DESPROTEÇÃO – Suzana

Era mais difícil do que imaginava. Contudo, era até prazeroso. Os primeiros momentos como monitora configuravam-se como paradoxais. Suzana se espantava com a burrice e a falta de atenção, ao mesmo tempo em que se maravilhava e se orgulhava quando eles, enfim, compreendiam.

Havia todo um preparo e uma paciência a serem aplicados e desenvolvidos. Tinha de dominar e revisar o conteúdo antes da sessão de monitoria. A cada plantão, percebia o quanto afortunada era por assimilar mais rapidamente a matéria.

De início, passava e cobrava exercícios. Então, perdia alguns momentos, em casa, corrigindo-os. Parou com aquilo. Ganhava bem menos, se comparasse os dois estágios anteriores de prática. Não ia fazer em demasia. Com tantas decepções, não precisava se sentir desvalorizada. No entanto, aquele dia seria um exemplo de como as pessoas sempre podem afundar, não há limites para a queda.

O começo do sucumbir foi silencioso e sorrateiro. Poderia esperar tudo, menos a presença daquele colega de faculdade tão odiado: Marcus, o estagiário que a fez passar por um dos maiores constrangimentos. Quando foi expulsa, acusada de um assédio mentiroso, nunca o viu pelos corredores da faculdade. Ele era alguns períodos acima dela. Se ia assistir à aula de monitoria, isso era sinal de que ele tinha pendências.

A princípio, Suzana fechou a cara. Que direito ele tinha? Era um sem vergonha, falso e arrogante. Decidiu não responder qualquer solicitação vinda de Marcus. Depois, percebeu que precisava separar os fatos. Naquele espaço, era uma bolsista, encarregada de tirar dúvidas. Não importava quem deveria ajudar.

Com o desenrolar, acabou se esquecendo dele. Estando distraída, escrevendo no quadro, não se tocou que a pergunta veio de Marcus. Se segurou e respondeu com simpatia. Era passado. Precisava se desapegar. Isso era mais difícil na prática…

Enquanto a turma conversava e resolvia exercícios, pensou sobre os percalços que passara por causa daquela distante safadeza. Fora há tão pouco tempo… No entanto, outras coisas haviam ocorrido: o novo estágio na firma de Igor e a recente bolsa de monitora, as declarações de amor, a viagem, o término… Realmente houve um efeito cascata de proporções inexplicáveis. Sabíamos que a vida tende a ser surpreendente e cheia de reviravoltas. Só que nunca estamos preparados.

Assim que dispensou a turma, teve outro susto. Marcus se prostrou em frente pra mesa. Se pudesse, dava-lhe um tapa na cara:

– Você deve estar querendo me bater…

– Você é um bom leitor de linguagem corporal. – continuou a desprezá-lo.

– Eu fiquei abismado. Você é uma boa professora. Me ajudou pra caramba.

– É para isso que estou aqui. – Suzana se levantou da mesa.

– Eu acho que eu me arrependo. – ela travou, encarando-o. – O escritório perdeu uma ótima estagiária. Aquele lugar nunca foi o mesmo depois que você saiu. Perdeu o brilho.

Suzana voltou a se sentar. Ficara contente e vaidosa com aquela revelação. Porém, não podia caiar nas garras ou lábias daquele homem. Quanto tempo gastou odiando-o, pensando em maneiras de se vingar…

– O que você quer? O que você ganha em me dizer isso? – acusou.

– Nada. Só estou sendo honesto, falando a verdade. Fizemos algo errado contigo apenas.

– Apenas? Vocês me escorraçaram sem me dar chance para nada. E você sabia que era tudo mentira.

– Eu não sabia. Juro que não sabia! Havia insinuações, olhares…

– Que não significavam nada! Você tem ideia do inferno que passei? Das noites mal dormidas? Do ódio que senti de mim? Eu me vi a mercê de pessoas que não me conhecem. Tive de recomeçar em outra empresa, parei numa área que não gosto. Tive de abrir mão do estágio porque essa história inventada caiu nos ouvidos de outras pessoas. Deve ter saído de você! Para quem contou o meu caso?

Marcus ficou branco, assustado. Parecia que ela havia descoberto algo:

– O que foi? Fala! – Suzana se impôs.

– Nada! É melhor eu ir.

A garota agarrou no pulso dele. Uma força incontrolável a fez enterrar as unhas contra a própria mão, ferindo-se:

– Você, Marcus, não faz nada de graça. Anda! Conta! Quem te subornou a revelar os detalhes do suposto assédio? Quanto você recebeu?

– Eu não sei quem são… – ele miou.

– Sabe sim! Você deve ter recebido e procurou saber quem era o seu benfeitor.

– É melhor você não saber. – ele se repuxou. Suzana se manteve firme, colocando-se de pé. A mesa que estava entre eles quase virou. – Quando eles me abordaram, eu não sabia. Mas foi tanto dinheiro, fiquei curioso. Acabei descobrindo.

– Eu vou ter que bater em você! Conta!

– Foi a sua avó, junto de seu primo Nei.

Suzana soltou Marcus. A mão estava dormente, mas ela nem sentiu. Havia um roxo no pulso do garoto:

– Como é?

– Eles me chamaram para um café após o expediente. Queriam detalhes. Eu não podia dizer, mas eles me ofereceram dinheiro. Acabei reunindo o material sobre você.

Suzana estava incrédula. Sentia um ódio percorrer toda a espinha. Se pudesse, voltava ao tempo e empurraria Nei para o meio das labaredas de fogo provocadas por ela:

– Eu queria propor algo a você para que eu fique de boca calada. – Mais descrente, Suzana ficou. – Prometo nunca falar com mais ninguém sobre isso, se você me indicar para a vaga de estágio de onde você saiu. Preciso ganhar novas experiências. Boa que é, tanto no sentido de trabalho quanto no sexual, deve ter deixado portas abertas. Pode, muito bem, me indicar para substituí-la.

Num súbito, ela enfiou um tapa na cara de Marcus. A mão, não recuperada da cãibra, doeu muito. Porém, estava aliviada:

– Você pode contar essa história pra qualquer pessoa, para a presidente, para o papa. Foda-se, não me importo! De mim, você não recebe nada. E some da minha monitoria. Você nunca mais vai dividir uma sala comigo.

Bufando de ódio, deu um grito de ódio ao ser bloqueada no corredor. Paulo, da Química, sorria sem graça:

– O que é? O que você quer? – ela disse extremamente atemorizante. Se arrependeu. Ele não tinha culpa de nada.

– Vejo que não é uma boa hora, mas não posso mais evitar. Há dias, tenho te rodeado, tentando criar coragem.

– Pra quê? – Suzana, de repente, ficou apreensiva.

– É melhor eu dizer logo. Tenho sífilis. Você pode estar contaminada.

A informação demorou a ser processada. Suzana se sentia voando, como se o corpo tivesse se desprendido da alma. Esta estava subindo, perdida, descompassada:

– Você está bem? – ele pôs as mãos no ombro dela.

– Sai! – desvencilhou-se de Paulo, sentindo nojo.

Cambaleando, foi ao estacionamento. Entrou no carro. A cabeça latejava. Não conseguiria tirar aquilo da mente. Isso a atormentaria para sempre. Numa manobra brusca, mudou de direção e parou no Hospital Universitário.

Andando a esmo pelos corredores, sentiu-se uma louca. Tinha plano de saúde, não precisava estar ali, até que a reconheceu, carregando uns materiais numa bandeja de inox:

– Catarina, não é? Você não faz faculdade particular?

– Faço, mas pedi para ser voluntária. Você está estranha, está tudo bem?

– Não. Preciso colher meu sangue. Eu pago se for preciso. Acho que estou contaminada com alguma doença venérea.

Agarrou-se no pescoço da estudante. Catarina era bem mais baixa e mais magra, porém, não sucumbiu, manteve-se firme. Carregou Suzana até um cubículo, recolocou-a numa cadeira:

– Não saia daqui! Já volto.

Sozinha, indefesa, atacada e finalizada. Suzana não sabia a quem recorrer. Foram dois baques tremendos. Sempre soube do ódio da avó. Não esperava tamanha destruição. E adorava sexo. Não conseguia conceber que estava contaminada com alguma doença. Olhou um armário cheio de remédios. Na ousou ver se estava aberto. Se conferisse, faria uma besteira.

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DESMORONAÇÃO – Suzana

As mãos pra cima da cabeça, agarradas numa prateleira. O pescoço esticado, deixando a cabeça encurvada para trás. Os olhos fechados, introjetanto Paulo, com seus músculos e a sua pegada intensa. As pernas totalmente abertas, já trêmulas de câimbra. E prazer.

De repente, Suzana escutou um barulho. Alguém estava no escritório. Rapidamente, voltou à realidade. Ela pegou a cabeça de Gui, enterrada no encontro das duas pernas, e a afastou com força:

– Quero mais! Você é deliciosa… – ele tentou retomar o trabalho oral.

– Chega! Acho que não estamos sozinhos. – ela justificou.

– Que nada! Ninguém nunca vem aqui tão tarde.

Ele voltou a afundar dentro dela, enquanto Suzana se concentrava para gozar, pois Gui era um dos poucos caras que lhe davam zero de deleite. Tocando-se, ele atingiu o prazer antes. Ela foi em seguida, imaginando ser Paulo o causador daqueles espasmos. Nunca pôde pensar em Igor quando gozava por meio de outra pessoa.

Doida para chegar em casa, saiu do cubículo ao lado do almoxarifado, localizado na parte mais distante do escritório, desamassando a roupa e ajeitando o cabelo. Quando chegou até sua mesa, ainda conferia o look. Suzana ia se sentar, mas percebeu uma luz acesa. Estremeceu no mesmo tempo em que levantava a vista. A sala iluminada era a de Igor. O que estava fazendo ali?

