo surpreendente de Lina. Desse jeito, poderia chantageá-la. Esse era um sonho tremendamente instigante:

– Eu me sinto o mesmo, não mudei. Só estou mais recluso. – ele exprimiu.

– Não é verdade. Você está sem brilho.

Outra confirmação de Sheila fez com que ele ficasse um pouco mais abalado. O garçom apareceu nesse momento, quebrando o tênue fio de conversa. Eles comeram e beberam, nitidamente desconfortáveis:

– Eu pensei que… – Sheila recomeçou.

– Me desculpa.

– Por quê?

– Por fazê-la sofrer.

Não conseguiram falar mais nada. Ele comeu. Ela só bebeu. Por um bom tempo, os dois olharam o redor, notaram as pessoas, mostravam estar refletindo, embora só estivessem desligados, imersos num estado de niilismo:

– Acabou? Então, terminamos… De vez! – Sheila fez a colocação derradeira.

– Acho que sim. Por minha causa, por minha inabilidade.

Eulálio pagou a conta e ofereceu uma carona. Ela se recusou veemente. Antes de ir para o ponto, ela tocou nos braços dele. Eulálio ia colocar o capacete, já estava sentado na moto:

– Você nunca me deu uma chance de verdade. Eu nunca penetrei em você. Nunca saberei se eu fui incapaz ou se você é um cara muito resistente e duro. Eu sinto… – Sheila chorou. – Incapacidade, me sinto incapaz. E se eu nunca conseguir encontrar alguém que…?

Eulálio a puxou e a envolveu num abraço. Ele não soltou as lágrimas. Em momento algum, ele sentiu remorso ou compaixão:

– Não diga isso, Sheila. Você é boa do jeito que é. Não precisa melhorar nada. Você vai se encontrar, nós vamos nos encontrar.

Dirigindo no automático, Eulálio não se sentiu desligado de Sheila. Era como se uma parte dele permanecesse vinculado a ex. A culpa disso era a falta de honestidade. Nem no fim, ele pode dizer a verdade e se abrir.

Ele prensara que o não dito, o guardado, o oculto poderiam ser benéficos, pois protegeriam. De repente, constatou que poderiam ser determinantes para o infortúnio, o desassossego e o apego. Saber era libertador, conhecer fornecia armas, compreender impulsionava.

Ao chegar em casa, Teresa cochilava no sofá. Ele sentou-se no braço do móvel e acariciou os pés de sua mãe. Ela acordou com um pequeno pulo. Rapidamente sorriu:

– Você chegou cedo. – ela comentou.

– Não estava tão animado. Mãe, sei que você se recusa, que não gosta… Mas eu necessito saber. Isso vai me fazer entender melhor sobre minha família, sobre o meu pai. Se eu nunca enxergar o painel completo, – ele olhou pra frente, como se enxergasse um grande quadro. – não vou me libertar. É como se eu estivesse constantemente preso.

– Não acho que isso vai trazer algo de bom. Os Bersani’s são… tóxicos! Quase nada de bom veio daquilo lá.

– Você quis dinheiro. Eu sei disso.

– Não me interessa saber como você descobriu. Eu só busquei o que é meu por direito. Tenho umas ideias em mente. Quero contar com você e seus conhecimentos no futuro.

– Claro que pode. Também quero ter o seu apoio. Me ajuda a entender? A compreender?

– Filho, as coisas se perdem, tudo aconteceu há tanto tempo. É um passado remoto. Além do mais, todo mundo sabe do perigo que é enfrentar Lina Bersani. Você pode acabar se arrependendo ou se machucando.

– Eu já estou ferido. Sou um bastardo, não conheci meu pai. Sou considerado um renegado por todos. Apenas desejo ter um alívio.

Teresa suspirou. Ela se solidarizou com Eulálio. Percebeu que precisava deixá-lo embarcar nessa história. Independente de qualquer resultado, benéfico ou maléfico, o filho poderia se libertar:

– Tem duas pessoas que você pode procurar. – Rapidamente ele se pôs em alerta para memorizar as informações. – Uma é mais fácil de se achar, mas não vai soltar com tanta facilidade o que você busca. A outra vai ser mais difícil de localizar, mas pode ser que entregue tudo de bandeja.

– Quem são? – ele se sentia empolgado.

– Procure o padre Francisco, na Igreja de São Geraldo. Ele foi um grande confidente de sua avó. Deve estar aposentado. Quando você era criança, ele já era bem velho. Pelo que me lembro, ele era o pároco da Igreja de São José, onde foi recebida a homenagem a seu pai, por meio do Anjo Gabriel. – Eulálio fez que sim com a cabeça. – A outra pessoa… Eu gostava dela. Era terrível.

– De quem você está falando?

– Maria Marlene, sua tia-avó. Que pessoa agradável. Era sincera em demasia.

– Tia-avó? Irmã da Lina? – Eulálio nunca ouvira falar naquela pessoa.

– Não! Lina não tem família. É a irmã do seu avô. Maria Marlene e Lina se odiavam, é claro. Todo mundo percebia isso. Quando eu trabalhei para seus avós, ela já estava cortando os laços, não fazia questão de procurar o irmão. Ela é solteirona, sabe? Ninguém tem ideia de onde ela foi parar, pode ser que tenha morrido. Diziam, na época, que a maior briga que Lina teve com seu avô foi quando ela descobriu que ele contou tudo sobre o passado dela à Maria Marlene.

