DISTRAÇÃO – Bianca

Por que não conseguia se abrir com detalhes como a prima? As pessoas achavam que Bianca não tinha nada de extraordinário em sua vida, por isso, não se expunha, nem se mostrava. Realmente não tinha vivência, mas havia inquietações e dúvidas. Explanar seria um bom caminho.

Enquanto esperava por Camila retornar do banheiro, teve a impressão de ter visto Nei pela festa. Estranhou. Não era do feitio do irmão aquele ambiente. Por um momento, teve receio de Júnior estar por perto. Não tardaria para que ele revelasse o passado negro que viveram. Estava certa nisso:

– Bianca! – ela se assustou. Pensou que poderia ser o ex-namorado. – Me desculpa. Não quis assustá-la.

– Tudo bem. – ela sorriu, totalmente sem graça. – Estava distraída. Quanto tempo, Carlos.

– Você é quem não me vê. Vou quase sempre ao escritório do pai e você está sempre atolada e atarefada.

– Acho que isso é um elogio.

– Certamente.

Começaram a conversar trivialidades sobre o escritório de advocacia que ele herdaria. Bianca se sentia bem perto do rapaz, embora não soubesse determinar qual era o real interesse: ele gostava dela? Era simpático ou tinha sido cativado? Com pouca interação, não conseguia precisar o porquê da recorrente procura de Carlos.

Nesse momento, não tão distante, Bianca era observada por Luca. Era a primeira vez que a via desde o beijo roubado. Uma pontada estranha brotou, um ciúme prévio talvez. Queria ir até os dois. Resolveu se afastar:

– Você vai muito ao cinema? – Carlos se interessou.

– Não tanto.

– Posso te chamar um dia?

– Ei. – Camila retornou. – Olá…

– Carlos, prazer, sou filho do chefe da Bianca. – apresentou-se.

– Oh, prazer. Eu sou prima dela, Camila. – os dois se beijaram. – Desculpe interromper, mas eu quero ir embora. Estou ligando para Suzana e Eulálio que me ignoram.

– Vamos procurá-los. Se não acharmos, vamos de táxi.

– Posso levar vocês. – Carlos foi solícito.

– De jeito nenhum. A festa está ótima. – Bianca recusou.

– Não me importo. Anota meu celular. Se vocês foram descer, me liguem.

Camila olhou atravessada para Bianca, assim que deixaram Carlos:

– Ele gosta de você.

– Gosta nada. Ninguém gosta de mim. – Camila se assustou com o ressentimento da prima.

– Bianca, não pense assim. Você é jovem, bonita, inteligente, esforçada.

– Você não sabe de nada. – cortou.

– Uai, era aqui que deixamos a moto do Lio. Ele foi embora? – Camila desviou o assunto. – Deve estar na maior putaria, esse menino.

– Suzana também…

– Vamos de táxi? Ou quer chamar o apaixonadinho por você para nos levar?

– Lógico que não vou ligar pra ele.

Bem afastadas da festa, atentas para um veículo amarelo, não viram a aproximação de Suzana com Paulo:

– Aonde vocês estão indo? Já vão embora?

As duas ficaram chocadas. Paulo deu um beijo na bochecha da prima, acenou com a cabeça e saiu. Caladas, viravam o pescoço acompanhando o homem que se afastava, enquanto a prima sorria:

– O que foi? – Suzana transparecia inocência.

– Você pegou o cara mais cobiçado…

– E galinha. – Bianca completou.

– … da universidade? Ele não fica com quase ninguém. Gosta apenas de seduzir, encantar e perceber que é desejado para nem ao menos dar um beijo.

– Não só peguei, como dei pra ele diversas vezes. O cara é bom. Faz jus à fama. Realmente poucas escolhidas merecem aproveitá-lo.

– Suzana, você já tinha contato com ele? Vocês se conheciam? – Camila questionou.

– Sabia de nome, eu acho. Uma vez, ele estava numa palestra, mas não marquei a cara dele. Nós nos esbarramos hoje. Era o destino.

– Primas! Aconteceu uma tragédia, uma merda com letras maiúsculas.

As três se sobressaltaram com olhos esbugalhados e assustados. Ele estava elétrico:

– Roubaram minha moto.

– O quê? – Suzana gritou.

– Como assim? Fica calmo! – Camila tentou.

– Eu não sei o que fazer. – ele estava prestes a chorar.

Os quatro correram até o local onde a moto tinha estado:

– Foi aqui. Juro que deixei aqui. Não foi, Camila? – Ela concordou. – Como tiraram minha moto sem ninguém ter visto?

– Vou chamar a polícia! – Suzana sumiu.

Camila enlaçou o primo para ampará-lo. Antes de imitá-la, Bianca achou Luca conversando abraçado com uma garota baixinha e esquisita. Ele falava de maneira apaixonada e sincera, ao pé do ouvido da moça, que nitidamente estava desatenta e fora de área. Teve inveja. Se imaginou naquela posição. Um estremecer percorreu todo o seu corpo:

– O que você está fazendo aqui? – Camila disse de maneira assustada.

– Eu liguei pra você milhares de vezes, depois das suas 14 chamadas. Não viu?

Por um momento, todos se esqueceram da moto. A aparição de André só poderia ser descrita como mágica:

– Fiquei desatenta. – ela ainda estava estática e abismada. – Você veio sozinho?

– Claro. Sem resposta sua, larguei aquilo tudo e vim ficar contigo. Sei que foi a Carolina quem ligou. Mas eu faço tudo mesmo é pela Camila. Sou fiel a ela.

A garota desgrudou-se de Lio e abraçou o namorado. Bianca sorriu. Ela pareou o primo, segurando-o pelos ombros.

Pensou nas perdas. Ao olhar Camila, resumiu que às vezes, achamos que as coisas se foram, mas elas permanecem. Apertando Eulálio, considerou que, em momentos, com um simples piscar, tudo desaparece. Quando percebeu o retorno de Suzana, lembrou que, sem sentir, podemos deteriorar o redor. Quanto a ela, ponderou estar cansada de ver positividade em meio a tantas privações.

DISTRAÇÃO – Camila

Pela décima terceira vez, o telefone chamou, chamou e ficou sem resposta. André devia estar realmente entretido. Camila só ficava mais aflita. Sem muita fé, tentou outra vez. Ele atendeu, ou melhor, alguém aceitou a chamada. O barulho era enorme, muito falatório:

– Alô! Alô! André! – gritou.

Aos poucos, o som foi se acalmando até ficar mais tranquilo. Camila olhou o visor. Achou que tinha caído a conexão:

– André? O que está acontecendo?

– Oi!

Camila ficou petrificada com a voz feminina que irrompeu pelos seus ouvidos. Não soube identificar a origem de tanto ódio. Não precisava de apresentações. Identificava Diana como se a conhecesse há anos:

– Onde está o André?

– Ah, não sei… – ou ela estava bêbada ou se passando de cínica. – Ele está por aí… Cansei de sentir o celular vibrando perto de mim. Quem quer falar com ele?

– É Ca… – ela se suprimiu. Lembrou que tinha sido listada como ‘C’ no telefone dele. – Carolina. Posso falar com André?

– Eu não sei onde ele está. Quer deixar recado?

– Não.

– Por acaso, você é a misteriosa namorada?

Camila apertou o celular com força e trancou as pernas. Estava possuída de raiva. Bianca a encontrara com o semblante mais bravo possível:

– Eu… Só… Deixa. Ele retorna.

– Então, está bem. – e desligou.

Camila perdera a voz:

– O que foi? – Bianca quis saber.

– Espera!

Rediscou para André. Fora em vão. A mensagem alegava fora de área ou desligado. Camila sabia que Diana era capaz de tudo:

– Aquela vaca, aquela safada! – esbravejou.

– Quem?

– A professora nova, Diana. Ela está roubando André de mim. Minha vontade era aparecer naquela festa. Acredita que ela desligou o telefone dele? E por que ele deixou o celular com ela? Que bandida! Que praga!