Ele falava ao telefone, despreocupadamente. Abriu um enorme sorriso e fez sinal para que ela fosse até lá. Suzana não sabia o que fazer. Era incapaz de se mover. Ia retornar, para pedir que Gui se escondesse, porém, fora lenta demais. O amante acabava de adentrar no espaço, sendo percebido por Igor.

Assustadiça, se jogou na cadeira. Igor também disfarçou, colocando-se de costas. Gui se divertiu com a situação. Mandou um beijo caloroso e debochado para Suzana. Não se demorou e foi embora.

Queria sumir, desaparecer, apagar-se. Sentia-se suja. Poucas vezes, foi inundada pelo sentimento de desvalor e imundície pós-coito. Vasculhou a bolsa desesperadamente em busca de uma bala. Apesar de melada, chupou-a assim mesmo.

Bem devagar, a fim de se controlar, foi até a sala de Igor. Bateu e entrou. Recostou-se na parede. Ele permanecia numa conversa, sorrindo. Suzana fez uma “cara branca”, não devia revelar nada. Não prestou atenção em nada do que ele conversava ao telefone. Ficou repassando em que momento perdera as estribeiras e começou a traí-lo. De quem era a culpa? Dela por ser fraca, ou dele por ser tão ausente? Eram tantas viagens e afastamentos. Nunca sabia por onde ele passava. Igor não era um ser acessível, não reportava o que fazia ou aonde ia. Suzana permanecia no escuro.

Antes de ele terminar, ela focalizou uma caixinha preta de veludo na mesa. Era uma joia, certamente:

– Não imaginava que haveria alguém no escritório. Espero não estarmos sugando muito você e o… Gui em algum projeto. – Suzana apenas balançou a cabeça negativamente. – Ok! Estou errado! Sei disso, não nego. Mas, não mereço um beijo? Não vejo você há semanas, depois prometo recompensá-la.

Ele estendeu os braços, bem receptivo. Por um triz, ela quase se decidiu por virar as costas e sair correndo, abandonando-o de vez.

O abraço não a acalmou. Ela o apertou, enterrando a parte interna dos cotovelos na altura das axilas dele, deixando as mãos espalmadas perto dos ombros. Igor encaixou as mãos nos bolsos traseiros dela. Tudo o que não desejava era beijá-lo. Era uma infidelidade além da palavra:

– Não mereço você, não é? Isso um dia vai acabar, vamos ficar juntos como deve ser.

Suzana queria dizer que não dava mais, não tinham futuro, precisavam se libertar. Porém, não conseguia:

– Vamos comer algo? Me espera um pouco? Só preciso fazer mais um telefonema?

– Claro. – E lhe deu um beijo rápido no rosto.

Dando meia volta, sentou-se em uma das cadeiras de frente para a mesa de Igor, que começou a discar os números e se conteve:

– Exatamente… o que você e o Gui estavam fazendo nos fundos da empresa?

Ela segurou a respiração. Ele colocou o telefone no gancho:

– Tomávamos café.

– Você não está com hálito de café.

– Eu só comi.

Um clarão de decepção se acendeu no rosto de Igor. Sentou-se:

– Eu sei o que aconteceu. É surreal. Já notei a forma como você fica depois de ter gozado. Não posso acreditar que você estava transando no escritório!

– O que é deixa você com mais desprezo: a traição em si ou o ato dentro do escritório? – Suzana perguntou calmamente.

– Tudo! Tudo me deixa enojado de você. Pensei que tivéssemos cumplicidade e sinceridade.

– Eu ia dizer que perdemos isso, mas acho que nunca tivemos. – ela debochou.

– Não vai ao menos negar?

– Não. Não é do meu feitio.

– Logo agora… – ele pegou a caixinha de veludo, guardou-a na gaveta. – Ainda bem!

Suzana queria perguntar, mas tinha medo da resposta. Tanto a confirmação de um pedido de compromisso quanto a decepção por não ser isso gerariam um torpor e uma angústia enormes.

Igor ficou encurvado, olhando para os pés. Não chorava, embora estivesse totalmente tristonho:

– Não vai pedir desculpas? – ele sussurrou. – Mereço uma justificativa. Ou não! Você sempre deixou claro o quanto era diferente. Eu não quis enxergar a sua condição. Via uma pureza escondida, não aceitei que você fosse baixa e vulgar a todo custo e a todo momento. Me iludi com uma… mercenária. Quase me entreguei a uma bandida, uma vadia.

Já escutara tanto aquelas palavras. Dessa vez, dilaceraram. No entanto, era orgulhosa. Não ia chorar, não ia pedir desculpas:

– É uma pena você ter descoberto toda a minha verdade suja e eu não saber o que aconteceu a você, com quem esteve nas viagens, se fez…

– Eu não sou um infiel como você! – ele a cortou. – Tenho dignidade e respeito.

– Parabéns pelo exemplo! – debochou. – Agradeço por ter tentado me consertar. – Suzana se levantou. – Desejo a você uma ótima vida!

Saiu da sala, mas retornou:

– Ah, estou fora. Não faço mais estágio aqui. Você pode comunicar minha saída? É só me ligarem e eu venho para assinar o desligamento.

– O que vai fazer? Você não sabe ficar parada! – por um momento, ele se preocupou.

– Estou de boa! – riu. – Virei monitora remunerada na faculdade. Vou me dedicar à pesquisa.

Em poucos minutos perdera um amor e um estágio. Por que temos sempre de perder? O que a incomodava era a falta de informação. Igor nunca saberia da chantagem de Gui, do medo de um novo escândalo de assédio, da saudade que a impeliu a cair nos braços de qualquer um e do sentimento genuíno que possuía. Melhor assim! Ter conhecimento podia ser bem árduo e complicado.

Dirigindo, passando por um caminho mais longo que o normal, desejava não ser inundada por depressão e tristeza. Não queria ser uma típica mulherzinha. Ao contrário, iria passar tardes e noites na faculdade lendo e estudando. Seu luto pelas perdas seria transformado em vitória.

Sentia-se firme e segura. Não tinha medo da vida, da solidão e do recuo. No entanto, não ligou o rádio. Não aguentaria qualquer balada romântica internacional. Teria sido o romper de uma potente barragem emocional.

ADAPTAÇÃO – Suzana

Suzana entrou como bala na sala de aula. Não viu o tempo passar enquanto estava com os primos, durante o almoço no Restaurante Universitário. O professor já passava teoria no quadro, ela se assustou com a disposição do docente. Grande parte da turma nem sonhava em começar a copiar. Também ficou intrigada com os diversos olhares em cima de si. Por um tempo, suspeitou se a roupa estava ousada demais.

Na carteira, tentou se concentrar, apesar de alguns ainda estarem encarando-a. Já não bastava toda a atenção no estágio, que parecia aumentar cada vez mais? Suzana fez uma vistoria ao redor. Para quem perguntaria o que estava acontecendo?

Ser solitária tinha suas vantagens. Era libertador, você não desapontaria seus companheiros, conseguia focar naquilo que gosta e não se gasta tempo com fofocas, aparências e cortesias. Passar pela faculdade sem tantos laços não a incomodava. O futebol aos finais de semana já bastava.

No entanto, naquele momento, a garota se questionou se poderia viver sem a referência dos outros. A vida em comunidade ansiava pela alteridade. Lembrou-se de um enunciado dos tempos de teatrinho da escola. Adorava a frase de Shakespeare: “Sabemos o que somos, não o que podemos ser.” Será que no fundo nos conhecemos realmente? Talvez nunca precisássemos de terapia se nos olhássemos por nós próprios, sem esperar pelo retorno ou averiguação alheia.

Rapidamente, varreu o sentimento de solidão que brotava. Estava bem daquela forma. Não esperava mudança alguma. Engenheira e pragmática que era, precisava da vida sólida e certeira. Porém, apesar das regras, o universo carrega o caos e a desordem. Muitas das vezes, eles são incontidos e até mesmo necessários.

Durante a aula, Suzana fez todas as tarefas, compreendeu a matéria, mas não interagiu. Não quis se mostrar, nem dividir conhecimento. Antes do fim, um colega sentou-se na cadeira vazia mais próxima:

– Suzana, você é tão calma. Vai até esperar o fim dessa aula.

Ela o encarou. Que constatação era aquela?

– Eu estaria bem nervoso. – continuou. – Tem uns três da turma que nem vieram na aula pra se prepararem.

Suzana fez cara de dúvida, como se ele fosse um lunático. Ou ela fosse uma tapada. Não compreendia o propósito daquela conversa:

– Jonas, eu não sei do que você está falando.

– Você é Bersani, não é? – ela confirmou com a cabeça. – Então, é você mesma! Tanta gente ficou desconfiado com o seu interesse repentino. Se vai ser bom pra você…

De repente, tudo fazia sentido. Os olhares, o clima tenso… Algo estava acontecendo. Como não transparecer que não sabia do que se tratava?

– É… Eu não esperava mesmo, porque…

– Que isso?! Você é boa demais. É claro que você vai ser uma das primeiras colocadas na seleção de monitoria do professor Mattoso. Até acho que você vai ganhar bolsa.

Suzana abriu um sorriso enorme. Porém, estava entorpecida. Desde quando ela tentava ser monitora? E pra ganhar bolsa? Com uma calma impressionante, arrumou o material e saiu da sala antes do término, sem pegar a segunda frequência.

Voou pelos corredores. Sabia aonde deveria ir: quadro de avisos. Entupido de todos os tipos de papeis, recados e promoções, demorou a encontrar, no canto direito, mais para baixo. Era o resultado da primeira fase, análise de currículo e de histórico escolar. Suzana estava em terceiro lugar, entre nove candidatos, buscando quatro vagas, apenas duas com bolsa.