– Tia Maria Marlene… – Eulálio balbuciou. – Por que você nunca me falou dela?

– Ah, sei lá. Não faço questão de ficar lembrando os Bersani’s. Eu não sei onde você pode procurá-la. No aniversário de Camila de uns dez ou onze anos, eu levei você. Sem querer alguém se lembrou dela. Não me recordo se foi Constância ou Valéria, só sei que alguém comentou que ninguém da família sabia o paradeiro dela, nem endereço nem nada. A mulher havia evaporado.

Olhando para o escuro, Eulálio intuiu: Maria Marlene teria grandes respostas. Ele estava certo sobre isso, mas completamente errado na certeza em achá-la, porque era a tia-avó quem iria encontrar os quatro primos.

JUNÇÃO – Eulálio

Tinha sido uma péssima ideia. Deveria ter refutado. Onde ele estava com a cabeça ao ter cedido às pressões dos colegas de setor para comparecer ao aniversário das empresas Bersani? Era ilógico o que tinha feito. Não conseguia se concentrar, pois tinha medo que descobrissem a farsa. Não sabia o jeito de se portar: como neto ou como estagiário. Ficava no meio do caminho…

Por sorte, percebeu que a festa num hotel tinha favorecido sua proteção. Praticamente as grandes e ilustres figuras foram para a parte de cima, enquanto os funcionários mais simples e ordinários ficaram na parte de baixo. Logo, todo o círculo de colegas de trabalho ou pessoas com as quais cruzava o olhar no dia a dia, estava no segundo pavimento.

Por enquanto, estava acobertado, se não fosse pela foto. Precisava se livrar daquilo. Sabia que sua avó iria destruir tão épico registro, mas tinha medo de alguém reconhecê-lo e pudesse fazer as associações.

Com um jogo de cintura e também sangue frio, alegou estar a mando de sua avó para recuperar a foto rapidamente numa mídia digital, além de apagá-la da câmera. O fotógrafo não suspeitou, estava acostumado com os demandes das pessoas ricas. Além do mais, uma pequena pausa não o faria mal. Os dois foram para uma salinha na qual estava todo o material dos serviçais da festa. Ele descarregou as fotos para um computador, pegou o arquivo e o copiou num CD. Após, apagou o registro.

Com a mídia no bolso do terno, retornou ao primeiro pavimento. Incomodava carregar no peito tamanho ineditismo. Se tivesse coragem iria descartá-lo. No fundo, fazia questão de ter algum item que atestasse uma proximidade entre os quatro e a avó:

– Onde vocês se meteram? Não acho a Bibi. – Camila juntou-se a ele.

– Não sei. Eu estava na parte de baixo. – Mentiu.

– Por quê?

– Queria ver se meus convidados chegaram. – Eulálio soltou sem querer. Não queria dar uma notícia impactante a Camila.

– Quem? Você chamou pessoas para acompanhar nossa desgraça? Não chamaria nenhum amigo para ver o quanto sou desprezada na minha própria família. Nem o Leo, eu animei chamar.

Eulálio sabia qual seria a reação dela. Então, não se demorou tanto:

– Chamei a Sheila… e o Maurício vem também.

– O quê? – Camila ficou chateada. – Eu não quero ver ele, Eulálio. Por que você fez isso? – Aparentemente os quatro primos estavam experimentando uma fase de revolta entre si.

– Eu me senti vulnerável. Eu e Sheila precisamos conversar. O Maurício vem por causa dela.

– E como eu fico nisso? Ele vai querer conversar comigo e eu não consigo. – Camila estava incrédula.

– Foge dele.

– Não! Vai ser sua tarefa, mantê-lo longe de mim. Que saco!

– Pode deixar! – ele tinha ficado chateado. – Eu fico com os dois no segundo pavimento. Você fica aqui em cima.

Assim, ambos se separaram. Enquanto descia as escadas, encontrou-se com Dona Rosa, chefe do RH e única na empresa que sabia da dupla condição dele:

– Está sendo difícil, não está?

– Está. Eu estou com medo o tempo todo de ser descoberto.

– Entendo. Acho que foi uma burrice ter aceitado e forçado sua vinda. Se Lina descobrir, aqui mesmo, ela arranja uma confusão. Talvez fosse melhor você ir embora. Eu acoberto você.

– Tudo bem. Estou esperando dois amigos. Assim que eles chegarem, eu saio.

Os dois se abraçaram. Antes de ela retornar, Eulálio a reteve pelo braço:

– Dona Rosa, obrigado. Foi uma jornada interessante. Eu aprendi muito.

– E eu me diverti um pouco.

Ele ficou vendo-a subir. Antes de terminar de descer os lances de escada, não pode evitar refletir. Entre dois locais, era como ele constantemente estava. No momento, Eulálio estava no meio, entre o primeiro e o segundo pavimento, assim como na vida também estava agarrado entre dois mundos.

Era um Bersani, mas nunca o seria completamente. Era um estagiário competente, mas não podia ser reconhecido, nem levar todos os devidos créditos. Tinha uma ex-namorada que ansiava reatar, mas não se sentia ligado a ela. Queria Catarina, mas ela era totalmente inacessível.