– Camila, fica calma. Foi um imprevisto.

– A gente sabe, sempre sabe. Eu sei no meu íntimo que ela está armando, pronta para um bote.

– Vem. Vamos achar os primos. Se for o caso, eu me vou de táxi contigo aonde você quiser.

Sem pensar em mais nada, sem focalizar a festa, Camila seguia Bianca, até o momento em que foi parada:

– Engraçado. No caminho, achei que vi Nando. Agora posso jurar que vi Sandro passar. Eles não iam para uma festa num sítio?

Camila não respondeu. Não se importava:

– Quem é aquela que está vindo para cá? – A prima perguntou.

Com um desgosto marcante, apresentou Bianca a Marcela, ex-colega das Ciências Políticas:

– Não imaginava que você viria.

Bianca não entendeu a indireta. Camila, por sua vez, sabia do que se tratava. Marcela não ficava sem graça por ter forçado a barra na intimidade:

– Por quê? – fez-se de desentendida.

– Soube que nossos professores estão num jantar para eles com maridos e mulheres. Pensei que você fosse ser uma acompanhante.

Como ela sabia dessas coisas? Não desejava dar satisfações. De fato, não precisava. Para Marcela, qualquer resposta seria uma farsa. A ausência de André ao lado dela e a falta no jantar dos professores indicavam mentira pura:

– Posso falar? Não imaginava que você pudesse ser tão… falsa! – Marcela soltou sem pudores.

– Quê? – Bianca olhava de uma para a outra. – Menina, do que você está falando?

– Camila sabe. Ainda bem que não acreditei. Imagina se eu espalho essa fofoca irreal de você com o André.

Antes que pudessem arquitetar uma resposta, um bando de pessoas emergiu entre elas. Eram calouros e veteranos das Ciências Sociais. Faziam farras e gritavam:

– Essa daqui nos abandonou. Foi para a Antropologia. – Marcela destacou Camila. – Não é mais veterana de vocês.

– E essa daqui fala de mais. Cuidado com ela! – Bianca repetiu o gesto feito para a prima, mudando o foco para Marcela.

– Eu também vou começar o ciclo de Antropologia. Como você se chama?

Um garoto novinho, com muita cara de adolescente e porte raquítico, chacoalhou uma mão de Camila. Ela respondeu quase inadiavelmente:

– Sou o Victor. – ele emendou.

– A gente se vê na aula. – Camila deixou o grupo.

– Sem paciência? – Bianca a seguiu.

– Sem cabeça também. Preciso de uma água. Vamos pegar uma?

– O que você quiser.

Bem longe do grupo, Camila se virou para observá-los. Victor ainda a encarava com uma cara em branco. Ela lançou um sorriso. Ia pertencer àquele conjunto, se ligar a eles. No entanto, nunca seria parte. Já tinha passado pelo início de um novo ciclo de estudos no Bacharelado, não estava límpida e transparente, tinha bagagem, marcas e experiência. Um recomeço é totalmente diferente de um começo simples.

Num local mais calmo da festa, o telefone de Camila chamou várias vezes dentro da bolsa, enquanto desabafava com a prima. Não percebeu. Para ela, tinha perdido o amor, embora, muitas das vezes, temos sucesso sem que nada precise ser feito por nós mesmos.

DISTRAÇÃO – Suzana

Perdida em pensamentos, Suzana esperava por Bianca descer. Focava o pisca-alerta sem perceber que estava prestes a ser multada. Um guarda de trânsito havia passado pela terceira vez, e o carro permanecia no mesmo local. Ele se decidia se valia a pena pelo horário avançado. Ela voava internamente, bem desligada.

Pegou o celular inúmeras vezes. Pagaria uma fortuna por uma ligação internacional. Por isso, desistiu. Durante o dia, arquitetou uma forma de usar o telefone da empresa. Não achou a coragem. Como se expor com a tremenda distância? Talvez o problema não fossem os milhares de quilômetros, mas sim, o receio em se abrir. Não queria ser a indefesa ou a pobre coitada que precisa de um homem para se proteger. Além do mais, achava que devia partir de Igor o contato. Ele tinha, subitamente, viajado mais uma vez. E não a havia procurado, estava incomunicável. As coisas se transformam muito rapidamente, sem nos darmos conta:

– Suzana, desculpa te fazer esperar. Nós não combinamos mais tarde? – Bianca deu um beijo estalado.

– Sem problemas. Adiantei.

A prima comentava os casos loucos, as situações bizarras, as intimidades de família. Imersa na própria dúvida e preocupação, Suzana achava que era uma forte candidata a problemas jurídicos no futuro:

– Não aguento mais andar. – reclamou Bianca. – Quando voltarmos pra pegar o carro, teremos que percorrer isso tudo de novo?

– Nunca vi a universidade tão cheia. Quanta gente gata.

Quando elas decidiram ligar para Camila ou André, Bianca apontou:

– Não é o Lio, travado de beijo na boca?

– Cadê? – Suzana mirou o dedo apontado. – Que fogo! Bom pra ele! Quem é?

– Parece que é uma garota da minha sala, a Hélida. Mas ela tem namorado! – Bianca matutava.

– Ou não tem mais, ou essa Hélida está numa puta traição. Vamos lá deixá-los sem graça?

Puxando a prima, saiu em disparada. Quando estavam quase chegando, ela se colidiu com um cara. Os dois se chocaram e caíram para trás, de bunda no chão. Bianca conseguiu se manter em pé, apesar do puxão que levou.

Suzana e o rapaz rapidamente se levantaram. Ela se batia para limpar a sujeira. Ele a encarava, estava deslumbrado. Não tardou para Eulálio se juntar ao grupo. Hélida ficou gelada ao encarar Bianca:

– Você está bem? – o desconhecido perguntou.

Suzana estava possessa. Ia levantar o tom de voz, mas ficou sem fala. Ele era um deus, todo grande e malhado. Os cabelos espetados, um sorriso luminoso e os olhos verdes falsos maravilhosos. Ela sabia quem era:

– Estou… Não foi nada. Não vi você.

– Nem eu. – E os dois riram, entregando estarem encantados.

– Ei, Hélida. Animada para voltar a estudar? Como foi de férias? – Bianca perguntou.

– Claro. – ela sorriu sem graça, sem raciocinar. Rapidamente descolou as mãos dadas com Lio. – Minhas amigas devem estar me procurando. Tchau!

Eulálio se assustou. Olhou feio pra Bianca:

– Porra! A ficada estava prometendo se esticar. Hélida é facinha, eu ia levá-la pra outro lugar. Mas você tratou de lembrá-la do namorado.

– Isso não é certo. – Bianca respondeu. – Vai render confusão.

– Para os dois. Tem tanta gente aqui! Você vai arranjar outra rapidinho. – Suzana intrometeu-se.

– Tem razão. Vamos em busca da quinta menina da noite.

– Cruzes! Depois pega sapinho e não sabe o porquê. – Bianca ralhou.

Eulálio saiu, seguido de Bianca. Suzana e o rapaz ainda se observavam:

– Me desculpe. Sou o Paulo, da Química.

– Antunes?

– Exatamente. – ele riu. – Me conhece?

– Você tem uma fama… Eu sou Suzana, faço Engenharia Civil.

– Bersani?

– Sim.

– Você também é famosa. – ele a deixou sem graça.

– Meus primos estão me esperando. – Bianca acenava. – Nos vemos por aí?

– Acho que não. Prefiro não deixar por conta da sorte. Podemos nos rever aqui, nesse mesmo lugar, em 15 minutos?

– Não sei…

– Vou ficar te esperando.

Suzana não deu resposta. Saiu rebolando e se sentindo a mulher mais gostosa do pedaço. E também, a mais desafortunada. Chamara a atenção do cara mais cobiçado e idolatrado da Universidade.

Eulálio logo foi cantar outra garota que riu pra ele no momento em que passavam. Bianca ligava pra Camila. Suzana pensava se seria capaz de trair Igor. Estava totalmente atraída por Paulo. Sabia que seria um estrondo. receava destruir sua atual relação.