Em breves segundos, xingou. Como assim? Ela não tinha se inscrito em nada. Nunca comentara ter qualquer desejo em se tornar monitora. Será que era uma pegadinha ou um tipo de brincadeira? Voltou à leitura do aviso. A segunda fase, relativa à prova, era naquele dia, mas já tinha começado há mais de 20 minutos.

Na dúvida se participaria ou não, decidiu tirar satisfações com professor Mattoso. Quem a havia colocado naquela situação esdrúxula?

Assim que pisou na sala, mais uma vez, tudo ficou em suspenso, com olhares voltados a ela. Calmamente, foi até a mesa do professor:

– Pensei que não viesse. – ele disse, estendendo uma folha com questões e outra de papel almaço. – Não poderei estender o tempo pelo seu atraso. Você tem quase uma hora e meia.

– Quem disse que eu vim fazer? – Suzana foi ríspida. – Só quero saber por que estou inscrita numa seleção que não desejo participar.

– Como irei saber? Eu só recebi os documentos, ponderei e pontuei, e fiz as classificações.

Os dois se olharam. Ela sentia a mentira, ou melhor, a fala cínica. Antes que pudesse atacar, ele fez sua cartada:

– Sempre constatei que os melhores alunos de engenharia são, antes de tudo, ousados. Não temem o desafio. Tornam-se profissionais que pegam e resolvem, sempre contornando prazos e problemas. Talvez eu tenha me enganado com você.

Suzana ficou rubra. Que provocação! Quando ele desceu a mão com os papeis estendidos, ela rapidamente os tomou:

– Não tenho nada pra fazer agora. Vou me distrair.

Quebrou a cara literalmente. A lista era pesadíssima, cheia de exercícios complicados e pegadinhas. Tudo era um suplício de tão difícil. Aos poucos, os alunos iam saindo, fazendo-a se sentir uma burra.

Após o prazo final, a sala estava vazia. Mattoso foi até Suzana, sentou-se em cima do tampo da mesa à frente:

– Não posso ficar mais, terei de recolher.

– Faltam quatro. Só mais um pouco!

– Quatro? – ele se assustou. – Você resolveu o resto? – Suzana ficou sem entender a pergunta. – O que deixou menos sem fazer, entregou faltando dez. Você foi muito bem.

Fora a vez de ela se surpreender. Mattoso pegou as folhas e a deixou atordoada:

– Quando sai o resultado?

– Em cinco dias, na semana que vem.

Suzana estava tão esgotada, com a mão e o pescoço doendo. Não se importava de ficar sozinha por alguns minutos. Mattoso demorou a se organizar e sair:

– Posso ser a primeira a ser entrevistada? Na terceira fase, na semana que vem? – Suzana disse olhando para o quadro.

O professor parou no batente da porta. Virou o pescoço e deu um leve sorriso:

– Só se você trouxer seu currículo e histórico. Preciso corrigir uma falha no meu processo seletivo. Não posso transparecer impessoalidade ou preferências. – e saiu.

Suzana respirou fundo. De onde tiraria os requisitos para ser uma boa monitora? Do que mais ela seria capaz sem nunca desconfiar de ter outros potenciais?

DISTRAÇÃO – Suzana

Perdida em pensamentos, Suzana esperava por Bianca descer. Focava o pisca-alerta sem perceber que estava prestes a ser multada. Um guarda de trânsito havia passado pela terceira vez, e o carro permanecia no mesmo local. Ele se decidia se valia a pena pelo horário avançado. Ela voava internamente, bem desligada.

Pegou o celular inúmeras vezes. Pagaria uma fortuna por uma ligação internacional. Por isso, desistiu. Durante o dia, arquitetou uma forma de usar o telefone da empresa. Não achou a coragem. Como se expor com a tremenda distância? Talvez o problema não fossem os milhares de quilômetros, mas sim, o receio em se abrir. Não queria ser a indefesa ou a pobre coitada que precisa de um homem para se proteger. Além do mais, achava que devia partir de Igor o contato. Ele tinha, subitamente, viajado mais uma vez. E não a havia procurado, estava incomunicável. As coisas se transformam muito rapidamente, sem nos darmos conta:

– Suzana, desculpa te fazer esperar. Nós não combinamos mais tarde? – Bianca deu um beijo estalado.

– Sem problemas. Adiantei.

A prima comentava os casos loucos, as situações bizarras, as intimidades de família. Imersa na própria dúvida e preocupação, Suzana achava que era uma forte candidata a problemas jurídicos no futuro:

– Não aguento mais andar. – reclamou Bianca. – Quando voltarmos pra pegar o carro, teremos que percorrer isso tudo de novo?

– Nunca vi a universidade tão cheia. Quanta gente gata.

Quando elas decidiram ligar para Camila ou André, Bianca apontou:

– Não é o Lio, travado de beijo na boca?

– Cadê? – Suzana mirou o dedo apontado. – Que fogo! Bom pra ele! Quem é?

– Parece que é uma garota da minha sala, a Hélida. Mas ela tem namorado! – Bianca matutava.

– Ou não tem mais, ou essa Hélida está numa puta traição. Vamos lá deixá-los sem graça?

Puxando a prima, saiu em disparada. Quando estavam quase chegando, ela se colidiu com um cara. Os dois se chocaram e caíram para trás, de bunda no chão. Bianca conseguiu se manter em pé, apesar do puxão que levou.

Suzana e o rapaz rapidamente se levantaram. Ela se batia para limpar a sujeira. Ele a encarava, estava deslumbrado. Não tardou para Eulálio se juntar ao grupo. Hélida ficou gelada ao encarar Bianca:

– Você está bem? – o desconhecido perguntou.

Suzana estava possessa. Ia levantar o tom de voz, mas ficou sem fala. Ele era um deus, todo grande e malhado. Os cabelos espetados, um sorriso luminoso e os olhos verdes falsos maravilhosos. Ela sabia quem era:

– Estou… Não foi nada. Não vi você.

– Nem eu. – E os dois riram, entregando estarem encantados.

– Ei, Hélida. Animada para voltar a estudar? Como foi de férias? – Bianca perguntou.

– Claro. – ela sorriu sem graça, sem raciocinar. Rapidamente descolou as mãos dadas com Lio. – Minhas amigas devem estar me procurando. Tchau!

Eulálio se assustou. Olhou feio pra Bianca:

– Porra! A ficada estava prometendo se esticar. Hélida é facinha, eu ia levá-la pra outro lugar. Mas você tratou de lembrá-la do namorado.

– Isso não é certo. – Bianca respondeu. – Vai render confusão.

– Para os dois. Tem tanta gente aqui! Você vai arranjar outra rapidinho. – Suzana intrometeu-se.

– Tem razão. Vamos em busca da quinta menina da noite.

– Cruzes! Depois pega sapinho e não sabe o porquê. – Bianca ralhou.

Eulálio saiu, seguido de Bianca. Suzana e o rapaz ainda se observavam:

– Me desculpe. Sou o Paulo, da Química.

– Antunes?

– Exatamente. – ele riu. – Me conhece?

– Você tem uma fama… Eu sou Suzana, faço Engenharia Civil.

– Bersani?

– Sim.

– Você também é famosa. – ele a deixou sem graça.

– Meus primos estão me esperando. – Bianca acenava. – Nos vemos por aí?

– Acho que não. Prefiro não deixar por conta da sorte. Podemos nos rever aqui, nesse mesmo lugar, em 15 minutos?

– Não sei…

– Vou ficar te esperando.

Suzana não deu resposta. Saiu rebolando e se sentindo a mulher mais gostosa do pedaço. E também, a mais desafortunada. Chamara a atenção do cara mais cobiçado e idolatrado da Universidade.

Eulálio logo foi cantar outra garota que riu pra ele no momento em que passavam. Bianca ligava pra Camila. Suzana pensava se seria capaz de trair Igor. Estava totalmente atraída por Paulo. Sabia que seria um estrondo. receava destruir sua atual relação.

Olhando em volta, pensou se Igor se fazia a mesma pergunta. Viajando sempre, conhecendo inúmeras pessoas, ele também deveria se sentir tentado. Que garantia ela tinha de fidelidade?

Bianca contatou Camila, marcando de se encontraram numa outra entrada da festa. Pediu para que Suzana esperasse com Eulálio naquele mesmo lugar. Com o primo já chupando a orelha da garota, Suzana resolveu sair de perto. Se ficasse vendo a cena, só se sentiria mais tentada.

Corajosa e temerária, foi se dirigindo lentamente pelo local da colisão. Paulo olhava-a de frente, com os braços cruzados e o porte sério. Suzana sabia que não ia resistir:

– Você veio rápido.

– Não sou de esperar. Quando quero, vou atrás. – ela respondeu.

– Você me quer. – ele disse triunfante.

– Você me deseja. – ela roçou uma perna na parte dura e volumosa da calça. Paulo recuou incrédulo.

– Não me provoca!

– Não sou disso.

Suzana pulou no pescoço dele e enganchou as pernas na cintura. Paulo rapidamente a abraçou. Suzana já se exasperava de prazer. Ele era muito forte, tremendamente intenso, imensamente delicioso.

Perdeu a noção do tempo, do lugar, dos fatos. Quando abriu os olhos, depois de mais uma gozada, o carro estava embaçado de suor. Estava deitada em cima de Paulo, com as costas apoiada no peito dele. Não acreditava como conseguiu fazer tanta coisa dentro de um automóvel, sendo ele tão grande e pesado.

Paulo assoprava no pescoço da garota, quase querendo mais. Suzana achava que fora rápido demais. Agarraram-se na festa, depois estavam a caminho do estacionamento, sem saber se andavam ou beijavam. E dentro do carro foi uma loucura. Ele recomeçou a acariciá-la, até que a garota focalizou o aparelho de som apagado. Sem música internacional de impacto, sem cumplicidade sentimental, sem Igor. Apenas carne, desejo e prazer. Atacou-o de novo, porque a culpa da traição a cortava. Tinha cruzado uma linha perigosa.