Tinha convidado Sheila a comparecer por puro egoísmo. Não pretendia voltar com o namoro, apesar de Maurício ter confidenciado o quanto ela desejava o garoto. Eulálio queria um escudo. Uma acompanhante permitia que ele ficasse camuflado. Poderia ficar num canto afastado, com ela, sem que os outros se importassem. Não se sentia bem com isso. Ele fora constantemente usado na vida para saber o quanto isso era ruim. Tentou se perdoar por não ter achado outro jeito de se safar dessa história absurda.

O clima da parte de baixo da festa era incrivelmente diferente. Todos estavam mais descontraídos, sem se importar com luxo e ostentação. Queriam apenas se divertir, aproveitar e sentir um orgulho que no cotidiano, às vezes, não percebiam. Rapidamente, Eulálio encontrou sua rodinha de colegas. Conversara sobre o valor daquele festejo, como a comida estava de primeira e se alguém conseguiria ficar com alguma grã-fina da parte de cima. Eles notaram o traje ultra aprimorado do garoto, mas ele não se importou.

Minutos depois, os dois amigos chegaram. Ele e Maurício se cumprimentaram de maneira contida. Com a ex, foi bem mais refreado o contato. Eles não sabiam o que dizer, nem se olhavam nos olhos.

Para quebrar o clima, Eulálio resolveu dar uma volta pelo espaço com eles. Quando iam se retirar, eles deram de cara com Lina. No momento em que ela chegou ao segundo pavimento, a atmosfera se transformou. As pessoas passaram a falar mais baixo, muitos correram para o banheiro. Todos pararam de comer. Também não sabiam como se suceder com a toda poderosa ao redor:

– Eulálio! Sabe que você fica bem nesse setor. Talvez você esteja procurando um emprego de subalterno. É isso? Por que não me falou?  Posso te indicar um lugar de faxineiro.

Maurício e Sheila se afastaram devagar e depois simplesmente deixaram os dois juntos. Eulálio sentiu o maior receio de todos. Talvez aquele fosse o momento da descoberta. Não era ainda. Com medo de comentários posteriores, decidiu por uma abordagem diferente. Ficaria feliz perante a avó. Desse jeito, poderia alegar o privilégio de ter se encontrado com a chefe pela primeira vez, ao contrário do ódio que naturalmente sempre transpareceria entre neto e avó:

– Pensando melhor, acho que quero, sim, você na empresa. Eu sempre tive aversão a isso, mas, se quiser, pode me servir cafezinho. Seria interessante.

– Eu tenho direito ao patrimônio dos Bersani. Se esqueceu? – ele ria. Aquilo a desarmou por alguns instantes.

– Eu não vou deixar que isso aconteça tão facilmente.

– O que mais você pretende fazer comigo? Eu me sinto bem mais determinado ao saber que você não consegue me derrubar. Eu sei que você queria que eu fosse abortado. – Ele manteve a alegria, embora internamente doesse proferir o óbvio.

– Claro que eu queria. – ela entrou no jogo da exultação. – Não ansiava que meu filho tivesse um estigma. Onde já se viu um Bersani com um filho bastardo da empregada? Eu tinha de evitar.

– No fundo, você se arrependeu, não foi? – ele queria ser mais esperto. – Seu filho morreu. Se não fosse por mim, ele estaria perdido. Por que é tão difícil para você aceitar?

– Isso nunca se passou por minha cabeça. Você nunca foi nada. Ainda bem que sua mãe não aceitou dar você para mim. Seria muito pior.

– O quê? – ele não conseguiu manter a felicidade. Ficara sério.

– Você não sabia? Eu pedi para criar você. Teresa não deixou. Ela é uma mulher esperta, sabia que eu faria sua vida um pandemônio.

– Qual é o prazer de nos infernizar?

Eulálio disse e se retirou rápido. Fugiu para a área acima. Mais uma vez, o sentimento de não saber o atormentou. O que mais do seu passado não tinha conhecimento? Sentia-se um fantoche, pois não pudera ser o responsável por muitas das suas escolhas e dos caminhos percorridos.

Virando um copo de uísque, nem percebeu o toque do tio em seu ombro:

– O que está acontecendo? – Cristóvão pediu também uma dose.

– Raiva… ódio… incapacidade. Não aguento mais! Odeio essa família. Minha vontade é destruí-la.

– Lio, não vá por esse caminho. Por favor. Já me senti assim. Tem coisas que são do jeito que são. Ou você aceita, ou se afasta.

– Ou luta! – ele completou. – Eu vou acabar com todo mundo que me maltratou. Eles devem ter podres e coisas sujas, vou descobrir.

– É perda de tempo e de seu potencial. Não vale a pena. – Cristóvão parou de falar, assim que Sheila reapareceu. – Sua namorada! – ele apontou, beijou a garota e saiu. Nenhum dos dois o corrigiu.

Sentados, um do lado do outro, não conseguiram dizer nada, apesar de Sheila ter repassado mentalmente todas as palavras a proferir. Eulálio não queria pensar em situações amorosas complicadas. Tinham tanto o que esclarecer e resolver, mas o panorama estava turvo demais para tal feito:

– Eu… – depois de um tempo, ela tentou. – Eu sinto sua falta.