Olhando em volta, pensou se Igor se fazia a mesma pergunta. Viajando sempre, conhecendo inúmeras pessoas, ele também deveria se sentir tentado. Que garantia ela tinha de fidelidade?

Bianca contatou Camila, marcando de se encontraram numa outra entrada da festa. Pediu para que Suzana esperasse com Eulálio naquele mesmo lugar. Com o primo já chupando a orelha da garota, Suzana resolveu sair de perto. Se ficasse vendo a cena, só se sentiria mais tentada.

Corajosa e temerária, foi se dirigindo lentamente pelo local da colisão. Paulo olhava-a de frente, com os braços cruzados e o porte sério. Suzana sabia que não ia resistir:

– Você veio rápido.

– Não sou de esperar. Quando quero, vou atrás. – ela respondeu.

– Você me quer. – ele disse triunfante.

– Você me deseja. – ela roçou uma perna na parte dura e volumosa da calça. Paulo recuou incrédulo.

– Não me provoca!

– Não sou disso.

Suzana pulou no pescoço dele e enganchou as pernas na cintura. Paulo rapidamente a abraçou. Suzana já se exasperava de prazer. Ele era muito forte, tremendamente intenso, imensamente delicioso.

Perdeu a noção do tempo, do lugar, dos fatos. Quando abriu os olhos, depois de mais uma gozada, o carro estava embaçado de suor. Estava deitada em cima de Paulo, com as costas apoiada no peito dele. Não acreditava como conseguiu fazer tanta coisa dentro de um automóvel, sendo ele tão grande e pesado.

Paulo assoprava no pescoço da garota, quase querendo mais. Suzana achava que fora rápido demais. Agarraram-se na festa, depois estavam a caminho do estacionamento, sem saber se andavam ou beijavam. E dentro do carro foi uma loucura. Ele recomeçou a acariciá-la, até que a garota focalizou o aparelho de som apagado. Sem música internacional de impacto, sem cumplicidade sentimental, sem Igor. Apenas carne, desejo e prazer. Atacou-o de novo, porque a culpa da traição a cortava. Tinha cruzado uma linha perigosa.

DISTRAÇÃO – Eulálio

Enquanto esperava Camila descer, Eulálio observava o trânsito tranquilo. O ar também estava ameno, nem muito úmido, nem tão seco. A excitação percorria o próprio corpo. Há quanto tempo não se sentia tão disposto e empolgado? Nem acreditava que as primas haviam concordado, embora Suzana e Bianca pudessem desistir. Ambas iriam mais tarde, após o estágio, para a festa de boas-vindas ao novo semestre letivo.

Ele havia convidado todas com o objetivo de demonstrar uma maior proximidade. Por semanas, estiveram isolados, descansando e dando um break no cotidiano. Os quatro sentiam falta e saudades, porém, estavam imersos em questionamentos e dúvidas singulares, além de uma certeza de incompatibilidade e incompreensão.

Eulálio não havia contado a ninguém a respeito da sua busca por informações da família. Não pretendia ser desmotivado, muito menos desacreditado em seu empenho detetivesco. Ele mesmo se perguntava se não estava indo longe demais ou perdendo tempo nessa busca desenfreada:

– Se a gente beber demais, como faz? Se eu estiver zonza, desço de táxi. – Camila abraçou-o e pegou o capacete. – Não corre muito, fico nervosa.

Rindo, ele fez o motor roncar. A prima deu um tapa nas costas do piloto.

O espaço central do campus fervilhava de pessoas. Grande parte dos alunos tinha voltado antes para se aclimatarem a mais um período letivo. Isso garantiu o sucesso da festa, organizada pelo Diretório dos Estudantes:

– Isso está top! – Camila resumiu.

– Promete. – Lio riu.

Os dois circularam, compraram bebidas e se empolgaram:

– Hoje não fico sozinho nem a pau! – ele disse. Ao perceber que a prima não respondera, deu-lhe uma cutucada. – O que foi?

– Perdi o André.

– Vocês terminaram?

– Antes fosse. – ela se virou e saiu andando.

– Camila, deixa de palhaçada. O que está acontecendo?

– Lio, você não veio para escutar minhas lamúrias. Você também se recusa a falar de si. Por que eu deveria me abri contigo? Vamos procurar uns conhecidos. – Camila tentava se afastar.

– Nada disso! Quero saber. O que o André te fez?

Ela respirou fundo. Olhou para os lados. Não teria escapatória:

– É uma professora nova, recém-admitida. Chama Diana. André só sabe falar dela. Estão super amigos e juntos. Sinto que ele está caindo na dela. Agora estão num jantar para os professores. A princípio, eu ia. Depois, ele achou melhor não misturarmos as coisas em demasia. Além disso, desistimos de revelar nosso namoro para a faculdade. Não, foi ele quem achou melhor esperarmos. Ele decidiu.

– Prima, nada aconteceu, não é?

– Não, é só uma sensação, um sexto sentido. Estamos perdendo a ligação…

De repente, Camila parou de falar e abriu a boca. Ela estava paralisada. Eulálio não compreendeu e se virou. Era uma miragem:

– Não pode ser… – Camila disse abaixando o tom de voz.

Maurício e Sheila estavam abraçadinhos, se beijando, se paparicando:

– Isso é real? – Eulálio cogitou.

– Pode ser uma revanche. – Camila supôs.

– Será que é para nos atingir? Eles se abraçaram exatamente na nossa frente para nos deixar com ciúmes?

– É inconcebível e ultrajante. Mas pode ser divertido. – Camila estava sendo sacana. – Vamos fazer uma loucura? Tem coragem? – Eulálio fez que sim. O que teria a perder? – Vem.

Camila o puxou e o levou para mais a frente. O objetivo era ficarem bem visíveis. Ela o abraçou. Os rostos se aproximaram. Eulálio puxou fundo a respiração:

– Camila, tem certeza?

Os dois se beijaram. No início, foi estranho. Depois, foram desenvolvendo, intensificando. Pararam naturalmente, quando deu vontade:

– Você beija bem, Lio.

– Camila, você é gostosa mesmo.

Os dois sorriram, voltando a se abraçarem. O gesto só piorou a situação. Enquanto se beijavam, foram acompanhados por pasmos Maurício e Sheila. A cumplicidade trouxe mais consternação. Quando os quatro se viram, a ex de Eulálio segurava as lágrimas. Ela virou as costas e sai correndo:

– Quanta enganação… Não podia imaginar! – Maurício era a decepção em pessoa. Ele também se retirou.

Camila e Eulálio ficaram sem graça. Rodaram pela festa sem comentar nada. No entanto, um questionamento tomava vida dentro dele:

– Você já ficou com Sandro, Nei, ou Fernando?

– Não!

– Estou no lucro.

– Você considera um beijo como uma ficada?  – ela questionou.

– Claro! Mesmo na palhaçada, mesmo efêmero, nós nos conectamos.

Camila permaneceu um pouco pensativa:

– Vou ligar para o André. Acho que vou ao estacionamento. Tem menos barulho.

Eulálio se questionou se teria despertado emoções na prima. Ele não sentiu nada com aquele beijo, a não ser divertimento. Dando de ombros, voltou–se para a festa. Nada de neuras naquele momento.

No caminho de comprar mais bebida, encontrou uma veterana da Administração. Eles sempre se olharam atravessado. Naquele dia, tudo estava claro e direto demais. Cumprimentaram e logo estavam se beijando. Eulálio só pensava que pra ser feliz, ações e coisas simples bastavam.

COMPRESSÃO – Camila

O cheiro de café fez com que ela acordasse. O sol aquecia as pernas. Era cedo, mas não se importava. Queria esticar a sensação de bem-estar e felicidade. Estava em paz, satisfeita com sua atual forma de viver. Trabalhava, lia e amava. Quem sabe escrevesse um livro com esses verbos, relatando os benefícios de se deixar levar, não se preocupar e aceitar as coisas como elas são. Um livro seria um exagero, com tanto clichê ao redor:

– Que sorrisinho gostoso. – André se jogou ao lado dela na cama e a beijou. – Dormiu bem?