COMPRESSÃO – Suzana

Assim que pôde, Suzana procurou Igor, dias atrás, para perguntar se alguém sabia da viagem juntos para a Alemanha. Desde que retornara ao estágio, sentia que estavam diferentes e indiferentes a ela. Não a consideravam como antes, nem a incluíam nos assuntos e nos afazeres.

Apesar da insistente negativa dele, Suzana não conseguia perder a sensação de que tinha sido delatada. Estava certa em parte, apenas errara nos motivos. Eles sabiam de uma passagem da vida profissional-amorosa dela:

– Suzana, você pode me auxiliar mais tarde num projeto? – Gui perguntou, sem ao menos cumprimentá-la.

Ela tinha ficado feliz com o pedido, pois, pela primeira vez, havia sido incluída num trabalho, depois do retorno ao estágio.

Com o escritório vazio, sem outros afazeres, procurou por Gui. Antes que ele dissesse algo, ela puxou uma cadeira e se sentou ao lado. Por longos períodos, observou. Aparentemente, não havia nada a ajudar. Suzana esperou pacientemente.

Dispersa, pensando no que ela e Igor iriam fazer no final de semana, sentiu um leve roçar na altura do joelho. Ela rapidamente cortou o contato. Mirando-o, percebeu pelas calças que ele estava excitado, mas não ousava trocar olhares.

Suzana teria questionado, brigado, xingado. Como se sentia queimada, deixou passar. Pouco tempo depois, ele repetiu o gesto. Ela se levantou. Mesmo sem sede, deu, como pretexto, buscar água.

Quando retornou, encontrou Gui em pé, de costas para ela, mas de frente para a janela. A mesa estava limpa. Todo o material havia sido guardado. Suzana estranhou, além de ter se arrependido por não ter carregado o seu celular consigo. Ela tinha sacado tudo, estava encurralada:

– As pessoas ficaram sabendo da sua situação. Foi uma fofoca e tanto, embora não tenha sido nenhuma surpresa. – ele debochou.

– Ninguém tem nada a ver com a minha vida.

– Bom, a sua vida pessoal sim. Mas a profissional, não. Que vergonha. Você não precisava fazer isso. É uma Bersani. Pode ter o mundo a seus pés.

– Não devo satisfações. – ela bradou. – Se não temos mais trabalho, posso ir embora? Tenho outros compromissos.  – ela quase citou Igor, dizendo que ele a esperava. Suzana fez bem, pois Gui se referia a outro assunto. Ela imaginava que se tratava do relacionamento dos dois. Não era sobre isso:

– É cedo. Precisamos fazer um trato. Acho que não será tão dificultoso para você.

Ele foi até Suzana, que se manteve ereta, mesmo vacilando por dentro. Gui a contornou e fechou a porta. Suzana se assustou com o ruído:

– Não se preocupe. Nada do que quero você já não fez. – destilou. – O que você quer primeiro? A proposta ou meus meios de chantagem, quer dizer, meios de persuasão?

Suzana não respondeu, se manteve de costas, tentando lembrar o que fizera de errado para sofrer tal tipo de injusto. Isso parecia psicopatia. O Gui de agora não era o de antigamente. Este era frio, calculista, interesseiro, amedrontador.

Quantas facetas uma pessoa pode ter? E quantas se podem criar? Dessas, quais chegam a público? E por que razão existe esse mecanismo de visualização social? Não seria mais prático sermos honestos e verdadeiros?

Por Gui, piedosamente e sem respaldo, estava triste. As pessoas tomam caminhos e atalhos, pensando em se dar bem. No entanto, acabam estragando suas oportunidades e suas imagens. Certamente Suzana nunca se esqueceria da forma como estava sendo tratada naquele momento. Ainda havia mais surpresas:

– Eu escolho. Vamos às evidências. Chegou às minhas mãos provas de seu… crime. Não, é muito forte. Vamos dizer, então, deslize. É isso! Você não consegue se segurar, comete pequenos deslizes. – Gui claramente saboreava a situação. – Tenho alguns documentos que retratam o caso de assédio sexual cometido por você no outro estágio.

Num estalo, ela se virou assustada. Aquela história, tempos atrás, tinha sido camuflada. Suzana achava que tinha sido enterrada:

– Quem te deu isso? – ela queria culpados. – Nada aconteceu!

– Não é o que os papéis dizem. O caso foi documentado, é claro. Eles precisavam de um respaldo, se algo vazasse. Você é muito ingênua. Achou que tudo ia ficar em segredo.

Gui fez sinal para um envelope. Ela o abriu. Com a cabeça a mil e sem concentração, viu relatórios com depoimentos, descrições e resumos de como o caso foi procedido:

– Como… Como você pegou esse material? – Suzana não conseguia crer.

– Não interessa. A pessoa só me pediu que eu espalhasse a história. Parece que ela queria apenas a sua reputação destruída. A proposta é invenção minha.

Suzana percebeu o olhar esfumaçado e maldoso de Gui pelo reflexo na janela. Teve medo de se virar e encará-lo:

– O que você quer?

– Eu te dou todas essas provas, para que você as destrua, se concordar em ficar comigo.

Ela não podia acreditar. Acabara de sofrer assédio sexual. Aquilo era completamente demais:

– Eu acho que você não tem nada a perder, está solteira. Todo mundo sabe que você não está com ninguém.

Um pouco de alívio perpassou-a. Pelo menos, não era de conhecimento público seu relacionamento com Igor. De repente, se lembrou dele. Queria procurá-lo, pedir proteção e ajuda. Porém, se sentia envergonhada:

– Sua resposta tem de ser imediata. Nosso primeiro contato tem de ser agora, aqui, nessa sala, em cima da mesa.

Sabia que a atitude de Gui era errada, ele cometia uma extorsão sexual. Mais uma vez, pensou em Igor. Sem ele na jogada, não teria problemas em se relacionar com o chantagista, uma vez que sempre suspeitou que ele a desejava. Suzana só não queria conviver com a sensação de ter traído Igor. Ou melhor, não pretendia se prestar a transar com os dois ao mesmo tempo:

– Eu não confio em você. Você vai me usar. Nunca vai me dar essas provas. Vou ficar nas suas mãos o tempo todo. Minha resposta é não! Faça o que bem entender.

Suzana trombou nele ao sair. Agradeceu a Deus por Gui não ter impedido sua passagem.

Depois que entrou no carro, antes de dar partida, no escuro e úmido estacionamento, ela colocou as mãos no rosto e chorou. Até onde as pessoas são capazes de ir para se beneficiarem e torturarem as outras por um simples e doentio prazer?

AGITAÇÃO – Suzana

– Você realmente não quer ajuda para colocar isso tudo pra dentro?

Suzana tentava abrir o portão, rodeada por malas e bolsas. Igor estava sentado no carro com o braço e a cabeça para fora:

– Eu quero retomar minha imagem de independente. – ela riu.

– Relaxa! Já te falei que estávamos por conta de empresa.

– Nossa! Vou ter que trabalhar mais para compensar. Não gosto de ficar em dívida.

– Tem outro jeito de você pagar essa dívida… – Igor fez cara de sacana.

– Ah, é? – Suzana entrou na sacanagem. – Você quer mais de mim? Mais do que teve na Alemanha?

– Não dá para me cansar de você. Até acho que fui mais produtivo lá, sabendo que você ia me recompensar toda noite…

– …toda manhã, em várias tardes e madrugadas. – Suzana completou, antes de beijá-lo apaixonadamente.

– Quando vou te ver de novo? – Igor sussurrou, ainda com os lábios quase colados.

– Meu passe valorizou. Agora só quero você em ares internacionais.

– Atrevida!

Igor só deu partida quando ela abriu a porta de casa. Suzana ficou olhando-o sumir. Se fechasse os olhos, lembraria tudo o que fez, os lugares que conheceu, as comidas que experimentou, as cenas de sexo que protagonizou, a diversão que vivenciou.

Foram dias agitados, mas que restabeleceram os ânimos. Praticamente não gastou nada, apenas teve de tirar um novo passaporte. O resto das despesas ficou a cargo de Igor. Ele a incluiu na viagem, liberou a dispensa do estágio e fez de tudo para que ela aproveitasse a Alemanha, nos momentos em que ele estava em reunião.

A verdade era que gostaria de tê-lo acompanhado nos enfadonhos encontros de trabalho. Primeiro, porque queria aprender, entender como ser uma engenheira-empresária; Segundo, porque tinha necessidade de fazer contatos; E terceiro, porque gostaria de destilar sua sexualidade a fim de gerar ciúmes em Igor.

Assim que terminou de levar tudo para o quarto, recebeu a primeira visita:

– Chegou… bem? – Sandro ficou do batente da porta, estava sem graça de entrar.

– Sim. Correu tudo bem – Ela continuou desarrumando a bagagem, sem olhar para ele.

– Não sabia que você tinha dinheiro guardado para uma viagem a Alemanha. Você não me parece tão econômica, não sei como conseguiu juntar uma grana alta.

– Sandro, até parece que você não sabe que foi meu… – Suzana quase disse namorado. – Meu… O Igor quem bancou a viagem. Ele é meu… – ela engasgou mais uma vez. – Meu chefe! Foi tudo por conta da empresa onde eu faço estágio. – Suzana percebeu que contara toda a verdade da situação.

O irmão ficou chocado. O repentino sumisso tinha sido um mistério. Ninguém soube dos detalhes, nem dos reais motivos:

– É… Eles valorizam bem os estagiários. – Sandro ironizou.

– Tem gente que sabe valorizar. – Suzana rebateu.