Mais um longo silêncio, antes das trocas verbais:

– Não consigo te explicar o que sinto. Não me sinto firme, nem preparado. – ele não olhou a ex.

– Por que você me convidou para esse evento? Tenho alguma chance?

Ele se virou e a encarou. Balançou a cabeça afirmativamente. Porém, se arrependeu. Mesmo longe e um pouco tapada, ele sabia que era Catarina ao fundo, junto do namorado. Mais uma vez, suas bases balançaram. Parecia um feitiço irremediável:

– Posso só te fazer um pedido? Eu não estou com cabeça para termos uma conversa longa e verdadeira. Achei que poderia ser hoje, mas não dá.

– Eu sei. Eu percebo.

Sheila o abraçou e colocou a cabeça no ombro dele. Eulálio só desejava que Catarina não visse:

– Você quer ficar sozinho um pouco? – ele assentiu diante da proposta. – Eu deixei o Maurício lá embaixo.

Ele ficou vendo-a sair. No mesmo instante, trocou o primeiro olhar com Catarina. Um furor percorreu o corpo de ambos. Era um sentimento avassalador. Aproveitou a dispersão do namorado e fez um sinal a Eulálio. Ela saiu em direção às escadas. Depois de um tempo, ele foi atrás. Era inusitada a escolha do local para o encontro.

Catarina estava séria. Ele se portou da mesma forma:

– Eu não queria ter vindo. Com isso, eu sofro. Você, mais ainda. Você não merece, ou melhor, não merecemos.

– Eu só quero um motivo. Eu não estou mais namorando. – Eulálio requisitou.

– Mas eu a vi aqui e agora. Como vocês não estão juntos?

– Sheila veio como uma amiga. – comentou.

– Vocês devem estar iguais a nós. Estávamos terminados até antes de ontem. Agora estamos juntos, mas sem firmeza. Só conversamos e choramos, não chegamos a lugar algum. Temos tanta história juntos, fica difícil terminar. Não sei se quero acabar, se quero ficar junto. – Catarina explicava mais para si própria.

– E eu? – ele interferiu. – E se eu fosse uma opção? Não conto?

Catarina subiu os lances que a afastavam dele. Ficaram um de frente para o outro. Ela tocou a mão dele, foi subindo pelo braço. Roçou os dedos no pescoço. E parou em suas bochechas. Eulálio tocou os cabelos dela na ponta e foi subindo. Chegou numa orelha. Ele a puxou suavemente, e Catarina deu uma leve inclinada na cabeça.

De repente, o telefone tocou na bolsa. Os dois se assustaram e se afastaram. Catarina atendeu:

– Oi. Eu… estou subindo. Achei que tinha visto uma amiga embaixo, mas não era. Já estou chegando.

Desligou e sorriu com vergonha:

– Como ficamos? – Eulálio perguntou.

– Do mesmo jeito. – Ela deu um beijo rápido na bochecha dele. Por um triz, o garoto não se virou para que dessem um selinho. Se arrependeu por não ter sido ousado.

Mais uma vez, Eulálio ficou sozinho num lance de escada, entre um andar e outro. Isso estava virando um ciclo. Não sabia, ao certo, qual jeito para combater a repetência sentimental e o eterno retorno nas experiências. No entanto, tinha a convicção de que queria tentar.

Deixou o hotel sem olhar para trás. Não devia satisfações a ninguém. Por enquanto, só queria revalidar as escolhas, pensar nas maneiras de modificar sua trajetória, tentar entender os nós do passado. A única certeza era esta: iria buscar entender tudo o que sua família tinha passado. Sua missão era compreender a contribuição de cada um para sua condição de bastardo. Era a hora de odiar e atrapalhar também, ou seja, pagar com a mesma moeda.

Quem sabe desistisse desse estágio louco dentro das empresas Bersani? Quem sabe resolvesse esquecer as duas, tanto Sheila, quanto Catarina? Quem sabe arranjasse um emprego e se tornasse independente, chegando a chutar a faculdade? Eulálio não estava feliz e satisfeito. Por isso, pretendia mudar e aceitar qualquer transformação à vista. Embarcar no desconhecido podia ser aterrorizante, mas as surpresas das descobertas apresentavam-se como encantadoras e inebriantes. O desconhecido era tentador para quem não tinha nada.

Fim do Primeiro Ciclo de Eulálio

REVELAÇÃO – Eulálio

Eulálio estava enjoado, sentia-se com náuseas. Respirava forte, tentando não focar em nada. Era em vão. A casa estava lotada, cheia de pessoas. Ele ia notando os bajuladores, os mesquinhos, os interesseiros, os esnobes. Anos de convívio tornavam-no um experiente avaliador de caráter.

De repente, bateu nele um cansaço e um desânimo. Por muito tempo, sempre orbitou por essas pessoas. Não queria mais. Teve medo de se tornar um deles, de não ser verdadeiro e completo. Não podia ser torpe e vil.

Eulálio resolveu procurar por sua mãe. Pretendia ir embora da maneira que fosse, já que não estava de moto. Ao olhar os pais de Suzana e Bianca conversando, não se sentia mais parte da família. Deixou fluir o ódio pelos Bersani’s, além da mágoa e do arrependimento por ser um deles. Definitivamente era o momento de tomar vergonha na cara e se afastar. Não adiantava ficar preso a familiares que não gostavam dele, que nem o consideravam alguém de respeito:

– Eulálio! – Bianca pegou no ombro dele. – Você pode…?