– Extremamente.

– Fiz café. Leo dispensou você hoje?

– Sim, ele desmarcou tudo. Precisa fechar uma pesquisa importante.

– O que você quer fazer? Ficar aqui, me acompanhar até a universidade ou ir pra casa?

– Nenhuma dessas opções me agrada. – Camila fez uma careta. – Todas elas me separam de você.

André voou pra cima. Mais uma vez, naquela semana, eles iam praticar o famoso sexo matinal.

Subindo para a universidade, ela se questionou sobre nossos desejos. Quase sempre sonhamos de forma não condizente com a realidade. Por isso, ficamos frustrados. Não temos a capacidade de sincronizar nossa mente com aquilo que existe realmente:

– Você está sorrindo de novo. Eu sou o culpado por isso?

– Para você não ficar convencido, em parte sim.

– Eu também sou muito feliz por sua causa.

Em momento algum, ela enxergou momentos felizes e satisfatórios com André. Antes de ficarem juntos, só via entraves, problemas e confusões. Não acreditava ser possível vivenciar situações simples e banais, mas recheadas de paixão e intensidade.

A vida toma cada rumo. As situações vêm na hora que devem, sem que possamos controlar. O segredo da tranquilidade é aceitar com resignação tudo o que vier, tanto os momentos felizes, quanto as situações ruim.

No estacionamento da biblioteca, André e Camila trocaram um último beijo. Ele ia rumar para a faculdade, ela, depois de devolver alguns livros, ia passar em casa:

– Você lembra que nos encontramos aqui na biblioteca? Eu te dei uma carona. – ele comentou com a cabeça para fora do carro.

– Claro. Foi quando eu me apaixonei. E você, quando caiu de encantos por mim?

– Quando… – André matutou com o carro já em movimento. – Bem…, vou deixar no suspense. – E saiu pisando fundo.

– Danado! Te odeio! – Camila gritou, rindo.

Na biblioteca, enquanto checava uma estante, recebeu um beliscão na bunda. Deu um salto, já rindo, pois pensava ser André. Ficou acuada ao perceber que era Marcela, ex-colega de faculdade:

– Perdida? Procurando o quê? – elas se beijaram.

– Alguns livros de Antropologia… – Camila respondeu.

– Você é uma louca em trocar de curso. Ninguém entendeu. Você não reclamava do curso. Bem que falam, é onde menos se espera que vem o imprevisível.

As duas ficaram em silêncio. Camila se perguntou por quanto tempo ela conseguiria segurar a curiosidade:

– Sei que é um assunto pessoal. Mas é verdade que você assediou o professor André? – Pelo que parecia, a bisbilhotice falou mais forte. – Querida, todas podem desejar, só que a poucas é dado o privilégio de degustar. Aprende isso, amiga.

Camila se escandalizou internamente. Queria responder aquele disparate à altura, mas se recordou que, se fosse a alguns meses atrás, também seria incrédula como a ex-colega das Ciências Políticas:

– Você não deveria duvidar das coisas… Pode se surpreender. – Camila ousou pontuar.

– Um homem como o André pode escolher. Chove na horta com certeza. Provavelmente vai optar por alguém como ele, tipo uma professora super inteligente, uma empresária rica.

Camila estava com raiva desses comentários. Ela não se aguentou. Teve de soltar algo inflável para Marcela. Seria o primeiro passo para tornar tudo público:

– Se eu contar uma coisa pra você, jura que não revela pra ninguém? Não interessa! – ela não deixou a amiga responder. – Ninguém vai acreditar mesmo e eu posso desmentir, não há provas. Eu já beijei o André.

Marcela abriu a boca e ficou pasmada. Não conseguiu falar mais nada. Era aterrorizador. Por alguns instantes, ela ameaçava falar, mas não podia. Balançava a cabeça, negando:

– Só digo uma coisa: é perfeito. – Camila deixou-a para trás, com um sorriso de orelha a orelha.

Desde o início do tórrido romance, pela primeira vez, ela não se importava mais se haveria comentários ou julgamentos. É claro que seria vista como mentirosa, porque não contara a verdade aos professores, quando indagada sobre o suposto romance. Poderiam avacalhar afirmando que o amor brotou depois das suspeitas, como se André tivesse despertado para ela somente após as averiguações.

Com saudades e querendo comentar que já havia colocado em prática a tarefa de espalhar a notícia do relacionamento, Camila decidiu retornar à sede da Faculdade de Ciências Sociais. Estranhou, porque não havia quase ninguém. O local estava deserto.

Foi até o estacionamento e constatou que havia dois carros. O de André era um deles. Retornou ao prédio. Assim que pegou o telefone celular, escutou vozes. Se recostou numa parede, quase sendo coberta por um biombo alto que servia para colar avisos e informes. Ela se espremeu e contraiu a respiração.

André era um dos interlocutores. A outra pessoa era uma mulher. Quieta, tentou filtrar as informações:

– … vai gostar, é uma cidade ótima. Sou apaixonado. – ele comentou.

– Conto com a ajuda de vocês. Vim de uma metrópole. Tenho que descobrir os locais.

– Rapidinho você vai ficar por dentro de tudo. – André completou.

– Ah, nem creio que passei nesse concurso. Tinha tanto professor bom.

–  Queremos um perfil mais jovem e dinâmico como você.

– Agradeço o elogio. Você também é muito carismático e… disposto.

Camila sentiu que a mulher estava se insinuando. Apostava que ela ia dizer bonito. Inclinando-se ela espiou os dois. A professora recém-contratada era baixa, bunduda e de cabelos pretos escorridos. Ela estava sorrindo o tempo todo, enquanto André falava.

Ela sabia. Tinha sacado na hora. Como segurar André com uma concorrência forte? O primeiro passo seria marcar território e se impor perante ela. No entanto, Camila tremeu nas bases. Correndo, pela direção contrária, tomou o primeiro ônibus que viu passar. A confiança começara a fraquejar.

COMPRESSÃO – Eulálio

Até ele se sentia um chato devido à tamanha insistência. Anos atrás, tinha ficado com uma aluna da Comunicação. Eles engataram um ficar constante. Sempre quando se encontravam em festas, travavam de beijos. Eulálio sabia que Monique esperava mais, contudo ele não estava disposto a namorar. Era calouro, enquanto ela já estava formando. Apenas uma recusa fez com que os dois não ficassem nunca mais. Da última vez que teve notícias, ela estava trabalhando na Diocese da cidade.

Com a recente dica de Teresa, não tinha noção de como localizar o famoso padre, confidente de sua avó. O nome de Monique não saltou de primeira na cabeça dele. Alguns dias se passaram até que se lembrasse disso, num estalo. Ficou contente consigo mesmo, era um sinal de que conseguiria elucidar a história completa dos Bersani’s.

A tarefa de localização não foi tão árdua, a receptividade da ex-ficante não se apresentou de igual maneira. Eulálio conseguira os telefones do trabalho e o celular, além de tê-la encontrado nas redes sociais. Por mais que tentasse, deixasse recados e insistisse, Monique não respondia.

Duas vezes, bateu na porta da Assessoria de Comunicação da Diocese para se falarem pessoalmente. Ou ela era muito compromissada, ou o estava enganando. Falava com as mesmas pessoas que sempre o reconheciam como o aluno da Administração, amigo da jornalista Monique, ansioso para conversarem.

Já não tinha tantas esperanças, quando o celular tocou:

– Ora, ora, ora… Quem diria que eu voltaria a ser procurada pelo simpático Eulálio? É um mundo muito inusitado. – Monique sentia-se superior com a situação.

– Eu também nunca imaginaria que você fosse capaz de me enrolar tanto. Isso não parecia ser do seu feitio.

-Hum… As pessoas surpreendem.

– Você quer me deixar surpreso de novo? Com sua bondade e atenção a mim?