Antes que ele saísse, ela lhe jogou um embrulho. Tinha uma caneca de chope em louça e uma camisa de Frankfurt. O garoto não demonstrou, mas ficou comovido com a lembrança. Ele ameaçou avançar para beijá-la, no entanto, se conteve. Alegando que ia deixá-la sozinha para descansar, voltou para o quarto.

Depois do banho, Suzana foi até a cozinha fazer um lanche leve. Enquanto preparava um chá, não percebeu a presença do pai:

– Pode fazer em dobro? Eu a acompanho.

Ela largou a colher na pia para abraçá-lo. Mateus estava mais constrito. Ela percebeu:

– Você me deixou preocupado. Fez igual sua mãe. Sumiu sem se explicar, apenas avisando que estava de partida.

– Foi tudo muito rápido, me desculpa. Não podia esperar. A oportunidade era única. – ela respondeu, enquanto servia o chá.

– Eu tolero essa atitude de sua mãe porque ela é minha esposa. Não vou aceitar você, minha filha que vive sob meu teto, fazendo o mesmo. Você me deve muitas explicações.

Suzana respirou fundo. Menos de duas horas em casa foram suficientes para minar a tranquilidade e leveza da viagem:

– Fiquei cansado de ouvir as piadas da sua avó. Ela chegou a insinuar que você tinha se tornado uma prostituta internacional. E agora isso se confirma quando vejo você chegar em casa cheia de bolsas e sacolas, depois de beijar um cara.

Ela não quis responder. Ficou observando toda a fúria e condenação que ele exalava. Lembrou-se da mãe. Inúmeras vezes, ela tratava o marido com calma e indiferença durante as crises de ciúmes, cobranças e ódio dele:

– Você sabe que eu já sou maior de idade? Que falta pouco para eu me formar? Posso ter errado em não ter avisado. Só acho que é um sinal a todos de que eu vou me emancipar em breve. Eu quero ser dona do meu próprio nariz.

– Fique a vontade pra fazer o que quiser da sua vida depois que deixar de depender de mim. Enquanto isso não acontece, você deve seguir minhas ordens.

– Mas eu sigo. – ela rebateu.

– Você não me respeita! – ele gritou. – Que cara eu fico sabendo que você viajou como acompanhante de luxo de um empresário? Que cara eu fico de saber como minha única filha é uma ávida por sexo? Que cara eu fico, na festa de comemoração da empresa que eu comando, quando minha filha sai acompanhada de um cara para um dos quartos?

Suzana segurou as mãos por baixo da mesa. Ela e Sandro trocaram olhares rápidos. Ele se manteve escondido durante a conversa:

– Quer dizer que você tem vergonha de mim? Que a imagem das outras pessoas sobre mim machuca mais do que a nossa relação?

– Não aguento ver você sempre numa situação tão vulgar, tão promíscua!

– Eu nunca julguei você. – Suzana se exalou. – Ou você pensa que nunca soubemos dos inúmeros casos amorosos que você teve? Que cara eu e Sandro ficamos ao notar que estão falando das suas aventuras sexuais, enquanto mamãe está em viagem?

Mateus estava vermelho e raivoso. Naquele momento, Sandro se acovardou e voltou ao quarto. Suzana pegou a xícara de chá e o pires com biscoitos e foi para o quarto.

Sentada na cama, comia meditando. Não gostava de se analisar com ninguém. Contudo, acabara usando da comparação durante o confronto do pai. Ela se colocou no mesmo patamar, apontou como não podiam se acusar, uma vez que agiam da mesma forma. Mesmo assim, não se sentia tão correta ou vencedora do embate. Com dois toques na porta, Mateus entrou no quarto:

– Não gostei do que você me disse… Você não sabe do que está falando. Só preciso dizer que estou feliz pelo seu retorno. Por favor, não faça isso de novo.

Ela apenas assentiu. Antes que ele saísse, Suzana o chamou novamente. Entregou, também, um presente. O pai ficou feliz pelas diversas caixas de fósforo de uma gama variada de locais da Alemanha. Desde pequeno, ele colecionava aqueles itens. Junto, havia um porta-lápis metalizado com a palavra Unternehmer:

– O que significa? – ele quis saber.

– Eu acho que é… eu amo meu pai, apesar de qualquer coisa. – ela se levantou e o abraçou.

– Numa única palavra?

– Os alemães sabem ser concisos. – ela zoou.

Trouxera também presentes para os primos e para a mãe. Suzana se sentiu tão satisfeita com a viagem, que acabou sendo muito caridosa. Infelizmente sua benevolência não afastaria as críticas e as investidas negativas por ter sido tão ousada.

JUNÇÃO – Suzana

Que mulher não se admira longamente perante o espelho, ainda mais bem arrumada num vestido de gala? Por algum motivo, Suzana não se sentia confiante apesar de aparentar enorme deslumbre. Sua imagem refletida transmitia uma seriedade e uma palidez incríveis e gritantes por causa do vestido azul petróleo. A maquiagem dava-lhe um ar enigmático, e os cabelos, presos num longo rabo de cavalo, aumentavam a rigidez apenas aparente.

Estava cansada de tantos golpes da vida, necessitando de um período para ficar parada. Em pouco tempo, tinha mudado tanto e experimentado novas formas de pensar. Sentia-se diferente, em transformação. De algum modo, sem perceber, dera início a um ciclo de mudanças. Amedrontava-se com a ausência de noção sobre para onde estava encaminhando. Suzana não sabia que estava no meio de um processo de consolidação. Só depois de vencida essa etapa, poderia sedimentar sua essência:

– Cada vez mais acho você parecida comigo. – Valéria colocou-se atrás da filha. Suzana riu com o comentário.

Elas ficaram se olhando e se avaliando. Era inegável que fisicamente não se assemelhavam, a começar pelo fato de a mãe ser morena, enquanto a filha sempre fora loura. Suzana tinha um porte altivo, arredio, determinado e expansivo. Valéria era um pouco mais baixa, delicada, centrada e sólida:

– Não me refiro ao externo. Acho que somos parecidas aqui dentro. – Valéria tocou no peito da filha.

– Não te vejo há quanto tempo? – Suzana perguntou, virando-se. Elas ficaram frente a frente.

– Nem sei. Viajo tanto. Chego a perder a noção de tudo. Vamos para mais uma festa de comemoração às empresas Bersani? – desconversou. – Eu tenho que celebrar muito, pois são elas que pagam o meu luxo. – a mãe ironizou. Suzana riu mais uma vez.

Dirigindo, a garota não se conteve:

– Você não sente falta de nós? Da sua família?

– Hum… Não sei, não penso nisso. Passei a fazer o que eu queria depois que cumpri minhas obrigações. Amo vocês, amo o seu pai, mas não nasci pra ser dona de casa ou esposa de fachada. Decidi que ia desbravar e rodar. Nós, querida, não nascemos para sermos passivas. Somos ativas, fazemos. A verdade é que se eu tivesse sua idade, nunca me casaria. Seria do mundo, pertencia a todos e a ninguém.

– Entendo o que você sente. Tenho essa motivação desbravadora. Mas e os que ficam? E nós que nunca temos você ao lado?

– De que adianta ficarmos juntas se eu sofro com a prisão? Ou de que adianta ficarmos perto se eu a sufocar com minha presença? Pode parecer egoísta, minha filha, mas nós temos que pensar só em nós. Se não fizermos assim, se não nos valorizarmos, ninguém vai fazer por nós.

Suzana queria concordar. Valéria sabia que ela entendia. Porém, não conseguiram expor, mais uma vez, o quanto eram iguais. Mesmo afastadas, de alguma forma, a mãe obteve sucesso em moldar o caráter da filha. Há certos aprendizados que são naturais ou dependem de muito pouco. Embora tenha ficado raramente ao redor, Valéria proporcionou uma influência precisa no momento em que Suzana se desenvolvia.

Assim que chegaram ao salão de convenções do maior hotel da cidade, elas se separaram. O lugar já estava abarrotado, mesmo tendo chegado mais cedo. Sandro estava com o pai perto do palco. Ela ainda estava com raiva do irmão, por isso, decidiu circular.

Muito luxo, muitos flashes e muita ostentação sedimentaram-se como as marcas daquele evento. Era bom se sentir parte, mas às vezes era um pouco sofrido. Enquanto se servia de uma bebida, compreendeu o sentido de liberdade da própria mãe. Nós mesmos deveríamos ser nossos próprios chefes. Não devíamos deixar as rédeas na mão de ninguém. Contudo, frequentemente as direções, principalmente as emocionais, eram relegadas a um terceiro que não dá qualquer valor e só traz prejuízo.

Ao lado de Suzana, um garçom sentia-se da mesma forma. Luca estava chocado em servi-la, sem que ela percebesse quem ele era. Tinham transado, tinham se envolvido, ele tinha se apaixonado. Em vão, pois ela não nutria nada. Ele era só mais um. Da mesma forma que machucamos e brincamos com os sentimentos alheios, outros são nossos carrascos. É um ciclo cruel.

Ele tentou se reportar a ela, mas ficou com medo. Foram instruídos apenas a servir, sem interagir. No entanto, ele quebraria essa regra a força, embora torcesse por impressionar para poder manter o trabalho temporário como fonte de renda extra.

Suzana encontrou um ex-professor da Engenharia que conversava com outro senhor. Naturalmente ela destilou toda a simpatia entre os dois. Mais uma vez, se destacava sem esforços. A história se repetia:

– Suzana, você como sempre abrilhantando e alegrando nossos convidados. – Lina cumprimentou os dois senhores, antes de trocar um abraço falso com a neta. – Você sempre consegue chamar atenção.

– Claro. Aprendi que temos de sobressair com nossos melhores atributos. – Naquele evento, ao contrário de outros encontros, os quatro primos iriam enfrentar timidamente Dona Lina.