– Nada do que você possa falar vai me fazer ceder. Eu estou com muita raiva de todo mundo, até de você.

– Eu não fiz nada! Só não quero que você fique se remoendo e sozinho. Essa história da Suzana é algo que…

– Isso é o de menos. É só um pedaço do descaso que toda a família Bersani tem por mim! – ele estava falando alto.

– Primo, você está chamando atenção dos outros. Fala baixo!

– Foi você quem fez escândalo ao empurrar seus irmãos na piscina. Só quero achar minha mãe e ir embora. Pra mim, deu, cansei. Vou largar meu estágio na segunda-feira.

– O quê? Não compreendo. Onde que o estágio se encaixa na sua decepção?

– Não vou ficar mais trabalhando para as empresas Bersani sem qualquer respeito. Não vou mais rastejar. Cansei. Foda-se! Que as fábricas explodam!

Percebendo que tinha plateia, ele parou de falar. Por outro lado, claramente, Bianca juntava as peças do mistério. Ela estava entendendo tudo:

– Eulálio, você quer dizer que trabalha nas empresas Bersani? Você acaba de soltar que é estagiário lá? Meu Deus…

Bianca estava horrorizada com a notícia. Ele podia desmentir, dizer que ela tinha compreendido errado. No entanto, desistiu. Não queria mais fugir, nem ficar na escuridão:

– Sou, há mais de dois anos. Ninguém sabe disso.

– Por quê? Como ninguém descobriu?

– É um conchavo, só a diretora do RH sabe quem eu sou. Todos me conhecem como José.

– Por isso, você tinha a camisa de organizador da corrida…

– Exatamente!

– Você nunca cruzou com meu pai, meu irmão ou a vovó?

– Dei sorte. – ele sorriu, enquanto refletia sobre a farsa.

– Você não foi à festa de aniversário da empresa no ano passado. Você vai esse ano? – Bianca estava preocupada.

– Vou. Que se dane! Que descubram.

Ele deu as costas à prima e voltou a procurar pela mãe. Contudo, Bianca precisava digerir a incrível história. Era surreal demais:

– Você é muito corajoso. Está na toca dos leões.

– Só faço o meu trabalho bem feito. – ele foi simplório.

– Eu não aguentaria de nervoso. Ficaria tensa o tempo todo, sem foco.

Eulálio parou repentinamente. Bianca quase bateu nele. Ainda de costas, comentou:

– Eu fico apreensivo, mas é excitante. Eu torço para que alguém descubra logo. Eu fiz um bom trabalho, sou respeitado no meu setor. Sabia que eles queriam me contratar antes de formado? Tive de recusar.

Ela ficava mais e mais chocada:

– Você é meu exemplo, meu herói! – a prima enlaçou-o por trás. Aquilo tranquilizou Eulálio por segundos.

– Eu quero ir embora. Quero achar mamãe.

– Eu ajudo a procurar.

Os dois fizeram uma vistoria pelo local. Não adiantava perguntar, porque Dona Teresa não era conhecida. Misteriosamente, ela não se encontrava em parte alguma:

– Você percebeu uma coisa? – Bianca, quando queria, sabia ser muito perspicaz. – Não vi a vovó em nossa busca.

Sem responder, Eulálio subiu as escadas sorrateiramente. Devagar, foram caminhando. Um dos quartos estava com a porta quase fechada, uma fresta de luz rasgava o carpete do corredor. Os dois se aproximaram. Quando constataram que Teresa estava de costas, ele fez o sinal de silêncio a Bianca:

– Não é do seu feitio, Teresa, se prostrar a isso. Me chantagear? Logo agora, nessa altura do campeonato? É inconcebível! – Lina zombava

– Estou só apelando. Pra eu conseguir esse dinheiro que é meu por direito, tenho de chantagear. Quero que você me dê a ajuda financeira que se recusou por esses anos todos.

– Esse dinheiro, se existisse, é do Eulálio.

– Você vai ter que me dar! – Teresa foi ríspida.

– Prova que ele existiu! Prova que o banana do meu filho deixou as economias dele para o filho. Isso é rumor. Eu não vou te dar nada, porque eu não te perdoo. Gabriel morreu brigado comigo e com mágoa, por sua causa.

– Você fez a cabeça dele contra mim! – Teresa cuspiu. – Você o fez acreditar que Eulálio não era filho dele, que eu era uma piranha. Na verdade, qualquer mulher que não seja você, não presta, não vale nada.

– E o que você fez, Teresa? Esqueceu? Você deu o golpe do baú!

– Não foi assim! Você sabe que estávamos apaixonados, nós íamos nos casar. Você o afastou de mim. Eu guardo aquela carta falsa até hoje. Como foi capaz de tamanha desumanidade?

– Eu teria feito um bem a todos nós. – Lina riu. – Eu não teria que lidar com uma sujeira dentro de minha família, você teria arranjado outro homem ao invés de se segurar na lembrança de um fantasma.

– E o Eulálio não teria nascido! – Teresa disse com pesar. – Sabe por que desconfiei? Gabriel nunca iria me propor um aborto.