– Não! Você é um caso perdido. – ela riu.

– Eu não penso dessa forma. E se a gente se encontrasse de novo? Poderíamos parar de onde terminamos?

– Aonde você quer me levar? – Monique começava a ceder.

– Num motel, durante três horas, por minha conta.

– E o que você quer que eu faça?

– Gostaria que você localizasse um padre pra mim, ele trabalhou por anos na Igreja de São José.

– Por que você precisa se encontrar com ele? – o faro jornalístico só ampliava as perguntas.

– Por causa de minha avó, eu… – Eulálio não podia revelar tanto. – Eu queria que eles se reencontrassem novamente. Acho que faria bem a ela retomar o passado.

– Que lindo! Que garoto delicado. Antes de eu responder, nosso programa está de pé? Pra amanhã, às 19h?

– Claro. Quero ver se você me aguenta.

– Vamos ver quem pede pra parar primeiro. – Monique debochou de volta. – Então, sinto te dizer que ele morreu tem uns quatro anos. Estava muito senil e esquecido, não falava nada com nada. Foi aposentado compulsivamente, não queria parar, tinha sido transferido para uma casa de repouso que é usada…

Tarde da noite, Eulálio remoía seus pensamentos, enquanto despachava memorandos. Não se preocupava, pois a empresa estava deserta. Também não tinha garantia nenhuma de que a tia Maria Marlene tivesse viva. Como ninguém falava dessa parente desgarrada, nunca conseguiria um endereço ou algum contato.

Passando pela sala da avó-poderosa, se assustou com a porta a ser aberta. Derrubou as folhas sem querer. Abaixou-se rapidamente e, de olhos fechados, encurvou-se. Pelos pés, percebeu que não era Lina, mas sim, sua secretária. Ela conhecia os netos da patroa, mas não sequer focalizou o estagiário, quando deu um polido boa noite.

Com a sala vazia e o local deserto, Eulálio decidiu apelar. Alguma agenda ou lista de contatos teria o nome da tia-avó. Sem pensar, adentrou no espaço austero e nada afável. A princípio, teve medo. Estava estagnado. Não sabia como proceder. Um pavor brotou ao perceber que iria desmacular o local.

De supetão, vasculhou gavetas, arquivos, pastas. Mexeu em agendas de compromissos, lista de contatos. Não lograva êxito. Sem saber se partia para a sala da sua avó, quase teve um espasmo quando a porta se abriu. Não dava pra dizer quem estava mais pálido, ele ou Dona Rosa, a diretora do RH:

– O que você está fazendo aqui? Está louco! – ela cochichou. – Sua vó está chegando. Tem uma reunião extraoficial comigo pra cortes de pessoas.

Eulálio rodou de um lado para o outro, como uma barata tonta. Não pensava direito, não raciocinava. Correu pra janela. Pular era uma burrice. Dona Rosa olhava para os cantos sem saber onde ele poderia ficar. Os dois começaram a escutar os passos. Lina aproximava. Eulálio sentiu o sangue descer para os pés. Num supetão, percebeu o buraco central na mesa da secretária, onde os pés descansavam. Se espremeu ali, ficando todo torto. Na pressa, a cadeira caiu.

Quando Lina abriu a porta, Rosa recolocava a cadeira na reentrância, apertando mais o garoto:

– Que cara é essa? Parece que viu assombração. Vamos, não quero sair tarde daqui.

Rosa não conseguia responder. O alívio incapacitara seus músculos. Passados alguns minutos, Eulálio cuidadosamente e silenciosamente pôs-se pra fora do esconderijo. Como um raio, correu para a própria sala.

Ele esperou pacientemente. Sabia que Rosa voltaria:

– Eulálio, eu nem sei o que dizer pra te repreender…

– Eu sei.

– Você se arriscou de mais. Se ela não passa no banheiro antes, estaríamos escorraçados. O que você queria?

– Eu estava procurando um telefone… ou endereço.

– De quem?

– Da minha tia-avó.

– Dona Maria Marlene? – Rosa assustou-se. – Desde quando você tem assuntos com ela? Sua tia sumiu para o mundo. Quem te falou dela?

– Minha mãe.

– Por que você precisa contatá-la?

– Eu… não sei. Me sinto mal em saber que ela existe e ninguém se dá ao trabalho de procurar. Acho injusto. Sei o que é ficar na margem. É muito ruim ser colocado de lado.

– Você nunca vai achá-la. Pode ter certeza.

– Por quê?

– As pessoas não acham Maria Marlene. Ela acha as pessoas. Ela vai vir até você.

– Como sabe disso? – ele não entendia.

– Meu primeiro emprego foi como secretária dela. Devo muito a sua tia-avó. Não garanto que vocês vão se encontrar, mas posso interceder por você.

– Me fale dela! Onde ela está?

– Não sei muito, nem poderia contar. Prometi nunca revelar nada. O que posso fazer é pedir que ela reapareça. De vez em quando, ela surge e nós nos falamos. É sempre quando ela quer.

Voando na moto, Eulálio se perguntou o que o impedia de desaparecer. O que o segurava no caminho de sempre, ao invés de seguir pela rodovia em busca de um novo começo e do anonimato? O que ele enxergava como revanche era simplesmente carência.

COMPRESSÃO – Bianca

Despreocupada, Bianca tomava café quietinha, alheia ao entorno. Era um estado de recente despertar misturado com uma tranquilidade, raramente sentidos. Nem sempre, ela conseguia atingir tamanha passividade e calmaria. Por isso, aproveitava para divagar envolta do nada. Como estava adiantada, poderia se deixar levar pela letargia.

Nando chegou à cozinha pisando fundo. A intenção era se fazer notar. Mesmo assim, não despertou a irmã que olhava pela janela, totalmente fora de ar. Ele arrumou um pão, tomo goles de café e ficou esperando. Não queria puxar assunto, apesar de ter preparado mentalmente uma forma de ajudar sem se expor. Não podia, em hipótese alguma, transparecer que sabia de todo o plano de sua avó Lina para os quatro netos. Ele começava a não entender a razão de todo aquele ódio.

Puxou uma cadeira e ficou de lado de Bianca. Tocou de leve no braço dela. Continuou sem resposta. Pegou o pedaço de papel e o colocou em frente do prato da irmã. Por uns instantes, ela também não reagiu. Depois, a garota, lentamente, olhou para frente e desdobrou a folha. Havia um nome e um telefone. Sem precisar falar nada, fitou o irmão com cara de desentendida:

– Tenho um amigo que acabou de abrir uma firma de advocacia. Ele quer alguém da área de família. Não é a sua nova especialidade?

Bianca ficou vacilante. Desde quando seus irmãos retêm qualquer informação sobre ela? Quando podia supor que eles seriam capazes de ajudá-la? Com certeza, achou tudo muito estanho e suspeito. Nando percebeu rapidamente:

– É um contato futuro pra você. A gente nunca sabe o que pode ocorrer. Eu acho ele muito bacana e determinado. Talvez vocês comecem algo grande juntos.

Bianca se serviu de mais um pouco de café. Não tirou os olhos do papel por um tempo. Queria perguntar o porquê daquilo. No entanto, sabia que não podia forçar a barra com os irmãos. Eles estavam em uma dimensão diferente da dela. Perderam a conexão. Não seria uma simples indicação suficiente para reagrupá-los:

– Obrigada. – ousou dizer de uma maneira sem sentido e propósito.

Ao notar o irmão, ela percebeu uma seriedade intensa. O gesto de Nando não transparecia uma mera simplicidade. Era sério e determinado, com muito significado. No entanto, Bianca não conseguia definir o que indicava.

A caminho do estágio, apalpando o papel com o telefone, enquanto as mãos permaneciam no bolso, ela fez uma varredura em memórias, assuntos e situações que pudessem fazê-la entender aquela atitude no café. Totalmente encolhida por causa do forte vento, ela se perguntou até quando se sentiria inferiorizada e diminuída face os familiares. As intempéries permaneceriam por muito mais tempo? Ela aguentaria as pancadas?