– Cavalheiros, os senhores nos dariam licença? Preciso trocar uma palavrinha em particular com Suzana.

As duas foram para uma parte mais afastada, a caminho dos banheiros. Suzana ficou de costas para as pessoas, bem à vista. Lina estava escondida. Esse arranjo geraria um evento improvável e impensável:

– Eu me adiantei a você. – a poderosa matriarca tentou diminuir a falsidade. – Não quero vexames na minha festa como o que estava prestes a ocorrer.

– Como assim? Eu não entendo. Sou tão recatada. – Suzana foi bem mais dissimulada. Lina respondeu rindo.

– Não quero ver você se esfregando em vários, se oferecendo a qualquer um. Por favor, tome essa chave. Reservei um quarto para você. Leve quantos quiser e faça às escondidas toda a devassidão que sei que você é capaz.

Suzana não acreditava. Olhava para a chave e para a avó. A vontade era fazer um escândalo. Porém, não valia nada. Só iria desmerecer a si própria mais, enquanto sua avó posaria como uma vítima:

– Com certeza! – ela pegou a chave velozmente. – Vou aproveitar com prazer, pode acreditar. Quem dera todas as comemorações me garantissem prazer fácil.

Ao se virar, a garota deu de cara com os três primos. Eles tinham acabado de chegar. Foram cumprimentar Suzana, sem perceber a conversa íntima. Enquanto se beijavam, Lina ficou bloqueada sem poder retornar à festa.

No mesmo instante, um fotógrafo, acompanhado de duas socialites, apareceu. Ele rapidamente reconheceu os quatro netos, com a avó por trás. Propôs uma foto. Eles gelaram. Nunca tinham um registro juntos. Aquilo era inédito. Contudo, com as ilustres figuras, Lina se pôs no meio deles para um registro histórico: Eulálio se colocou na ponta, seguido por Bianca; Suzana tomou o outro lado rapidamente, deixando Camila em contato com a avó:

– Eu não acredito. No creo! – disse Bianca no momento em que ficaram a sós.

– Estou paralisada. – Camila comentou.

– Isso é um daqueles eventos únicos, como um cometa que passa pela Terra de mil em mil anos. – Eulálio explicitou.

– Garanto que antes da festa acabar, essa foto será apagada. – Suzana debochou.

Eles estavam estranhos entre eles. Foram pegar bebidas e comer algo. Não tinham assunto. Incomodada, Suzana se dispersou. Arrependeu-se logo em seguida. Deu de cara com Cristóvão:

– Tio. Não tinha visto você.

Eles se beijaram e se abraçaram estranhamente. Ela chegou a olhar em volta, ansiando para que algum primo surgisse e não permitisse que uma conversa constrangedora acontecesse. Mesmo que fiquem muito tempo em suspenso, as coisas tendem, em algum momento, a pedir explicações.

Tio e sobrinha se atualizaram, conversaram trivialidades e riram um pouco. Suzana percebia pelo jeito e pelo olhar o quanto ele estava querendo entrar no assunto. Era uma necessidade para ele:

– Suzana, a gente precisa…

– Não, tio Cris! Se for sobre aquela noite, esquece. – ela pediu.

– A gente tem que… Eu tenho que falar. – ele implorou.

– Sobre o quê? É melhor deixar pra lá. Foi errado, não foi? Foi indevido. Só que a gente não sabia.

– Eu não paro de pensar sobre o que senti, sobre ter você nos braços. Você está impregnada em mim.

– Quê? – Suzana deu dois passos para trás. Ela estava chocada. Cristóvão tentou reaproximar. Ela recuou mais:

– Eu acho que eu amo você.

– Não. – ela gritou. Muitos olharam para os dois, inclusive os três primos e Lina. – Tio Cristóvão, por favor, não. – ela disse baixinho, olhando para os pés.

Num rompante, ela correu para a área do banheiro, desviando para as escadarias. Decidiu ir embora. Queria se isolar. Desejava receber um castigo. Alguma reparação deveria ocorrer para que ela purgasse um pecado tão grande e sem culpa, na verdade. No entanto, ela teria mais surpresas naquela noite. Ao trocar olhar com Igor, parou repentinamente. Ele estava recostado na parede, formando um círculo com outros homens. Não era possível que ele também estivesse ali:

– Nem eu sabia que era um dos amigos das empresas Bersani, pois, fornecedor, sei que não sou. Talvez o convite tenha vindo por sua causa. – ele deu dois beijos nela, assim que dispensou os parceiros. – Tem tanto tempo que não vejo você. Confesso que fiz questão de vir por sua causa.

A conversa verdadeira e amedrontadora com a mãe, o embate com a avó, a foto histórica, o afastamento dos primos, a revelação louca do tio e a mágica aparição de Igor deixaram-na totalmente aberta e vulnerável, clara e intensa como uma cascata:

– Igor, eu nunca quis saber o que era amar, mas eu amo você. Eu acho que quero você. Quero estar junto. Sei dos complicadores e da nossa distância. Mesmo assim, eu continuo querendo você mais e mais. – Aquelas palavras também eram inéditas. Suzana nunca se imaginou se abrindo com um cara antes.

– Eu também não consigo me afastar de você. Fica comigo? De uma vez por todas?

Suzana voou no pescoço dele e deu um beijo mais que caloroso em Igor. Lina, que estava perto, fingiu não ver, ao contrário dos outros primos, que vibraram sem se espantar com a cena típica. Ela pegou na mão de Igor e cruzou a festa com ele. Luca e Cristóvão amarguraram uma derrota ao vê-la feliz e acompanhada:

– Vó, estou indo para o quarto. – Suzana passou onde Lina, rodeada por conhecidas, estava e parou chacoalhando as chaves. – Vou fazer uma festinha melhor, já que a senhora é tão liberal e me deu um quarto.

Assim que as portas do elevador se fecharam, Suzana e Igor se agarraram. Se beijaram loucamente. Se fundiram. Se entregaram. Se amaram. Eles ficaram grudados, no quarto do hotel, por todo o resto todo do final de semana. Além do sexo, eles se abriram e se acertaram de uma maneira imprevista. Não iriam esquecer tudo o que confidenciaram. Selavam uma possível vida juntos, como marido e mulher, ou engenheiros e amantes em busca de novos mercados e estabilidade. O futuro era o mais amplo para ela. Valia a pena buscar o desconhecido.

Fim do Primeiro Ciclo de Suzana

REVELAÇÃO – Suzana

Duas buzinadas e Eulálio veio correndo. Ele estava de terno, totalmente impecável:

– Muito obrigado por vir nos pegar. – Ele deu dois beijinhos em Suzana. – De moto, minha mãe não iria. Ela já está vindo.

– Eu que agradeço. Não queria chegar sozinha nessa festa.

– Não sei o que deu na minha mãe. Ela não gosta de se misturar com os Bersani’s. De repente, fica toda animada com a comemoração íntima de aniversário da empresa. Eu nem queria ir.

– Todo mundo está tão envolvido com coisas sentimentais. – Ela pontuou, sem se incluir. – Nem Bianca ou Camila estavam animadas a ir. Elas vão empurradas. Falando nisso, como está a vida de solteiro?

O primo refletiu um pouco. Ele não tinha intenção de conversar:

– Lio, você tem que parar com isso. Você é tão fechado. Por algum motivo bobo, você nos deixa de fora. Queremos te ajudar, dar um apoio. O que motivou o término repentino?

– Eu vi Catarina. Aquilo me abalou muito. Só que ela está totalmente inacessível. E eu gostava da companhia da Sheila. Eu só perco as estribeiras quando penso ou vejo a Catarina.

– Suzana! Você é um anjo.

– Você está bonitona, Dona Teresa. – Suzana se virou no banco para beijar a mãe de Eulálio, assim que ela se sentou no banco de trás.

No caminho, os três conversaram trivialidades:

– A última vez que compareci ao jantar de família pelo aniversário das empresas dos Bersani’s, Eulálio deveria ter uns cinco anos. Foi horrível. Todos me viam como uma intrusa. Bem, ainda vão me olhar assim, sempre.

Suzana expiou pelo retrovisor. Sempre tem um preço a ser pago quando não condizemos com as expectativas alheias? Ela ia descobrir mais tarde que as pessoas querem determinar os outros, baseando-se no exterior. Com isso, todos se decepcionam, se machucam e não se entendem. Se fossem mais honestos, caridosos e receptivos, a harmonia poderia ser mais recorrente. Cada um quer moldar seus parceiros, sem se importar que eles sempre têm automotivações.

Pelo nome, o jantar íntimo deveria ter número reduzido de pessoas. A princípio, apenas os parentes poderiam comparecer. No entanto, o evento alcançou tanto status e se tornou mais um jogo de poder. Passou a ser impossível barrar a elite da cidade, os amigos e os fornecedores. O festejo sempre acontecia uma semana antes da principal solenidade comemorativa da empresa, na casa de Dona Lina:

– Cumprimentaram a nossa amada anfitriã? – Suzana encontrou as primas num canto afastada da varanda.

– Minha mãe me obrigou. – Camila respondeu.

– Eu estava com meus irmãos. Segui o fluxo. – Bianca disse sem ânimo.

As duas de preto contrastavam com o amarelo ovo do vestido de Suzana. Eulálio apareceu logo em seguida com um garçom a tiracolo:

– Vamos beber, primas! É a forma de desafogar.

– Falou a minha língua. – Suzana bateu palmas.

Camila relatou o ocorrido com André, como se sentia mal pela descoberta na faculdade do rolo entre eles. Ela não estava preparada para um fim tão inusitado:

– Você foi muito corajosa. A forma como você conduziu… – Bianca expressou o sentimento coletivo.