– Você não conhecia meu filho. Ele era centrado. Tudo de ruim que aconteceu a ele foi culpa sua. Você o corrompeu. Você destruiu Gabriel quando ele viu você com uma criança nos braços. Eu não a perdoarei…

Eulálio deixou escapar um alto soluço de choro. Bianca se assustou com as lágrimas escorrendo na face dele, e paralisou. Com o silêncio dentro do quarto, eles compreenderam que a conversa tinha sido interrompida.

O garoto abriu o quarto ao lado e se jogou para dentro. Bianca ficou branca como uma cera ao dar de cara com as duas senhoras, encarando-a:

– Uma neta intrometida! E depois dizem que jornalistas são fofoqueiros. Advogados são uma raça pior. – Lina atacou.

Bianca engoliu fundo:

– Dona Teresa, Eulálio procura a senhora para vocês irem embora. – assim que disse, ela se virou e se trancou no banheiro.

Eulálio deitou na cama e mordeu o edredom de raiva. Chacoalhava. Tinha muita coisa que desconhecia sobre sua vida. Antes de decidir que rumo tomar, buscaria todas as respostas. A verdade viria à tona, custe o que custasse. Traçaria todo o perfil da sua trajetória.

VALORIZAÇÃO – Eulálio

Passou pela tenda de saúde por algumas vezes. Não teve nenhuma atenção despertada. Ainda não se preocupava com questões de glicose, pressão, exercícios físicos e postura. O corpo novo, sem sinais de problemas, deixava Eulálio focar em outras questões, mais especificamente na trajetória profissional e na vida amorosa. Se fosse outra médica a abordá-lo no passeio, o encontro teria sido antecipado. De qualquer forma, tem muitos fatos que devem acontecer, não importa a força dos subterfúgios.

Por causa da ausência de um professor, teve as duas ultimas aulas canceladas. Ao invés de estudar para os exames finais, ele se permitiu passear pelo comércio central da cidade. Precisava cotar preços de terno. Provavelmente era o traje a ser usado na festa de comemoração ao aniversário das empresas Bersani, evento já em vias de planejamento. No ano anterior, pôde faltar, não tinha tanto tempo de casa. Agora, o painel era diferente. Sobre a farsa no estágio, ele ainda estava tranquilo, pois não poderia prever mudanças na organização que poderiam por tudo a ruir. Mais aflições eram previstas para Eulálio. Uma delas se iniciaria naquela simples manhã de ócio, graças a um impulso incontrolável.

Gostaria que Sheila estivesse com ele na aprovação da cor e do formato da indumentária, considerada típica de sucesso. Como imaginava manter o mesmo corpo e antevia ser alguém notório, optara em pagar um pouco mais por um terno de qualidade. Era um gasto com ares de otimismo.

Depois de duas visitas a estabelecimentos e quatro provas, notou que a namorada só o encontraria uma hora mais tarde, em frente a uma agência de viagens. Ficara impaciente com a espera. Por que Sheila conseguia envolvê-lo e dominá-lo tão facilmente? Afinal, podendo tirar quinze dias de descanso, viajar acompanhado a algum local turístico parecia fadado ao descontentamento. Nas futuras folgas, ansiava pela simplicidade. Fugir do cotidiano era o que ele mais queria. Afastar-se da normalidade por um tempo era um deleite requisitado.

Já que a vida tende a ser antagônica em nossos desejos, uma aproximação mais que esperada fez-se presente, ao passar mais uma vez pela tenda de saúde armada na praça. Sua visão periférica percebeu aquela virada de cabelo. Ele estancou no meio do passeio, girou automaticamente o tronco e procurou por ela. Devagar, foi adentrando para confirmar a certeza: Catarina era uma das alunas que estavam promovendo uma ação social.

Sem graça, deu as costas e pôs se a ler uns banners sobre o funcionamento dos rins. O sentimento era inexplicável. Na verdade, era Catarina quem o domava, que o fazia perder o prumo, que o deixava repensando tudo. Amaldiçoou o momento em que trocaram os primeiros olhares, a força transmitida, a cumplicidade alcançada. Estaria bem mais livre sem ela para assombrá-lo.

Eulálio sabia que deveria fugir daquela tenda, dar as costas para a presença de Catarina. Não ia render nada entre eles, porque não estavam dispostos. Porém, o comando dela tinha forças tremendas. Qualquer migalha que ela oferecesse, ele pegaria com prazer e contentamento:

– Eulálio! Que bom encontrar alguém mais jovem aqui.

Catarina sorria. Eulálio, por alguns segundos de deslumbramento, esqueceu-se de reagir. Ao deixá-la incomodada, partiu para um abraço. O constrangimento só crescia:

– Me desculpe. Tem tanto tempo que não te vejo. – Ele comentou.

– É verdade. Às vezes, eu me pegava imaginando por onde você estava.

Catarina se portava de maneira honesta? Ele deveria ficar contente por permear os pensamentos da amada? Decidiu consentir:

– Também gostaria de descobrir o que você anda fazendo. É uma pena estarmos separados.

Catarina deu um leve arrepio. Eulálio percebeu. Tinha ido longe demais:

– Fiquei reclusa por muito tempo, totalmente desmotivada com a vida. A faculdade apertou, e… Nada emocionante aconteceu. A vida está muito parada.