Assim que se sentou na mesa, prestes a ligar o computador, fora chamada a comparecer em uma das salas de reunião. Um possível cliente a esperava desde cedo. Não tinha pedido por Bianca especificamente, embora tenha ficado claro o quanto ele queria uma estagiária, mulher, com competência e pendente para o ramo de Direito de Família. Ela desconfiou desse pedido, era demasiado direto, sem parecer. Quando bateu a porta e encarou o requisitante, arrependeu-se da falta de malícia:

– Seria melhor fechar as portas e persianas. Ficaremos bem mais a vontade. – ele riu, satisfeito. – Como você demorou! – Bianca não se moveu. – Não está feliz em me ver? – Ela ameaçou sair. – Se fosse você, não faria isso! Eu poderia gritar a todos sobre seus problemas.

Olhando para a mesa, tentando buscar uma força desconhecida, Bianca se sentou. Abriu a pasta. Serviu um copo de água. Esperou:

– Não é sua obrigação me fazer perguntas? Sondar?

– Júnior… – ela engoliu em seco. – O que você quer? Por que veio parar aqui?

– Saudades. Tem tempos que cheguei e não pudemos nos rever. Por que será? Tem me evitado? Tem medo de mim? – ele se divertia. – Pode ficar calma, por enquanto não pretendo revelar nada a seus irmãos.

– Por que você não fala nada e põe fim a essa tormenta?

– Então, ela existe. Obrigado por confirmar minha dúvida. Quer dizer que você continua frígida? Ainda é a mulher mais fria e incompetente na cama que conheço? Eu esperava mais. – Junior debochou. – Pra mim, você ia procurar ajuda, ou ia se envolver com mais homens… Você não se parece nem um pouco com Suzana.

– Não devo satisfações a você.

– Sei disso. Só que eu passei a me preocupar. Fiquei pensando: e se eu sou o culpado da Bianca ser assim? Eu posso ter sido bruto demais, grande demais…

– Convencido demais. – ela acrescentou, ele adorou.

– Bibi, quero testar você. Não posso acreditar que tenha ficado sozinha nesse tempo todo. Seus irmãos me disseram que nunca viram você com um cara, você nunca mais namorou. Realmente você se fechou e se travou.

– Nei e Nando não sabem da minha vida. Nunca souberam, nem vão saber.

– Posso resolver pelo menos isso. Ligo agora e conto que eles têm uma irmã sem desejo sexual, que não atinge o orgasmo?

– Não! – ela, pela primeira vez, se desesperou.

– Tem vergonha, não tem? Se você quiser evitar essa revelação, vá na minha casa hoje à noite. Quero comer você de novo! Do meu jeito!

Bianca cruzou as pernas, uma mão apertou a outra e o corpo se afastou da mesa, fazendo as costas espremerem mais o encosto da cadeira. O olhar sociopata e maquiavélico reverberou por dentro dela:

– Essa é minha única condição. Não me desaponte.

Júnior se levantou e beijou o topo da cabeça de Bianca. Ela sentia nojo e revolta. Não se segurou:

– O que você ganha com isso? – ele estava quase saindo, foi retido pela pergunta.

– Gosto de ver as coisas explodirem…

Bianca não soube precisar quanto tempo ficou na sala, sozinha e estática. Era como se não fosse ela mesma. Parecia que aquilo havia acontecido com outra pessoa. Não sabia mais como se consolar. Perdera a maneira de acreditar que, em algum ponto, tudo ficaria bem.

COMPRESSÃO – Suzana

Assim que pôde, Suzana procurou Igor, dias atrás, para perguntar se alguém sabia da viagem juntos para a Alemanha. Desde que retornara ao estágio, sentia que estavam diferentes e indiferentes a ela. Não a consideravam como antes, nem a incluíam nos assuntos e nos afazeres.

Apesar da insistente negativa dele, Suzana não conseguia perder a sensação de que tinha sido delatada. Estava certa em parte, apenas errara nos motivos. Eles sabiam de uma passagem da vida profissional-amorosa dela:

– Suzana, você pode me auxiliar mais tarde num projeto? – Gui perguntou, sem ao menos cumprimentá-la.

Ela tinha ficado feliz com o pedido, pois, pela primeira vez, havia sido incluída num trabalho, depois do retorno ao estágio.

Com o escritório vazio, sem outros afazeres, procurou por Gui. Antes que ele dissesse algo, ela puxou uma cadeira e se sentou ao lado. Por longos períodos, observou. Aparentemente, não havia nada a ajudar. Suzana esperou pacientemente.

Dispersa, pensando no que ela e Igor iriam fazer no final de semana, sentiu um leve roçar na altura do joelho. Ela rapidamente cortou o contato. Mirando-o, percebeu pelas calças que ele estava excitado, mas não ousava trocar olhares.

Suzana teria questionado, brigado, xingado. Como se sentia queimada, deixou passar. Pouco tempo depois, ele repetiu o gesto. Ela se levantou. Mesmo sem sede, deu, como pretexto, buscar água.

Quando retornou, encontrou Gui em pé, de costas para ela, mas de frente para a janela. A mesa estava limpa. Todo o material havia sido guardado. Suzana estranhou, além de ter se arrependido por não ter carregado o seu celular consigo. Ela tinha sacado tudo, estava encurralada:

– As pessoas ficaram sabendo da sua situação. Foi uma fofoca e tanto, embora não tenha sido nenhuma surpresa. – ele debochou.

– Ninguém tem nada a ver com a minha vida.

– Bom, a sua vida pessoal sim. Mas a profissional, não. Que vergonha. Você não precisava fazer isso. É uma Bersani. Pode ter o mundo a seus pés.

– Não devo satisfações. – ela bradou. – Se não temos mais trabalho, posso ir embora? Tenho outros compromissos.  – ela quase citou Igor, dizendo que ele a esperava. Suzana fez bem, pois Gui se referia a outro assunto. Ela imaginava que se tratava do relacionamento dos dois. Não era sobre isso:

– É cedo. Precisamos fazer um trato. Acho que não será tão dificultoso para você.

Ele foi até Suzana, que se manteve ereta, mesmo vacilando por dentro. Gui a contornou e fechou a porta. Suzana se assustou com o ruído:

– Não se preocupe. Nada do que quero você já não fez. – destilou. – O que você quer primeiro? A proposta ou meus meios de chantagem, quer dizer, meios de persuasão?

Suzana não respondeu, se manteve de costas, tentando lembrar o que fizera de errado para sofrer tal tipo de injusto. Isso parecia psicopatia. O Gui de agora não era o de antigamente. Este era frio, calculista, interesseiro, amedrontador.

Quantas facetas uma pessoa pode ter? E quantas se podem criar? Dessas, quais chegam a público? E por que razão existe esse mecanismo de visualização social? Não seria mais prático sermos honestos e verdadeiros?

Por Gui, piedosamente e sem respaldo, estava triste. As pessoas tomam caminhos e atalhos, pensando em se dar bem. No entanto, acabam estragando suas oportunidades e suas imagens. Certamente Suzana nunca se esqueceria da forma como estava sendo tratada naquele momento. Ainda havia mais surpresas:

– Eu escolho. Vamos às evidências. Chegou às minhas mãos provas de seu… crime. Não, é muito forte. Vamos dizer, então, deslize. É isso! Você não consegue se segurar, comete pequenos deslizes. – Gui claramente saboreava a situação. – Tenho alguns documentos que retratam o caso de assédio sexual cometido por você no outro estágio.

Num estalo, ela se virou assustada. Aquela história, tempos atrás, tinha sido camuflada. Suzana achava que tinha sido enterrada:

– Quem te deu isso? – ela queria culpados. – Nada aconteceu!

– Não é o que os papéis dizem. O caso foi documentado, é claro. Eles precisavam de um respaldo, se algo vazasse. Você é muito ingênua. Achou que tudo ia ficar em segredo.