Eulálio contou o encontro com Catarina. Tentou explicar os sentimentos conflitantes que sentia por ela e pela ex. Disse que precisava ficar sozinho, mas estava tão confuso:

– Eu escutei uma coisa. – Bianca estava falante demais. – Nei e Fernando chamaram ela e o namorado. Mas Catarina alegou que não podia vir por causa de estudos. Será que ela está te evitando?

O primo ficou triste e alegre ao mesmo tempo. Ele recebeu um abraço coletivo. Naquele momento, eles apenas sorriram. Era boa e verdadeira a ligação entre eles:

– Eu estou cansada de ficar em pé. Podemos sentar num banquinho perto da piscina? – Camila propôs.

A caminho, Suzana se recordou de algo que a incomodava:

– Tio Cristóvão está na festa?

– Não. – Eulálio respondeu. – Ele só vem semana que vem. Está preso em viagem.

– Que loucura foi aquele aniversário dele. – Bianca comentou.

– Sem comentários, por favor. – Camila disse repentinamente. – Escutou Suzana? – A prima não segurou o riso.

– Camila, você sabe que o Maurício não para de me perguntar por você. Por que não investe?

– Não consigo ser como você. – ela disse, sentando-se. – Não estou condenando, mas não vou me aproximar do Maurício para esquecer o André.

– Por que estamos sempre fugindo? – Suzana perguntou.

Ninguém respondeu. Eles ficaram olhando a festa, os convidados, o clima de polidez e ostentação ao redor:

– O pior é fugir de si mesma. – Bianca disse timidamente. Os três suspiraram.

– Que encontro! Chamem o fotógrafo. – Nei apareceu junto de Sandro e Fernando.

– Os sete primos juntos é algo raro. Vamos chamar a vovó para essa foto histórica! – Sandro debochou.

– Não sabia que você era bem-vindo, Eulálio? – Nei atiçou. Bianca segurou o braço de Lio de uma maneira imperceptível.

– O que vocês querem? – Suzana tomou a dianteira. – É uma foto? A gente faz no meu celular agora. Assim, podemos curtir esse evento livres uns dos outros.

– Ah, esqueci que você tem uma meta a bater, não é prima? Pra quantos homens você vai dar hoje? – Nei alfinetou. – Eu me esqueço do seu ideal de vida.

– Você morre de inveja, não é, Nei? Mesmo sendo mulher, eu sou muito mais pegadora que você. Que coisa, não? Perdeu pra mim.

Os três tinham ido provocar Eulálio. Nei teve um descontrole repentino. Suzana o fez desviar o foco para ela. No entanto, ele ia conseguir atiçar também o primo bastardo:

– Eu alio quantidade e qualidade. Você está a fim apenas de números e, por isso, se rebaixa. Sabe a verdade? Eu tenho nojo de ter ficado com você, de ter ido para cama contigo! – Nei esbravejou.

– Eu é que devia ficar envergonhada. Você é péssimo, um animal bruto.

Aquela revelação foi chocante para Eulálio, Camila e Bianca. Tinha mais:

– Você está tão acostumada que nem aprecia o que é bom. – vangloriou-se, de braços abertos. – Fico pensando qual é a nota que você deu ao babaca do bastardo.

– Eu nunca fiquei com Eulálio! – Suzana defendeu-se.

– Nunca? Ah, por ele ser gay! Está explicado. Sempre achei que ele fosse um viadinho. – Bianca apertou mais forte o braço do primo. – Esse é o único motivo, pois você me pegou e pegou o Nando. Você gosta de pessoas da família, estou sacando agora. Aposto que você pegou o tio Cristóvão também. – Suzana ficou nervosa. – Só não pegou nossos pais por serem mais velhos, certo? Ah, e não pegou o Sandro só porque ele é seu irmão.

Bianca não se controlou. Deu um salto e se colocou cara a cara com o irmão:

– Nei! Cala a boca! Você é um escroto. Que indelicadeza, seu ridículo. Sai daqui.

Sem ter medido a força, Bianca deu um empurrão em Nei, que inesperadamente perdeu o equilíbrio. Ele tentou se segurar no irmão, mas ambos foram parar dentro d’água. Enfurecidos, xingavam a irmã. Assustada, ela saiu correndo para dentro da festa. Nesse ínterim, Camila e Sandro riam, enquanto Eulálio encarava Suzana:

– Você nunca… me quis? Eu nunca fiz seu estilo… Por quê? O que tenho eu de errado?

– Eulálio, eu não sei explicar isso.

Insatisfeito, ele também se refugiou na festa. Os irmãos molhados pediram que Sandro fosse dar um jeito, que ele buscasse uma toalha:

– Por eles, você faz tudo, dá tudo. – Suzana disse, fazendo-o parar. – Eu sou sua irmã e nunca percebi qualquer carinho ou ajuda sua. Nessa confusão toda, o que me entristece é que você não me defendeu. Você aceitou o julgamento deles. Você concordou. Logo, você, que é meu irmão. Não esperava… Nós somos dois estranhos, Sandro.

Ela se levantou e tomou o caminho do estacionamento. Camila a acompanhou:

– Eu vou embora. – Suzana anunciou.

– Eu nunca quis vir pra cá. Quero ir embora também dessa festa chata. Não estou a fim de comemorar nada.

Dirigindo velozmente, Suzana não queria comentar nada:

– Eu não tenho irmão. Não sei como você se sente. Mas… Você pode compensar. Comigo, com o Lio, com a Bianca. Nós podemos ser seus irmãos.

Suzana olhou a prima. Os quatro primos conseguiriam firmar laços fraternais entre si?

VALORIZAÇÃO – Suzana

Depois de umas dez ligações não atendidas, Suzana foi vencida pelo cansaço:

– Ei.

– Ah, até que enfim. – Igor soava mais preocupado do que bravo. – Pensei que você tinha sumido, desaparecido, se mudado.

– É o fim do período, está bem corrido.

– Imagino… Você vai ficar ausente também amanhã e depois?

– Sim, pedi dispensa no resto da semana por causa das provas. Eu me distraí, não estudei como devia.

– Cada vez mais acho que eu posso ter sido causador dos seus problemas. Desculpa.

Suzana não respondeu. Igor permaneceu em silêncio. Ela chegou a olhar o visor do telefone para saber se a ligação não tinha caído:

– Eu quero te ver. Precisamos conversar. – ele pediu.

– Estou muito ocupada, não consigo pensar em mais nada.

– Quando você voltar na semana que vem, estarei em viagem. Podemos nos ver nesse final de semana?

– Não! – Suzana não queria qualquer explicação.

Mais um momento em que permaneceram calados:

– Você está sabendo, não está? – ele estava aflito. Suzana não conseguiu responder. – Virei o assunto da empresa. Só que é tudo mentira. Não estou namorando a alemã. Nós só estamos mais próximos por causa de negócios.

Cortava Suzana escutar os comentários a respeito da aproximação com a empresária da Alemanha, interessada em realizar negócios com a firma. Assim que chegou ao estágio, no início da semana, foi informada da possível atração deles, do flerte e de um desejo praticamente incontrolável. As más línguas diziam que eles saíam todas as noites em encontros românticos. Muitas vezes, afirmava que eles dividiam o mesmo quarto do hotel.

Não tinha nenhum acordo com Igor, no entanto, Suzana se ressentia por não conseguirem lidar com a situação. Ele estava com outra, ela o tinha traído. Agiam de uma forma não condizente com as emoções:

– Ela está totalmente afim de mim, mas eu não tenho vontade de… – Suzana manteve-se quieta. Se tivesse falado algo, teria evitado o fato de maior impacto, que ninguém sabia. – Nós ficamos juntos uma noite só. Eu estava alto por causa da bebida. Mas não foi bom, eu só pensava em você, no seu corpo…

– Igor, não! – Suzana suplicou. – Por favor, não. Não vamos fazer isso. Não vamos nos machucar por causa de nossas vidas particulares. Eu também tenho saído, conhecido outros caras. Eu não pensei em você, não penso em você.

Ela se arrependeu de ter dito aquilo. Era uma mentira deslavada. No entanto, era mais uma evidência do quanto Suzana estava desorientada por dentro, ou seja, suas palavras e ações não condiziam com a revolução em seu íntimo.

Mais uma vez, ela confirmou o visor do telefone. Era a vez de Igor não conseguir dizer nada:

– Tenho uma revisão importante agora. Nós nos falamos depois. Boa viagem.

Sem esperar pelo cumprimento, desligou e adentrou na sala. Para não sofrer na divagação, concentrou-se na lista de quase 50 exercícios. Conversava pouco com os colegas ao lado, pois precisava inundar a mente com cálculos e equações com o objetivo de esquecer os esquemas e teoremas sentimentais:

– Turma, surgiu um problema no departamento. Vou demorar. Vocês vão se ajudando, enquanto não retorno. – o professor anunciou, antes de sair.

Alguns minutos depois, um estudante da frente perguntou, com voz alta, se ela tinha resolvido as questões de número 13, 29 e 37. Ela assentiu, enquanto o resto da sala se espantava:

– Por quê? – ela não entendeu.

– São as mais difíceis. Nem os nerds da turma chegaram a um resultado. – o garoto disse.

– Se quiser, eu te mostro.

– Não. Vá lá na frente e mostre a todos. Salve a turma de mais um pau na Engenharia.

Percebendo os olhares de súplica, Suzana levantou-se e vestiu a carapuça de professora. Aliás, nem foi tão difícil, fluiu para ela a posição de mestre. Não só fez os três mais difíceis, como resolveu outros que apareceram.

Ninguém notou, no entanto, quando o professor tinha retornado e permanecido no fundo da sala, observando. Suzana ficou ruborizada ao perceber a presença do mestre:

– Professor, eu… empolguei. – ela falou.

– Se eu soubesse que estava bem substituído, não teria corrido. – Suzana riu de soslaio com o elogio e retornou ao próprio lugar.