Ele se sentia da mesma maneira. Apesar de ter uma faculdade, um estágio e uma namorada, vivenciava a sensação de estar incompleto:

– É geral. O mundo está muito corrido, egocêntrico, estranho. Ninguém é mais honesto com os outros.

– Não pensei em ter uma conversa tão existencial logo contigo. – ele rebateu.

De maneira clara, ela ficou contrariada com aquelas palavras. Não gostou. Estava tudo dando errado. Depois daquele encontro, Eulálio percebeu que deveria abandonar Catarina. No entanto, aquele dia era destinado a contrariedades. Mais disposto a ela, o garoto se configuraria:

– Eu vou embora, não quero atrapalhar seu trabalho.

Ele começou a se afastar. Ela pegou-o pelo braço:

– A gente precisa conversar um dia.

As pernas de Eulálio tremiam de leve. Não era do jeito esperado, mas eram as palavras que tanto ambicionou:

– Por quê?

– Meu namoro… não está bem. Fico pensando… Fico criando situações com você em minha cabeça.

Tão próximos, foi incontrolável. Ele, mais uma vez, partiu para beijá-la, sem se importar onde estavam, rodeados por tantas pessoas. Decidida, Catarina largou o braço de Eulálio e se afastou:

– Você só foge! – ele afirmou. – É algum tipo de tática? É sua forma de me possuir? – A garota olhava ao redor, preocupada com algum vexame.

– Eu não terminei meu namoro. Ainda tenho alguém.

– Então, não me diga bobagens.

– Eulálio…

Ele estava enfurecido. Perdeu o controle, se sentia menosprezado. Catarina não tinha direito de brincar com as emoções dele. Marchando para bem longe, a reação foi ao contrário. Mais desejava voltar e fazer uma loucura. Sem saber como proceder, sentou-se numa lanchonete. Pediu um suco que não intentava tomar.

A imprecisão imperou em seus pensamentos. Como proceder? Desejar uma mulher, estando com outra, conduzia a uma carga enorme de descontentamento. A vida nunca é como imaginamos, mas o panorama sentimental dele estava totalmente enviesado. De alguma maneira, necessitava de mais rigor e determinação. Tinha de começar a se tornar um administrador melhor da própria vida. Para isso, precisava ser um líder e ter empreendedorismo, mesmo que isso causasse efeitos colaterais desagradáveis.

Sheila veio pulando na direção dele, no local marcado de encontro. Passou os braços pelo pescoço de Eulálio. Deu-lhe um beijo:

– Estou muita empolgada com nossa primeira viagem. Meu amigo disse que vai nos fazer um preço camarada.

– Sheila, isso não é uma boa ideia.

– Gastar dinheiro a passeio? – Ela não tinha percebido nada.

– Não. Nós dois! Nosso namoro precisa de tempo, de afastamento.

– De jeito nenhum. O que está acontecendo? O que foi? Podemos consertar.

– Não, não posso continuar. Eu não amo você. Nunca amei.

Teve de apelar, teve de jogar duro. Foi uma medida drástica, a fim de recuperar o controle de si mesmo, mas inteiramente necessária. É fazer o errado, esperando que no fim dê certo.

TEMPORÃO – Eulálio

– Pensando, como sempre? – Eulálio tocou o ombro de Camila com a mão livre. A outra estava presa na cintura de Sheila. – Assim, vai virar uma pensadora?

– Eu já sou uma. – Camila respondeu, sorrindo.

Todos eles se cumprimentaram. Junto do casal, estava Maurício, amigo de Eulálio. Ele ficou radiante por rever Camila:

– Eu não sabia que a festa era temática. – Sheila disse com uma pitada de vergonha.

Eulálio reparou na namorada e na prima. Claramente as duas estavam desapropriadas pelo evento, usando calça jeans e blusa. Estavam bonitas e despojadas, ao contrário do restante das mulheres, trajadas em vestidos variados:

– Confesso que não sabia. – Eulálio pôs a se defender. Como a relação com Sheila estava estremecida, resolveu garantir que ela não brigasse com ele.

– Vocês estão lindas. – Maurício comentou, embora tenha ficado explícito que o comentário era dirigido a Camila.

Deixando os dois conversando, ele circulou com Sheila pela festa. Parou com alguns, conversou um pouco e a apresentou. Apesar de não estar vestida adequadamente, a namorada estava feliz em fazer parte da vida dele.

Quando foi buscar bebidas, Eulálio percebeu o quanto a festa estava selecionada. A maioria dos presentes eram pessoas abastadas, com condições financeiras ótimas. Tinha muita mulher bonita e solteira, um prato cheio para o próprio deleite. Por que não resolvera vir sozinho? Teria se fartado perante tanta beldade.

Com isso, ele questionou a sua solteirice. Ter uma companhia valia a pena em contrapartida com as potenciais diversões de uma vida livre e desregrada? Os benefícios de estar com Sheila começavam a não ser suficientes por causa da cobrança dela, do real desapego dele, e da vontade de se envolver com mais pessoas:

– Grande Lio! – Cristóvão agarrou o sobrinho por trás, jogando-o para o alto. – Meu sobrinho favorito.