Gui fez sinal para um envelope. Ela o abriu. Com a cabeça a mil e sem concentração, viu relatórios com depoimentos, descrições e resumos de como o caso foi procedido:

– Como… Como você pegou esse material? – Suzana não conseguia crer.

– Não interessa. A pessoa só me pediu que eu espalhasse a história. Parece que ela queria apenas a sua reputação destruída. A proposta é invenção minha.

Suzana percebeu o olhar esfumaçado e maldoso de Gui pelo reflexo na janela. Teve medo de se virar e encará-lo:

– O que você quer?

– Eu te dou todas essas provas, para que você as destrua, se concordar em ficar comigo.

Ela não podia acreditar. Acabara de sofrer assédio sexual. Aquilo era completamente demais:

– Eu acho que você não tem nada a perder, está solteira. Todo mundo sabe que você não está com ninguém.

Um pouco de alívio perpassou-a. Pelo menos, não era de conhecimento público seu relacionamento com Igor. De repente, se lembrou dele. Queria procurá-lo, pedir proteção e ajuda. Porém, se sentia envergonhada:

– Sua resposta tem de ser imediata. Nosso primeiro contato tem de ser agora, aqui, nessa sala, em cima da mesa.

Sabia que a atitude de Gui era errada, ele cometia uma extorsão sexual. Mais uma vez, pensou em Igor. Sem ele na jogada, não teria problemas em se relacionar com o chantagista, uma vez que sempre suspeitou que ele a desejava. Suzana só não queria conviver com a sensação de ter traído Igor. Ou melhor, não pretendia se prestar a transar com os dois ao mesmo tempo:

– Eu não confio em você. Você vai me usar. Nunca vai me dar essas provas. Vou ficar nas suas mãos o tempo todo. Minha resposta é não! Faça o que bem entender.

Suzana trombou nele ao sair. Agradeceu a Deus por Gui não ter impedido sua passagem.

Depois que entrou no carro, antes de dar partida, no escuro e úmido estacionamento, ela colocou as mãos no rosto e chorou. Até onde as pessoas são capazes de ir para se beneficiarem e torturarem as outras por um simples e doentio prazer?

AGITAÇÃO – Camila

Camila estava na reta final de mais um livro de Roberto DaMatta. A única meta das férias era ler o máximo de autores voltados para a Antropologia. Desse jeito, pretendia chegar com alguma vantagem ou bagagem em relação aos que estavam o tempo todo focados nesse campo de saber, ao contrário dela que acabara de migrar, oriunda das Ciências Políticas. Porém, ela não precisava ter se preocupado tanto. O que ela achava defeito era diferencial: os estudos políticos serviriam de apoio e enriquecimento. Além disso, ela se encaixaria perfeitamente às matérias e às dinâmicas do novo curso.

A última paciente de Léo interrompeu a leitura para marcar o retorno. Minutos depois, ele surgiu na sala de espera. Sentou-se olhando para sua secretária, ainda imersa na leitura:

– Camila, você está liberada. Pode ir embora.

Era um blefe e uma brincadeira. No entanto, ela não percebeu, muito menos a presença dele:

– É uma bomba! – ele gritou e riu

– O quê? – Nem a ameaça ela escutara.

– Estou zoando você – ele disse depois que se recompôs. – Ai, você está muito certinha. Só vai para a casa, lê, namora… Nada de novo acontece contigo. A vida é feita de dramas, de conflitos. Não é o que falam sobre os filmes e novelas?

– Acho que é. – Camila se sentou do lado dele. – Já tive tanta confusão, quero curtir muito a calmaria.

– Claro que quer, eu sei disso, ainda mais nos braços de um professor lindo e bem apaixonado. – ele sorriu, ela repetiu o gesto.

– Você gostou dele? De verdade?

– Claro. Se você quiser dividir comigo… – Léo fez uma cara de sacana.

– Já não basta a mudança na faculdade? Já não basta o fato de ele ser meu professor? Ainda quer colocar mais gente na minha relação? Você está me agourando? – Na verdade, poderia ser uma premonição. O relacionamento dos dois estava prestes a virar um triângulo.

– De jeito nenhum! Quero seu melhor. – ele a beijou. – Mas eu tenho que te dar um toque: pega mal vir trabalhar com a roupa repetida.

– Oh! – Camila ficou surpresa. – Você notou?

– Claro! Eu sou gay, esqueceu? Reparo em roupas. Você está com a mesma saia e o mesmo sapato, além do casaco.

– Você me pegou! Dormi na casa do André.

– De novo? – ele foi mais escandaloso do que o normal.

– O que você esperava? Nós estamos no calor do momento. Deixei a entender para minha família que estava estudando, que ia para casa das amigas discutir temas e nos divertir um pouco, mas na verdade, estava amando. É tão surreal isso! Nunca poderia me imaginar dizendo que tenho um namorado.

– Que delícia! Você vão fazer bobices na casa dos pais dele?

– Leonardo! Que safadeza! – ela bateu nos braços do patrão, enquanto ele ria. – Quem você pensa que sou? Tenho escrúpulos. E nós não vamos mais. Ele tem compromisso cedo na segunda. Foi convocado para ajudar numa banca de seleção. Ele não pode participar, pois está no estágio probatório, mas pediram que ele preparasse todo o trâmite. Acredita? São todos um bando de exploradores.

– Minha querida, e quem não é? Hoje em dia todo mundo quer alguma coisa de alguém.

Mais tarde, Camila aceitou a carona de Léo. No caminho, foi a vez dele de contar sobre seus relacionamentos. Para ela, estava ficando mais fácil compreender as histórias e aceitar o universo homossexual. Ele era regido por outras fórmulas, era um pouco mais despregado de convenções.

Em seu quarto, ela voltou a se questionar sobre os padrões e as convenções. Ainda tinha medo do retorno das aulas, pois André estava destinado a escancarar o relacionamento dos dois. Ela entendia e sabia que ninguém poderia se interpor ou criticá-los. No entanto, continuava receosa.

Ele estava doido para apresentá-la aos pais, que viviam no interior. O mesmo não se procedia com Camila. De jeito nenhum, queria levá-lo até sua casa. Imaginava o rebu na quando todos descobrissem que ela namorava o próprio professor.

Talvez fossem o temor e o receio que a impediam de se soltar. Afinal, quem poderia obrigá-la a agir ou a ser de uma forma? Cada um deve ser responsável por si próprio apenas.

O telefone celular tocou. Era André. Antes de atender, fechou a porta para que não fosse ouvida:

– Por que você não veio para minha casa? – a voz dele ardia de desejo.

– Não queria ser inconveniente, nem abusar tanto.

– Eu também pensava do mesmo jeito. Não quero explorar você – ele soou de forma melodiosa. – Só quero te amar.

Camila ficou sem palavras. Agora entendia a dificuldade em deixar transparecer o relacionamento na vida real. Seu caso com André tinha muitos tons oníricos, límpidos e principalmente imaculados:

– Eu não sei o que dizer pra sair de casa a essa hora. – Camila confidenciou.

– Foge. Tranca a porta e sai. Eu pego você em quinze minutos.

Ela fez uma pequena e rápida mala. Só quando teve muita certeza, escapuliu do quarto até a porta da cozinha. Ao contrário do que imaginava, seu pai dormia no sofá da sala. Ele constatou que ela fugia, mas não teve coragem de interpor ou constrangê-la.

Na esquina, André já a esperava. Da janela, o pai observava. Como ele queria descobrir com quem a filha estava.

Depois que se beijaram, Camila sentiu um arrepio tremendo. Era bom demais para ser verdade. Por isso, um temor repentino transpareceu, verbalizado sem freios:

– Não queria ver ou estar com mais ninguém. Pra mim, você é tudo.

André acariciou o pescoço da namorada e arrancou com o carro. Seria difícil deixar a sensação de intromissão que pairava na cabeça de Camila.

AGITAÇÃO – Eulálio

Tinha sido encurralado e estava com muita raiva. Maurício estava, a semana toda, insistindo para se encontrarem. Ele não tinha ânimo para beber com o amigo, mas na sexta, tentando relaxar, aceitou. Era tudo uma cilada. Ele foi direto para o cara a cara com Sheila:

– Você já pediu alguma coisa?