Mesmo não sendo chamado, o docente, momentos depois, sentou-se ao lado dela:

– Nunca poderia imaginar como você explica bem, de maneira calma e precisa.

A princípio, Suzana pensou que ele estava flertando com ela:

– Já pensou em ser monitora? Você tem um tremendo potencial.

– Não! Eu gosto de prática, de fazer. Não me vejo dando aulas. – essa era uma resposta antiga.

– Você deveria pensar nisso. Seria muito bom ter você como minha monitora no próximo semestre. Faça a seleção. Pelo que vi, você vai se sair muito bem.

– Tenho de focar no que quero. A área acadêmica não me atrai.

– Não desperdice um talento. Pense, durante as férias, em diversificar enquanto pode. Se você conseguir conciliar a teoria e a prática, será uma profissional exemplar.

– Nunca pensei em me manter na Universidade.  Fico doida pra sair logo daqui. – Suzana se abriu com ele.

– Se você não se acomodar em nenhum dos dois, tem tudo para atingir a notoriedade. É um aumento no status ser uma professora e engenheira renomada. Na monitoria, você também vai se envolver em pesquisa. Seu currículo vai ganhar peso.

A caminho de casa, Suzana pensou em como se sairia na função de monitora. Que inusitado! A ideia não a deixava transtornada, era até plausível. Ela não poderia prever que talvez um estágio de docência fosse a única saída viável para a futura falta de perspectiva. Sem se controlar, imaginou-se como companheira de Igor. Mudaria a forma de ser vista na firma? E sua família, de que maneira reagiria?

Afastou os questionamentos, uma vez que só importava a própria opinião. A valorização e a convalidação devem ser internas, partir de dentro de si, propensas a manter a pacificação interior. O aval das outras pessoas é somente um plus, apesar de, nem sempre, ser possível se portar desse jeito.

TEMPORÃO – Suzana

Sem noção de nada, transloucada, entregue em outras dimensões, Suzana estava fora de si. Tinha bebido tanto, dançado freneticamente e rodado a cabeça várias vezes que estava quase entrando em colapso. As pessoas até se afastavam dela, com medo de algum golpe de dança e por vergonha também. Ela não percebeu e nem se importaria, pois se sentia solta. O aniversário do tio Cristóvão estava ótimo, Camila estava pegando Maurício, Eulálio tinha sumido com Sheila, e Bianca se divertia na pista, não tão bêbada quanto ela. Para fechar, o aniversariante deixou que ela dormisse no sítio, ao invés de retornar após o término. Assim, Suzana iria aproveitar tudo.

No entanto, ela estava ficando incomodada. O tecladista, o mais bonito da banda, não cedia ao seu charme e sedução. Embora tenha feito sexo a tarde toda com Edgar, ela precisava fechar aquela noite com um cara em seus braços. Sabia que não deveria condicionar sua felicidade ao sucesso com o sexo oposto, mas era incontrolável. A festa só seria um arraso, se tivesse um homem esfregando nela. Suzana ia se arrepender no dia seguinte por ter exaltado e requisitado o sexo, pois ela protagonizaria cenas inapagáveis.

Como uma mente bêbada tende a ficar descontrolada, ela nem notou, quando se pôs a pensar em Igor. Ele poderia surgir na festa naquele momento e a tomar pelos braços. Acabou experimentando uma carência profunda. Isolada, rumou para dentro da casa. Precisava beber uma água e respirar, senão acabaria vomitando em cima de alguém.

Com a cabeça latejando, sentou-se num sofá e repensou sobre seu jeito carnal. Estaria ele fora de controle? Suzana era uma ninfomaníaca sem cura? Realmente o álcool é imprevisível, já que fez a garota questionar sua conduta tão decidida. Ela sempre colocou o prazer em pé de igualdade a outras necessidades, em algumas situações até em superioridade. Não seria a hora de começar a reconfigurar os objetivos e a intensidade de sua vida sexual? Suzana, como qualquer um, tinha medo do preço a ser pago pelos próprios atos:

– Suzana! Me ajuda! – Camila se jogou no sofá, ao lado dela.

– Eu acho que não tenho condição de fazer nada… Me deixa quieta!

– Só você pode me salvar! O Mauricio quer transar comigo e eu…

– Você está a fim de dar? Ótimo! Ainda não enxerguei o entrave. Ixi, falei bonito agora. Não devo estar tão mamada na cachaça assim. – Suzana estava em outro mundo.

– Droga! É melhor eu fugir! Vai ser uma vergonha!

– Prima, é sexo! Não tem nada de difícil ou complicado. Se joga, vai ser feliz. Eu queria ter um homem, qualquer um, me querendo agora.

– Eu também desejo ele, mas tem tanto tempo que não faço sexo. Não me preparei. Estou toda cabeluda, uma floresta enorme. – Camila revelou a questão.

– Ah, começo a entender o drama. Você quer se depilar?

– Com quem vou conseguir uma gilete?

Suzana levantou-se num pulo. Ela até poderia não ter sexo, mas se outro indivíduo fizesse, iria se sentir parte da transa. Essa seria sua missão da noite.

Acompanhando a prima, Camila parou no quarto do tio Cristóvão. Suzana começou a vasculhar as malas e os armários:

– Anda! Vai procurar no banheiro! – ordenou. Segundos depois, desabou desanimada na cama. – Pode parar! Ele usa barbeador elétrico.

– Tem uns dois velhos aqui. Não tenho coragem de passar na minha… Você sabe, é uma área tão sensível!

– De acordo.

De repente, Suzana teve uma revelação. Lembrou-se de algo que ouvira. Pediu para a prima esperar por ela e saiu em disparada para os fundos, onde sabia que os integrantes da banda tinham se arrumado antes do show. Ela escutara que eles se prepararam no sítio, antes de subirem ao palco. Tomaram banho e arrumaram o visual. Assim que dois copeiros se afastaram, ela entrou no local proibido e alheio. Apesar de bêbada, a adrenalina a despertou por um momento. Estava determinada a achar a gilete. Mais rápido do que imaginava, logrou sucesso.

No quarto, Suzana chegou gritando e exultante:

– Eu sou foda! Consegui! Anda logo, porque você o deixou esperando demais. Nada de fazer desenho, triângulos, nem nada. – ela instruiu.

– Eu estou muito ruim pra usar uma gilete. É até um perigo.

– Então, tira tudo e rápido! – Suzana apontou a solução mais lógica.

– Eu nunca fiquei sem nada.

– Hum, então você vai amar o contato dele sem ter pelos. Vai delirar com a sensação!

Satisfeita consigo própria, Suzana começou a se retirar do quarto. Camila foi mais rápida e a bloqueou:

– O que foi? Me deixa passar!

– Se eu parar para pensar no que estou fazendo, se eu entrar nesse banheiro e abaixar minha cabeça… Eu não vou conseguir, Suzana. Eu vou vomitar, cair de cara no chão, e… vou pensar no André.

Suzana notou que a prima estava prestes a chorar. Ela reverteu a posição de supremacia. Pegou os braços de Camila e, rodando-a, empurrou a garota pra dentro do banheiro:

– Deixa que eu faço. Eu vou raspar você. – Suzana bateu a porta assim que fez o pronunciamento para dar mais impacto.

Alguns minutos mais tarde, ela retornou a festa para procurar Maurício. Com medo de que Camila desistisse, ela se comprometeu a chamar o garoto. Mais que isso, Suzana o encaminhou até o quarto de Cristóvão. Ele tinha uma cara de muito chateado por ter perdido a pretendente de vista.

Depois que o jogou para dentro do cômodo, Suzana carregou o sentimento de satisfação estampado no rosto. Decidiu não aprontar mais naquele dia. Iria procurar um quarto para apagar e esquecer a vida. No entanto, a sua ideia de que Camila tinha ficado no quarto do tio, por causa da cama maravilhosa, seria a causadora de uma reviravolta inesperada, se isso não for um pleonasmo.

A primeira porta aberta fez Suzana soltar um gemido de susto. Ao acender a luz, pegou Eulálio e Sheila no flagra. A empolgação devia ter sido imensa, pois os dois não passaram o trinco. O espanto envolveu a posição do casal: ela estava de pernas abertas e erguidas em ‘V’, enquanto Eulálio estava ajoelhado de cara no ponto de interseção dos dois traços formadores da letra em questão. Era uma revanche, pois o primo já tinha pegado-a no flagra antes. Ela o faria lembrar o quão inusitada era a vida.

Fingindo estar estonteada, pediu desculpas. Naquele momento, ela desejou, ansiou, suplicou para que um homem surgisse em seus braços. Contudo, o estado dela não permitia que caçasse algum. Rapidamente adentrou no quarto da frente.  Esse estava vazio. Tirou o vestido, ficando apenas de calcinha e sutiã. Durante um momento indefinido, sem poder conceituar se dormia ou estava em coma alcoólico, alguém entrou e se jogou de costas na cama. Pelo jeito e pelo respirar, ela sabia que era um cara.

Automaticamente, acariciou-o e se esfregou nele. A reação foi automática e explosiva. Eles se beijaram, se agarraram e fizeram um sexo bem diferencial por causa da excitação etílica.

De manhã, Suzana estava destruída. Queria vomitar e comer ao mesmo tempo. Sentou-se na cama. A mão do parceiro roçou nas costas dela. Entendendo que teria uma rodada matinal de sexo, virou-se. O susto a fez gritar e a se colocar de pé. Petrificado e pasmado, Cristóvão também não sabia o que dizer.

Sobrinha e tio se encararam incrédulos. Ela pegou seus pertences e voou para fora do quarto. Até chegar em casa, tentou, em vão, esvaziar a mente pelo deslize que cometera. Antes do tempo, ela teria que enfrentar as consequências de ter sido imprudente. Afinal, sexo não era tão libertário e necessário quanto havia pregado a noite toda por atos e pensamentos.