Eulálio adorava o tio que não parecia tio por causa da idade. Enquanto parabenizava-o, ele constatou, mais uma vez, como gostaria de terem idades pareadas para serem amigos e parceiros:

– Caramba! Pensei tanto em você na última viagem que fiz à Finlândia. Conheci um modelo de administração muito inovador. – Cristóvão estava mesmo empolgado – Fiquei de queixo-caído com a forma de gerir o pessoal. É primoroso. Queria que você conferisse. Trouxe uns materiais em inglês pra você ver.

– E as finlandesas? São bonitas? – Eulálio adorava as histórias de curtição do tio. Ele sabia se divertir como ninguém.

– Pra quem gosta daquele padrão loiro, é um prato cheio. Eu acho elas bonitas, mas fica tudo banal.

– É, meu desejo pela Finlândia aumentou por mais um motivo. – Os dois riram de maneira cúmplice.

– Lio, como você pode pensar em bagunça, estando namorando? Cadê sua garota? Enfim, tenho de saber se você tem bom gosto.

– Tio, por favor, não a deixe constrangida.

– Uma brincadeirinha não faz mal a ninguém.

– Os Bersani’s sabem ser perigosos. – Eulálio soltou sem querer, de maneira jocosa. Cristóvão ficou observando-o

– Pelos seus comentários, não creio que você esteja animado com o namoro… Está tudo transcorrendo bem? Você gosta realmente dela?

De repente o ambiente deixou de ser brincalhão. Eulálio não queria discutir os questionamentos a respeito do seu relacionamento. Por uma noite, gostaria de esquecer as dúvidas sobre a maturidade e a disposição. Crescia nele a sensação de que ainda era novo para estar num namoro sério. Ele era livre, adorava conhecer pessoas novas e não dar satisfações. Sheila era maravilhosa, porém o privava da sensação de segurança consigo próprio. Contudo, o pior desse panorama era a constatação de que se Catarina fosse sua namorada, ele estaria de cabeça, corpo e alma para ela:

– Ando confuso, tio. Sheila veio num momento bom. Eu precisava dela, gosto da sua companhia. Só que me questiono se estou preparado para sustentar um namoro. Me sinto despreparado e precipitado.

– As determinações convencionadas de idade são péssimas. Não tem fórmula. Um número não indica nada. Se eu pensasse que não estava preparado para trabalhar pela empresa, não teria me aventurado com 19 anos. Vale o que você é, e sente. Entende?

Eulálio concordou. Eles se abraçaram mais uma vez. Nenhum deles tinha ideia de onde surgiu tamanha afinidade. Só sabiam que era antiga e verdadeira. Mais tarde, construiriam uma tese. Porém, por agora, só perceberam que era uma pena não estarem mais próximos:

– Sinto que você vai fazer história na nossa empresa. – Futuramente as palavras de Cristóvão se tornariam verdade, não da maneira prevista. – Você tem que formar e entrar lá. Não deixe os babacas dos seus primos excluírem você.

Eulálio sempre quis revelar a artimanha ao tio. Por diversas vezes, quase contou que era estagiário clandestino nas empresas Bersani. No entanto, ele sempre concluía ser cedo para a grande revelação. Realmente, a descoberta tinha tardado, embora estivesse mais próxima de ocorrer:

– Lio. Você sumiu! – Sheila apareceu.

– Foi culpa minha. Prendi ele aqui. – Cristóvão evitou mais uma crise. – É você quem fisgou meu sobrinho? Preciso fazer um questionário para aprová-la, que inclui descobrir seus movimentos de dança.

Eulálio riu, enquanto o tio arrastava sua namorada para a pista. Ainda introspectivo, resolveu não acompanhá-los:

– Parabéns, você merece um prêmio! – Suzana não permitiu que ele curtisse a própria companhia.

– Por quê?

– Você trouxe o Maurício para a Camila. Por que não trouxe um homem pra mim também? Ah, quer saber, pode deixar que eu me arranjo.

– Do que você está falando?

– Da Camila e do Maurício. Eles estão dançando tão sensualmente. Olha lá no canto, perto do som. – Ela apontou. – Estão se esfregando tão intensamente… Que inveja! Isso vai render.

– Suzana, acalme-se. Parece que você vai ter um orgasmo aqui.

– É, vou até parar de olhar. – ela deu de costas para o grupo dançante.

– Na verdade, eu trouxe o Maurício para a Sheila. Fiquei com medo que ela não entrosasse. E também pra me deixar circular.

– Você sempre foi social. Está no seu sangue.

Eulálio pensou no elogio da prima. Ele tinha tantas características que pensava terem sido apagadas, mas percebeu que certas marcas não saem facilmente. Elas nos compõem, estão arraigadas e vão nos acompanhar para sempre. Temporariamente, poderiam minguar ou desaparecer, todavia sempre voltavam, e com uma força total.

Ficou claro que não conseguiria se conter. Chegaria o momento em que desapontaria Sheila por não conseguir ser o que ela queria ou esperava. A necessidade de ser fiel a si mesmo iria se fortalecer e irromper novamente. Não hesitaria em se aproximar de Catarina, se soubesse ter chance.

Antes do tempo apropriado, ele teria de abandonar a gaiola. Ou deixaria de ser ele para se tornar uma farsa. Esse tipo característico, ele sabia, não constituía uma parte dele.