– Não. – a garota respondeu timidamente.

Ele se virou e chamou o garçom. Pediu dois refrigerantes e uma porção de petiscos:

– Não esperava por você. – ele comentou.

– Eu também não um reencontro. Você anda sumido de todos.

Eulálio a encarou. Por mais que estivesse fechada e reservada, ele percebia que Sheila ainda nutria alguma esperança por detrás daquela aparência. Ele refletiu no quanto transmitimos pelo nosso corpo, como era fácil capturar as mensagens encaminhadas de um jeito não oral. Apesar de pouco convívio, ele conhecia a ex-namorada. Teve um arrepio ao constatar que talvez ela também o entendesse de maneira subliminar:

– O que está acontecendo com você, Lio?  Você está diferente e mudado. Pra mim, parece que você está… sombrio.

Eulálio não quis confirmar. No entanto, era exatamente assim que se sentia. Durante o período de recesso da faculdade, dormiu mais do que de costume, fez exercícios e jogou bola com o pessoal do bairro, porém, não se desligou do propósito em buscar informações do passado. Queria desenterrar tudo o que a família Bersani tinha passado.

Tentou começar pela mãe. Ao contrário do filho, Teresa não tinha empenho algum por reestabelecer contato com o passado. Ela tinha seus motivos: não sabia tanto quanto o filho imaginava; cortou os laços com os Bersani’s assim que Gabriel, pai de Eulálio, falecera; e sentia ódio e raiva ao se lembrar de tudo o que passou.

Aproveitando um final de semana sem a mãe em casa, ele fez uma busca enorme em gavetas, caixas e papéis perdidos e empoeirados. Queria alguma pista, algo que pudesse colocá-lo na trilha. No íntimo, ele sonhava em descobrir algo surpreendente de Lina. Desse jeito, poderia chantageá-la. Esse era um sonho tremendamente instigante:

– Eu me sinto o mesmo, não mudei. Só estou mais recluso. – ele exprimiu.

– Não é verdade. Você está sem brilho.

Outra confirmação de Sheila fez com que ele ficasse um pouco mais abalado. O garçom apareceu nesse momento, quebrando o tênue fio de conversa. Eles comeram e beberam, nitidamente desconfortáveis:

– Eu pensei que… – Sheila recomeçou.

– Me desculpa.

– Por quê?

– Por fazê-la sofrer.

Não conseguiram falar mais nada. Ele comeu. Ela só bebeu. Por um bom tempo, os dois olharam o redor, notaram as pessoas, mostravam estar refletindo, embora só estivessem desligados, imersos num estado de niilismo:

– Acabou? Então, terminamos… De vez! – Sheila fez a colocação derradeira.

– Acho que sim. Por minha causa, por minha inabilidade.

Eulálio pagou a conta e ofereceu uma carona. Ela se recusou veemente. Antes de ir para o ponto, ela tocou nos braços dele. Eulálio ia colocar o capacete, já estava sentado na moto:

– Você nunca me deu uma chance de verdade. Eu nunca penetrei em você. Nunca saberei se eu fui incapaz ou se você é um cara muito resistente e duro. Eu sinto… – Sheila chorou. – Incapacidade, me sinto incapaz. E se eu nunca conseguir encontrar alguém que…?

Eulálio a puxou e a envolveu num abraço. Ele não soltou as lágrimas. Em momento algum, ele sentiu remorso ou compaixão:

– Não diga isso, Sheila. Você é boa do jeito que é. Não precisa melhorar nada. Você vai se encontrar, nós vamos nos encontrar.

Dirigindo no automático, Eulálio não se sentiu desligado de Sheila. Era como se uma parte dele permanecesse vinculado a ex. A culpa disso era a falta de honestidade. Nem no fim, ele pode dizer a verdade e se abrir.

Ele prensara que o não dito, o guardado, o oculto poderiam ser benéficos, pois protegeriam. De repente, constatou que poderiam ser determinantes para o infortúnio, o desassossego e o apego. Saber era libertador, conhecer fornecia armas, compreender impulsionava.

Ao chegar em casa, Teresa cochilava no sofá. Ele sentou-se no braço do móvel e acariciou os pés de sua mãe. Ela acordou com um pequeno pulo. Rapidamente sorriu:

– Você chegou cedo. – ela comentou.

– Não estava tão animado. Mãe, sei que você se recusa, que não gosta… Mas eu necessito saber. Isso vai me fazer entender melhor sobre minha família, sobre o meu pai. Se eu nunca enxergar o painel completo, – ele olhou pra frente, como se enxergasse um grande quadro. – não vou me libertar. É como se eu estivesse constantemente preso.

– Não acho que isso vai trazer algo de bom. Os Bersani’s são… tóxicos! Quase nada de bom veio daquilo lá.

– Você quis dinheiro. Eu sei disso.

– Não me interessa saber como você descobriu. Eu só busquei o que é meu por direito. Tenho umas ideias em mente. Quero contar com você e seus conhecimentos no futuro.

– Claro que pode. Também quero ter o seu apoio. Me ajuda a entender? A compreender?

– Filho, as coisas se perdem, tudo aconteceu há tanto tempo. É um passado remoto. Além do mais, todo mundo sabe do perigo que é enfrentar Lina Bersani. Você pode acabar se arrependendo ou se machucando.

– Eu já estou ferido. Sou um bastardo, não conheci meu pai. Sou considerado um renegado por todos. Apenas desejo ter um alívio.

Teresa suspirou. Ela se solidarizou com Eulálio. Percebeu que precisava deixá-lo embarcar nessa história. Independente de qualquer resultado, benéfico ou maléfico, o filho poderia se libertar:

– Tem duas pessoas que você pode procurar. – Rapidamente ele se pôs em alerta para memorizar as informações. – Uma é mais fácil de se achar, mas não vai soltar com tanta facilidade o que você busca. A outra vai ser mais difícil de localizar, mas pode ser que entregue tudo de bandeja.

– Quem são? – ele se sentia empolgado.

– Procure o padre Francisco, na Igreja de São Geraldo. Ele foi um grande confidente de sua avó. Deve estar aposentado. Quando você era criança, ele já era bem velho. Pelo que me lembro, ele era o pároco da Igreja de São José, onde foi recebida a homenagem a seu pai, por meio do Anjo Gabriel. – Eulálio fez que sim com a cabeça. – A outra pessoa… Eu gostava dela. Era terrível.

– De quem você está falando?

– Maria Marlene, sua tia-avó. Que pessoa agradável. Era sincera em demasia.

– Tia-avó? Irmã da Lina? – Eulálio nunca ouvira falar naquela pessoa.

– Não! Lina não tem família. É a irmã do seu avô. Maria Marlene e Lina se odiavam, é claro. Todo mundo percebia isso. Quando eu trabalhei para seus avós, ela já estava cortando os laços, não fazia questão de procurar o irmão. Ela é solteirona, sabe? Ninguém tem ideia de onde ela foi parar, pode ser que tenha morrido. Diziam, na época, que a maior briga que Lina teve com seu avô foi quando ela descobriu que ele contou tudo sobre o passado dela à Maria Marlene.

– Tia Maria Marlene… – Eulálio balbuciou. – Por que você nunca me falou dela?

– Ah, sei lá. Não faço questão de ficar lembrando os Bersani’s. Eu não sei onde você pode procurá-la. No aniversário de Camila de uns dez ou onze anos, eu levei você. Sem querer alguém se lembrou dela. Não me recordo se foi Constância ou Valéria, só sei que alguém comentou que ninguém da família sabia o paradeiro dela, nem endereço nem nada. A mulher havia evaporado.

Olhando para o escuro, Eulálio intuiu: Maria Marlene teria grandes respostas. Ele estava certo sobre isso, mas completamente errado na certeza em achá-la, porque era a tia-avó quem iria encontrar os quatro primos.